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Nietzsche Educador.

 
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Jefferson dos Santos




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MensagemEnviada: 13/11/2006 - 14:47:48    Assunto: Nietzsche Educador. Responder com cita莽茫o

Nietzsche Educador

O ler - uma possibilidade para outros mundos

Uma das caracter铆sticas da leitura de Nietzsche e de seus pensamentos, 茅 que ele n茫o costuma nos deixar em paz, a todo o momento em sua leitura; ele est谩 nos chamando a pensar e refletir sobre algum tema. 鈥淣ietzsche n茫o deixa em paz seus leitores鈥 (LARROSA, 2004, p. 13), essa deve ser uma das principais caracter铆sticas dos professores de filosofia dos nossos dias, convidar o aluno a todo momento estar pensando a sua realidade, a fazer novas leituras do que ele tem como 鈥渧erdade鈥. Podemos a partir deste ponto, mostrar para ele que a realidade deve ser constru铆da por ele, que o que est谩 na vida cotidiana pode ter outras formas de ser, que o mundo est谩 a铆 para n贸s construirmos!
Nietzsche ataca nosso campo pessoal, ele a todo o momento nos impele a pensar sobre o que cremos; ele ataca nosso conformismo, nos dando a oportunidade de refletir, mostrando que para se entender o que se l锚 茅 preciso ter o esfor莽o de se debru莽ar sobre o que se est谩 vendo e buscar o que se est谩 dizendo, com a preocupa莽茫o de n茫o diminuir com uma tradu莽茫o superficial ou ing锚nua da leitura, ater-se apenas ao que est谩 escrito, para que n茫o ocorra a morte do que est谩 sendo lido.
Tomando o autor como pr贸prio exemplo do que est谩 sendo dito, ele exige 鈥渓eitores perfeitos, fil贸logos rigorosos鈥, o que nos leva a crer que sua preocupa莽茫o com a leitura 茅 grande, com uma leitura bem feita.
E como deve ser esta leitura que Nietzsche prop玫e? Uma leitura que libertar谩 o homem do senso comum. Ent茫o: 鈥渓er devagar, com profundidade, com inten莽茫o profunda, abertamente e com olhos abertos e dedos delicados鈥 (LARROASA, 2004, p. 14). A receita que o autor mostra 茅 algo simples de se alcan莽ar, ele n茫o se serve de nenhuma virtude acima da vida.
Ter calma na leitura 茅 o primeiro passo, pois cada palavra tem sua import芒ncia, prestar aten莽茫o em todas as frases, na liga莽茫o que estas t锚m dentro de um texto, ver cada conceito, com o intuito de vislumbrar o texto integralmente.
O segundo passo 茅 alcan莽ar o objeto com profundidade, ir 脿 raiz do texto, 脿s suas origens, ao seu sentido 煤ltimo. Digamos que seria atingir a 鈥渆ss锚ncia鈥 da leitura, entendendo ess锚ncia como o que a coisa 茅 em sua pluralidade, na sua diversidade, e n茫o como aquela ess锚ncia que era buscada nos tempos neol铆ticos.
Sobra-nos para comentar o terceiro passo que o autor deixa em sua escrita, segundo Larrosa, manter os olhos bem abertos e ter os dedos delicados. A leitura n茫o requer medo, o desconhecido n茫o exige este sentimento. Temer o desconhecido 茅 fechar os olhos para o pr贸prio ser do homem, enquanto que 茅 por via deste caminho que n贸s andamos por toda 脿 vida. Ter dados delicados, a leitura tamb茅m 茅 uma arte, n茫o um trabalho grosseiro; como uma arte, requer os cuidados de uma arte.
Mas, hoje em dia, n贸s os leitores modernos, n茫o despomos, mas do tempo que o autor cita. N茫o temos quase tempo para ler um livro, ou entender algo com tanta calma, o que Nietzsche afirma come莽ar com o leitor moderno, leitor este que diante toda a vasta bibliografia que tem em m茫os, tem que dar conta de toda ela. Um mito se cria ent茫o, 鈥渄e que os 煤ltimos livros s茫o os melhores e a cren莽a de que se tem de ler quase todos鈥 (LARROSA, 2004, p. 14). A leitura se torna uma vontade de pot锚ncia, uma vontade de conhecimento, e deixa de ser a busca por aquele simples sentido, que 茅 entender o que est谩 escrito, e passa a ter valor apenas enquanto leitura quantitativa. Ningu茅m se pergunta se as leituras foram feitas com profundidade, mas s贸 se o numero de leituras 茅 grande. Este 茅 o leitor moderno, que deixou de utilizar a leitura como arte, pois a leitura n茫o exige nada em troca, ela por si s贸 j谩 茅 o resultado a ser alcan莽ado, e passou-se a utilizar a leitura apenas para escrever um outro livro ou uma resenha.
Um dos grandes segredos de ler um livro com grande profundidade 茅 aprender a ler nas entrelinhas, de n茫o ficar s贸 na literalidade do texto. Voltando ao primeiro passo, onde a leitura exige calma para ser bem feita, ela exige tamb茅m neste est谩gio, em primeiro momento, o saber fazer silencio sobre o que est谩 sendo dito, o calar-se diante daquilo. Numa 茅poca que todo mundo tem opini玫es sobre tudo, onde a informa莽茫o voa alada por todos os campos, ele pede que a pessoa leia e fa莽a silencio, entenda antes de expressar qualquer palavra. D谩 para perceber que 茅 neste ponto aonde come莽a a tomada de consci锚ncia do tema. Mas para quem sabe o que 茅 viver hoje, ter esta calma que o autor est谩 pedindo 茅 um luxo, mas algo necess谩rio.
O leitor moderno est谩 t茫o crente de sua pessoa e sua cultura que sup玫e a si mesmo como uma medida segura e um crit茅rio de todas as coisas; 茅 tal sua arrog芒ncia que se sente capaz de julgar todos os livros; ele 茅 constitutivamente incapaz de suspender o ju铆zo, de guardar silencio, de manter-se retirado, de escutar鈥 (LARROSA, 2004, p. 15).
Como podemos ver, para Nietzsche, o leitor moderno esqueceu o que 茅 leitura. A pergunta que fica ap贸s sabermos sobre, o que podemos chamar de defici锚ncia 茅: 茅 este tipo de leitura que est谩 sendo ensinada nas escolas nos dias de hoje? 脡 esta a leitura ensinada aos jovens? Se for, Nietzsche explica! Se for desta forma que todos est茫o lendo hoje, ent茫o as pessoas, segundo Larrosa, desaprenderam a estudar e aprenderam a ter apenas opini玫es superficiais dos conte煤dos.
Se for este o leitor moderno que encontramos nas escolas e nas universidades hoje, ent茫o, antes de tudo, cabe a pergunta, quem est谩 lendo hoje? Quem 茅 este leitor moderno? Porque para Nietzsche, ler n茫o 茅 apenas ficar no campo do conte煤do do texto, mas ler 茅 viver o texto, (LARROSA, 2004, p. 17). Por este motivo 茅 que a pergunta por quem 茅 o leito cabe a nossa busca, pois se ler tamb茅m 茅 vivenciar o texto, Nietzsche quer saber quem est谩 vivenciando seu texto, assim podemos saber se o caminho proposto pelo autor estar谩 sendo percorrido.
Este 茅 um ponto crucial para entendermos a proposta de Nietzsche. Se ler requer total aten莽茫o do leitor e requer que este vivencie o momento, ent茫o o leitor est谩 sendo explorado n茫o apenas como leitor, mais ao viajar no texto, ele est谩 sendo levado em considera莽茫o por toda a sua totalidade, pois a leitura tomar谩 contato com todo o seu pensamento, toda a sua experi锚ncia, com o que se 茅.
Ao interpretarmos um texto, o leitor s贸 consegue apreender:
O resultado de nossas disposi莽玫es an铆micas mais profundas: a finura e o car谩ter de nossos sentidos, nossas disposi莽玫es corporais, nossas vivencias passadas, nossos instintos, nosso temperamento essencial, a qualidade de nossas entranhas鈥 (LARROSA, 2004, p. 1Cool.

O leitor consegue extrair do texto, ent茫o agora Nietzsche atua como psic贸logo, apenas as suas disposi莽玫es, ele consegue retirar do texto apenas ele mesmo, seus pensamentos. Quando voc锚 pensa ter aprendido algo de novo num livro, voc锚 n茫o o aprendeu, s贸 fez dele algo da sua imagem.
Ent茫o, o exerc铆cio da leitura n茫o 茅 experimentado apenas pela parte racional humana, e sim pela sua totalidade. Ler 茅 um exerc铆cio de ser, de experimentar a vida em sua plenitude, em toda sua desenvoltura. 鈥溍 a vida em sua totalidade, e n茫o s贸 a intelig锚ncia, a que interpreta, a que l锚鈥 (LARROSA, 2004, p. 1Cool.
Viver 茅 interpretar, dar um sentido ao mundo e vivenci谩-lo, viver 茅 aprender a ler a realidade, porque 茅 isto o que fazemos, somos leitores da realidade. Viver 茅 dar um sentido 脿s coisas que est茫o a nossa volta.
Para Nietzsche, ser surdo a uma obra 茅 ter experi锚ncias diferentes das mesmas. Ent茫o, para que possamos trazer o aluno para o mundo dos textos filos贸ficos, 茅 faz锚-lo compartilhar de nossas experi锚ncias, para que possamos ensinar o sentido dos textos, dar condi莽玫es que ele fa莽a o mergulho na vida real sozinho. 鈥淣ietzsche sabe que n茫o h谩 um sentido pr贸prio do texto, mas somente a apropria莽茫o da for莽a do texto por outra for莽a afim ou contraria鈥 (LARROSA, 2004, p.19). Nunca compreenderemos um texto sem saber a for莽a que o impulsiona, sem saber a experi锚ncia que dele surgiu, pois desta forma, o texto parecer谩 imposs铆vel de ler, a pessoa ser谩 incapaz de ler, um surdo.
Para Nietzsche, o importante na leitura 茅 que ela tenha a possibilidade 鈥渆 os leve al茅m de si mesmo鈥 (LARROSA, 2004, p.21). Na leitura, Nietzsche n茫o quer criar super g锚nios, que tenha a capacidade de ler as 鈥減alavras鈥, ou seja, que tenha uma grande t茅cnica. O importante 茅 conseguir viver o que est谩 sendo lido.

1.1 Um importante passo na leitura: o saber sair do texto

Existe algo muito importante quando o final de um livro 茅 alcan莽ado, o saber 鈥渆squecer鈥 o livro, deixar de lado seu pensamento; 鈥淥 saber sair do texto, o saber termin谩-lo e deix谩-lo a tempo, a arte do esquecimento鈥 (LARROSA, 2004, p. 21). Saber esquecer um texto 茅 parte fundamental da leitura, saber sair do emaranhado de conceitos a que se prestou. Saber ler exige uma capacidade de saber retirar tudo o que 茅 in煤til. Aquele que n茫o tem esta capacidade e guarda o desnecess谩rio, para Nietzsche, tem problemas de 鈥渙besidade鈥, ou seja, acumulo de massa desnecess谩ria. Assim como Zaratustra pede no pr贸logo de Assim Falou Zaratustra para que seus disc铆pulos se afastem e que ponham a caminhar sozinho. Precisam eles ap贸s conviver com Zaratustra, defender-se de Zaratustra, para que pudesse viver de acordo com o pr贸prio esp铆rito. Zaratustra diz que s贸 voltar谩 a encontr谩-los quando eles tiverem esquecido totalmente seus escritos. A leitura n茫o deve doutrinar, mostrar um caminho s贸 como o certo, sim, libertar para al茅m do que se 茅 agora n茫o importando para que lado se v谩, para ele, isto 茅 viver.
O leitor n茫o deve buscar a verdade nos textos, pois hoje em dia, como diria Raul Seixas, 鈥渢odo mundo explica鈥, todo mundo tem f贸rmulas para todas as situa莽玫es. A finalidade da leitura 茅 encontrar a si mesmo. O que 茅 dito no livro n茫o 茅 um fim, n茫o deve ser um fim. O livro 茅 apenas a media莽茫o para que se possa vislumbrar 鈥渁o mais alto de si pr贸prios, ao que eles s茫o鈥 (LARROSA, 2004, p. 25).
Neste ponto, para o leitor, 茅 importante deixar de ser leitor, olhar para o que foi lido e renegar, saber fazer seu pr贸prio caminho com suas experi锚ncias, com seu modo de ver e de pensar, deixar de ser crente e passar a viver com suas pr贸prias conclus玫es. Dar autonomia 脿 pessoa que come莽a a caminhar assim como quem escreveu o livro tamb茅m come莽ou um dia.
Nas palavras de Zaratustra encontramos o passo dado ap贸s a leitura em busca de si mesmo:
Por muitos caminhos diferentes e de m煤ltiplos modos cheguei eu 脿 minha verdade; n茫o por uma 煤nica escada subi ate a altura onde meus olhos percorrem o mundo. E nunca gostei de perguntar por caminhos, isso, ao meu ver, sempre repugna! Preferiria perguntar e submeter 脿 prova os pr贸prios caminhos. Um ensaiar e perguntar foi todo o meu caminhar e, na verdade, tamb茅m tem-se de aprender a responder tal pergunta! Este 茅 o meu gosto: n茫o um bom gosto, do qual j谩 n茫o me envergonho nem o escondo. Este 茅 o meu caminho, onde esta o vosso?, assim respondia eu aos que perguntavam pelo caminho, O caminho da verdade n茫o existe. (Nietzsche (Zaratustra), p谩g. 272) .

Conclu铆mos o texto com a certeza de que ensinar a interpretar 茅 ao mesmo tempo te ensinar a viver com as pr贸prias pernas, 茅 n茫o ter medo de caminhar. N茫o ter medo de aprender e de viver.

O ser - a busca de si mesmo

Nietzsche remonta esta frase das Odes Piticas de Pindaro, chamando todos que quiserem a viver com profundidade. A reescrita desta frase pelo autor atravessa sua obra, seu pensamento parece buscar em toda sua multiplicidade por este objetivo. Esta busca por si mesmo 茅 dita de maneiras diferente ao longo de seus escritos, o que indica que Nietzsche estava a procura dela, assim como ele chama a quem quiser ouvir. Talvez tenha chegado a hora de n贸s escrevermos esta frase, 鈥渆m nossa pr贸pria l铆ngua, e com nossas pr贸prias palavras; talvez, inclusive com nossa pr贸pria assinatura鈥 (LARROSA, 2004, p. 49).
Agora 茅 chegada 脿 hora de abandonar a posi莽茫o de mero espectador e tomar o controle para si, como deve ser. Nietzsche explica como ele tornou-se a ser ele mesmo e como ele continuou buscando a si mesmo em Ecce Homo, sua autobiografia.
Na sua 茅poca, o autor interpreta o povo alem茫o como covarde e pregui莽oso, que 鈥渙cultam-se atr谩s de seus costumes e opini玫es鈥 (LARROSA, 2004, p. 55), o que impediam eles de buscar a si mesmo. Ao inv茅s, se ocultavam, escondendo-se, uma vergonha!
O imperativo de Pindaro n茫o 茅 outra coisa sen茫o o voto solene que inicia o vir a ser Nietzsche de Nietzsche, uma esp茅cie de autopromessa sem conte煤do, uma autodeclara莽茫o que n茫o declara nada, uma auto-exig锚ncia ainda vazia, mas que contem em si uma for莽a exc锚ntrica, um primeiro movimento negativo (LARROSA, 2004, p. 60).
Podemos perceber que o vir a ser, o encontrar-se a si mesmo, descobrir-se a si pr贸prio, formar-se a si pr贸prio, cultivar-se a si pr贸prio, fazer-se a si pr贸prio, conhecer-se a si pr贸prio, todos s茫o formados conforme a cita莽茫o acima. 脡 o caminho que devemos fazer, o caminho que devemos buscar. Um caminho que parte em dire莽茫o ao desconhecido, em dire莽茫o ao nada. Ao mesmo tempo em que ele prop玫e ser, Nietzsche nega este pressuposto para que possa existir uma abertura necess谩ria para o ser vir a ser. Pois voc锚 afirmar o ser antes de descobri-lo 茅 prever um fato que pode n茫o se consumar.
Podemos agir no plano em que nos 茅 proposto, podemos realizar este 鈥減rojeto鈥 na medida em que n茫o nos preocuparmos com o conte煤do, n茫o ficarmos preocupados em ensinar conceitos, mais do que isso, dermos a oportunidade para o aluno buscar seus pr贸prios conceitos, suas formas de ver as coisas, de ser, que s茫o peculiares somente a ele. Ao inv茅s de fechar as possibilidades dizendo como as coisas s茫o, deixar que ele pr贸prio busque com sua pr贸pria vontade, sabendo que ele pode vir a n茫o encontrar, a n茫o realizar o que ele quer ou o que ele pensa. Para o autor, isto faz parte da vida.
Para n贸s chegarmos a ser o que n贸s somos, deveremos combater o que j谩 somos. 脠 uma batalha entre n贸s mesmos, contra o pr贸prio eu de cada um. Mas o sentido desta luta 茅 afirmativo, pois ele se lan莽a ao proibido, como o famoso dizer de Ouvidio, que pretende ser o que se 茅 acima de qualquer preceito que seja estranho 脿 sua natureza, ao seu ser.
Vir a ser 茅 o que se acontece quando a linha estendida entre o animal e o homem ouve sua consci锚ncia, sua pr贸pria voz. Desta forma, o que parece reinar e o que Nietzsche parece propor fica no campo s贸 da subjetividade. Quando falamos em educa莽茫o dos alunos, dos jovens principalmente, n茫o 茅 dito que devemos formar o jovem em sua totalidade. Este 茅 o primeiro passo, formar o eu para que ele seja poss铆vel de conviver com os outros 鈥渆us鈥.
Nietzsche descreve na Gaia Ci锚ncia, no par谩grafo 335, que o que os homens mais temem 茅 o conhecimento de si mesmos, que a cada momento que se aproxima a este ponto, poucos s茫o os que continuam, poucos s茫o os que buscam o que ele prop玫e, poucos s茫o os que houvem sua pr贸pria consci锚ncia.
Encontramos aqui uma proposta nietzschiana de como se alcan莽ar esta inclina莽茫o da consci锚ncia, 鈥淧ara chegarmos a ser o que somos, temos que levar em uma m茫o o escalpelo da f铆sica, a maquina de distinguir cuidadosamente e de destruir impiedosamente, e, na outra, a capacidade de cria莽茫o, o esp铆rito de arte鈥 (LARROSA, 2004, p. 65).
Temos que ter no莽茫o de nossas possibilidades e ter um esp铆rito criador, capaz de dar possibilidades diversas, de caminhar como quem sempre passa pelos mesmos lugares, mas sempre v锚 coisas diferentes. Instala-se agora uma nova forma para este ser, pois assim como a arte, este ser pode ser inventado, moldado de acordo com as inclina莽玫es da pessoa. Mais uma vez a aten莽茫o se volta para o aluno. Como fechar a realidade em sala de aula, se existe a possibilidade de inventarmos a vida, o que n茫o significa fugir, mas pint谩-la como n贸s vemos. Cada vez este ideal de 鈥渧erdade鈥 fica distante de uma realidade objetiva. O caminho parece apontar para uma abertura que permanece vazia em seu principio e vai se preenchendo com a viv锚ncia.
O livro Assim falava Zaratustra mostra bem a busca pelo que se 茅, pois ao longo da historia o personagem vai mudando sua compreens茫o de si mesmo e de seus ensinamentos. Neste mesmo livro, o autor Larrosa afirma que s贸 pelo eterno retorno 茅 capaz de alcan莽ar o que se 茅, que 茅 preciso silenciar diante dele, e ouvir o que ele tem a dizer.
Se Zaratustra, como educador, atrai os peixes, n茫o 茅 para atar os homens a si mesmo, para convid谩-los a seguir-lhe, para convert锚-los em disc铆pulos, e tampouco para at谩-los a si mesmo, a qualquer identidade pessoal mesmificante, mas para elev谩-los ao m谩ximo deles mesmos, ao que h谩 em cada um deles, que 茅 maior que ele e, portanto, outra coisa que n茫o eles. (LARROSA, 2004, p. 74).
Zaratustra se torna o maior legislador de todos, pois agora ele n茫o imp玫e nada a ningu茅m, apenas 鈥渟alta鈥. Se cada educador conseguisse vislumbrar o que Zaratustra prop玫e, ent茫o, o mundo seria uma cria莽茫o humana demasiado justo, entendendo por justi莽a a oportunidade de conseguir fazer o que se tem potencialidade. Mais uma vez a vontade de verdade parece distanciar da possibilidade de alcan莽ar o que 茅 por ela!
Podemos ver em seus escritos, que o pr贸prio pensamento de Nietzsche est谩 baseado em seus escritos, pois toma caminhos, em algum momento ouvindo sua consci锚ncia, depois busca uma pr茅-consci锚ncia onde haveria inclina莽玫es que deveriam ser revistas para buscar a ser o que se 茅, e por fim em Zaratustra, monta apenas uma estrutura deixando de lado todo conte煤do objetificante. A pergunta que fica 茅 a seguinte: ap贸s esta exposi莽茫o de Nietzsche sobre como se pode alcan莽ar o que se 茅, uma educa莽茫o que n茫o tem como base o conte煤do, mais ensinar uma estrutura de vida, que para Nietzsche, a pessoa n茫o 茅 s贸 raz茫o, poderia formar um corpo de cidad茫os fortalecido? Para que n贸s possamos nos aproximar desta pessoa, seria importante saber do autor, quem 茅 um g锚nio para ele, ou seja, o que 茅 que Nietzsche almeja.

2.1 O G锚nio de Nietzsche

Segundo a autora Rosa Maria em Nietzsche educador, o g锚nio 茅 a grande natureza contemplativa armada para a cria莽茫o eterna. Segundo ela, Nietzsche diz que na alma do g锚nio deve conter: a for莽a da imagina莽茫o, a abundancia e a irregularidade do esp铆rito, uma alma extensa, um esp铆rito sempre em atividade. Ser sens铆vel a todas as manifesta莽玫es da natureza.
O nascimento do g锚nio n茫o depende da cultura: 茅 uma d谩diva da natureza, mas foi amadurecido e nutrido no seio materno da cultura de um povo, enquanto, sem esta pratica que o protege e o aquece, ele estar谩 na impossibilidade absoluta de desdobrar suas asas para seu v么o eterno. (DIAS, 1991, p. 81)

Para ser um g锚nio, segundo Nietzsche, n茫o precisa ser um deus, ou ter um atributo que esteja fora do pr贸prio ser humano. Basta sentir a vida, viver de acordo consigo mesmo. 脡 poss铆vel que qualquer um de n贸s alcance este ideal do autor, e possamos ver como 茅 olhar para fora de mim e ver o que est谩 ali e n贸s n茫o pod铆amos enxergar.
Ser g锚nio poderia constituir um outro passo em Nietzsche, um passo que teria como meta criar o mundo novamente, ser capaz de desconstruir toda uma cultura para poder, dela mesma criar um novo modo de viver.
脡 preciso ser sens铆vel, porque o que mais chama o homem a criar 茅 a sensibilidade de viver. Nietzsche neste ponto parece dizer que para se alcan莽ar o al茅m do homem 茅 preciso ter um pouco do esp铆rito do artista. Como podemos ver, Nietzsche est谩 nos dias atuais chamando a cada um para ser o que ele 茅, dando as r茅deas da sua vida a si mesmo. N茫o diz o que est谩 certo, s贸 seja o que voc锚 茅.
Se a pessoa conseguir sentir a for莽a com que emerge o pensamento dele, o al茅m do homem se anunciar谩.

O existir - a busca pelo al茅m de si mesmo

O primeiro passo e primordial para que possa existir uma busca para o al茅m, ou seja, uma busca que exige o nosso querer e certo espa莽o para acontecer 茅 a liberdade. Nos texto de Nietzsche, assim falava Zaratustra, aonde leva o titulo de 鈥淎s tr锚s metamorfoses鈥, o autor tratar谩 sobre a liberdade. No texto, temos a figura do le茫o, que 茅 o rei da liberdade, o camelo, que 茅 o animal de carga, que fica feliz em obedecer a seu dever, um animal domesticado e a crian莽a, que representa o esquecimento, a inoc锚ncia, o jogo, a afirma莽茫o, a cria莽茫o, abertura, a possibilidade, o inicio. O le茫o representa o movimento de fazer-se livre, pois gasta sua for莽a em trazer isto 脿 sua realidade. Estes s茫o tr锚s est谩gios dos homens, tr锚s etapas que Nietzsche analisa. A liberdade s贸 ser谩 efetiva quando se alcan莽ar o est谩gio da crian莽a. Ent茫o, as bases da liberdade de Nietzsche s茫o as caracter铆sticas da crian莽a, suas qualidades.
A crian莽a representa no pensamento de Nietzsche o come莽o de algo, algo que ama a vida, algo que quer viver. Algo que come莽a a viver e est谩 pronta para criar. Esta crian莽a n茫o sabe dos problemas do mundo, como se sua cabe莽a estivasse limpa, podendo pender para o lado que ela quiser. Ela n茫o teria nenhuma inclina莽茫o pr茅via a suas a莽玫es, mas agiria num movimento de pura inova莽茫o, de pura liberdade.
Ao ler este apurado texto, Nietzsche e a Educa莽茫o, fica claro que a pretens茫o de Nietzsche ao escrever Assim Falou Zaratustra, pode ser entendida de duas maneiras diferentes. A primeira, uma maneira negativa, como se o autor estivesse querendo confundir-nos, querendo enganar e desorientar a todos que est茫o lendo. A segunda, este livro pode ser entendido como um 鈥渂er莽o de novos valores鈥, como a tentativa de um autor criar uma nova cultura, de mostrar que o mundo como n贸s o percebemos n茫o 茅 algo im贸vel e imut谩vel, ele pode e deve ser usado de acordo com as pessoas que vivem nele. Pode ser um livro positivo, um livro que estimula a cria莽茫o, a busca de si mesmo, da pr贸pria felicidade de cada um. Este ultimo parece ser a leitura mais plaus铆vel de Nietzsche, pois parece que por de tr谩s de todo aquele rancor e dureza de seus escritos, ele invoca seus leitores a mergulhar no mundo assim como ele o fez, e perceber a vida, cada um, a partir do seu pr贸prio olhar.
... Zaratustra 茅 uma afirma莽茫o pura, um canto 脿 vida, uma chamada 脿 transfigura莽茫o, uma figura de ligeireza, da alegria e da inoc锚ncia do porvir. E a crian莽a das tr锚s metamorfoses 茅 um de seus m煤ltiplos emblemas. Nietzsche quer ser um come莽o. N茫o s贸 um destruidor, mas um come莽o. E sua encarna莽茫o destrutiva e critica n茫o 茅 mais do que a condi莽茫o para o come莽o, o trabalho preliminar de limpeza. (LARROSA, 2004, p. 111)
A import芒ncia de aplicar o pensamento de Nietzsche na educa莽茫o n茫o poderia ser uma revolu莽茫o na sua forma de ser, um novo come莽o pra um porvir que n茫o deixaria em momento algum isto se tornar est谩tico, pois o ser humano n茫o tem sua natureza sobre apenas um plano. Ela 茅 m煤ltipla e assim deve ser.
Ent茫o, no pensamento sobre as tr锚s metamorfoses nietzschianas, a rela莽茫o entre o pensamento negativo, o da destrui莽茫o, e o pensamento positivo, o que podemos chamar de o inovador, est茫o presentes dentro deste dito. Sucessivamente, caem sobre o le茫o e a crian莽a. Temos a certeza, ao ler sobre as tr锚s fases que, o le茫o 茅 o inicio da mudan莽a, ele representa a tomada de poder por parte da pessoa, e a crian莽a 茅 aprender a viver em harmonia com o diferente, como 茅 comum dizer, 鈥渘茫o tem tempo ruim鈥.
Para a educa莽茫o, n茫o propomos o esp铆rito destruidor do le茫o, pois este pode ser interpretado como negativo, este pode gerar desarmonia durante toda a sua estada em uma comunidade onde haja apenas os diferentes. A crian莽a 茅 o alvo a ser alcan莽ado. Para a educa莽茫o tomar uma nova forma de ser, deixando todo conte煤do formal, e mergulhando numa viagem, em primeiro lugar a busca desta crian莽a. N茫o que esta crian莽a, ou o aluno que trabalharemos neste programa n茫o ter谩 acesso a conte煤do, mas ao contr谩rio, em primeiro lugar ele vai descobrir o mundo em que vive, o que est谩 a sua volta, e qual postura ele pretende tomar. Mediante este processo de busca por ele mesmo, a crian莽a surgir谩 junto com o al茅m do homem.

3.1 脡 poss铆vel voltar a ter o esp铆rito de crian莽a?

Nietzsche reconhece que 茅 dif铆cil voltar a ser crian莽a, assim como alcan莽ar o al茅m do homem pode ser chamado de utopia. Parece que para o homem moderno, a vida come莽a a se tornar um t茅dio, pois 茅 press茫o de todos os lados, a sociedade come莽a a ser cada vez mais complexas, e cada vez mais complexas. Mas a crian莽a continua a ter a liberdade de viver numa eterna cria莽茫o. Podemos dizer que a palavra cria莽茫o 茅 sin么nimo de crian莽a em Nietzsche.
脡 como se o artista moderno estivesse cansado de si mesmo, prisioneiro de sua pr贸pria historia, farto de sua pr贸pria cultura. Demasiado pesado, demasiado trabalho, demasiada consci锚ncia. Nesse contexto, o regresso 脿 inf芒ncia, a dif铆cil conquista da inf芒ncia, aparece como uma figura de inoc锚ncia recuperada, como uma imagem do novo. (LARROSA, 2004, p. 119).
O homem moderno parece ter dificuldades para viver, e Nietzsche indica uma alternativa, que n茫o tem a pretens茫o de apontar o que 茅 certo ou errado, s贸 pretende ser algo de novo, algo de diferente, que resgate a vida humana a seus moldes. Sua tentativa de 鈥渧oltar鈥 a ser homem 茅 conseguir ser crian莽a de novo. Ser谩 poss铆vel?
Esta busca que Nietzsche faz, ele diz que o autor moderno deve faz锚-la. Parece ser um esquecimento de si, de como se est谩 no momento, de se tornar o al茅m ou aqu茅m a si pr贸prio, para poder encontrar um lugar novo para ser, ou encontrar um novo homem, capaz de ser ele mesmo. Parece que s贸 ap贸s a destrui莽茫o do eu, pode haver o surgimento de uma nova forma de ser, um novo sujeito. Ent茫o o primeiro passo para se alcan莽ar a cria莽茫o 茅 destruir quem somos, esta pessoa cheia de conceitos aprendidos por quem n茫o d谩 valor a vida, por quem n茫o pensou a vida para cri谩-los, que n茫o tem no ser humano, o fim da vida.
Ap贸s a destrui莽茫o do eu, deve haver algo para preencher o vazio que ficou. Mas n茫o poderemos preench锚-lo com nossa pr贸pria cultura, com nosso pr贸prio pensamento, com o que j谩 fomos um dia. A cria莽茫o deve-se dar de forma totalmente inovadora. Pensar novos conceitos significa abandonar tudo, atrav茅s da liberdade seriamos capazes de alcan莽谩-los, para isto precisar铆amos abandonar tudo. Inventar um novo mundo.
Podemos sim voltar a ser crian莽a, 茅 s贸 apagar o mundo que vivemos e criar outro para n贸s, 茅 poss铆vel mudar uma cultura ou uma educa莽茫o, pois s茫o todas obras do homem. O homem pode buscar a si mesmo como bem entender. Este deveria ser o 煤nico principio inviol谩vel que deveria ser preservado.

Foram usados o 鈥淣ietzsche Educador鈥 de Rosa Maria Dias e Nietzsche e a Educa莽茫o de Jorge Larrosa e mais o livros do pr贸prio Nietzsche
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O que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que n茫o se pode falar tem de ficar no sil锚ncio.
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