t. h. abrahao
Fundador PN

Idade: 41 Registrado: 22/01/05 Mensagens: 574 Localiza莽茫o: s茫o jos茅 do rio preto - sp
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:smt076
Lisbon revisited (1926)
por 脕lvaro de Campos (Fernando Pessoa)
Nada me prende a nada.
Quero cinq眉enta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma ang煤stia de fome de carne
O que n茫o sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necess谩rias.
Correram cortinas de todas as hip贸teses que eu poderia ver da rua.
N茫o h谩 na travessa achada o n煤mero da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
At茅 os meus ex茅rcitos sonhados sofreram derrota.
At茅 os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
At茅 a vida s贸 desejada me farta - at茅 essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansa莽o;
E um t茅dio que 茅 at茅 do t茅dio arroja-me 脿 praia.
N茫o sei que destino ou futuro compete 脿 minha ang煤stia sem leme;
N茫o sei que ilhas do sul imposs铆vel aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me dar茫o ao menos um verso.
N茫o, n茫o sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu esp铆rito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos 煤ltimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado 茅 uma n茅voa natural de l谩grimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas long铆nquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, 煤ltimos restos
Da ilus茫o final,
Os meus ex茅rcitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha inf芒ncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma s茅rie de contas-entes ligados por um fio-mem贸ria,
Uma s茅rie de sonhos de mim de algu茅m de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o cora莽茫o mais long铆nquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte in煤til de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recorda莽玫es,
Ao ru铆do dos ratos e das t谩buas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa atrav茅s das sombras, e brilha
Um momento a uma luz f煤nebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na 谩gua que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim n茫o me revejo!
Partiu-se o espelho m谩gico em que me revia id锚ntico,
E em cada fragmento fat铆dico vejo s贸 um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!... |
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