t. h. abrahao
Fundador PN

Idade: 41 Registrado: 22/01/05 Mensagens: 574 Localiza莽茫o: s茫o jos茅 do rio preto - sp
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O Guardador de Rebanhos
(escrito em 1911-1912)
por Fernando Pessoa
I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas 茅 como se os guardasse.
Minha alma 茅 como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela m茫o das Esta莽玫es
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um p么r do Sol
Para a nossa imagina莽茫o,
Quando esfria no fundo da plan铆cie
脡 se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza 茅 sossego
Porque 茅 natural e justa
E 茅 o que deve estar na alma
Quando j谩 pensa que existe
E as m茫os colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ru铆do de chocalhos
Para al茅m da curva da estrada,
Os meus pensamentos s茫o contentes.
S贸 tenho pena de saber que eles s茫o contentes,
Porque, se o n茫o soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar 脿 chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
N茫o tenho ambi莽玫es nem desejos
Ser poeta n茫o 茅 uma ambi莽茫o minha
脡 a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo 脿s vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
脡 s贸 porque sinto o que escrevo ao p么r do Sol,
Ou quando uma nuvem passa a m茫o por cima da luz
E corre um sil锚ncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que est谩 no meu pensamento,
Sinto um cajado nas m茫os
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem n茫o compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Sa煤do todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chap茅u largo
Quando me v锚em 脿 minha porta
Mal a dilig锚ncia levanta no cimo do outeiro.
Sa煤do-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva 茅 precisa,
E que as suas casas tenham
Ao p茅 duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural 鈥
Por exemplo, a 谩rvore antiga
脌 sombra da qual quando crian莽as
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
II
O meu olhar 茅 n铆tido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para tr谩s...
E o que vejo a cada momento
脡 aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma crian莽a se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas n茫o penso nele
Porque pensar 茅 n茫o compreender...
O Mundo n茫o se fez para pensarmos nele
(Pensar 茅 estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu n茫o tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza n茫o 茅 porque saiba o que ela 茅,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que 茅 amar...
Amar 茅 a eterna inoc锚ncia,
E a 煤nica inoc锚ncia 茅 n茫o pensar...
III
Ao entardecer, debru莽ado pela janela,
E sabendo de soslaio que h谩 campos em frente,
Leio at茅 me arderem os olhos
O livro de Ces谩rio Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um campon锚s
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
脡 o de quem olha para 谩rvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que h谩 pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E p么r plantas em jarros...
IV
Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do c茅u abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como algu茅m que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por ca铆rem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do c茅u
E enegreceu os caminhos...
Quando os rel芒mpagos sacudiam o ar
E abanavam o espa莽o
Como uma grande cabe莽a que diz que n茫o,
N茫o sei porqu锚 鈥 eu n茫o tinha medo 鈥
Pus-me a rezar a Santa B谩rbara
Como se eu fosse a velha tia de algu茅m...
Ah! 茅 que rezando a Santa B谩rbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me algu茅m que possa acreditar em Santa B谩rbara...
Ah, poder crer em Santa B谩rbara!
(Quem cr锚 que h谩 Santa B谩rbara,
Julgar谩 que ela 茅 gente e vis铆vel
Ou que julgar谩 dela?)
(Que artif铆cio! Que sabem
As flores, as 谩rvores, os rebanhos,
De Santa B谩rbara?... Um ramo de 谩rvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
脡 Deus, e que a trovoada
脡 uma quantidade de gente
Zangada por cima de n贸s...
Ali, como os mais simples dos homens
S茫o doentes e confusos e est煤pidos
Ao p茅 da clara simplicidade
E sa煤de em existir
Das 谩rvores e das plantas!)
E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada amea莽a
E nem sequer de noite chega...
V
H谩 metaf铆sica bastante em n茫o pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei l谩 o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das cousas?
Que opini茫o tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a cria莽茫o do Mundo?
N茫o sei. Para mim pensar nisso 茅 fechar os olhos
E n茫o pensar. 脡 correr as cortinas
Da minha janela (mas ela n茫o tem cortinas).
O mist茅rio das cousas? Sei l谩 o que 茅 mist茅rio!
O 煤nico mist茅rio 茅 haver quem pense no mist茅rio.
Quem est谩 ao sol e fecha os olhos,
Come莽a a n茫o saber o que 茅 o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e v锚 o sol,
E j谩 n茫o pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os fil贸sofos e de todos os poetas.
A luz do sol n茫o sabe o que faz
E por isso n茫o erra e 茅 comum e boa.
Metaf铆sica? Que metaf铆sica t锚m aquelas 谩rvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que n茫o nos faz pensar,
A n贸s, que n茫o sabemos dar por elas.
Mas que melhor metaf铆sica que a delas,
Que 茅 a de n茫o saber para que vivem
Nem saber que o n茫o sabem?
芦Constitui莽茫o 铆ntima das cousas禄...
芦Sentido 铆ntimo do Universo禄...
Tudo isto 茅 falso, tudo isto n茫o quer dizer nada.
脡 incr铆vel que se possa pensar em cousas dessas.
脡 como pensar em raz玫es e fins
Quando o come莽o da manh茫 est谩 raiando, e pelos lados das 谩rvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escurid茫o.
Pensar no sentido 铆ntimo das cousas
脡 acrescentado, como pensar na sa煤de
Ou levar um copo 脿 谩gua das fontes.
O 煤nico sentido 铆ntimo das cousas
脡 elas n茫o terem sentido 铆ntimo nenhum.
N茫o acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem d煤vida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto 茅 talvez rid铆culo aos ouvidos
De quem, por n茫o saber o que 茅 olhar para as cousas,
N茫o compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus 茅 as flores e as 谩rvores
E os montes e sol e o luar,
Ent茫o acredito nele,
Ent茫o acredito nele a toda a hora,
E a minha vida 茅 toda uma ora莽茫o e uma missa,
E uma comunh茫o com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus 茅 as 谩rvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e 谩rvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e 谩rvores e montes,
Se ele me aparece como sendo 谩rvores e montes
E luar e sol e flores,
脡 que ele quer que eu o conhe莽a
Como 谩rvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obede莽o-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si pr贸prio?),
Obede莽o-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e v锚,
E chamo-lhe luar e sol e flores e 谩rvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
VI
Pensar em Deus 茅 desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o n茫o conhec锚ssemos,
Por isso se nos n茫o mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as 谩rvores,
E Deus amar-nos-谩 fazendo de n贸s
Belos como as 谩rvores e os regatos,
E dar-nos-谩 verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
VII
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia 茅 t茫o grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E n茫o do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida 茅 mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista 脿 chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o c茅u,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa 煤nica riqueza 茅 ver.
VIII
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer 脿 terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do c茅u.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No c茅u era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e 谩rvores e pedras.
No c茅u tinha que estar sempre s茅rio
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda 脿 roda de espinhos
E os p茅s espetados por um prego com cabe莽a,
E at茅 com um trapo 脿 roda da cintura
Como os pretos nas ilustra莽玫es.
Nem sequer o deixavam ter pai e m茫e
Como as outras crian莽as.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado Jos茅, que era carpinteiro,
E que n茫o era pai dele;
E o outro pai era uma pomba est煤pida,
A 煤nica pomba feia do mundo
Porque n茫o era do mundo nem era pomba.
E a sua m茫e n茫o tinha amado antes de o ter.
N茫o era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do c茅u.
E queriam que ele, que s贸 nascera da m茫e,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justi莽a!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Esp铆rito Santo andava a voar,
Ele foi 脿 caixa dos milagres e roubou tr锚s.
Com o primeiro fez que ningu茅m soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que h谩 no c茅u
E serve de modelo 脿s outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
脡 uma crian莽a bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao bra莽o direito,
Chapinha nas po莽as de 谩gua,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos c茫es.
E, porque sabe que elas n茫o gostam
E que toda a gente acha gra莽a,
Corre atr谩s das raparigas
Que v茫o em ranchos pelas estradas
Com as bilhas 脿s cabe莽as
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que h谩 nas flores.
Mostra-me como as pedras s茫o engra莽adas
Quando a gente as tem na m茫o
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele 茅 um velho est煤pido e doente,
Sempre a escarrar no ch茫o
E a dizer indec锚ncias.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Esp铆rito Santo co莽a-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no c茅u 茅 est煤pido como a Igreja Cat贸lica.
Diz-me que Deus n茫o percebe nada
Das coisas que criou 鈥
芦Se 茅 que ele as criou, do que duvido禄 鈥
芦Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua gl贸ria
Mas os seres n茫o cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.禄
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus bra莽os
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele 茅 a Eterna Crian莽a, o deus que faltava.
Ele 茅 o humano que 茅 natural,
Ele 茅 o divino que sorri e que brinca.
E por isso 茅 que eu sei com toda a certeza
Que ele 茅 o Menino Jesus verdadeiro.
E a crian莽a t茫o humana que 茅 divina
脡 esta minha quotidiana vida de poeta,
E 茅 porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu m铆nimo olhar
Me enche de sensa莽茫o,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Crian莽a Nova que habita onde vivo
D谩-me uma m茫o a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os tr锚s pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que 茅 o de saber por toda a parte
Que n茫o h谩 mist茅rio no mundo
E que tudo vale a pena.
A Crian莽a Eterna acompanha-me sempre.
A direc莽茫o do meu olhar 茅 o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
S茫o as c贸cegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos t茫o bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo 铆ntimo
Como a m茫o direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como conv茅m a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deix谩-la cair no ch茫o.
Depois eu conto-lhe hist贸rias das cousas s贸 dos homens
E ele sorri, porque tudo 茅 incr铆vel.
Ri dos reis e dos que n茫o s茫o reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos com茅rcios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta 脿quela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno at茅 ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E 脿s vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
P玫e uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a crian莽a, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me hist贸rias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E d谩-me sonhos teus para eu brincar
At茅 que nas莽a qualquer dia
Que tu sabes qual 茅.
Esta 茅 a hist贸ria do meu Menino Jesus.
Por que raz茫o que se perceba
N茫o h谩-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os fil贸sofos pensam
E tudo quanto as religi玫es ensinam?
IX
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho 茅 os meus pensamentos
E os meus pensamentos s茫o todos sensa莽玫es.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as m茫os e os p茅s
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor 茅 v锚-la e cheir谩-la
E comer um fruto 茅 saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de goz谩-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
X
芦Ol谩, guardador de rebanhos,
A铆 脿 beira da estrada,
Que te diz o vento que passa ?禄
芦Que 茅, vento, e que passa,
E que j谩 passou antes,
E que passar谩 depois.
E a ti o que te diz ?禄
芦Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De mem贸rias e de saudades
E de cousas que nunca foram.禄
芦Nunca ouviste passar o vento.
O vento s贸 fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira est谩 em ti.禄
XI
Aquela senhora tem um piano
Que 茅 agrad谩vel mas n茫o 茅 o correr dos rios
Nem o murm煤rio que as 谩rvores fazem...
Para que 茅 preciso ter um piano?
O melhor 茅 ter ouvidos
E amar a Natureza.
XII
Os pastores de Virg铆lio tocavam avenas e outras cousas
E cantavam de amor literariamente.
(Depois 鈥 eu nunca li Virg铆lio.
Para que o havia eu de ler?)
Mas os pastores de Virg铆lio, coitados, s茫o Virg铆lio,
E a Natureza 茅 bela e antiga.
XIII
Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu n茫o sei o que penso
Nem procuro sab锚-lo.
XIV
N茫o me importo com as rimas. Raras vezes
H谩 duas 谩rvores iguais, uma ao lado da outra,
Penso e escrevo como as flores t锚m cor
Mas com menos perfei莽茫o no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo s贸 o meu exterior.
Olho e comovo-me,
Comovo-me como a 谩gua corre quando o ch茫o 茅 inclinado,
E a minha poesia 茅 natural como o levantar-se vento...
XV
As quatro can莽玫es que seguem
Separam-se de tudo o que eu penso,
Mentem a tudo o que eu sinto,
S茫o do contr谩rio do que eu sou...
Escrevi-as estando doente
E por isso elas s茫o naturais
E concordam com aquilo que sinto,
Concordam com aquilo com que n茫o concordam...
Estando doente devo pensar o contr谩rio
Do que penso quando estou s茫o.
(Sen茫o n茫o estaria doente)
Devo sentir o contr谩rio do que sinto
Quando sou eu na sa煤de,
Devo mentir 脿 minha natureza
De criatura que sente de certa maneira...
Devo ser todo doente 鈥 ideias e tudo.
Quando estou doente, n茫o estou doente para outra cousa.
Por isso essas can莽玫es que me renegam
N茫o s茫o capazes de me renegar
E s茫o a paisagem da minha alma de noite,
A mesma ao contr谩rio...
XVI
Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manh茫zinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase 脿 noitinha pela mesma estrada.
Eu n茫o tinha que ter esperan莽as 鈥 tinha s贸 que ter rodas...
A minha velhice n茫o tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu j谩 n茫o servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
XVII
No meu prato que mistura de Natureza!
As minhas irm茫s as plantas,
As companheiras das fontes, as santas
A quem ningu茅m reza...
E cortam-as e v锚m 脿 nossa mesa
E nos hot茅is os h贸spedes ruidosos,
Que chegam com correias tendo mantas
Pedem 芦Salada禄, descuidosos...,
Sem pensar que exigem 脿 Terra-M茫e
A sua frescura e os seus filhos primeiros,
As primeiras verdes palavras que ela tem,
As primeiras cousas vivas e irisantes
Que No茅 viu
Quando as 谩guas desceram e o cimo dos montes
Verde e alagado surgiu
E no ar por onde a pomba apareceu
O arco-铆ris se esbateu...
XVIII
Quem me dera que eu fosse o p贸 da estrada
E que os p茅s dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem 脿 minha beira...
Quem me dera que eu fosse os choupos 脿 margem do rio
E tivesse s贸 o c茅u por cima e a 谩gua por baixo...
Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para tr谩s de si e tendo pena...
XIX
O luar quando bate na relva
N茫o sei que cousa me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava 脿 noite nas estradas
Socorrendo as crian莽as maltratadas...
Se eu j谩 n茫o posso crer que isso 茅 verdade,
Para que bate o luar na relva?
XX
O Tejo 茅 mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo n茫o 茅 mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo n茫o 茅 o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que v锚em em tudo o que l谩 n茫o est谩,
A mem贸ria das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual 茅 o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
脡 mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para al茅m do Tejo h谩 a Am茅rica
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ningu茅m nunca pensou no que h谩 para al茅m
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia n茫o faz pensar em nada.
Quem est谩 ao p茅 dele est谩 s贸 ao p茅 dele.
XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
脡 preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo 茅 dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem n茫o estranha
Que haja montanhas e plan铆cies
E que haja rochedos e erva...
O que 茅 preciso 茅 ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente 茅 belo e 茅 bela a noite que fica...
Assim 茅 e assim seja...
XXII
Como quem num dia de Ver茫o abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
脌s vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
N茫o sei bem como nem o qu锚...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Ver茫o me passa pela cara
A m茫o leve e quente da sua brisa,
S贸 tenho que sentir agrado porque 茅 brisa
Ou que sentir desagrado porque 茅 quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, 茅 que 茅 meu dever senti-lo...
XXIII
O meu olhar azul como o c茅u
脡 calmo como a 谩gua ao sol.
脡 assim, azul e calmo,
Porque n茫o interroga nem se espanta...
Se eu interrogasse e me espantasse
N茫o nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo.
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol...
Porque tudo 茅 como 茅 e assim 茅 que 茅,
E eu aceito, e nem agrade莽o.
Para n茫o parecer que penso nisso...)
XXIV
O que n贸s vemos das cousas s茫o as cousas.
Por que ver铆amos n贸s uma cousa se houvesse outra?
Por que 茅 que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir s茫o ver e ouvir ?
O essencial 茅 saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se v锚,
E nem pensar quando se v锚
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de n贸s que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestra莽茫o na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas s茫o as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um s贸 dia,
Mas onde afinal as estrelas n茫o s茫o sen茫o estrelas
Nem as flores sen茫o flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
XXV
As bolas de sab茫o que esta crian莽a
Se entret茅m a largar de uma palhinha
S茫o translucidamente uma filosofia toda.
Claras, in煤teis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
S茫o aquilo que s茫o
Com uma precis茫o redondinha e a茅rea,
E ningu茅m, nem mesmo a crian莽a que as deixa,
Pretende que elas s茫o mais do que parecem ser.
Algumas mal se v锚em no ar l煤cido.
S茫o como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que s贸 sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em n贸s
E aceita tudo mais nitidamente.
XXVI
脌s vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas t锚m toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim pr贸prio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza 脿s cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
N茫o: t锚m cor e forma
E exist锚ncia apenas.
A beleza 茅 o nome de qualquer cousa que n茫o existe
Que eu dou 脿s cousas em troca do agrado que me d茫o.
N茫o significa nada.
Ent茫o por que digo eu das cousas: s茫o belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo s贸 de viver
Invis铆veis, v锚m ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.
Que dif铆cil ser pr贸prio e n茫o ver sen茫o o vis铆vel!
XXVII
S贸 a Natureza 茅 divina, e ela n茫o 茅 divina...
Se falo dela como de um ente
脡 que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens
Que d谩 personalidade 脿s cousas,
E imp玫e nome 脿s cousas.
Mas as cousas n茫o t锚m nome nem personalidade:
Existem, e o c茅u 茅 grande a terra larga,
E o nosso cora莽茫o do tamanho de um punho fechado...
Bendito seja eu por tudo quanto sei.
Gozo tudo isso como quem sabe que h谩 o sol.
XXVIII
Li hoje quase duas p谩ginas
Do livro dum poeta m铆stico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas m铆sticos s茫o fil贸sofos doentes,
E os fil贸sofos s茫o homens doidos.
Porque os poetas m铆sticos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras t锚m alma
E que os rios t锚m 锚xtases ao luar.
Mas as flores, se sentissem, n茫o eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, n茫o eram pedras;
E se os rios tivessem 锚xtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
脡 preciso n茫o saber o que s茫o flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
脡 falar de si pr贸prio e dos seus falsos pensamentos.
Gra莽as a Deus que as pedras s茫o s贸 pedras,
E que os rios n茫o s茫o sen茫o rios,
E que as flores s茫o apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E n茫o a compreendo por dentro
Porque a Natureza n茫o tem dentro;
Sen茫o n茫o era a Natureza.
XXIX
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas n茫o mudo muito.
A cor das flores n茫o 茅 a mesma ao sol
De, que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores s茫o cor da sombra.
Mas quem olha bem v锚 que s茫o as mesmas flores.
Por isso quando pare莽o n茫o concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos p茅s 鈥
O mesmo sempre, gra莽as ao c茅u e 脿 terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E 脿 minha clara simplicidade de alma...
XXX
Se quiserem que eu tenha um misticismo, est谩 bem, tenho-o.
Sou m铆stico, mas s贸 com o corpo.
A minha alma 茅 simples e n茫o pensa.
O meu misticismo 茅 n茫o querer saber.
脡 viver e n茫o pensar nisso.
N茫o sei o que 茅 a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa 茅 a minha defini莽茫o.
XXXI
Se 脿s vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
N茫o 茅 porque eu julgue que h谩 sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
脡 porque assim fa莽o mais sentir aos homens falsos
A exist锚ncia verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me 脿s vezes
脌 sua estupidez de sentidos...
N茫o concordo comigo mas absolvo-me,
Porque s贸 sou essa cousa s茅ria, um int茅rprete da Natureza,
Porque h谩 homens que n茫o percebem a sua linguagem,
Por ela n茫o ser linguagem nenhuma.
XXXII
Ontem 脿 tarde um homem das cidades
Falava 脿 porta da estalagem.
Falava comigo tamb茅m.
Falava da justi莽a e da luta para haver justi莽a
E dos oper谩rios que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que t锚m fome
E dos ricos, que s贸 t锚m costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me l谩grimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O 贸dio que ele sentia, e a compaix茫o
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou sup玫em que sofrem?
Sejam como eu 鈥 n茫o sofrer茫o.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos, uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o c茅u e a terra bastam-nos.
Querer mais 茅 perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu at茅 脿s l谩grimas),
Era em como o murm煤rio long铆nquo dos chocalhos
A esse entardecer
N茫o parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem 脿 missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que n茫o sou bom,
E tenho o ego铆smo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
S贸 com o florir e ir correndo.
脡 essa a 煤nica miss茫o no Mundo,
Essa 鈥 existir claramente,
E saber faz锚-lo sem pensar nisso.)
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
XXXIII
Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da pol铆cia...
Mas t茫o boas que florescem do mesmo modo
E t锚m o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o Primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam...
XXXIV
Acho t茫o natural que n茫o se pense
Que me ponho a rir 脿s vezes, sozinho,
N茫o sei bem de qu锚, mas 茅 de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...
Que pensar谩 o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me 脿s vezes isto at茅 dar por mim
A perguntar-me cousas...
E ent茫o desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um p茅 dormente...
Que pensar谩 isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Ter谩 a terra consci锚ncia das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as 谩rvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver s贸 os meus pensamentos...
Entristecia e ficava 脿s escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o C茅u.
XXXV
O luar atrav茅s dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele 茅 mais
Que o luar atrav茅s dos altos ramos.
Mas para mim, que n茫o sei o que penso,
O que o luar atrav茅s dos altos ramos
E, al茅m de ser
O luar atrav茅s dos altos ramos,
脡 n茫o ser mais
Que o luar atrav茅s dos altos ramos.
XXXVI
E h谩 poetas que s茫o artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas t谩buas!...
Que triste n茫o saber florir!
Ter que p么r verso sobre verso, como quem constr贸i um muro
E ver se est谩 bem, e tirar se n茫o est谩!...
Quando a 煤nica casa art铆stica 茅 a Terra toda
Que varia e est谩 sempre bem e 茅 sempre a mesma.
Penso nisto, n茫o como quem pensa, mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio...
N茫o sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade est谩 nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Esta莽玫es contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E n茫o termos sonhos no nosso sono.
XXXVII
Como um grande borr茫o de fogo sujo
O sol posto demora-se nas nuvens que ficam.
Vem um silvo vago de longe na tarde muito calma.
Deve ser dum comboio long铆nquo.
Neste momento vem-me uma vaga saudade
E um vago desejo pl谩cido
Que aparece e desaparece.
Tamb茅m 脿s vezes, 脿 flor dos ribeiros,
Formam-se bolhas na 谩gua
Que nascem e se desmancham
E n茫o t锚m sentido nenhum
Salvo serem bolhas de 谩gua
Que nascem e se desmancham.
XXXVIII
Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irm茫os todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sens铆vel
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o n茫o adorava.
Porque isso 茅 natural 鈥 mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral...
XXXIX
O mist茅rio das cousas, onde est谩 ele?
Onde est谩 ele que n茫o aparece
Pelo menos a mostrar-nos que 茅 mist茅rio?
Que sabe o rio disso e que sabe a 谩rvore?
E eu, que n茫o sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o 煤nico sentido oculto das cousas
脡 elas n茫o terem sentido oculto nenhum,
脡 mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os fil贸sofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E n茫o haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: 鈥
As cousas n茫o t锚m significa莽茫o: t锚m exist锚ncia.
As cousas s茫o o 煤nico sentido oculto das cousas.
XL
Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas n茫o t锚m cor nem movimento,
Assim como as flores n茫o t锚m perfume nem cor.
A cor 茅 que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento 茅 que se move,
O perfume 茅 que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta 茅 apenas borboleta
E a flor 茅 apenas flor.
XLI
No entardecer dos dias de Ver茫o, 脿s vezes,
Ainda que n茫o haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as 谩rvores permanecem im贸veis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilus茫o,
Tiveram a ilus茫o do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que v锚em e ouvem!
F么ssemos n贸s como dev铆amos ser
E n茫o haveria em n贸s necessidade de ilus茫o...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que h谩 sentidos...
Mas gra莽as a Deus que h谩 imperfei莽茫o no Mundo
Porque a imperfei莽茫o 茅 uma cousa,
E haver gente que erra 茅 original,
E haver gente doente torna o Mundo engra莽ado.
Se n茫o houvesse imperfei莽茫o, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir...
XLII
Passou a dilig锚ncia pela estrada, e foi-se;
E a estrada n茫o ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim 茅 a ac莽茫o humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol 茅 sempre pontual todos os dias.
XLIII
Antes o voo da ave, que passa e n茫o deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no ch茫o.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde j谩 n茫o est谩 e por isso de nada serve,
Mostra que j谩 esteve, o que n茫o serve para nada.
A recorda莽茫o 茅 uma trai莽茫o 脿 Natureza,
Porque a Natureza de ontem n茫o 茅 Natureza.
O que foi n茫o 茅 nada, e lembrar 茅 n茫o ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!
XLIV
Acordo de noite subitamente,
E o meu rel贸gio ocupa a noite toda.
N茫o sinto a Natureza l谩 fora.
O meu quarto 茅 uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
L谩 fora h谩 um sossego como se nada existisse.
S贸 o rel贸gio prossegue o seu ru铆do.
E esta pequena cousa de engrenagens que est谩 em cima da minha mesa
Abafa toda a exist锚ncia da terra e do c茅u...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca
Porque a 煤nica cousa que o meu rel贸gio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
脡 a curiosa sensa莽茫o de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
XLV
Um renque de 谩rvores l谩 longe, l谩 para a encosta.
Mas o que 茅 um renque de 谩rvores? H谩 谩rvores apenas.
Renque e o plural 谩rvores n茫o s茫o cousas, s茫o nomes.
Tristes das almas humanas, que p玫em tudo em ordem,
Que tra莽am linhas de cousa a cousa,
Que p玫em letreiros com nomes nas 谩rvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a pr贸pria terra inocente e mais verde e florida do que isso!
XLVI
Deste modo ou daquele modo,
Conforme calha ou n茫o calha,
Podendo 脿s vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever n茫o fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras 脿 ideia
E n茫o precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento s贸 muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emo莽玫es verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, n茫o Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acol谩,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou algu茅m.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensa莽玫es verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-pr贸prio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que n茫o veja
Que s茫o cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda n茫o mostrou a cabe莽a
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim j谩 se lhe v锚em as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.
XLVII
Num dia excessivamente n铆tido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele n茫o trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as 谩rvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mist茅rio de que os poetas falsos falam.
Vi que n茫o h谩 Natureza,
Que Natureza n茫o existe,
Que h谩 montes, vales, plan铆cies,
Que h谩 谩rvores, flores, ervas,
Que h谩 rios e pedras,
Mas que n茫o h谩 um todo a que isso perten莽a,
Que um conjunto real e verdadeiro
脡 uma doen莽a das nossas ideias.
A Natureza 茅 partes sem um todo.
Isto 茅 talvez o tal mist茅rio de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que n茫o acham,
E que s贸 eu, porque a n茫o fui achar, achei.
XLVIII
Da mais alta janela da minha casa
Com um len莽o branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.
E n茫o estou alegre nem triste.
Esse 茅 o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostr谩-los a todos
Porque n茫o posso fazer o contr谩rio
Como a flor n茫o pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a 谩rvore esconder que d谩 fruto.
Ei-los que v茫o j谩 longe como que na dilig锚ncia
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os ler谩?
Quem sabe a que m茫os ir茫o?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
脕rvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha 谩gua era n茫o ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a 谩rvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu p贸 dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua 谩gua 茅 sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.
XLIX
Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e d茫o as boas noites,
E a minha voz contente d谩 as boas noites.
Oxal谩 a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O 煤ltimo olhar amigo dado ao sossego das 谩rvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E l谩 fora um grande sil锚ncio como um deus que dorme. |
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