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Neopirronismo

 
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Jefferson dos Santos




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MensagemEnviada: 08/04/2014 - 09:06:13    Assunto: Neopirronismo Responder com citação

Esta é uma tradução do resumo das Reflexões Pirrônicas sobre conhecimento e justificação de Robert Fogelin. Espero que seja proveitoso de alguma forma...
Reflexões Pirrônicas sobre Conhecimento e Justificação (RP) é uma investigação sobre o trabalho contemporâneo em teoria do conhecimento, escrito do que eu chamo ponto de vista neopirrônico. Este trabalho é pirrônico porque ecoa de muitas formas as Hipotiposes Pirrônicas de Sexto Empírico. Eu chamo este ponto de vista de neopirrônico porque tenho tentado atualizar os métodos de Sexto Empírico para torná-los mais aplicáveis aos debates contemporâneos. A questão fundamental das RP é esta: Como os praticantes contemporâneos da epistemologia se sairiam se um pirrônico fosse incluído como parte da discussão? A conclusão que cheguei: De forma alguma é boa.
A conveniência de chamar estas reflexões de pirrônicas depende da correção de uma leitura particular das Hipotiposes Pirrônicas. Pirrônicos são frequentemente retratados como apelando para suspensão de todas as crenças de qualquer natureza. Hume atribuiu tal visão a eles, assim como fazem eruditos contemporâneos, tais como Jonathan Barnes e Miles Burnyeat. Esta leitura é frequentemente apresentada como um prelúdio para recusar o pirronismo sobre o fundamento que, se levado seriamente, faria a vida impraticável — esta linha é levada explicitamente por Hume e Burnyeat. Uma leitura alternativa é que o pirronismo não apela para a suspensão das crenças em todas as áreas, mas ataca somente filosofias dogmáticas e outras atividades teóricas análogas à filosofia dogmática — onde uma tentativa for feita para transcender nosso modo costumeiro de fixar crenças a fim de encontrar algo superior. Eles simplesmente pegam os dogmáticos nas suas próprias palavras e mostram que, por seus próprios critérios, seus projetos fracassados.
O apelo para suspensão da crença tem a filosofia dogmática como seu alvo primário, atividades teóricas análogas à filosofia dogmática como seu alvo secundário, mas não estava preocupado com as crenças comuns alcançadas de modo costumeiro. Esta leitura tem, parece-me, sido apoiada de modo decisivo no meio acadêmico por Michael Frede. Esta é a leitura que tenho em mente quando chamo minha própria posição de neopirrônica.
Pirronismo tradicional também tem uma dimensão prática — de fato, esta dimensão prática parece ter sido sua motivação primária: a suspensão da crença sobre tópicos filosóficos deveria trazer felicidade ou paz da mente (ataraxia) em (sequencia) seu séquito. Meu neopirronismo não inclui esta dimensão prática embora eu não seja antipático com ela. (Relembrando a observação de Wittgenstein nas “Investigações Filosóficas” que “A verdadeira descoberta é a que me torna capaz de parar de fazer filosofia quando eu quero — O que dá a filosofia paz” ). Desnecessário dizer que estes pontos históricos não tem relação com as correções das análises que eu apresentei nas RP. Eu posso estar certo em minha leitura de Sexto, mas, juntamente com ele, estar errado em minhas afirmações. Eu posso estar errado em minha leitura de Sexto, mas, assim como no caso Gettier, estar certo no que eu me comprometo a afirmar.
RP divide-se em duas partes: Parte 1 é intitulada “Gettier e o Problema do Conhecimento”. Ela diz respeito ao problema de Gettier, mas não tenta oferecer uma solução — ao menos não no sentido no qual os filósofos tem tipicamente sussurrado uma resposta. Sua tarefa é descrever como nós usamos termos de avaliação epistêmica atualmente. A luz desta descrição é feito um esforço para mostrar a estrutura fundamental dos problemas de Gettier em todas as suas variações. Uma vez que esta estrutura subjacente é revelada, torna-se possível esclarecer porque as respostas aos problemas de Gettier tomaram as formas que elas têm. Finalmente, dado um entendimento peculiar dos problemas de Gettier, é possível apresentar porque, sobre seus próprios critérios, todas as tentativas para resolver os problemas de Gettier falharam.
As análises da afirmação do conhecimento — ou melhor, a descrição de o que a pessoa está avaliando quando eles afirmam que alguém sabe alguma coisa — toma a seguinte forma:

“S sabe que p” significa “S crê justificadamente em p sobre as razões que estabelecem a verdade de p”.

Igualmente, eu poderia ter colocado da seguinte forma:

“S sabe que p” é usado para avaliar que S crê justificadamente em p sobre as razões que estabelecem a verdade de p.

Aqui não posso entrar em todos os diferentes aspectos do conhecimento — perguntando se, por exemplo, conhecimento sempre implica crenças — mas é importante ver que esta formulação contêm dois componentes avaliativos: o primeiro refere-se à responsabilidade epistêmica de S. Esta é uma cláusula que aparece comumente nas análises de avaliação de conhecimento, onde é mantido que a pessoa pode crer justificadamente em algo mesmo quando o que esta pessoa acredita é falso. A segunda cláusula é completamente diferente. Ele avalia a força dos fundamentos que a pessoa usa, perguntando se eles são suficientes para estabelecer a verdade do que a pessoa crê. Na atribuição de conhecimento a outros, nós mesmos estamos envolvidos num ato de avaliação epistêmica.
A segunda ideia chave introduzida no capitulo 1 é a de níveis de escrutínio. Na verdade afirmo que nossos procedimentos de justificação habitual têm mecanismos internos que elevam o nível de escrutínio, quando nossos procedimentos rotineiros são suscetíveis de levar-nos a formar crenças falsas ou infundadas. Isto se torna complicado no detalhe, mas para citar um simples exemplo, nós podemos identificar, usualmente, um simples guarda de museu apenas por olhar, mas numa exibição feita pelo escultor realista Duane Hansen, nós fazemos bem em dar uma boa olhada antes de nos comprometermos.
A análise do conhecimento, tomada em conjunto com a noção de modificação dos níveis de escrutínio, fornecem uma explicação da estrutura subjacente de todas as variações do problema de Gettier. Em cada versão alguém, S, justificaria crenças em alguma coisa no sentido de que ele não é irresponsável em manter esta crença. A crença, como se vê, também é verdade. Mesmo assim, esta pessoa não pode dizer claramente saber que é verdade. Minha sugestão é que em cada versão do problema de Gettier nós — que estamos tentando se S sabe ou não — estamos a par de informações que S, não por culpa própria, não está a par. Isso nos leva a aumentar o nível de escrutínio e, em virtude disto, declara que os fundamentos de S não são adequados para estabelecer a verdade da crença que ele baseia sobre ela. Para citar um famoso exemplo que conhecemos, assim como S, a partir de sua perspectiva não pode ser digno, ao menos razoavelmente, de saber que o tratador pintou um grande número de mulas para parecerem zebras e colocou-as junto com as zebras em respectivo compartilhamento. S aponta num animal que passa e, por acaso, é uma zebra, e fala para seu filho que aquilo é uma zebra. Nós, como espectadores deste pequeno drama epistêmico, reconhecemos que o que S disse é verdade — talvez nós tivéssemos examinado o animal com um binóculo potente. Nós, além disso, reconhecemos que S tem agido de uma forma epistemicamente responsável. Mas, dada nossa informação adicional, não reconhecemos que seu fundamento está adequado para estabelecer a verdade da afirmação sobre se o objeto apontado é uma zebra ou não. Minha afirmação, então, é que os problemas de Gettier surgem quando a cláusula da responsabilidade epistêmica e o fundamento adequado não coincidem. Caracteristicamente, isto acontece quando nós estamos a par de informações que provocam um alto nível de escrutínio que S, dado sua informação, seria razoável esperar atingir.
Se os problemas de Gettier surgem porque, dentro da pressão de diferentes níveis de escrutínio, o critério de responsabilidade epistêmica e o critério de fundamento adequado se partem, nós podemos entender, então, a força motora por trás da tentativa padrão de “dissolver” os problemas de Gettier: ainda que não, de forma explícita, olhemos assim, a tarefa é encontrar alguma forma de manter estes dois critérios alinhados. Por exemplo, a assim chamada análise da quarta cláusula pode ser entendida como uma tentativa de situar S em uma situação que protege o de problemas gerados por níveis de escrutínio muito altos. A dificuldade, como o fluxo quase interminável de contraexemplos e revisões tem mostrado, é que a proteção constante apresenta ser porosa. Outra dificuldade está em não reconhecer que os aspectos do fundamento-avaliação das afirmações epistêmicas, estas tentativas de oferecer uma análise de afirmações epistêmicas ao longo de linhas reducionistas comete algo muito parecido com a falácia naturalista . É claro, não é justo dizer que todas as tentativas de dissolver o problema de Gettier têm falhado, tem que se apresentar no detalhe. Num esforço para fazer isto, o capítulo 2 examina as chamadas análise da quarta cláusula; o capítulo 3 examina análises externalistas; e o capítulo 4 examina teorias que empregam cláusulas subjuntivas — algumas incluem passeios dentro da semântica dos mundos-possíveis. Entender porque todas estas tentativas falham cria a probabilidade que o problema de Gettier poderia ainda admitir uma solução do tipo que os epistemologistas têm procurado parece altamente improvável.
O capítulo 5 resume as coisas e providencia a transição para a parte II. Mais — embora talvez não o bastante — é dito sobre os níveis de escrutínio. Normalmente, níveis de escrutínio altos são provocados por problemas específicos que aparecem no processo de empregar um procedimento justificatório. Aprender como usar um procedimento justificatório envolve aprender quando ser cuidadoso e quando não desperdiçar nosso tempo sendo tão cuidadoso. A nova ideia do capítulo 5 é que níveis de escrutínio altos podem, algumas vezes, ser provocados por reflexões isoladas. Isto pode acontecer quando a pessoa filosofa — e quanto mais seriamente eles filosofam, mais o nível de escrutínio tende a aumentar até chegar, assim como em Descartes, num nível de escrutínio essencialmente irrestrito. Eu mantenho, de fato, que “a teoria do conhecimento, em sua forma tradicional, têm sido uma tentativa de encontrar formas de estabelecer pretensões ao conhecimento de uma perspectiva onde o nível de escrutínio tem sido elevado por reflexões isoladas” (99).
Parte II das RP é chamada “Agripa e o problema da justificação”. Honestamente, é mais pirrônico que a primeira parte da RP. Inicia por notar que muitos epistemólogos do século XX frequentemente levantam o problema da justificação empírica sob três exigências que (i) sua posição não pode envolver um regresso ao infinito vicioso; (ii) sua teoria não pode envolver circularidade numa forma de petição de princípio; (iii) sua teoria não pode repousar sobre qualquer suposições arbitrárias. Regresso ao infinito, circularidade, e suposição arbitrária são, de fato, três dos cinco modos que levam a suspensão do juízo atribuídos à Agripa por Sexto Empírico nas “Hipotiposes Pirrônicas”. Assim, muitos epistemólogos do século XX sugerem ter o problema de Agripa (como eu o chamo) na cabeça, ainda que — como normalmente é caso — eles não deem indicação de ter ouvido sobre Agripa e seus modos.
É importante entender a situação dialética. Agripa, ele mesmo, não impõe estas exigências para os outros. Ele entende, no entanto, que seus oponentes dogmáticos os aceitam. Então, ele simplesmente os mantém como seus padrões (critérios). A situação é a mesma com nossos epistemólogos contemporâneos. A tarefa de dissolver o problema de Agripa não é algo imposto a eles por outras pessoas — é um desafio que eles aceitam implicitamente. A questão é se, no fim das contas, eles refutam.
Falando francamente, existem três estratégias disponíveis para lidar com o problema de Agripa: (i) Encontrar alguma forma de apelar para proposições básicas ou crenças básicas que não estão sujeitas à acusação que envolve uma suposição arbitrária. Isto é a forma do fundacionismo. (ii) Encontrar alguma forma circularidade abrangente que evite a acusação de ser uma petição de princípio. Isto é a forma antifundacionista ou coerentista. (iii) A mistura dos dois primeiros em várias proporções. (buscar uma forma aceitável de regresso ao infinito não tem representado uma forma atrativa, exceto, talvez, por Paul Grice, mas eu não discuto esta opção em RP).
Do capítulo 7 até o capítulo 9 examino, em ordem, fundacionismo de Chisholm, o coerentismo interno de BonJour e o coerentismo externalista de Davidson. Eu escolhi estas três posições porque eles parecem-me como sendo representantes doas melhores relatos que o justificacionismo empírico oferece. A conclusão negativa que eu obtenho é que nenhuma destas teorias faz um progresso razoável em encontrar o objetivo que cada posição em relação a si mesmo.
Como um neopirrônico, as críticas que eu apresento são sempre internas à posição particular sobre verificação. Em lugar algum eu argumentei que, em princípio, uma teoria da justificação empírica é impossível. Mas mesmo se eu não ofereço um argumento geral intencional para apresentar que uma teoria da justificação empírica não é impossível, eu aponto que certos erros são, de fato, características persistentes de teorias nesta área. Aqui eu mencionarei somente quatro. A primeira é esta: embora uma teoria da justificação empírica seja suposição para sustentar adequadamente uma vasta gama de nossos julgamentos empíricos, filósofos engajados neste projeto raramente nos dão uma indicação explícita do julgamento empírico que eles propõem sustentar. Esta é uma omissão séria, pois se a gama de crenças é muito pequena, então, a teoria, longe de ser uma resposta para o ceticismo, pode chegar perto de ser um equivalente funcional do mesmo. Segundo, estas teorias raramente vão além de fazer alegações de possibilidade. A suposição de fundo é que conhecimento dentro de níveis irrestritos de escrutínio é possível, então, se alguém possui a única teoria possível, então a teoria deve estar correta. Isto, é claro, é claramente petição de princípio com respeito ao ceticismo. Terceiro, estas teorias se beneficiam mais de seu aparente vigor dialético, isto é, através da indicação da fraqueza das outras teorias. Novamente, se isto é usado como evidência que uma teoria própria está correta, então é uma petição de princípio. Se não, então é meramente serve aos propósitos céticos. A quarta é um argumento exemplar que ocorre repetidamente nos escritos contemporâneos sobre justificação empírica. Ela toma a seguinte forma: “Eu, admitidamente como fundacionista (ou não fundacionista) não posso lidar com uma objeção particular, mas, então, nem pode o não fundacionista (ou fundacionista) lidar com ela”. Os parênteses indicam que o jogo pode ser jogado em ambas as direções. O que é mais notável sobre este estratagema é que aqueles que usam parecem não reconhecer que ele representa uma rendição completa a posição cética que eles estão tentando refutar.
Pondo de lado estas reflexões gerais, do capítulo 7 ao 9 apresento examinações detalhadas de três tentativas exemplares para fornecer uma justificação para uma gama ampla de julgamentos empíricos adequadamente. Meu julgamento final é que eles falham em fazê-lo. Se perguntar se “eu” penso que eu estou justificado nos julgamentos empíricos que eu faço, então, como um pirrônico, eu não tenho receio em dizer que eu estou justificado em um grande número de minhas crenças, algumas delas a respeito de coisas muito importantes — por exemplo, a localização da saída de incêndio. Mas se ainda me perguntar se estou justificado também dentro das condições de níveis altamente irrestritos de escrutínio, então eu reconhecerei que, dentro destas condições, eu estou justificado em muito pouco de minhas crenças. É claro, como um pirrônico, eu não estou comprometido em tornar este nível de escrutínio mais privilegiado, nem tampouco, como um pirrônico, posso pensar em alguma boa razão para fazer isso.
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