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DIÁLOGOS ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA - Alberto Lins Caldas

 
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Fabrício de Lima




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MensagemEnviada: 26/04/2010 - 16:50:24    Assunto: DIÁLOGOS ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA - Alberto Lins Caldas Responder com citação

DIÁLOGOS ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA

um colóquio





alberto lins caldas

Departamento de História – UFRO

Centro de Hermenêutica do Presente

www. albertolinscaldas.unir.br

albertolinscaldas@yahoo.com.br



1. HISTÓRIA:



a – a História é o discurso burguês por excelência, básico discurso do capital, disciplinamento do tempo como ex-pressão viva do disciplinamento ritualizado das produções.

b – resultante e produtor dos poderes hierárquicos, funcionalizadores dos ritmos corporais: um tipo de corpo cria a História (o corpo-servo-das-cortes, o corpo-servo-dos-mercadores, o corpo-servo-dos-letrados) e a História cria um tipo de corpo (o corpo-trabalhador, o corpo-consumista, o corpo-despolitizado).

c – a função básica da História é criar uma cortina de fumaça, um ofuscamento, sobre a máquina tribal, escondendo q o tempo não é uma dimensão do passado, q nada está no passado, nada aconteceu, q as explorações, q o horror, não está no passado, essa ficção despolitizada, essa zona morta de todas as metafísicas, mas q o horror está, sempre, no imediato: q toda politicidade é uma dimensão imediata de luta, não um rememorar reacionário: nada mais reacionário, doente, adoecedor, ressentido q a memória.

d – a função-missão da História é despolitizar o imediato (único lócus da politicidade), esvaziá-lo de poder, tornando-o apenas o lugar dos fluxos de informação, o lugar das mídias, a resultante esvaziada de um longo chegar q não chega.

e – as imensas e extensas redes temporais q são o passado, estendidas todas antes do imediato, se abrem cada vez mais e mais “longe”, afastando a politicidade de sua ação, o corpo da sua atividade política: a História é essa estratégia de nunca chegar ao agora. no agora, ela gagueja, titubeia, balbucia, se remete à mídia, a opinião, ao senso comum.

f – pra História a única realidade são as cinzas e os historiadores, e todos os produtores e reprodutores das funções estatais do conhecimento, do saber, da beleza, não passam de cães de guarda da máquina tribal e seu bom funcionamento. fora desse protecionismo, nem a História nem nenhuma Ciência, consegue justificar sua existência, ideologia das produções, das despolitizações, dos disciplinamentos. há muito tempo não conseguimos viver fora da História: já somos dóceis demais pra ousar viver fora do tempo, viver contra o tempo.



2. LITERATURA:



a – temos a impressão, porq ouvimos sempre, q a Literatura sempre existiu. e tome Literatura egípcia, Literatura Persa, Literatura grega, Literatura Chinesa, Literatura medieval, Literatura asteca, Literatura sumeriana.

b – escrever histórias, lendas, fábulas, mitos, poemas não é escrever Literatura. Literatura é uma coisa muito mais perniciosa, lesiva, evasiva e hidrofóbica (teme o q flui, o q jorra, teme os devires): é uma mercadoria, q nasce sendo vendida, sendo feita pra vender, pra circular num mercado sendo transformada em dinheiro. sem dinheiro, sem o estímulo do dinheiro, sem mercado, sem compradores não há Literatura.

c – shakespeare não escrevia pro deleite de uns poucos escolhidos, mas pra produzir dividendos, recolher dinheiro de espectadores e, no fim da vida, uns trocados pela venda de suas peças em livro. cervantes não escrevia pra seu prazer íntimo, solitário e pra uns escolhidos, mas para um mercado ávido de leitores e ele, ansioso por respeitabilidade, por reconhecimento. quanta diferença dos provençais q escreviam pra uma musa intocável ou agora bem próxima, o marido tão distante. goethe não escrevia pra aprimorara sua compreensão do mundo, mas pra brilhar nas cortes e receber em troca poder, dinheiro e prestígio. balzac e dostoievski vendiam criteriosamente cada capitulo pros jornais e cada vez mais por mais dinheiro, e só escreviam por dinheiro. os livros de besteseleres e paulo coelho não são exceções na Literatura, mas a norma, o código, a forma, a razão, o desejo, o sentido, os procedimentos (sempre oligárquicos).

d – isso é Literatura: aquilo, ou aquela escrita q não enfrenta o horror, q se despolitiza no nascedouro porq precisa vender, precisa agradar, precisa alisar sem morder, ou morder delicadamente, respeitosamente, precisa cumprir sua função produtora, reprodutora, capacho. fora dessas funções a literatura escorrega sem sentido.

e – Língua domesticada, Língua doméstica, Língua domesticadora; Língua da-nação, Língua do estado, Língua de deus, Língua de padres, Língua de letrados, Língua de professores de português, Língua de sabatinadores; Língua dos filhos dos senhores de engenho, dos senhores do mercado, dos senhores das terras, dos senhores do comercio, Língua comerciante, Língua industrial, Língua latifundiária; Línguas das sinhazinhas casadoiras, Língua de advogados, Língua da lei, Língua dos leitores-estudantes-filhos-de-papai; Língua das igrejas, Língua das salas-de-jantar, Língua das salas-de-aula, Língua dos shopingcenteres, Língua das mídias, Língua respeitável; Língua dos corpos dóceis, imbecis, tolos e sabidos dos leitores: todo leitor é um idiota, e nada mais idiota q um leitor, q mente q busca, q está em busca, quando na verdade quer apenas dominar, se expandir, fazer bonito, expor sua sapiência de quintal e quarto da mamãe, um impotente tentando esconder sua fraqueza diante dos q “vivem a vida na dureza”.



3. O DIÁLOGO:



a – q diálogo pode haver entre dois grandes discursos, duas grandes “formações discursivas”, discursos do capital, das sociedades burguesas, discursos da domesticação, do mercado, do poder e do dinheiro? discursos q se camuflam em iluminadores, em salvadores, no bem, no certo, no bom, no melhor: discursos moralizantes, cristãos, estatais – essas são as pontes, os mediadores, o diálogo – o estado, o mercado, a igreja, a mídia, a escola, o exército, as leis. o diálogo entre a História e a Literatura são objetivos, concretos, reais, terra-a-terra. são exemplarmente funcionais.

b – vejamos a Literatura do país de vcs. é uma estrutura panóptica, imperial e republicana, q vai e vem de macedo á marçal realizando exemplarmente sua função estatal, nacionalizadora, mercantil. seja macedo vendendo seus livros em tabuleiros levados por escravos ou marçal vendendo seus livros nas melhores editoras sendo logo transformados em filmes, o conteúdo é sempre o mesmo: bairrismos, localismos, nacionalismos, regionalismos escondidos, se apresentando como grandes obras. basta ver o insosso machado de assis q nunca passou de um escritor-funcionário e exatamente por isso se tornou o eixo dessa Literatura de terceira categoria, Literatura q nem consegue extrapolar seu território, ou guimarães rosa travestindo o mais chulo regionalismo em jogos de palavras pra esconder exatamente seu inescapável regionalismo, q todos chamam universalismo precisamente porq assim se esconde sua pequenez ridícula.

c – vejamos a História. de varnhagen (o visconde de Porto Seguro) a gilberto freyre (q daria tudo pra ser visconde de qualquer coisa) a “História do Brasil”, assim como a Literatura brasileira, nascem como projeto imperial na década de trinta do século dezenove. projetos imperiais e republicanos, projetos q a obra de mentecaptos como josé de alencar sintetiza bem: ela cria e recria e põe forças na nação, nos limites da nação, nos costumes da nação, na Língua de oligarcas e de padres da nação. o brasil é uma criação estúpida não apenas de “forças produtivas”, de “modos de produção”, de colônias e repúblicas, de governos, de militares panacas e advogados sabichões, mas tudo isso é assado, cozido, frito no fogo brando e perverso dos saberes, da Literatura brasileira e da História.

e ainda se acredita em diálogo!
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