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CRÍTICA DA MORAL COMO POLÍTICA EM NIETZSCHE

 
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MensagemEnviada: 25/01/2005 - 06:15:19    Assunto: CRÍTICA DA MORAL COMO POLÍTICA EM NIETZSCHE Responder com citação

CRÍTICA DA MORAL COMO POLÍTICA EM NIETZSCHE
por Oswaldo Giacóia Júnior (IFCH/UNICAMP)


"Também no futuro, no oeste e no leste, não faltarão motivos para se rejeitar Nietzsche. Nada mais fácil, pois ele, decerto, não cabe nas gavetas que o mundo burguês ou socialista mantém preparadas para filosofias políticas. Mas também a democracia, para silenciar inteiramente acerca da modernidade e de suas promessas de liberdade, tem seus perigos específicos. Nietzsche os vê, e vê apenas eles. Mas quem não quer apenas amaldiçoar Nietzsche, respeita-lo-á como adversário da democracia e da modernidade, adversário de quem se pode aprender. Era-lhe estranho, em todo caso, também nos anos oitenta, a separação entre mundo burguês e socialista e, como se manteve ao mesmo tempo distante dos dois, ele tem algo a dizer a ambos." (Ottmann, H. 1987, p. 294)


Já se consagrou como corrente de interpretação largamente difundida aquela que distingue na filosofia de Nietzsche uma intenção e significado fundamentalmente políticos. Nesse sentido caminha, por exemplo, a recepção do início do século (posteriormente conhecida como ‘culto a Nietzsche’ - em especial ao longo dos anos 20 e 30 -), que o considerava defensor de um ultra-libertário amoralismo esteticista, socialmente irresponsável, desprezando vínculos de solidariedade para com os direitos fundamentais da pessoa; também aquela que o interpreta como partidário de um maquiavelismo despótico, retrógrado, saudosista das aristocracias grega e renascentista, ou como precursor dos sistemas ideológicos totalitários e mesmo kriptofacista; mas não faltaram também exegeses em sentido inverso, que acentuavam a rebeldia emancipatória presente na filosofia política nietzscheana, seu curioso parentesco teórico com a esquerda hegeliana de M. Stirner ou até mesmo com o anarquismo. De toda maneira, é no espectro variado de interpretações dessa espécie que se cristalizou um entendimento político da filosofia nietzscheana. Assim é que, durante a trajetória montante do nacional-socialismo e no período de sua consolidação, A. Bäumler e A. Rosenberg, por exemplo, vêm em Nietzsche uma justificação filosófica de seu regime totalitário; e G. Lukács, nos anos cinqüenta, em especial em seu famoso livro A Destruição da razão, julga poder situar o essencial do pensamento de Nietzsche em sua visceral hostilidade para com o socialismo, apostrofando-o de fundador do irracionalismo característico do período imperialista do capitalismo ocidental

(...)

Para transmitir uma idéia aproximada do poder de provocação investido na filosofia nietzscheana, politicamente interpretada, vale a pena prosseguir citando ainda um pequeno trecho da carta de Wolfgang Harich a Willi Stoph, membro do comitê central do partido socialista: "Motivo atual dessa minha carta ao senhor é que hoje, em visita a uma livraria da Friedrichstrasse, deparei-me com a primeira publicação de uma obra de Nietzsche na República Democrática da Alemanha, desde 1945, - um acontecimento abalador, de arrepiar os nervos, capaz de me roubar o sono. O senhor pode reproduzir o golpe que isso foi para mim, se o senhor se representar como se vendo, em nosso meio, confrontado de repente, com a permissão, digamos, para uma liga tradicional da SS."

Com efeito, Nietzsche foi um radical adversário da modernidade, da democracia liberal, do socialismo e do anarquismo - ainda que sua posição quanto a este último seja nuançada e ambivalente. Tal oposição é dura, intransigente e incômoda; tão incômoda que interpretações recentes de sua obra preferem, em nome de uma espécie de soft-Nietzsche, obliterar, quando não simplesmente silenciar ou mesmo denegar a faceta ambiguamente maquiavelista de sua filosofia, inequivocamente anti-liberal, anti-democrática, anti-moderna. Tal dimensão, não convém renegá-la - até mesmo porque soft só tem sentido em relação a hard, de modo que, também por isso, há que se enfrentar o hard-Nietzsche -; é preciso, antes, tentar apreende-la em sua genuína significação. É, em minha opinião, essa autêntica significação que se bagateliza, quando só tomamos literalmente algumas provocações estridentes do filósofo, uma vez que, dessa maneira, ficam elas mal-entendidas, caindo-se assim precisamente nas armadilhas e sutilezas que o filósofo tinha sempre prepararadas para ‘ouvidos grosseiros, alheios’ às suas verdades; ele que era mestre em provocar o mal-entendido entre fanáticos partidários das "idéias modernas". E o principal mal-entendido consiste justamente nesse erro de interpretação, que identifica o essencial da filosofia de Nietzsche com sua crítica da modernidade política. É certo que essa crítica existe e que algumas de suas figuras são, efetivamente, problemáticas, decididamente anti-humanitárias; mas não é menos certo que ela é apenas uma faceta ou conseqüência da crítica da moral e da crítica da cultura empreendidas por Nietzsche, uma espécie de sub-produto de sua tentativa de "refutação genealógica" do Cristianismo e de transvaloração de todos os valores superiores da cultura ocidental. Com efeito, como se poderia dar sustentação a uma interpretação que transforma em filósofo-político, no sentido tradicional do termo, um pensador que, desde a juventude, tem reservada, para a política, sua mais malévola ironia: "Toda filosofia que acredita removido ou até mesmo solucionado, através de um acontecimento político, o problema da existência é uma filosofia de brinquedo e uma pseudo-filosofia. Com muita freqüência, desde que há mundo, foram fundados Estados; isso é uma velha peça. Como poderia uma invenção política bastar para fazer dos homens, de uma vez por todas, habitantes satisfeitos da Terra? Mas se alguém acredita de todo coração que isso é possível, que se apresente: pois merece verdadeiramente tornar-se professor de filosofia em uma universidade alemã, como Harms em Berlim, Jürgem Meyer em Bonn e Carrière em Munique."

Para Nietzsche, como para tantos outros, a filosofia, desde que não se contente em ser uma Afterphilosophie, tem que enfrentar o "problema da existência"; e esse nem sequer é roçado se permanecemos apenas, ou principalmente, no domínio das práticas sociais e das tecnologias políticas para sua regulação. Esse problema se enuncia, em sua instância fundamental, no universo dos valores e, por conseguinte, no domínio da moral, de onde se irradia e produz significativas reverberações em outras esferas da cultura superior, ou seja, nos planos da ciência, da arte, da política, etc. Por conseguinte também, a filosofia política de Nietzsche não apenas fica mal-entendida, como também se revela inconsistente e desvirtuada, se a tomarmos como auto-subsistente, desvinculada da relação essencial que mantém com a crítica da moral e da religião. Dessa filosofia política, uma de suas mais importantes expressões se encontra no derradeiro período da produção filosófica nietzscheana, que podemos situar a partir de 1884, e representa uma explicitação e uma decorrência das noções mais importantes de Assim falou Zaratustra. Para essa dimensão de sua filosofia, Nietzsche cunha a expressão grande política, a política dos bons europeus e dos espíritos livres. Já a própria adjetivação indica o caráter especificamente contra-dictório dessa filosofia, sua natureza essencialmente polêmica . Grande política, aquela de Nietzsche, se articula como crítica e recusa da pequena política, como denúncia da mediocridade no entendimento moderno da política, em especial, na versão bismarckiana do nacionalismo e do imperialismo alemão. É nesse sentido, orientado por um ideal transnacional de Europa unificada, como pátria dos espíritos livres - cuja geografia imaginária é inteiramente fantástica, a ponto de, partindo da França, incluir a Rússia e os países americanos e praticamente excluir a Inglaterra - que Nietzsche concebe sua grande política, de que ele próprio, quando do mergulho derradeiro no delírio megalômano, se auto-estiliza como personagem histórico mundial: "Derradeira consideração: Tanto melhor se pudéssemos prescindir da guerra. Eu saberia fazer um uso mais proveitoso dos doze bilhões que custa anualmente a paz armada da Europa; há ainda outros meios de honrar a fisiologia do que por meio de lazaretos ... Curto e bem [dito OGJ.], muito bem até: depois que o velho Deus foi suprimido, estou preparado para governar o mundo."

(...)

Essa auto-mediocrização da humanidade, Nietzsche não a justifica ou prega; antes julga poder constatá-la no avanço irreversível da moderna sociedade industrial. Ela já se encontra pré-figurada, como expressão política, na democracia liberal, com suas prerrogativas de direitos iguais e suas tendências subterrâneas tanto para a anarquia como para a tirania; sua verdadeira causa há que ser buscada na absolutização dos valores morais consagrados pelas "idéias modernas", sob o efeito da qual esses se tornam valores em si: "Digamos logo, mais uma vez, o que já dissemos uma centena de vezes: pois hoje os ouvidos para tais verdades - para nossas verdades -, não têm boa vontade. Sabemos, já o bastante, como soa ofensivo quando, em geral, alguém inclui o homem, sem cosméticos e sem alegoria, entre os animais; mas é quase como culpa que nos é imputado que, precisamente em referência aos homens das "idéias modernas", usamos constantemente as expressões ‘rebanho’, ‘instintos de rebanho’, e semelhantes. De que adianta! Não podemos fazer de outro modo: pois precisamente nisto consiste nossa nova visão. Descobrimos que em todos os juízos-mestres da moral a Europa se tornou unânime, inclusive os países onde domina a influência da Europa: sabe-se, pelo visto, na Europa, o que Sócrates pensava não saber, e o que aquela velha e célebre serpente prometeu certa vez ensinar - "sabe-se" hoje o que é bom e mau...Moral é hoje, na Europa, moral de animal-de-rebanho."

(...)

Nietzsche, por sua vez, acredita identificar nesse movimento [o socialismo] o supremo perigo trazido à tona pelas "idéias modernas": o perigo do niilismo entendido como indiferença, cansaço do homem consigo mesmo, como tédio por si e fastio de si, do conseqüente anseio pelo repouso nirvânico numa espécie inusitada de budismo moderno, o budismo europeu. Compreendido como experiência histórica de esvaziamento de sentido e perda de vigência por parte dos supremos valores de nossa cultura, a vivência coletiva da indiferença niilista acarreta a precipitação do homem moderno - já despojado de sua singularidade pessoal - seja no insuportável absurdo de uma existência sem sentido, seja na fúria selvagem do ‘budismo da ação’, isto no paroxismo de destruição (nadificação) gratuita de toda subsistência, inclusive institucional, processo que ele apreende e analisa menos a partir da consideração de movimentos sócio-políticos concretos do que a partir da freqüentação dos romances de Turgueniev e Dostoiévski, especialmente em Pais e Filhos e Os Demônios, por exemplo.
Contrapondo-se à hegemonia e à absolutização dos valores do "homem moderno", Nietzsche procura abrir um espaço de possiblidade para aqueles que "são de uma outra crença", para quem o liberalismo democrático não significa apenas uma "degradação da organização política, mas uma forma de degradação, ou seja de apequenamento do homem, sua mediocrização e rebaixamento de valor", Nietzsche diagnostica, também, nessa degradação do humano em rebanho uniforme uma "animalização do homem", a degeneração geral da humanidade. Como contra-ideal e figura antitética do "último homem", Nietzsche desenvolve seu conceito de "além-do-homem" (Übermensch), como contra-movimento visando fazer face à mediocrização em curso, que dramaticamente se faz consciência de si na figura histórica do niilismo europeu.

(...)

"Esta é minha desconfiança, que retorna sempre, minha inquietação, que jamais se assossega, minha pergunta, que ninguém ouve ou pode ouvir, minha esfinge, ao lado da qual existe não apenas um abismo: creio que hoje em dia nos enganamos a respeito das coisas que nós europeus mais amamos, e que um cruel duende (ou nem cruel, apenas indiferente, maroto) brinca com nosso coração e seu entusiasmo, como talvez já tenha brincado com tudo aquilo que outrora viveu e amou: - creio que tudo o que estamos acostumados a glorificar, hoje na Europa, como ‘humanidade’, ‘moralidade’, ‘humanitarismo’, ‘co-sentimento’, ‘justiça’, pode, com efeito, ter um valor de fachada como enfraquecimento e abrandamento de algumas poderosas e perigosas pulsões fundamentais, mas que, a longo prazo, nada mais é que apequenamento do tipo ‘homem’ em seu todo - sua definitiva mediocrização, se me for permitida uma palavra desesperada num desesperado assunto; creio que para um divino espectador epicurista a comédia humana deveria consistir em que os homens, graças à sua crescente moralidade, em toda inocência e vaidade, presumem sobrelevar-se do animal ao nível dos ‘deuses’ e das determinações ultra-mundanas, mas, em verdade, decaem; isto é, por meio do aperfeiçoamento de todas as virtudes graças às quais um rebanho prospera, e inibição daquelas outras e opostas, que dão origem a uma espécie nova, superior, mais forte, mais senhorial, desenvolvem justamente apenas o animal de rebanho no homem e talvez com isso fixem o animal ‘homem’ - pois até aqui o homem foi o ‘animal não fixado’ -; creio que o grande, irresistível movimento democrático da Europa, que segue avante - aquilo que se denomina ‘progresso’ -, do mesmo modo como já sua preparação e prefiguração, o Cristianismo -, significa apenas a gigantesca conjuração total do rebanho contra tudo aquilo que é pastor, animal de rapina, ermitão e César, em proveito da conservação e ascendência de todos os fracos, oprimidos, fracassados, medíocres, semi-malogrados, como uma prolongada, de início secreta, em seguida cada vez mais auto-consciente rebelião de escravos contra toda espécie de senhor, por último até contra o conceito ‘senhor’, como uma guerra de vida e morte contra toda moral brotada do seio e consciência de uma espécie-homem superior, mais forte, senhorial, como já dito -, de uma espécie que necessita da escravidão, sob alguma forma e nome, como de seu alicerce e condição; creio finalmente que até aqui toda elevação do tipo homem foi obra de uma sociedade aristocrática, que acreditava num longo escalonamento de hierarquia e diferença de valor entre homem e homem, e necessitava da escravidão: sim, que sem o pathos da distância, assim como este resulta da incorporada diferença dos estamentos, do permanente olhar à distância e para baixo dirigido pela casta dominante a súditos e utensílios, de seu exercício também permanente em comandar, sobrepujar e manter à distância, também aquele outro e mais misterioso pathos não pode absolutamente surgir, aquela exigência de sempre novo alargamento de distância no interior da própria alma, a configuração de estados sempre superiores, mais raros, mais remotos, mais tencionados, mais abrangentes, em suma, a ‘auto-superação do homem’, para tomar uma fórmula moral num sentido transmoral. Uma pergunta me retorna sempre, uma má e tentadora pergunta talvez: que ela seja dita ao pé do ouvido de quem tem um direito a tais perguntas problemáticas, as almas mais fortes de hoje, que melhor se têm a si mesmas sob domínio: não estaria no tempo, quanto mais o tipo ‘animal de rebanho’ é agora desenvolvido na Europa, de fazer a tentativa principal, artificial e consciente de criação do tipo oposto e de suas virtudes? E, para o próprio movimento democrático, não seria então uma espécie de meta, redenção e justificação, se viesse alguém que dele se servisse, pelo que se acrescentaria à sua nova e sublime configuração da escravidão - tal como um dia se apresentará o aprimoramento da democracia européia - aquela espécie mais elevada de espíritos senhoriais e cesáreos, que carece também, pois, dessa nova escravidão? Para novos, até aqui impossíveis, para seus horizontes, para suas tarefas?"


(Prof. Dr. Oswaldo Giacóia Jr. é especialista em Nietzsche, filósofo e professor da UNICAMP)

obs.: texto completo em http://www.rubedo.psc.br/artigosb/crimornt.htm
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