Algo para ruminar...
Rostos da Decad锚ncia
Autor: Emile Michel Cioran
Tradutor: Jose Thomaz Brum
Fonte: Brevi谩rio de Decomposi莽茫o (pp. 115-126)
鈥N茫o consigo tirar de minhas p谩lpebras a fadiga dos povos completamente esquecidos鈥
Hugo von Hofmannsthal
Uma civiliza莽茫o come莽a a decair a partir do momento em que a Vida torna-se sua 煤nica obsess茫o. As 茅pocas de apogeu cultivam os valores por si mesmos: a vida 茅 apenas um meio de realiza-los: o indiv铆duo n茫o sabe que vive. Ele vive, escravo feliz das formas que engendra, preserva e idolatra. A afetividade o domina e o preenche. N茫o h谩 cria莽茫o alguma sem os recursos do 鈥渟entimento鈥, que s茫o limitados: no entanto, para aquele que s贸 experimenta sua riqueza, parecem inesgot谩veis: esta ilus茫o produz a hist贸ria. Na decad锚ncia, o embrutecimento afetivo s贸 permite duas modalidades de sentir e de compreender: a sensa莽茫o e a id茅ia. Ora, 茅 pela afetividade que nos entregamos ao mundo dos valores, que projetamos vitalidade nas categorias e nas normas. A atividade de uma civiliza莽茫o em seus momentos fecundos consiste em fazer sair as id茅ias de seu nada abstrato, em transformar os conceitos em mitos. A passagem do indiv铆duo an么nimo ao indiv铆duo consciente ainda n茫o se realizou: no entanto, 茅 inevit谩vel. Avaliem: na Gr茅cia, de Homero aos sofistas: em Roma, da antiga Rep煤blica austera 脿s 鈥渟abedorias鈥 do imp茅rio: no mundo moderno, das catedrais 脿s rendas do s茅culo XVIII.
Uma na莽茫o n茫o poderia criar indefinidamente. Est谩 chamada a dar express茫o e sentido a um conjunto de valores que esgotam-se com a alma que os engendrou. O cidad茫o desperta de uma hipnose produtiva, o reino da lucidez come莽a: as massas s贸 manejam categorias vazias. Os mitos tornam-se novamente conceitos: 茅 a decad锚ncia. E as conseq眉锚ncias se fazem sentir: o indiv铆duo quer viver, converte a vida em finalidade, eleva-se 脿 categoria de pequena exce莽茫o. O balan莽o dessas exce莽玫es, ao compor o d茅ficit de uma civiliza莽茫o, prefigura seu desaparecimento. Todo mundo alcan莽ou a delicadeza; mas n茫o 茅 radiante estupidez dos simpl贸rios que realiza a obra das grandes 茅pocas?
Montesquieu afirma que, no final do Imp茅rio, o ex茅rcito romano era composto apenas pela cavalaria . mas esquece de indicar-nos a raz茫o disso. Imaginemos o legion谩rio saturado de gl贸ria, de riqueza e de devassid茫o depois de haver percorrido in煤meros pa铆ses e perdido a sua f茅 e seu vigor ao contato de tantos templos e v铆cios, imaginemo-lo a p茅! Conquistou o mundo como infame: o perder谩 como cavaleiro. Em toda brandura revela-se uma incapacidade fisiol贸gica de aderir por mais tempo aos mitos da comunidade. O soldado emancipado e o cidad茫o l煤cido sucumbem sob o b谩rbaro. A descoberta da Vida aniquila a vida.
Quando todo um povo, em diferentes graus, est谩 谩 espreita de sensa莽玫es raras, quando, pelas sutilezas do gosto, complica seus reflexos, chegou a um n铆vel de superioridade fatal. A decad锚ncia n茫o 茅 outra coisa sen茫o o instinto tornado impuro pela a莽茫o da consci锚ncia. Assim n茫o se pode superestimar a import芒ncia da gastronomia na exist锚ncia de uma coletividade. O ato consciente de comer 茅 um fen么meno alexandrino; o b谩rbaro se alimenta. O ecletismo intelectual e religioso, o engenho sensual, o esteticismo e a obsess茫o h谩bil de boa mesa s茫o os sinais diferentes de uma mesma forma de esp铆rito. Quando Gabius Apicius peregrinava pelas costas da 脕frica para buscar lagostas, sem estabelecer-se em parte alguma porque n茫o as encontrava a seu gosto, era contempor芒neo das almas inquietas que adoravam uma multid茫o de deuses estrangeiros sem encontrar satisfa莽茫o nem repouso. Sensa莽玫es raras, deidades diversas, frutos paralelos de uma mesma secura, de uma mesma curiosidade sem for莽a interior. O cristianismo apareceu: um s贸 deus 鈥 e o jejum. E a era do trivial e do sublime come莽ou...
Um povo est谩 prestes a morrer quando j谩 n茫o tem for莽a para inventar outros deuses, outros mitos, outros absurdos; seus 铆dolos empalidecem e desaparecem; busca outros, em outra parte, e sente-se s贸 ante monstros desconhecidos. Tamb茅m isto 茅 a decad锚ncia. Mas se um desses monstros o vence, outro mundo se p玫e em movimento, rude, obscuro, intolerante at茅 que esgota seu deus e se liberta dele; pois o homem s贸 茅 livre 鈥 e est茅ril 鈥 nos intervalos em que os deuses morrem; escravo 鈥 criador 鈥 quando, tiranos, prosperam.
Meditar as sensa莽玫es 鈥 saber que se come 鈥 茅 uma tomada de consci锚ncia gra莽as 脿 qual um ato elementar ultrapassa seu objetivo imediato. Ao lado do nojo intelectual desenvolve-se outro, mais profundo e mais perigoso: proveniente das v铆sceras, desemboca na forma mais grave de niilismo da reple莽茫o. As considera莽玫es mais amargas n茫o poderiam comparar-se em seus efeitos, 脿 vis茫o que se segue a um festim opulento. Toda refei莽茫o que ultrapassa em dura莽茫o os escassos minutos e, em iguarias, o necess谩rio, desagrega nossas certezas. O abuso culin谩rio e a saciedade destru铆ram o Imp茅rio mais implacavelmente do que o fizeram as seitas orientais e as doutrinas gregas mal assimiladas. S贸 se experimenta um aut锚ntico arrepio de ceticismo em trono de uma mesa copiosa. O 鈥淩eino dos C茅us鈥 devia oferecer-se como uma tenta莽茫o depois de tantos excessos ou como uma surpresa deliciosamente perversa na monotonia da digest茫o. A fome busca na religi茫o uma via de salva莽茫o; a saciedade, um veneno. 鈥淪alvar-se鈥 por meio do v铆rus e, na indistin莽茫o das ora莽玫es e dos v铆cios, fugir do mundo e chafurda-se nele pelo mesmo ato... esta 茅 sem d煤vida a suma das amarguras do alexandrinismo.
H谩 uma plenitude de diminui莽茫o em toda civiliza莽茫o demasiado madura. Os instintos tornam-se flex铆veis; os prazeres se dilatam e n茫o correspondem mais 脿 sua fun莽茫o biol贸gica; o prazer torna-se um fim em si, seu prolongamento uma arte, a escamotea莽茫o do orgasmo uma t茅cnica, a sexualidade uma ci锚ncia. Procedimentos e inspira莽玫es livrescas para multiplicar as vias do desejo, a imagina莽茫o torturada para diversificar os preliminares do gozo, o esp铆rito mesmo misturado com um setor estranho 脿 sua natureza e sobre o qual n茫o deveria ter nenhum dom铆nio 鈥 tantos sintomas de empobrecimento do sangue e de intelectualiza莽茫o m贸rbida da carne. O amor concebido como ritual torna a intelig锚ncia soberana no imp茅rio da besteira. Ressentem-se disto os automatismos; entravados, perdem sua impaci锚ncia por provocar uma inconfess谩vel contor莽茫o; os nervos tornam-se o teatro de mal-estares e arrepios clarividentes e finalmente a sensa莽茫o prolonga-se al茅m de sua dura莽茫o bruta gra莽as 脿 habilidade de dois carrascos da vol煤pia estudada. Trata-se do indiv铆duo enganando a esp茅cie, do sangue demasiado t铆bio para aturdir ainda o esp铆rito, 茅 o sangue esfriado e enfraquecido pelas id茅ias, o sangue racional.
Do di谩logo nunca saiu nada monumental, explosivo, 鈥済rande鈥. Se a humanidade n茫o houvesse se comprazido em discutir suas pr贸prias for莽as, n茫o teria superado a vis茫o e os m茅todos de Homero. Mas a dial茅tica, estragando a espontaneidade dos reflexos e o frescor dos mitos, reduziu o her贸i a um modelo titubeante. Os Aquiles de hoje devem temer mais do que um calcanhar... A vulnerabilidade, outrora parcial e sem import芒ncia, tornou-se o privil茅gio maldito, a ess锚ncia de cada ser. A consci锚ncia penetrou em todas as partes e reside at茅 na medula; de tal modo que o homem j谩 n茫o vive na exist锚ncia, mas na teoria da exist锚ncia...
Quem, l煤cido, se compreenda, se explique, se justifique e domine seus atos, jamais far谩 um gesto memor谩vel. A psicologia 茅 o t煤mulo do her贸i. Os milhares de anos de religi茫o e racioc铆nio debilitaram os m煤sculos, a decis茫o e o impulso aventureiro. Como n茫o desprezar as empresas da gl贸ria? Todo ato que n茫o 茅 presidido pela maldi莽茫o luminosa do esp铆rito representa uma sobreviv锚ncia da estupidez ancestral. As ideologias s贸 foram inventadas para dar um brilho ao fundo de barb谩rie que se mant茅m atrav茅s dos s茅culos, para cobrir as inclina莽玫es assassinas comuns a todos os homens. Hoje mata-se em nome de algo; ningu茅m se atreve a faz锚-lo espontaneamente; de tal sorte que at茅 os carrascos devem invocar motivos e, estando o hero铆smo em desuso, quem se deixa tentar por ele, mais resolve um problema do que consome um sacrif铆cio. A abstra莽茫o insinuou-se na vida e na morte; os 鈥渃omplexos鈥 apoderaram-se de grandes e pequenos. Da Il铆ada 脿 psicopatologia: este 茅 todo o caminho do homem...
Nas civiliza莽玫es em retrocesso, o crep煤sculo 茅 o sinal de um nobre castigo. Que deliciosa ironia devem experimentar ao ver-se exclu铆dos do devir, ap贸s haver fixado durante s茅culos as normas do poder e os crit茅rios do gosto! Com cada uma delas, todo um mundo se extingue. Sensa莽玫es do 煤ltimo Grego, do 煤ltimo Romano! Como n茫o deixar-se cativar pelos grandes ocasos? O encanto ag么nico que rodeia uma civiliza莽茫o, depois que abordou todos os problemas e os falseou maravilhosamente, oferece mais atrativos do que a ignor芒ncia inviolada por onde come莽ou.
Cada civiliza莽茫o representa uma resposta 脿s interroga莽玫es que o universo suscita; mas o mist茅rio permanece intacto; outras civiliza莽玫es, com novas curiosidades e deuses, se aventurar茫o nele, igualmente em v茫o, pois cada uma delas 茅 apenas um sistema de equ铆vocos...
No apogeu, engendram-se os valores; no crep煤sculo, gastos e derrotados, s茫o abolidos. Fascina莽茫o da decad锚ncia, das 茅pocas em que as verdades j谩 n茫o t锚m vida... em que amontoam-se como esqueletos na alma pensativa e seca, no oss谩rio dos sonhos...
Como me 茅 caro este fil贸sofo de Alexandria chamado Olimpius que, ao escutar uma voz cantar a Aleluia no Serapeion, expatriou-se para sempre! Isto aconteceu por volta do final do s茅culo IV: a sombria loucura da Cruz j谩 lan莽ava suas sombras sobre o Esp铆rito. Mas ou menos na mesma 茅poca, um gram谩tico, Paladas, por acaso escrevia; 鈥N贸s, os gregos, j谩 n茫o somos sen茫o cinzas. Nossas esperan莽as est茫o t茫o enterradas como a dos mortos.鈥 E isto 茅 verdadeiro para todas as intelig锚ncias da 茅poca.
Em v茫o os Celso, Porf铆rio, Juliano o Ap贸stata obstinam-se em deter a invas茫o dessa sublimidade nebulosa que transborda das catacumbas: os ap贸stolos deixaram seus estigmas nas almas e multiplicaram seus estragos nas cidades. A era da grande Deformidade come莽a: uma histeria sem qualidade espalha-se pelo mundo. S茫o Paulo 鈥 o agente eleitoral mais consider谩vel de todos os tempos 鈥 fez suas excurs玫es, infectando com suas ep铆stolas, a claridade do crep煤sculo antigo. Um epil茅ptico triunfa sobre cinco s茅culos de filosofia! A raz茫o confiscada pelos Padres da igreja!
E se busco a data mais mortificante para o orgulho do esp铆rito, se percorro o invent谩rio das intoler芒ncias, n茫o encontro nada compar谩vel a este ano de 529,no qual, por ordem de Justiniano, a escola de Atenas foi fechada. Uma vez oficialmente suprimido o direito 脿 decad锚ncia, crer torna-se uma obriga莽茫o... Este 茅 o momento mais doloroso na hist贸ria da D煤vida.
Quando um povo j谩 n茫o tem nenhum preconceito no sangue, s贸 lhe resta como 煤ltimo recurso a vontade de desagregar-se. Imitando a m煤sica, essa disciplina da dissolu莽茫o, despede-se das paix玫es, da dissipa莽茫o l铆rica, do sentimentalismo, da cegueira. A partir de ent茫o, j谩 n茫o poder谩 adorar sem ironia: o sentimento das dist芒ncias ser谩 para sempre seu atributo.
O preconceito 茅 uma verdade org芒nica, falsa em si mesma, mas acumulada pelas gera莽玫es e transmitida: n茫o h谩 modo de livrar-se dela impunemente. O povo que renuncia a ela sem escr煤pulos renega-se sucessivamente at茅 que n茫o tenha mais nada a renegar. A dura莽茫o e a consist锚ncia de seus preconceitos. Os povos orientais devem sua perenidade 谩 sua fidelidade a eles mesmos: n茫o tendo evolu铆do quase nada, n茫o se tra铆ram; n茫o viveram, no sentido em que a vida 茅 concebida pelas civiliza莽玫es de ritmo precipitado, as 煤nicas de que se ocupa a hist贸ria; pois esta disciplina das auroras e das agonias arquejantes 茅 um romance que se pretende rigoroso e que extrai seus temas dos arquivos do sangue...
O alexandrinismo 茅 um per铆odo de s谩bias nega莽玫es, um estilo de inutilidade e de recusa, um passeio de erudi莽茫o e sarcasmo atrav茅s da confus茫o dos valores e das cren莽as. Uma civiliza莽茫o evolui da agricultura ao paradoxo. Entre estes dois extremos desenvolve-se o combate entre a barb谩rie e a neurose: disto resulta o equil铆brio inst谩vel das 茅pocas criadoras. Tal combate aproxima-se de seu fim; todos os horizontes se abrem sem que nenhum possa excitar uma curiosidade simultaneamente fatigada e desperta. Cabe ent茫o ao indiv铆duo desenganado florescer no vazio e ao vampiro intelectual saciar-se no sangue viciado das civiliza莽玫es.
Deve-se levar a Hist贸ria a s茅rio ou assisti-la como espectador? Ver nela um esfor莽o na dire莽茫o de uma meta ou o jogo de uma luz que se aviva e empalidece sem necessidade nem raz茫o? A resposta depende de nosso grau de ilus茫o sobre o homem, de nossa curiosidade em adivinhar amaneira como se resolver谩 essa mistura de valsa e de matadouro que comp玫e e estimula seu devir. H谩 um mal do s茅culo, que 茅 apenas a doen莽a de uma gera莽茫o; h谩 outro que resulta de toda a experi锚ncia hist贸rica e que se imp玫e como 煤nica conclus茫o para os tempos vindouros. Trata-se do 鈥渧ago na alma鈥, da melancolia do 鈥渇im do mundo鈥. Tudo muda de aspecto, at茅 o sol, tudo envelhece, at茅 a desgra莽a...
Incapazes da ret贸rica, somos os rom芒nticos da decep莽茫o clara. Hoje, Werther, Manfredo, Ren茅 conhecedores de sua doen莽a, a ostentariam sem pompa. Biologia, Fisiologia, Psicologia 鈥 nomes grotescos que, ao suprimir a ingenuidade de nosso desespero e introduzir a an谩lise em nossos cantos, nos fazem desprezar a declama莽茫o! Filtradas pelos tratados, nossas doutas amarguras explicam nossas vergonhas e classificam nossos frenesis. Quando a consci锚ncia chegar a inclinar-se sobre todos os nossos segredos, quando for evacuado de nossa desgra莽a o 煤ltimo vest铆gio de mist茅rio, guardaremos ainda um resto de febre e de exalta莽茫o para contemplar a ru铆na da exist锚ncia e da poesia?
Sentir o peso da hist贸ria, o fardo do devir e esse abatimento sob o qual se dobra a consci锚ncia quando considera o conjunto e a inanidade dos acontecimentos passados ou poss铆veis... A nostalgia, em v茫o, invoca um impulso ignorante das li莽玫es que se depreendem de tudo o que foi; h谩 um cansa莽o, para o qual o pr贸prio futuro 茅 um cemit茅rio, um cemit茅rio virtual como tudo o que espera chegar a ser. Os s茅culos tornaram-se onerosos e pesam sobre cada instante. Estamos mais apodrecidos que todas as 茅pocas, mais decompostos que todos os imp茅rios. Nosso esgotamento interpreta a hist贸ria, nossa prostra莽茫o nos faz escutar os estertores das na莽玫es. Como atores clor贸ticos, nos preparamos para interpretar os pap茅is de parte sup茅rflua no tempo castigado: o pano de busca do universo est谩 ro铆do pelas tra莽as e, atrav茅s de seus furos, s贸 se v锚em m谩scaras e fantasmas...
O erro dos que captam a decad锚ncia 茅 querer combat锚-la, enquanto seria preciso foment谩-la: ao desenvolver-se, esgota-se e permite o advento de outras formas. O verdadeiro precursor n茫o 茅 o que prop玫e um sistema quando ningu茅m o quer, mas o que precipita o Caos e 茅 seu agente e turifer谩rio. 脡 uma vulgaridade apregoar dogmas em plena 茅poca extenuada da qual todo sonho de futuro parece del铆rio ou impostura. Encaminhar-se para o fim da hist贸ria com uma flor na lapela; 煤nico traje apropriado no desenvolvimento do tempo. Que l谩stima que n茫o haja um Ju铆zo Final, que n茫o tenhamos ocasi茫o para um grande desafio! Os crentes: farsantes da eternidade; a f茅: necessidade de uma cena intemporal... Mas n贸s, descrentes, morremos com nossos cen谩rios e demasiado cansados para nos deixar enganar pelas pompas prometidas a nossos cad谩veres... Segundo Mestre Eckhart, a divindade precede Deus, e 茅 sua ess锚ncia, seu fundo insond谩vel. O que encontrar铆amos no mais 铆ntimo do homem que definisse sua subst芒ncia por oposi莽茫o 脿 ess锚ncia divina? A neurastenia; esta 茅 para o homem o que a divindade 茅 para Deus.
Vivemos em um clima de esgotamento: o ato de criar, de forjar, de fabricar 茅 menos significativo por si mesmo que pelo vazio, pela, pela queda que se segue a ele. Comprometido por nossos esfor莽os sempre e inevitavelmente, o fundo divino e inesgot谩vel situa-se fora do campo de nossos conceitos e de nossas sensa莽玫es. O homem nasceu com a voca莽茫o da fadiga: quando adotou a posi莽茫o vertical e diminuiu assim suas possibilidades de apoio, condenou-se a debilidades desconhecidas para o animal que foi. Levar sobre duas pernas tanta mat茅ria e todas as repugn芒ncias ligadas a ela! As gera莽玫es acumulam a fadiga e a transmitem; nossos pais nos legam um patrim么nio de anemia, reservas de des芒nimo, recursos de decomposi莽茫o e uma energia de morte que chega a ser mais poderosa que nossos instintos de vida. E 茅 assim que o costume de desaparecer, apoiado por nosso capital de lassid茫o, nos permitir谩 realizar, na carne difusa, a neurastenia 鈥 nossa ess锚ncia...
N茫o h谩 nenhuma necessidade de crer em uma verdade para sustent谩-la nem de amar uma 茅poca para justific谩-la, pois todo princ铆pio 茅 demonstr谩vel e todo acontecimento leg铆timo. O conjunto dos fen么menos 鈥 frutos do esp铆rito ou do tempo, indiferentemente 鈥 茅 suscet铆vel de ser aceito ou negado segundo nossa disposi莽茫o do momento: os argumentos, surgidos de nosso rigor ou do nosso capricho, equivalem-se em tudo. Nada 茅 indefens谩vel, desde a proposi莽茫o mais absurda ao crime mais monstruoso. A hist贸ria das id茅ias, como a dos fatos, desenrola-se em um clima insensato: quem poderia, de boa-f茅, encontrar um 谩rbitro que conciliasse os lit铆gios desses gorilas an锚micos ou sanguin谩rios? Este mundo 茅 o lugar onde se pode afirmar tudo com igual verossimilhan莽a: axiomas e del铆rios s茫o intercambi谩veis; 铆mpetos e desfalecimentos se confundem; eleva莽玫es e baixezas participam de um mesmo movimento. Indique-me um s贸 caso em defesa do qual n茫o se pudesse encontrar nada. Os advogados do inferno n茫o t锚m menos t铆tulos de verdade que os do c茅u, e eu defenderia a causa do s谩bio e a do louco com igual fervor ou um acontecimento, quando se atualizam, tomam uma forma e se degradam. Assim, da como莽茫o da turba dos seres derivou a Hist贸ria e, com ela, o 煤nico desejo puro que inspirou: que se acabe de uma maneira ou de outra.
Demasiado maduros para outras auroras, e tendo compreendido demasiados s茅culos para desejar outros novos, s贸 nos resta chafurdar na esc贸ria das civiliza莽玫es. A marcha do tempo s贸 seduz ainda os imberbes e os fan谩ticos...
Somos os grandes decr茅pitos, oprimidos pelos antigos sonhos, para sempre inaptos para a utopia, t茅cnicos de fadigas, coveiros do futuro, horrorizados pelos avatares do velho Ad茫o. A 谩rvore da vida n茫o conhecer谩 mais primaveras: 茅 madeira seca; com ela se far茫o ata煤des para nossos ossos, nossos sonhos e nossas dores. Nossa carne herdou o fedor das belas carca莽as disseminadas pelos mil锚nios. Sua gl贸ria nos fascinou e a esgotamos. No cemit茅rio do Esp铆rito repousam os princ铆pios e as f贸rmulas: o Belo est谩 definido e ali jaz enterrado. E tamb茅m o Verdadeiro, o Bem, o Saber e os Deuses. Ali apodrecem todos (a hist贸ria: 芒mbito onde se decomp玫em as mai煤sculas e, com elas, os que as imaginaram e veneraram).
Passeio. Sob esta cruz dorme seu 煤ltimo sono a Verdade, a seu lado, o Encanto; mais diante, o Rigor e sobre uma multid茫o de lajes que cobrem del铆rios e hip贸teses ergue-se o mausol茅u do Absoluto: nele jazem as falsas consola莽玫es e os cumes enganosos da alma. Mas mais alto ainda, coroando esse sil锚ncio. O Erro paira 鈥 e det茅m os passos do f煤nebre sofista.
Como a exist锚ncia do homem 茅 a aventura mais consider谩vel e mais estranha que a natureza j谩 conheceu, 茅 inevit谩vel que seja tamb茅m a mais curta; seu fim 茅 previs铆vel e desej谩vel: prolong谩-la indefinidamente seria indecente. Tendo percebido os riscos de sua exce莽茫o, o animal paradoxal vai jogar ainda durante s茅culos e mesmo mil锚nios sua 煤ltima cartada. Devemos lament谩-lo? Evidentemente jamais igualar谩 suas gl贸rias passadas, pois nada indica que suas possibilidades suscitem um dia um rival de Bach ou de Shakespeare. A decad锚ncia manifesta-se em primeiro lugar nas artes: a 鈥渃iviliza莽茫o鈥 sobrevive certo tempo 脿 sua decomposi莽茫o. Assim ocorrer谩 com o homem: continuar谩 suas proezas, mas seus recursos espirituais se esgotar茫o, da mesma forma que o vigor de sua inspira莽茫o. A sede de poder e de dom铆nio apossou-se demasiado de sua alma: quando for dono de tudo, j谩 n茫o ser谩 de seu fim. Como ainda n茫o possui todos os meios para destruir e destruir-se, n茫o perecer谩 de imediato: mas 茅 indubit谩vel que forjar谩 um instrumento de aniquila莽茫o total antes de descobrir uma panac茅ia, a qual, de resto, n茫o parece entrar nas possibilidades da natureza. Se aniquilar谩 enquanto criador: devemos concluir que todos os homens desaparecer茫o da terra? N茫o 茅 preciso ver as coisas cor-de-rosa. Uma boa, os sobreviventes, continuar茫o se arrastando, ra莽a de sub-homens, exploradores do apocalipse...
N茫o est谩 nas m茫os do homem evitar perder-se. Seu instinto de conquista e de an谩lise aumenta seu imp茅rio para em seguida destruir o que encontra; o que acrescenta 脿 vida volta-se contra ela. Escravo de suas cria莽玫es, 茅 鈥 enquanto criador 鈥, um agente do Mal. Isto 茅 t茫o certo aplicado a um remend茫o como a um s谩bio, e 鈥 em um plano absoluto 鈥 ao menor inseto e a Deus. A humanidade poderia ter permanecido na estagna莽茫o e prolongado sua dura莽茫o se fosse composta apenas por brutos e c茅ticos; mas, sequiosa de efic谩cia, promoveu essa multid茫o ofegante e positiva, condenada 脿 ru铆na por excesso de trabalho e curiosidade. 脕vida de seu pr贸prio p贸, preparou seu fim e o prepara todos os dias. Assim, mais pr贸xima de seu desenlace que de seu come莽o, s贸 reserva a seus filhos o ardor desiludido ante o apocalipse...
A imagina莽茫o concebe facilmente um porvir em que os homens gritar茫o em coro: 鈥Somos os 煤ltimos: cansados do futuro, e ainda mais de n贸s mesmos, extra铆mos o sumo da terra e despojamos os c茅us. Nem a mis茅ria nem o esp铆rito podem continuar alimentando nossos sonhos: este universo est谩 t茫o seco como nossos cora莽玫es. J谩 n茫o h谩 subst芒ncia em parte alguma: nossos ancestrais nos legaram sua alma em farrapos e sua medula carcomida. A aventura chega ao seu fim: a consci锚ncia expira; nossos cantos se desvaneceram; eis que brilha o sol dos moribundos!鈥
Se, por acaso ou por milagre, as palavras se volatilizassem, mergulhar铆amos em uma ang煤stia e em um embotamento intoler谩veis. Tal mutismo nos exporia ao mais cruel supl铆cio. 脡 o uso do conceito que nos torna donos de nossos temores. Dizemos: a Morte, e esta abstra莽茫o nos exime de experimentar sua infinitude e seu horror. Batizando as coisas e os acontecimentos eludimos o Inexplic谩vel: a atividade do esp铆rito 茅 uma trapa莽a salutar, um exerc铆cio de escamotea莽茫o; permite-nos circular por uma realidade suavizada, confort谩vel e inexata. Aprender a manejar os conceitos 鈥 desaprender a olhar as coisas... A reflex茫o nasceu em um dia de fuga; dela resultou a pompa verbal. Mas quando se volta a si mesmo e se est谩 s贸 鈥 sem a companhia das palavras 鈥, redescobre-se o universo inqualificado, o objeto puro, o acontecimento nu: de onde extrais a aud谩cia para enfrent谩-los? J谩 n茫o se especula sobre a morte, se 茅 a morte; em vez de adornar a vida e atribuir-lhes fins, arrancamos seus ornamentos e reduzimo-la a sua justa significa莽茫o: um eufemismo para o Mal. As grandes palavras: destino, infort煤nio, desgra莽a, despojam-se de seu brilho; e 茅 ent茫o que se percebe a criatura brigando com 贸rg茫os enfraquecidos, vencida por uma mat茅ria prostrada e at么nita. Retire do homem a mentira da Desgra莽a, d锚-lhe o poder de olhar por debaixo desse voc谩bulo: n茫o poder谩 suportar um s贸 instante sua desgra莽a. 脡 a abstra莽茫o, as sonoridades sem conte煤do, dilapidadas e empoladas, que o impediram de desaparecer, e n茫o as religi玫es e os instintos.
Quando Ad茫o foi expulso do Para铆so, em vez de insultar seu perseguidor, apressou-se em batizar as coisas: era a 煤nica maneira de acomodar-se com elas e de esquec锚-las; foram assentadas as bases do idealismo. E o que foi apenas um gesto, uma rea莽茫o de defesa no primeiro balbuciador, tornou-se teoria em Plat茫o, Kant e Hegel.
Para n茫o nos determos demais em nosso acidente, convertemos em entidade at茅 nosso nome; como morrer quando nos chamamos Pedro ou Paulo? Cada um de n贸s, mais atento 脿 apar锚ncia imut谩vel de seu nome que 脿 de seu ser, entrega-se a uma ilus茫o de imortalidade; uma vez desvanecida a articula莽茫o, ficar铆amos totalmente s贸s; o m铆stico que adota o sil锚ncio renunciou 脿 sua condi莽茫o de criatura. Imaginemo-lo, al茅m disso, sem f茅 鈥 m铆stico niilista 鈥 e temos o coroamento desastroso da aventura terrestre.
... 脡 muito natural pensar que o homem, cansado das palavras, ao cabo da repeti莽茫o fatidiosa do tempo, desbatizar谩 as coisas e queimar谩 seus nomes e o seu em um grande auto-de-f茅 onde sumir茫o suas esperan莽as. Todos n贸s corremos na dire莽茫o desse modelo final, na dire莽茫o do homem mudo e desnudo...
Experimento a idade da Vida, sua velhice, sua decrepitude. Desde 茅pocas incalcul谩veis, transcorre sobre a superf铆cie do globo gra莽as ao milagre dessa falsa imortalidade que 茅 a in茅rcia; demora-se ainda nos reumatismos do Tempo, nesse tempo mais velho do que ela, extenuado em seu del铆rio senil, no fastio repetitivo de seus instantes, de sua dura莽茫o caduca.
E sinto todo peso da esp茅cie e assunto toda a sua solid茫o. Oxal谩 desaparecesse! 鈥 mas sua agonia prolonga-se em uma eternidade de podrid茫o. Proporciono a cada instante a op莽茫o de destruir-me: n茫o envergonhar-se de respirar 茅 uma canalhice. Nem pacto com a vida, nem pacto com a morte: havendo desaprendido a ser, consinto em apagar-me. O devir, que crime enorme!
Exaurido por todos os pulm玫es, o ar j谩 n茫o se renova. Cada dia vomita sua manh茫 e em v茫o esfor莽o-me para imaginar o rosto de um s贸 desejo. Tudo me 茅 pesado: extenuado como uma besta de carga 脿 qual se tivesse atrelado a Mat茅ria, arrasto os planetas.
Que me ofere莽am outro universo, ou sucumbo.
S贸 amo a irrup莽茫o e a ru铆na das coisas, o fogo que as suscita e que as devora. A dura莽茫o do mundo me exaspera; seu nascimento e seu desvanecimento me encantam. Viver sob a fascina莽茫o do sol virginal e do sol decr茅pito; saltar as pulsa莽玫es do tempo para captar a original e a 煤ltima..., sonhar com a improvisa莽茫o dos astros e com sua decanta莽茫o; desdenhar a rotina de ser e precipitar-se nos dois abismos que a amea莽am; esgotar-se no in铆cio e no t茅rmino dos instantes...
... Assim se descobre dentro de si o Selvagem e o Decadente, coabita莽茫o predestinada e contradit贸ria: dois personagens que sofrem a mesma atra莽茫o da passagem, um do nada para o mundo, o outro do mundo para o nada: 茅 a necessidade de uma dupla convuls茫o, em escala metaf铆sica. Est谩 a铆 a necessidade traduzir-se na escala da hist贸ria, na obsess茫o de Ad茫o que o Para铆so expulsou, e daquele que a Terra expulsar谩: os dois extremos da impossibilidade do homem.
Pelo que h谩 de 鈥減rofundo鈥 em n贸s, estamos expostos a todos os males: n茫o h谩 salva莽茫o enquanto conservemos a conformidade com nosso ser. Algo deve desaparecer de nossa composi莽茫o e uma fonte nefasta deve secar; s贸 h谩 uma sa铆da: abolir a alma, suas aspira莽玫es e seus abismos; ela envenenou nossos sonhos; 茅 preciso extirp谩-la, como tamb茅m sua necessidade de 鈥減rofundidade鈥, sua fecundidade 鈥渋nterior鈥, e suas demais aberra莽玫es. O esp铆rito e a sensa莽茫o nos bastar茫o; de seu concurso nascer谩 uma disciplina da esterilidade que nos preservar谩 dos entusiasmos e das ang煤stias. Que nenhum 鈥渟entimento鈥 torne a preocupar-nos, e que a 鈥渁lma鈥 se transforme na velharia mais rid铆cula...
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Andr茅 D铆spore Cancian
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