Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



A QUEST脙O 脡TICA DIANTE DO NIILISMO

 
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MensagemEnviada: 25/01/2005 - 07:24:35    Assunto: A QUEST脙O 脡TICA DIANTE DO NIILISMO Responder com cita莽茫o

A QUEST脙O 脡TICA DIANTE DO NIILISMO
por Paulo Afonso de Ara煤jo*


Depois de caracterizar sumariamente, a partir de Nietzsche e Heidegger, nosso tempo como marcado pelo niilismo, onde 茅tica e moral vivem s茅ria crise, indica-se, seguindo Dostoi茅vski, um poss铆vel confronto com a quest茫o suscitada.


Em nosso tempo, o termo niilismo assumiu uma centralidade sempre mais evidente como categoria interpretativa da situa莽茫o hist贸rica de incerteza e precariedade do homem contempor芒neo: 鈥渃onhece muito pouco nossa 茅poca quem n茫o experimentou a enorme for莽a do nada e n茫o foi tentado por ela鈥 (E. J脺NGER 鈥 M. HEIDEGGER, Oltre la linea, Mil茫o: Adelphi, 1995, 104). Niilismo indica, com efeito, de um lado, o vazio que se perfila no horizonte do homem ocidental depois do decl铆nio do Deus da tradi莽茫o metaf铆sico-teol贸gica crist茫, com todas as certezas que este comportava; e, de outro, a conseq眉ente dram谩tica problematiza莽茫o da f茅 no sentido do existir e no valor do agir.

Na segunda metade do s茅culo XIX, F. Nietzsche (1844-1900) v锚 o niilismo como nosso destino hist贸rico, desencadeado pela 鈥渕orte de Deus鈥. O assassinato de Deus 鈥 perpetrado por todos n贸s 鈥 apresenta-se ao nosso tempo como um delito irremedi谩vel: trata-se do pecado que, enquanto supress茫o do redentor, suprime toda gra莽a e todo perd茫o. Depois deste terr铆vel assassinado, o mundo encontra-se 脿 deriva: diante deste tr谩gico evento nossa cultura vacila, os valores supremos se desvalorizam e nossas convic莽玫es se revelam mentiras. Agora, o homem est谩 condenado a vagar atrav茅s do nada infinito, sentindo na pele o sopro do vazio numa noite eterna.

O advento do niilismo 茅, para Nietzsche, evento absolutamente fatal e imposs铆vel de se contrastar, porque o nada 茅 o princ铆pio secreto que guia nossa cultura desde seu in铆cio, quando atrav茅s do platonismo e do cristianismo a unidade origin谩ria dionis铆aca foi perdida. Os absolutos metaf铆sicos, religiosos e morais, de fato, j谩 nasceram infectados pelo niilismo: a morte de Deus 茅 morte anunciada desde seu nascimento. Nossa decadente cultura atual, que vive e interpreta o niilismo como destrui莽茫o total de toda f茅, n茫o faz nada mais que trazer 脿 luz algo que j谩 se encontrava latente; passamos da 鈥渧ontade de nada鈥 dissimulada 脿 鈥渧ontade de nada鈥 evidente do homem de hoje; do 鈥渘茫o鈥 dito originariamente 脿 vida, passamos ao 鈥渘茫o鈥 dito pelo homem de hoje, que, mesmo tendo h谩 muito abandonado os ideais asc茅ticos, busca fugir do conflito, da negatividade e do sofrimento que pertencem 脿 nossa exist锚ncia.

Na verdade, segundo Nietzsche, depois da morte de Deus, sobram apenas dois caminhos: ou a inven莽茫o de uma nova inoc锚ncia, o duro caminho do 鈥渁l茅m do homem鈥 como sentido da terra, ou a vit贸ria definitiva da decad锚ncia prefigurada pelo 鈥溍簂timo homem鈥; ou a cria莽茫o de sentido, sabendo-se que se trata de mera cria莽茫o ditada pela vontade de pot锚ncia, um auto-engano consciente, ou o vazio paralizante do 鈥渢udo 茅 v茫o鈥; ou o retorno de Dioniso, em um novo paganismo, ou o ate铆smo f谩cil, daqueles que mataram Deus mas por fraqueza continuam vivendo como se ele n茫o tivesse morrido, inclusive como 鈥渢e贸logos鈥; ou a afirma莽茫o tr谩gica da vida, al茅m do bem e do mal, como vontade de pot锚ncia que retorna eternamente, ou a hedonista aus锚ncia total de toda moral; ou um niilismo ativo, ou um niilismo passivo.

Em pleno s茅culo XX, M. Heidegger (1889-1976), tamb茅m v锚 o niilismo como destino de nossa hist贸ria, entendida como hist贸ria do esquecimento e do abandono do ser; esquecimento e abandono do ser que tem como correlato o n茫o levar a s茅rio o problema do nada. Para Heidegger, a raiz e a ess锚ncia do niilismo deve ser buscada no fato que 鈥渘茫o se leva a s茅rio o problema do nada鈥 (M. HEIDEGGER, Nietzsche II, Pfullingen: Neske, 1961, 53), no 鈥渞adical n茫o pensar a ess锚ncia do nada鈥 (M. HEIDEGGER, Nietzsche II, Pfullingen: Neske, 1961, 54).

Ora, tanto o esquecimento e abandono do ser quanto o radical n茫o pensar o nada constitui, para Heidegger, a ess锚ncia da metaf铆sica; metaf铆sica 茅, com efeito, o nome com o qual ele designa o pensamento ocidental desde a teoria das id茅ias de Plat茫o at茅 a vontade de pot锚ncia de Nietzsche, passando por quase toda teologia ocidental, pelo cogito de Descartes, pelo transcendentalismo de Kant e pela Vernunft de Hegel. De fato, o termo metaf铆sica, que no primeiro Heidegger n茫o tem um sentido negativo, assume, depois da Kehre, um significado negativo: sob o termo metaf铆sica se recolhe, referindo-se a uma 煤nica raiz 鈥 o esquecimeno e abandono do ser 鈥, tudo aquilo que se apresenta como diferente do pensar aut锚ntico e que lhe usurpa o lugar; pensar aut锚ntido entendido como pensar origin谩rio, isto 茅, como pensar, uno e inicial, que encontra-se subjacente ao pensar poetante, ao pensar meditante, ao pensar como dar gra莽as. A metaf铆sica em seu atual acabamento, por sua vez, se identifica segundo Heidegger com a t茅cnica; ou seja, a metaf铆sica alcan莽a hoje sua realiza莽茫o na t茅cnica como modo de pensar planet谩rio, onde a natureza e o humano s茫o totalmente fixados e objetivados em realidades instrumentaliz谩veis.

Assim, nossa 茅poca caracteriza-se pelo niilismo, pela metaf铆sica acabada e pela t茅cnica, reciprocamente convers铆veis. Esta situa莽茫o deve ser entendida como resultado do destino na perspectiva de uma hist贸ria do mundo como hist贸ria do ser. O niilismo revela-se, desta maneira, como destino inultrapass谩vel de nossa hist贸ria: da mesma forma que n茫o 茅 poss铆vel saltar a pr贸pria sombra, n茫o se pode ultrapassar o niilismo (Cf. E. J脺GER 鈥 M. HEIDEGGER Oltre la linea, Mil茫o: Adelphi, 1995, 55). Trata-se de uma noite do mundo que nos envolve a todos.

Esta interpreta莽茫o pode ser questionada quanto a seu car谩ter de destino, mas apresenta alguns tra莽os que, penso eu, merecem ser sublinhados: 1. A m谩 compreens茫o objetivista do nada 鈥 o nada entendido em uma perspectiva 么ntica 鈥 corresponde ao abandono do ser e significa o advendo, para totalidade do real, de uma 鈥渃ompleta aus锚ncia de sentido鈥 (M. HEIDEGGER, Nietzsche II, Pfullingen: Neske, 1961, 24): 鈥渁 aus锚ncia da clareira luminosa do ser 茅 a aus锚ncia de sentido para o ente na sua totalidade鈥 (M. HEIDEGGER, Nietzsche II, Pfullingen: Neske, 1961, 26). 2. O dom铆nio incontest谩vel da t茅cnica significa, para o homem contempor芒neo, que toda presen莽a do eterno e do sagrado desaparecem da natureza e do vulto humano, tornando tanto a natureza como o humano realidades a serem instrumentalizadas, e n茫o mais aquilo diante do qual nasce o vener谩vel estupor do pensamento e da poesia. 3. O lugar do poetar e do pensar 茅 ocupado pelo pensamento apresentante, objetivante, calculante, planificador, organizador, nivelador. Esse pensamento, marcado pela ratio, 茅 correlativo ao antropocentrismo moderno: o homem sente-se o senhor do mundo, e o mundo 茅 visto como seu instrumento 脿 disposi莽茫o.

Depois destas breves e esquem谩ticas considera莽玫es, penso que n茫o precisamos ser nietzscheanos para perceber que o niilismo n茫o 茅 uma simples corrente de pensamento, mas que seu fantasma ronda todos os 芒mbitos da cultura de nosso tempo; da mesma forma que n茫o precisamos pensar como Heidegger para reconhecer que o niilismo representa um enorme esvaziamento e empobrecimento do homem em seu ser-no-mundo.

Em termos de vis茫o de mundo e dos valores 煤ltimos, o niilismo representa a corros茫o das cren莽as e a difus茫o do relativismo e do cetiscismo. Conseq眉entemente, o niilismo conduz, no n铆vel moral e 茅tico, a uma perda dos paradigmas tradicionais, tanto no plano da fundamenta莽茫o das normas quanto no plano de sua aplica莽茫o, tanto na dimens茫o te贸rica quanto na dimens茫o pr谩tica. No n铆vel te贸rico, esta perda produz uma enorme confus茫o e uma intermin谩vel disputa entre opostas teorias 茅ticas: diante do niilismo, diversas teorias 茅ticas travam verdadeira guerra de palavras, sem vencedores nem vencidos, e produz apenas mais relativismo e ceticismo. No n铆vel pr谩tico, por sua vez, o niilismo produz o esvaziamento da for莽a vinculante das normas morais e da possibilidade de serem aceitas e aplicadas. O niilismo gera tanto o polite铆smo dos valores quanto a inutilidade das proibi莽玫es: no mundo governado pela tecnoci锚ncia, 脿 infinita multiplicidade de valores corresponde a absoluta inefic谩cia dos imperativos morais.

Neste contexto, talvez ainda possamos, seguindo livremente o 鈥渟egundo鈥 Heidegger, dar um 鈥減asso atr谩s鈥 em rela莽茫o tanto 脿 tecnoci锚ncia quanto 脿s v谩rias teorias que povoam o debate 茅tico contempor芒neo (Cf. J. A. MAC DOWELL, 脡tica e pol铆tica: urg锚ncia e limites, Sintese nova fase 17 (1990) 7-34). Passo atr谩s para sondar o origin谩rio removido pela tecnoci锚ncia, que n茫o pode ser captado pelo conceito nem pode tornar-se como tal objeto de representa莽茫o; origin谩rio que constitui o 芒mbito da experi锚ncia humana fundante e que n茫o se encontra 脿 disposi莽茫o do homem. Na verdade, o origin谩rio 鈥 o ser que resiste a toda objetiva莽茫o 鈥 se revela ao homem como um dom que lhe 茅 oferecido: a experi锚ncia fundante d谩-se sem ser provocada pelo pensamento; 茅 ela que provoca o pensamento.

Ora, quem faz aut锚nticamente a experi锚ncia deste origin谩rio, acaba descobrindo tamb茅m a maneira de comunic谩-la: encontra na sugest茫o e na evoca莽茫o a linguagem adequada 脿 sua for莽a originante; ou seja, encontra na linguagem simb贸lica e narrativa a peculiaridade de ao mesmo tempo representar algo e remeter para outro 芒mbito n茫o represent谩vel; linguagem que assim procedendo convida aquele que a acolhe a ultrapassar-se rumo a uma experi锚ncia mais original.

Contudo, para o homem moderno, sintonizado apenas com a linguagem conceitual, o s铆mbolo constitui uma representa莽茫o imaginativa, que pode ser, quando muito, elevada ao n铆vel do conceito: a linguagem simb贸lica 茅 considerada um est谩gio inferior do pensar, e sua racionaliza莽茫o 茅 buscada como se fora um avan莽o na compreens茫o do real. Acontece que o empobrecido homem da tecnoci锚ncia teria apenas a ganhar com o reconhecimento e respeito do limite 煤ltimo da raz茫o apontado pelo s铆mbolo; este pensar supra-racional n茫o se coloca em oposi莽茫o 脿 racionalidade, na medida em que a pr贸pria raz茫o 茅 for莽ada a reconhecer a possibilidade de uma experi锚ncia pensante que a ultrapassa. Na narra莽茫o simb贸lica, com efeito, a pretens茫o de validade daquilo que 茅 dito, diferentemente do que ocorre na raz茫o discursiva, se d谩 como atesta莽茫o de algo; e como tal se justifica 脿 medida que o ouvinte penetra na din芒mica do pr贸prio evento origin谩rio, ou seja, 茅 capaz de reviver a experi锚ncia originante. O assentimento 脿 revela莽茫o da experi锚ncia testemunhada na narra莽茫o simb贸lica, por sua vez, n茫o obedece 脿 necessidade l贸gica do discurso racional: ela 茅 livre. N茫o se trata, contudo, de liberdade injustificada e irracional, mas da abertura franca e acolhedora para a verdade, que se manifesta como mais profunda do que os princ铆pios e fundamentos da raz茫o. Assentir equivale a consentir, ou seja, acolher o sentido que se apresenta, deix谩-lo ser, a partir da concord芒ncia ou comunh茫o na mesma experi锚ncia e sentimento; consentimento que 茅 perfeitamente sensato, embora n茫o possa ser justificado segundo os c芒nones da raz茫o discursiva.

Isto posto, penso que, em meio 脿 crise 茅tica e moral, temos muito a ganhar se prestamos aten莽茫o, por exemplo, 脿 narrativa de Dostoi茅vski (1821-1881); nela certamente 茅 poss铆vel encontrar sugest玫es e evoca莽玫es da experi锚ncia origin谩ria que pode fundar os valores de uma vida humana aut锚ntica nestes tempos de niilismo. A arte tr谩gica de Dostoi茅vski, conforme a sugestiva leitura de Pareyson (Cf. L. PAREYSON, Dostoevskij. Filosofia, romanzo ed esperienza religiosa. Turim: Einaudi, 1993), parte do niilismo vivido e, levando-o 脿s 煤ltimas conseq眉锚ncias, apresenta a possibilidade 鈥 n茫o necessidade 鈥 de sua supera莽茫o: o niilismo pode constituir-se no 鈥減en煤ltimo degrau鈥 para a afirma莽茫o de um sentido 煤ltimo para vida e a莽茫o humanas.

Em Dostoi茅vski o homem, ser essencialmente amb铆guo, seguindo a liberdade, defronta-se com o mal, gra莽as a uma rec铆proca implic芒ncia entre mal e liberdade. Como fruto da liberdade, resultado de uma vontade deliberada, o mal aparece no mundo humano em toda sua realidade como a instaura莽茫o positiva de uma realidade negativa e como destrui莽茫o que 茅, ao mesmo tempo, auto-destrui莽茫o: o mal n茫o 茅 apenas a fragilidade e a fraqueza do homem, ou a incapacidade humana de persistir no bem, ou simples ignor芒ncia do bem, ou imperfei莽茫o que conspira para a harmonia do universo. Para Dostoi茅vski, com efeito, o mundo humano 茅 marcado por uma positiva vontade de mal: o mal 茅 produto da vontade e da liberdade do homem, que de maneira ciente e deliberada comete a a莽茫o m谩, ou melhor, at茅 mesmo extrai prazer desta pr谩tica, com todas as nuan莽as poss铆veis, consideradas em seus grandes romances.

Para o 鈥渉omem do subsolo鈥 (Cf. F. DOSTOI脡VSKI, Mem贸rias do subsolo, S茫o Paulo: editora 34, 2000), tudo no mundo 茅 inocente, menos o homem: enquanto o universo 茅 governado apenas pela lei natural da conserva莽茫o, o homem 茅 submetido 脿s desordens provenientes do fato que nele o instinto de destrui莽茫o est谩 t茫o presente quanto o instinto de conserva莽茫o. O homem n茫o faz o mal porque ignora o pr贸prio verdadeiro interesse, de maneira que se o conhecesse n茫o cometeria a莽玫es m谩s: o conhecimento do bem e a a莽茫o m谩 podem dar-se simultaneamente, ou melhor, d茫o-se simultaneamente com freq眉锚ncia. O fato de se conhecer o ideal moral n茫o apenas n茫o torna imposs铆vel que se cometa o mal, como tamb茅m funciona como instiga莽茫o e tenta莽茫o.

Assim, para Dostoi茅vski, o mundo humano n茫o 茅 nem pode ser harmonia e racionalidade, pois cont茅m a triste presen莽a do demon铆aco; e a conduta do homem n茫o 茅 regulada por crit茅rios que al茅m de julg谩-la garantem seu 锚xito, mas 茅 governada pelo arb铆trio que 脿s vezes pode chegar a uma clara e deliberada vontade do mal. Contudo, a auto-destrui莽茫o, a que o mal conduz, j谩 茅 in铆cio da instaura莽茫o do bem, de maneira que, segundo um processo que s贸 茅 compreens铆vel 脿 luz da liberdade, a den煤ncia do mal e a afirma莽茫o do bem constituem um 煤nico ato. Para Dostoi茅vski, o homem alcan莽a o bem levando at茅 o fim o processo auto-destrutivo do mal. A dor 茅 o ponto de virada desta dial茅tica, porque nela culmina o mal no seu processo de auto-destrui莽茫o, e nela reside a for莽a redentora que leva ao bem.

Contudo, por mais fundamental que seja para Dostoi茅vski a experi锚ncia do mal e da liberdade, e sua co-implica莽茫o, elas apenas remetem a uma experi锚ncia mais origin谩ria e profunda: a experi锚ncia de Deus, que 茅 a experi锚ncia suprema, aquela que cont茅m e ilumina todas as outras, e desta maneira 茅 realmente decisiva para o destino do homem. A liberdade humana e o mal s贸 t锚m sentido se se referem a Deus; sem a presen莽a de Deus o mal e a liberdade n茫o apareceriam na sua verdadeira pot锚ncia.

O caminho at茅 Deus, contudo, passa atrav茅s do niilismo, que Ivan Karam谩zov (Cf. F. DOSTOI脡VSKI, Os irm茫os Karam谩zovi, 3 vol., Rio de Janeiro: Jos茅 Olympio, 1955) apresenta com radicalidade insuper谩vel. Na apresenta莽茫o de seu 芦poema禄 O grande inquisidor a seu irm茫o Ali贸cha, Ivan ressalta a quest茫o do mal exibindo-a na sua forma absolutamente escandalosa como 芦sofrimento in煤til禄, o sofrimento das crian莽as; sofrimento que n茫o se deixa utilizar para nenhum fim transcendente, como poderia ser, por exemplo, a futura harmonia universal, n茫o importa se celeste ou terrena; e que, se fosse utilizado para este escopo, denunciaria com maior raz茫o, enquanto instrumentalizado pelo homem ou por Deus, a monstruosidade do mundo e n茫o apenas a injusti莽a divina mas tamb茅m a inexist锚ncia de Deus. Ivan n茫o nega que Deus, a quem com prazer concede a exist锚ncia, possua as raz玫es do sofrimento, mesmo dos mais atrozes, e que saiba extrair deste abismo um hosana final, que una carrasco e v铆tima, ele simplesmente se recusa a unir-se a este coro; com esta recusa, ele declara inexistente aquele mesmo Deus por ele suposto para denunciar o car谩ter absurdo de sua cria莽茫o. Fal锚ncia da cria莽茫o, car谩ter absurdo do mundo, inexist锚ncia de Deus s茫o o resultado do racioc铆nio de Ivan, e ao mesmo tempo tr锚s express玫es para significar um s贸 e id锚ntica coisa. De fato, se Deus 茅 o sentido do mundo, uma vez constatada a fal锚ncia da cria莽茫o, reconhecendo-se que o mundo 茅 absurdo e sem sentido, dever-se-谩 ao mesmo tempo reconhecer que Deus n茫o existe 鈥 ou melhor, reconhecer que o mundo 茅 absurdo 茅 j谩 de per si, sem passos ulteriores, afirmar a inexist锚ncia de Deus.

Assim, no di谩logo introdutivo ao 芦poema禄 O grande inquisidor, Ivan denuncia a fal锚ncia da cria莽茫o e chega ao ate铆smo partindo da pr贸pria id茅ia de Deus. No famoso 芦poema禄, por sua vez, Ivan denuncia a fal锚ncia da reden莽茫o e proclama o anti-cristianismo partindo da pr贸pria id茅ia do redentor: o redentor n茫o apenas n茫o libertou o homem do sofrimento, mas, ao lhe impor o peso da liberdade, aumentou-o tremendamente. O aumentado sofrimento da humanidade em raz茫o da liberdade atesta a impot锚ncia de Cristo, ou melhor o 锚xito contraproducente da sua obra.

A cr铆tica severa tanto da cria莽茫o quanto da reden莽茫o desemboca no niilismo radical proposto por Ivan. No niilismo radical, Ivan pousa seu pensamento no n铆vel de uma cotidianidade sempre reconciliada consigo mesma, onde o 鈥渢udo 茅 permitido鈥 significa libera莽茫o para a tranq眉ila e acomodante total identifica莽茫o com o real, para a pura transpar锚ncia do presente 鈥渘o seu perp茅tuo renovar-se鈥. Assim, a dram谩tica nega莽茫o de Deus se realiza na 鈥渃ompleta identifica莽茫o de si consigo鈥, que 茅 o nada da exist锚ncia, a exist锚ncia anulada na remo莽茫o e suspens茫o de sua tragicidade. Esta situa莽茫o gera a banaliza莽茫o do mal: Ivan partira do escandalo do mal, representado pelo sofrimento in煤til das crian莽as, mas com a nega莽茫o de Deus desemboca na niilista banalidade do mal, privado de todo esc芒ndalo. Se Deus n茫o pode mais existir, o mal perde seu car谩ter absurdo e se torna banal, quotidiano como a figura do diabo que aparece a Ivan em seu del铆rio.

Qual a sa铆da para esta situa莽茫o? Que resposta pode-se dar a Ivan? Para Dostoi茅vski, o esc芒ndalo do mal permanece inexplic谩vel, mas com o Deus sofredor adquire o 煤nico sentido poss铆vel: Cristo n茫o explica 芦natureza e raz玫es禄 do sofrimento in煤til, mas o assume sobre si mesmo. Enquanto Ivan, com seu racioc铆nio euclidiano, deduz impacientemente a fal锚ncia da cria莽茫o e da reden莽茫o, legando o mundo ao absurdo onde o esc芒ndalo n茫o tem mais lugar, Ali贸cha v锚 tragicamente sofrer o pr贸prio Deus, e com isso afirma Deus como o centro do horizonte em que o car谩ter escandaloso do esc芒ndalo 茅 conservado enquanto tal. E al茅m disso, Dmitri, ao assumir como inocente a culpa pelo terr铆vel parr铆cidio, personifica o Cristo, o Filho de Deus inocente que aceita o sofrimento e a crucifix茫o para o resgate de todos os pecadores. O esc芒ndalo do sofrimento denunciado por Ivan s贸 encontra verdadeira resposta naquilo que 茅 o esc芒ndalo por excel锚ncia, a cruz de Cristo: Cristo na cruz com a sua dor e abandono d谩 sentido 脿 dor do mundo; acolhendo livremente em si o sofrimento, mesmo sendo inocente, Cristo redime o pecado de todos, a todos pode oferecer o perd茫o e a todos convoca para colaborar livre e solidariamente na expia莽茫o do mal que reina no mundo com desproporcional abund芒ncia.

Assim, para Dostoi茅vski, percorrendo-se at茅 o fundo o caminho do niilismo, pode-se chegar a Deus; trata-se de uma via dif铆cil, arriscada, perigosa e extremamente penosa, mas que leva ao 芦Deus vivo禄, que n茫o 茅 uma 芦verdade consolante禄, ou um frio princ铆pio racional 煤ltimo. Proclamar a exist锚ncia de Deus n茫o 茅 suprimir o mal, mas tornar ainda mais sens铆vel sua presen莽a; n茫o 茅 tranquilizar a liberdade, mas agu莽ar seu tormento. Longe de aplacar ou atenuar o mal, a exist锚ncia de Deus envia a vit贸ria sobre este a uma 茅poca escatol贸gica fora da hist贸ria, e, enquanto isso, exaspera na hist贸ria a luta entre o bem e o mal.

Ora, nosso tempo, marcado pelo niilismo, banaliza e remove o mal. N茫o tem muito sentido falar de mal, quando se considera a natureza e seu ciclo como inevit谩vel: a vida sempre renasce de suas pr贸prias ru铆nas. Assim como n茫o tem sentido falar de mal quando se considera a hist贸ria em seu permanente fluir, com a dissolu莽茫o de todo contraste entre bem e mal: o que foi considerado mal absoluto acaba com o tempo perdendo seu car谩ter escandaloso. Contudo, at茅 o momento em que h谩 algu茅m que n茫o tolera a injusti莽a, que tem a coragem de se opor mesmo permanecendo s贸, que n茫o justifica e n茫o se deixa consolar, que resiste e espera fielmente, que n茫o renuncia 脿 verdade da nostalgia do totalmente outro e de seu desejo, que n茫o se envergonha do entusiasmo e da esperan莽a, at茅 este momento o mal n茫o estar谩 totalmente exclu铆do. At茅 este momento, quando ainda se reconhece a for莽a devastadora do mal e a ele se resiste, a tese niilista do esboroamento dos absolutos n茫o ter谩 vencido e n茫o poder谩 valer como verdade. O reconhecimento e a contesta莽茫o ao mal desmentem a morte de Deus.

Sendo assim, na base do niilismo, e na conseq眉ente crise 茅tica e moral que vivemos, n茫o estaria uma livre escolha te贸rico-pr谩tica, ao inv茅s de um destino inevit谩vel? Escolha entre o reconhecimento e contesta莽茫o do mal ou consentimento em sua banaliza莽茫o e exclus茫o? Escolha origin谩ria a favor ou contra o ser, a favor ou contra o sentido, em 煤ltima inst芒ncia, a favor ou contra Deus?


(fonte: http://www.eticaefilosofia.ufjf.br/6_2_Paulo_Afonso.htm)
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Eustaquio Maia




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MensagemEnviada: 12/01/2010 - 18:08:01    Assunto: This is our night Responder com cita莽茫o

Cita莽茫o:
Trata-se de uma noite do mundo que nos envolve a todos.



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"In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act." George Orwell

Eust谩quio Maia
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