t. h. abrahao
Fundador PN

Idade: 41 Registrado: 22/01/05 Mensagens: 574 Localiza莽茫o: s茫o jos茅 do rio preto - sp
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Ah, Perante
Fernando Pessoa
(Heter么nimo: 脕lvaro de Campos)
Ah, perante esta 煤nica realidade, que 茅 o mist茅rio,
Perante esta 煤nica realidade terr铆vel 鈥 a de haver uma realidade,
Perante este horr铆vel ser que 茅 haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a exist锚ncia de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
鈥 Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constr贸i ou desfaz atrav茅s deles,
Se empequena!
N茫o, n茫o se empequena... se transforma em outra coisa 鈥
Numa s贸 coisa tremenda e negra e imposs铆vel,
Urna coisa que est谩 para al茅m dos deuses, de Deus, do Destino
鈥擜quilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste atrav茅s de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo n茫o se abrangeu explicar por que 茅 um tudo,
Por que h谩 qualquer coisa, por que h谩 qualquer coisa, por que h谩 qualquer coisa!
Minha intelig锚ncia tornou-se um cora莽茫o cheio de pavor,
E 茅 com minhas id茅ias que tremo, com a minha consci锚ncia de mim,
Com a subst芒ncia essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreens铆vel,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta ang煤stia, deste perigo do ultra-ser,
N茫o se pode fugir, n茫o se pode fugir, n茫o se pode fugir!
C谩rcere do Ser, n茫o h谩 liberta莽茫o de ti?
C谩rcere de pensar, n茫o h谩 liberta莽茫o de ti?
Ah, n茫o, nenhuma 鈥 nem morte, nem vida, nem Deus!
N贸s, irm茫os g锚meos do Destino em ambos existirmos,
N贸s, irm茫os g锚meos dos Deuses todos, de toda a esp茅cie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mist茅rio de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que n茫o afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que 茅 que eu n茫o ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
S茫o mist茅rios menores que a Morte? Como se tudo 茅 o mesmo mist茅rio?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele n茫o sabe que existe!
Tenho eu a inconsci锚ncia profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consci锚ncia que tenha, tudo 茅 inconsci锚ncia,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda 茅 inconsci锚ncia,
Porque 茅 preciso existir para se criar tudo,
E existir 茅 ser inconsciente, porque existir 茅 ser poss铆vel haver ser,
E ser poss铆vel haver ser 茅 maior que todos os Deuses. |
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