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Para a Genealogia da Moral (excerto) - Friedrich Nietzsche

 
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t. h. abrahao

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MensagemEnviada: 02/08/2006 - 21:09:32    Assunto: Para a Genealogia da Moral (excerto) - Friedrich Nietzsche Responder com citação

14.

Se é normal a condição doentia do homem - e não há como contestar essa normalidade -, tanto mais deveriam ser reverenciados os casos raros de pujança da alma e do corpo, os acasos felizes do homem, tanto mais deveriam ser os bem logrados protegidos do ar ruim, do ar de doentes. Isto é feito?.. Os doentes são o maior perigo para os sãos; não é dos mais fortes que vem o infortúnio dos fortes, e sim dos mais fracos. Isto é sabido?... Grosso modo, não é absolutamente o temor ao homem, aquilo cuja diminuição se poderia desejar: pois esse temor obriga os fortes a serem fortes, ocasionalmente temíveis - ele mantém em pé o tipo bem logrado de homem. O que é de temer, o que tem efeito mais fatal que qualquer fatalidade, não é o grande temor, mas o grande nojo ao homem; e também a grande compaixão pelo homem. Supondo que esses dois um dia se casassem, inevitavelmente algo de monstruoso viria ao mundo, a "última vontade" do homem, sua vontade do nada, o niilismo. E de fato: muita coisa aponta para isso. Quem para farejar possui não apenas o nariz, mas também os olhos e ouvidos, sente, em quase toda parte aonde vai atualmente, algo semelhante a um ar de hospício, a um ar de hospital - falo, naturalmente, das áreas de cultura do homem, de toda espécie de "Europa" sobre a terra. Os doentios são o grande perigo do homem: não os maus, não os "animais de rapina". Aqueles já de início desgraçados, vencidos, destroçados - são eles, são os mais fracos, os que mais corroem a vida entre os homens, os que mais perigosamente envenenam e questionam nossa confiança na vida, no homem, em nós. Onde se poderia escapar a ele, àquele olhar velado que nos deixa uma profunda tristeza, àquele olhar voltado para trás do homem deformado na origem, que revela como tal homem fala consigo mesmo - àquele olhar que é um suspiro! "Quisera ser alguma outra pessoa", assim suspira esse olhar: "mas não há esperança. Eu sou o que sou: 'como me livraria de mim mesmo? E no entanto - estou farto de mim/"". Neste solo de autodesprezo, verdadeiro terreno pantanoso, cresce toda erva ruim, toda planta venenosa, e tudo tão pequeno, tão escondido, tão insincero, tão adocicado. Aqui pululam os vermes da vingança e do rancor; aqui o ar fede a segredos e coisas inconfessáveis; aqui se tece continuamente a rede da mais malévola conspiração - a conspiração dos sofredores contra os bem logrados e vitoriosos, aqui a simples vista do vitorioso é odiada. E que mendacidade, para não admitir esse ódio como ódio! Que ostentação de grandes palavras e atitudes, que arte de calúnia "honrada"! Esses malogrados: que nobre eloqüência flui de seus lábios! Quanta resignação humilde, viscosa, açucarada, flutua em seus olhos! Que desejam realmente? Ao menos representar o amor, a justiça, a superioridade, a sabedoria - eis a ambição desses "ínfimos", desses enfermos! E como esta ambição torna hábil! Admire-se principalmente a habilidade de falsários com que aí se imita o cunho da virtude, e mesmo o tilintar, o tilintar de ouro da virtude. Eles agora monopolizaram inteiramente a virtude, esses fracos e doentes sem cura, quanto a isso não há dúvida: "nós somente somos os bons, os justos", dizem eles, "nós somente somos os homines bonae voluntatis [homens de boa vontade]". Eles rondam entre nós como censuras vivas, como advertências dirigidas a nós - como se saúde, boa constituição,19 força, orgulho, sentimento de força fossem em si coisas viciosas, as quais um dia se devesse pagar, e pagar amargamente: oh, como eles mesmos estão no fundo dispostos a fazer pagar, como anseiam ser carrasco~ Entre eles encontra-se em abundância os vingativos mascarados de juízes, que permanentemente levam na boca, como baba venenosa, a palavra justiça e andam sempre de lábios em bico, prontos a cuspir em todo aquele que não tenha olhar insatisfeito e siga seu caminho de ânimo tranqüilo, Entre eles não falta igualmente a mais nojenta espécie de vaidosos, os monstros de mendacidade que buscam aparecer como "almas belas" e exibem no mercado, como "pureza do coração", sua sensualidade estropiada, envolta em versos e outros cueiros: a espécie de onanistas morais e "auto gratifica dores". A vontade dos enfermos de representar uma forma qualquer de superioridade, seu instinto para vias esquivas que conduzam a uma tirania sobre os sãos - onde não seria encontra da, essa vontade de poder precisamente dos mais fracos! A mulher doente em especial: ninguém a supera em refinamento para dominar, oprimir, tiranizar. Nisso a mulher doente nada poupa, vivo ou morto, ela desenterra de novo as coisas mais profundamente enterradas (os bogos dizem: "a mulher é uma hiena"),20 Olhe-se o interior de cada família, de cada corporação, de cada comunidade: em toda parte a luta dos enfermos contra os sãos - uma luta quase sempre silenciosa, com pequenos venenos, com agulha das, com astuciosa mímica de mártir, por vezes também com esse farisaísmo de doente de gestos estrepitosos, que ama mais que tudo encenar a "nobre indignação". Até nos espaços consagrados da ciência gostaria de fazer-se ouvir esse rouco latido de indignação dos cães doentes, a mordaz fúria e falsidade de tais "nobres" fariseus (- aos leitores que têm ouvidos torno a lembrar aquele apóstolo da vingança berlinense, Eugen Dühring, que na Alemanha de hoje faz o uso mais indecente e repugnante dos "tambores" da moral: Dühring, o maior fanfarrão da moral que existe atualmente, mesmo entre seus iguais, os anti-semitas). Estes são todos homens do ressentimento, estes fisiologicamente desgraçados e carcomidos, todo um mundo fremente de subterrânea vingança, inesgotável, insaciável em irrupções contra os felizes, e também em mascaramentos de vingança, em pretex tos para vingança: quando alcançariam realmente o seu último, mais sutil, mais sublime triunfo da vingança? lndubitavelmente, quando lograssem introduzir na consciência dos felizes sua própria miséria, toda a miséria, de modo que estes um dia começassem a se envergonhar da sua felicidade, e dissessem talvez uns aos outros: "é uma vergonha ser feliz! existe muita miséria!"... Mas não poderia haver erro maior e mais fatal do que os felizes, os bem logrados, os poderosos de corpo e alma começarem a duvidar assim do seu direito à felicidade. Fora com esse "mundo ao avesso"! Fora com esse debilitamento do sentimento! Que os doentes não tornem os sadios doentes - isto seria o debilitamento - deveria ser o ponto de vista supremo na Terra - mas isto requer, acima de tudo, que os sadios permaneçam apartados dos doentes, guardados inclusive da vista dos doentes, para que não se confundam com os doentes. Ou seria por acaso sua tarefa serem enfermeiros e médicos?... Não poderia haver pior maneira de desconhecer e negar a sua tarefa - o superior não deve rebaixar-se a instrumento do inferior, o pathos da distância deve manter também as tarefas eternamente afastadas! Seu direito de ser o privilégio do sino de plena ressonância diante daquele falho, dissonante, é afinal mil vezes maior: eles somente são os fiadores do futuro, eles somente estão comprometidos com o futuro db homem. O que eles podem, o que eles devem, jamais poderiam poder e dever os enfermos: mas para que eles possam o que apenas eles devem, como poderiam ainda fazer-se de médicos, consoladores, "salvadores" dos enfermos?... Ar puro, portanto! Ar puro! E afastamento de todos os hospícios e hospitais da cultura! E portanto boa companhia, nossa companhia! Ou solidão, se tiver de ser! Mas afastamento dos maus odores da degradação interna e da oculta carcoma da doença!... Para que nós mesmos, meus amigos, ao menos por algum tempo ainda nos defendamos das duas mais terríveis pragas que podem estar reservadas para nós precisamente - o grande nojo do homem e a grande compaixão pelo homem!...
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Eustaquio Maia




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MensagemEnviada: 03/08/2006 - 17:01:52    Assunto: Re: Para a Genealogia da Moral (excerto) - Friedrich Nietzsc Responder com citação

[quote="__weird"]
14.

Citação:
Os doentios são o grande perigo do homem: não os maus, não os "animais de rapina". Aqueles já de início desgraçados, vencidos, destroçados - são eles, são os mais fracos, os que mais corroem a vida entre os homens, os que mais perigosamente envenenam e questionam nossa confiança na vida, no homem, em nós.


Qualquer semelhança certamente não seria mera coincidência com isto aqui. Laughing
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Eustáquio Maia
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