Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



Zona - Guillaume Apollinaire

 
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t. h. abrahao

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MensagemEnviada: 21/12/2009 - 21:28:00    Assunto: Zona - Guillaume Apollinaire Responder com citação

Zona
Guillaume Apollinaire



Te cansaste afinal desta vida anciã

Pastora ó torre Eiffel teu rebanho de pontos bale esta manhã

Já viveste demais na Antigüidade dos gregos e romanos

Aqui até os automóveis tem um ar de muitos anos
Só a religião permaneceu nova a religião
Permaneceu simples como os hangares do campo de aviação

Antigo na Europa ó Cristianismo só tu não és
O europeu mais moderno sois vós ó Pio Dez
E tu que as janelas espreitam a vergonha te escora
De entrar numa igreja e confessar-te agora
Lês prospectos catálogos cartazes cantando alto seus versos
Eis a poesia da manhã e para a prosa há os jornais
Os folhetins baratos cheio de aventuras policiais

Retratos de figurões e mil fatos diversos

A rua cujo nome esqueço e donde vim
Esta manhã nova e limpa de sol era um clarim
Operários patrões estenógrafas belas
De segunda a sexta passam quatro vezes por ela
Toda manhã por três vezes a sirene branda
Um sino raivoso ao meio-dia ladra
As inscrições das tabuletas e dos outros muros
As placas os avisos parecem araras em apuros
Amo a graça desta rua industrial, no cerne
De Paris entre a Aumout-Thièville e a Avenue de Ternes

Esta é a rua da infância e não passas de um pivete
Tua mãe só de azul e branco é que te veste
És carola e com teu colega mais antigo, ou seja,
René Dalize, amas acima de tudo as pompas da Igreja
São nove horas baixaram o gás azul sais do dormitório às furtadelas
Vocês rezam a noite interna na capela do colégio
Enquanto eterna e adorável profundeza ametista
Gira sem fim a flamejante glória de Cristo
É o belo lírio que cada um de nós carrega
É a tocha de cabelos ruivos que o vento não encerra
É o filho da dolorosa mãe pálido e rubente
É a árvore sempre densa de orações constantes
É a duplo esteio de honra e eternidade
É a estrela de seis pontas
É Deus que morre na sexta e domingo ressuscita
É Cristo que sobe onde aviador nenhum se aventura
Ele é o recordista do mundo em altura

Menina Cristo dos olhos
Vigésima pupila dos séculos disso ele entende
E mudado em pássaro este século como Jesus ascende
Os diabos em seus abismos levantam os olhos para vê-los
Dizem que ele imita Simão o Mago da Judéia
Gritam que se sabe decolar o que seja degolado
O belo volteador pelos anjos é volteado
Ícaro Enoque Elias Apolônio de Tiana
Flutuam em torno do primeiro aeroplano
Afastam-se às vezes para deixar passar aqueles que a Santa Eucaristia transporta
Esses padres que sobem eternamente elevando a hóstia
Finalmente o avião pousa sem fechar as asas
E então as andorinhas enchem os céus aos milhões
Num piscar de olhos vêm os corvos os mochos os falcões
Da África chegam os íbis os flamingos os marabus
O pássaro Roca celebrado em verso e prosa passa
Levantando nas garras o crânio de Adão a primeira cabeça
A águia mergulha do horizonte largando um fundo grito
E da América vem o pequeno colibri
Da China vieram os longos e macios piís
Que têm uma só asa e voam em pares
E eis então a pomba do espírito imaculado
Escortada pelo pássaro-lira e o pavão ocelado
A Fênix que se engendra no fogo que a debela
Entre cinzas ardentes num sopro tudo vela
Três sereias que fogem de estreitos perigosos
E ressurgem entoando seus cantos prazerosos
Com a máquina voadora se estreitam por sua vez
A águia e a fênix e o pihis chinês

Zanza agora em Paris sozinho entre a gente
A seu redor ônibus rodam em rebanho mugente
Os desgostos do amor quase deixam sem ar
Como se nunca mais lhe fosse dado amar
Vivesse noutros tempos teria ingressado num mosteiro
Fica sem jeito ao se pegar rezando qual cordeiro
Troça a si e soa a fogo do Inferno seu riso-estalido
Doura o fundo de sua vida esse faiscar de brasido
É um quadro pendurado num museu sombrio
Que às vezes você fica olhando horas a fio

Hoje anda por Paris as mulheres então vermelho-sangue
Era isso e eu queria esquecer que a beleza ia ficando exangue

Entre chamas ardentes Notre-Dame contemplou-me em Chartres
Sangue de vosso Sacré-Couer inundou-me em Montmartre
De ouvir o verbo bem-aventurado eu tornei-me céreo
O amor que me atormenta é um mal venéreo
A imagem que o invade o faz sobreviver insone e em agonia
Está sempre por perto a imagem fugidia

Você respira agora ares mediterrâneos
Sob o florir perene dos limoeiros litorâneos
Com os companheiros sai de barco a passeio
Dois da Turbie um de Menton de Nice o terceiro
Espreitamos os polvos do fundo com pavor
E entre as algas nadam peixes símbolos do Salvador
Tu estás no jardim de um albergue na região de Praga
Tu te sentes feliz há uma rosa sobre a mesa
E observas em vez de escrever teu conto em prosa
A cetônia a dormir no coração da rosa

Espantada te vês desenhada nas ágatas de Saint-Vit
Morrias de tristeza quando ali te viste
Pareces-te com Lázaro pela luz do aturdido
Os ponteiros do relógio do bairro judeu vão contra o sentido
E tu recuas também na vida devagar
Ao subir ao Hradchin e à noite ao escutar
Nas tavernas cantarem tchecas melodias

Eis que estás em Marselha em meio a melancias

Eis que estás em Coblence no hotel do Gigante

Eis que estás em Roma sentado sob uma nespeira do Japão

Eis que estás em Amsterdã com uma mocinha a quem achas bonita e que é feia
Ela deve casar-se com um estudante de Leyde
Lá se alugam quartos em latim Cubicula locanda
Eu me lembro passei três dias lá e outros tantos em Gouda

Tu estás em Paris junto ao juiz de instrução
Como a um criminoso te põem em estado de prisão

Tu fizeste viagens de dores e prazeres
Antes de a mentira e a idade perceberes
Tu sofreste do amor aos vinte e aos trinta anos
Eu vivi como um louco e perdi um tempo insano
Não ousas mais olhar tuas mãos e a cada instante eu quisera soluçar
Sobre ti sobre aquela que amo sobre tudo que pôde te espantar

Olhas com olhos cheios de lágrimas esses emigrantes rotos
Eles crêem em Deus rezam as mulheres aleitam garotos
Inundam com seu cheiro a estação St Lazare
Seguem como os Reis Magos sua estrela a um lugar
Como a Argentina onde farão fortuna e cada qual
Voltará rico a seu país natal
Uma família leva um edredom como por dentro vós levais
O coração mas o edredom e nossos sonhos não são reais
Há imigrantes que alugam qualquer espelunca
Na rua des Rosiers ou des Ecouffes e não partem nunca
Vejo-os na rua amiúde quando à tarde tomam ar
E como peças de xadrez se movem devagar
São judeus sobretudo cujas pálidas esposas
Que usam perucas ficam só no fundo de suas lojas

Estás frente ao balcão de um bar imundo e ao lado
Dos miseráveis bebes um café barato

À noite estás num belo restaurante

As mulheres daqui não sendo más têm não obstante
Seus problemas e até a mais feia faz sofrer o amante

Seu pai em Jersey de onde vem é um policial

Eu tenho dó das cicatrizes no seu ventre e mal

Havia visto suas duras mãos cheias de calo

Frente à coitada com seu riso atroz me calo

Estás sozinho vem chegando a aurora
Leitores fazem tinir latas rua afora

A noite feito a mais linda mulata
Ferdine a falsa ou Léa a afável já se afasta

O álcool que bebes é tua vida e arde igualmente
Bebes tua vida feito um aguardente
Caminhas rumo a Auteil vais para a casa a pé
dormir entre fetiches da Oceania e da Guiné
que são os Cristos de outras formas dos credos alheios
os Cristos inferiores de enigmáticos anseios

Adeus Adeus

Sol pescoço sem cabeça


(Tradução de Ivo Barroso, Marcos Siscar, Josely Vianna Baptista, Mário Laranjeira e Nelson Ascher)




Zone

À la fin tu es las de ce monde ancien

Bergère ô tour Eiffel le troupeau des ponts bêle ce matin

Tu en as assez de vivre dans l'antiquité grecque et romaine

Ici même les automobiles ont l'air d'être anciennes
La religion seule est restée toute neuve la religion
Est restée simple comme les hangars de Port-Aviation

Seul en Europe tu n'es pas antique ô Christianisme
L'Européen le plus moderne c'est vous Pape Pie X
Et toi que les fenêtres observent la honte te retient
D'entrer dans une église et de t'y confesser ce matin
Tu lis les prospectus les catalogues les affiches qui chantent tout haut
Voilà la poésie ce matin et pour la prose il y a les journaux
Il y a les livraisons à 25 centimes pleines d'aventures policières
Portraits des grands hommes et mille titres divers

J'ai vu ce matin une rue dont j'ai oublié le nom
Neuve et propre du soleil elle était le clairon
Les directeurs les ouvriers et les belles sténodactylographes
Du lundi matin au samedi soir quatre fois par jour y passent
Le matin par trois fois la sirène y gémit
Une cloche rageuse y aboie vers midi
Les inscriptions des enseignes et des murailles
Les plaques les avis à la façon des perroquets criaillent
J'aime la grâce de cette rue industrielle
Située à Paris entre la rue Aumont-Thiéville et l'avenue des Ternes

Voilà la jeune rue et tu n'es encore qu'un petit enfant
Ta mère ne t'habille que de bleu et de blanc
Tu es très pieux et avec le plus ancien de tes camarades René Dalize
Vous n'aimez rien tant que les pompes de l'Église
Il est neuf heures le gaz est baissé tout bleu vous sortez du dortoir en cachette
Vous priez toute la nuit dans la chapelle du collège
Tandis qu'éternelle et adorable profondeur améthyste
Tourne à jamais la flamboyante gloire du Christ
C'est le beau lys que tous nous cultivons
C'est la torche aux cheveux roux que n'éteint pas le vent
C'est le fils pâle et vermeil de la douloureuse mère
C'est l'arbre toujours touffu de toutes les prières
C'est la double potence de l'honneur et de l'éternité
C'est l'étoile à six branches
C'est Dieu qui meurt le vendredi et ressuscite le dimanche
C'est le Christ qui monte au ciel mieux que les aviateurs
Il détient le record du monde pour la hauteur

Pupille Christ de l'oeil
Vingtième pupille des siècles il sait y faire
Et changé en oiseau ce siècle comme Jésus monte dans l'air
Les diables dans les abîmes lèvent la tête pour le regarder
Ils disent qu'il imite Simon Mage en Judée
Ils crient s'il sait voler qu'on l'appelle voleur
Les anges voltigent autour du joli voltigeur
Icare Énoch Élie Apollonius de Thyane
Flottent autour du premier aéroplane
Ils s'écartent parfois pour laisser passer ceux qui portent la Sainte-Eucharistie
Ces prêtres qui montent éternellement en élevant l'hostie
L'avion se pose enfin sans refermer les ailes
Le ciel s'emplit alors de millions d'hirondelles
À tire d'aile viennent les corbeaux les faucons les hiboux
D'Afrique arrivent les ibis les flamands les marabouts
L'oiseau Roc célébré par les conteurs et les poètes
Plane tenant dans les serres le crâne d'Adam la première tête
L'aigle fond de l'horizon en poussant un grand cri
Et d'Amérique vient le petit colibri
De Chine sont venus les pihis longs et souples
Qui n'ont qu'une seule aile et volent par couples
Puis voici la colombe esprit immaculé
Qu'escortent l'oiseau-lyre et le paon ocellé
Le phénix ce bûcher qui soi-même s'engendre
Un instant voile tout de son ardente cendre
Les sirènes laissant les périlleux détroits
Arrivent en chantant bellement toutes trois
Et tous aigle phénix et pihis de la Chine
Fraternisent avec la volante machine

Maintenant tu marches dans Paris tout seul parmi la foule
Des troupeaux d'autobus mugissants près de toi roulent
L'angoisse de l'amour te serre le gosier
Comme si tu ne devais jamais plus être aimé
Si tu vivais dans l'ancien temps tu entrerais dans un monastère
Vous avez honte quand vous vous surprenez à dire une prière
Tu te moques de toi et comme le feu de l'Enfer ton rire pétille
Les étincelles de ton rire dorent le fond de ta vie
C'est un tableau pendu dans un sombre musée
Et quelquefois tu vas le regarder de près

Aujourd'hui tu marches dans Paris les femmes sont ensanglantées
C'était et je voudrais ne pas m'en souvenir c'était au déclin de la beauté

Entourée de flammes ferventes Notre-Dame m'a regardé à Chartres
Le sang de votre Sacré-Coeur m'a inondé à Montmartre
Je suis malade d'ouïr les paroles bienheureuses
L'amour dont je souffre est une maladie honteuse
Et l'image qui te possède te fait survivre dans l'insomnie et dans l'angoisse
C'est toujours près de toi cette image qui passe

Maintenant tu es au bord de la Méditerranée
Sous les citronniers qui sont en fleur toute l'année
Avec tes amis tu te promènes en barque
L'un est Nissard il y a un Mentonasque et deux Turbiasques
Nous regardons avec effroi les poulpes des profondeurs
Et parmi les algues nagent les poissons images du Sauveur

Tu es dans le jardin d'une auberge aux environs de Prague
Tu te sens tout heureux une rose est sur la table
Et tu observes au lieu d'écrire ton conte en prose
La cétoine qui dort dans le coeur de la rose
Épouvanté tu te vois dessiné dans les agates de Saint-Vit
Tu étais triste à mourir le jour où tu t'y vis
Tu ressembles au Lazare affolé par le jour
Les aiguilles de l'horloge du quartier juif vont à rebours
Et tu recules aussi dans ta vie lentement
En montant au Hradchin et le soir en écoutant
Dans les tavernes chanter des chansons tchèques

Te voici à Marseille au milieu des pastèques

Te voici à Coblence à l'hôtel du Géant

Te voici à Rome assis sous un néflier du Japon

Te voici à Amsterdam avec une jeune fille que tu trouves belle et qui est laide
Elle doit se marier avec un étudiant de Leyde
On y loue des chambres en latin Cubicula locanda
Je me souviens j'y ai passé trois jours et autant à Gouda

Tu es à Paris chez le juge d'instruction
Comme un criminel on te met en état d'arrestation

Tu as fait de douloureux et de joyeux voyages
Avant de t'apercevoir du mensonge et de l'âge
Tu as souffert de l'amour à vingt et à trente ans
J'ai vécu comme un fou et j'ai perdu mon temps

Tu n'oses plus regarder tes mains et à tous moments je voudrais sangloter
Sur toi sur celle que j'aime sur tout ce qui t'a épouvanté

Tu regardes les yeux pleins de larmes ces pauvres émigrants
Ils croient en Dieu ils prient les femmes allaitent les enfants
Ils emplissent de leur odeur le hall de la gare Saint-Lazare
Ils ont foi dans leur étoile comme les rois-mages
Ils espèrent gagner de l'argent dans l'Argentine
Et revenir dans leur pays après avoir fait fortune
Une famille transporte un édredon rouge comme vous transportez votre coeur
Cet édredon et nos rêves sont aussi irréels
Quelques-uns de ces émigrants restent ici et se logent
Rue des Rosiers ou rue des Écouffes dans des bouges
Je les ai vu souvent le soir ils prennent l'air dans la rue
Et se déplacent rarement comme les pièces aux échecs
Il y a surtout des juifs leurs femmes portent perruque
Elles restent assises exsangues au fond des boutiques

Tu es debout devant le zinc d'un bar crapuleux
Tu prends un café à deux sous parmi les malheureux

Tu es la nuit dans un grand restaurant

Ces femmes ne sont pas méchantes elles ont des soucis cependant
Toutes même la plus laide a fait souffrir son amant

Elle est la fille d'un sergent de ville de Jersey

Ses mains que je n'avais pas vues sont dures et gercées

J'ai une pitié immense pour les coutures de son ventre

J'humilie maintenant à une pauvre fille au rire horrible ma bouche

Tu es seul le matin va venir
Les laitiers font tinter leurs bidons dans les rues

La nuit s'éloigne ainsi qu'une belle Métive
C'est Ferdine la fausse ou Léa l'attentive

Et tu bois cet alcool brûlant comme ta vie
Ta vie que tu bois comme une eau-de-vie

Tu marches vers Auteuil tu veux aller chez toi à pied
Dormir parmi tes fétiches d'Océanie et de Guinée
Ils sont des Christ d'une autre forme et d'une autre croyance
Ce sont les Christ inférieurs des obscures espérances

Adieu Adieu

Soleil cou coupé


Editado pela última vez por t. h. abrahao em 21/12/2009 - 21:31:52; num total de 1 vez
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