Protopoema
(Jos茅 Saramago)
Do novelo emaranhado da mem贸ria, da escurid茫o dos
n贸s cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfa莽a entre os
dedos.
脡 um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
e tem a macieza quente do lodo vivo.
脡 um rio.
Corre-me nas m茫os, agora molhadas.
Toda a 谩gua me passa entre as palmas abertas, e de
repente n茫o sei se as 谩guas nascem de mim, ou para
mim fluem.
Continuo a puxar, n茫o j谩 mem贸ria apenas, mas o
pr贸prio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou tamb茅m os
barcos e o c茅u que os cobre e os altos choupos que
vagarosamente deslizam sobre a pel铆cula luminosa
dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas
谩guas como os apelos imprecisos da mem贸ria.
Sinto a for莽a dos bra莽os e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e
firme pulsar do cora莽茫o.
Agora o c茅u est谩 mais perto e mudou de cor.
脡 todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo
acorda o canto das aves.
E quando num largo espa莽o o barco se det茅m, o meu
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o
esplendor maior que acende a superf铆cie das 谩guas.
A铆 se fundem numa s贸 verdade as lembran莽as confusas
da mem贸ria e o vulto subitamente anunciado do
futuro.
Uma ave sem nome desce donde n茫o sei e vai pousar
calada sobre a proa rigorosa do barco.
Im贸vel, espero que toda a 谩gua se banhe de azul e que
as aves digam nos ramos por que s茫o altos os
choupos e rumorosas as suas folhas.
Ent茫o, corpo de barco e de rio na dimens茫o do homem,
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas
verticais circundam.
A铆, tr锚s palmos enterrarei a minha vara at茅 脿 pedra
viva.
Haver谩 o grande sil锚ncio primordial quando as m茫os se
juntarem 脿s m茫os.
Depois saberei tudo.
(in PROVAVELMENTE ALEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3陋 Edi莽茫o)
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