Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



A SEMÂNTICA DE E. HUSSERL.

 
Novo tópico   Responder tópico    Paraíso Niilista - Índice -> Fórum Filosofia
Exibir tópico anterior :: Exibir próximo tópico  
Autor Mensagem
Jefferson dos Santos




Idade: 35
Registrado: 26/10/05
Mensagens: 22
Localização: Campos do Jordão

MensagemEnviada: 14/11/2006 - 23:01:54    Assunto: A SEMÂNTICA DE E. HUSSERL. Responder com citação

Linguagem expressa em termos da filosofia da consciência.
a) A nova forma da filosofia transcendental
Tendo-se rompido a unidade entre pensar e ser, descobriu-se que o pensar se manifesta como condição de possibilidade de toda objetivação. Se assim é, então se manifesta ingênuo querer saber sobre o mundo dos objetos sem perguntar pela instância que constitui o mundo objetivo enquanto objetivo, ou seja, pela subjetividade humana, como fonte de todo processo cognitivo. 35-36
A revolução copernicana de Kant tematiza a condição de possibilidade dos objetos. Assim se manifesta à reflexão filosófica a consciência humana como mediação necessária no processo do conhecimento. O pensamento clássico é considerado, dogmático por não ter tematizado a mediação consciencial do conhecimento.
E. Husserl, põe-se dentro dessa tradição consciencial dos modernos; por outro lado, significa uma transformação bastante dessa tradição. Sua semântica fundamental em todo o movi¬mento fenomenológico, repõe as idéias básicas da tradição - a lin¬guagem como elemento secundário no conhecimento da realidade -, situando-as, porém, no contexto novo de uma filosofia da consciência ¬36-37
Nas Investigações Ló¬gicas, procura uma nova fundamentação da lógica pura e da teoria do conhecimento. Para ele, a lógica pura é a doutrina das condições ideais de possibilidade da ciência enquanto tal, entendendo ele por ciência a teoria dedutiva. Essa lógica preocupa-se com três tipos de pro¬blemas:
a) identificar a totalidade dos conceitos primitivos, que tornam
possível a associação teórica;
b) buscar as leis que regem a verdade das formações que surgem a
partir desses conceitos;
c) diferenciar a idéia de teoria e distinguir os tipos possíveis de teoria. Distinção entre as formações lógicas, unidades ideais e as vivências psíquicas por meio das quais essas formações nos são dadas.
Como é possível tratar, porém, positivamente, dessas formações lógicas? 37
Fenomenologia é a pesquisa descritiva pura das vivências e, enquanto tal, é uma psicologia descritiva. Uma pesquisa fenomenológica das formações lógicas significa sua explici¬tação por meio do recurso a vivências do pensamento, nas quais tais formações nos são dadas. Isso explicita a mediação consciencial no processo do conhecimento. Embora as formações lógicas não sejam vivências psicológicas, tais formações nos são dadas nas vivências. Seu programa básico: Queremos voltar às pró¬prias coisas. 38
Os passos básicos da reflexão fenomenológica são, portanto: ponto de partida - a significação das palavras; destas se deve retroceder às próprias coisas. As coisas, porém, são-nos dadas em "atos intuitivos", ou seja, em vivências. Daí a necessidade da tematização das vivências, independentemente da linguagem, para chegar às próprias coisas. O mundo psíquico manifesta-se como instância à qual os objetos são dados de diferentes modos. A fenomenologia transcendental é pesquisa transcendental (e não psíquica) da consciência. Se trata, de pesquisa da consciência enquanto instância constitutiva do próprio mundo objetivo e, nesse sentido, de uma realidade não-objetiva, não-empírica, não-mundana, só alcançável por meio de uma reviravolta de atitude que Husserl denomina epoché: em vez de continuar voltado para o mundo objeti¬vo, o espírito pode voltar-se sobre si mesmo, como a subjetividade anônima, em que mundo se mostra e é constituído como mundo. Trata – se da busca da fontes de constituição da experiência humana. A fe¬nomenologia é uma egologia transcendental. 39-40
Para Husserl método de Kant impossibilita a realização da tarefa básica da filosofia transcendental, isto é, a apresentação das condições de possibilidade do conhecimento objetivo. Porque Kant procura res¬ponder a essa questão por meio de suposições construídas pelo espírito e não de intuição e assim a subjetividade não é atingida em seu ser próprio, mas simplesmente construída no pensamento vazio. Para Husserl, a intuição é a fonte ori¬ginária de todo o conhecimento humano. A filosofia deve retroceder à intuição das próprias coisas. Daí simplesmente receber tudo aquilo que nos é dado originariamente por meio da intuição, receber como ele é dado e nos limites em que é dado. Ora, a forma mais originária do dar-se do dado é a intuição. 40-41
Para Husserl, a intuição significa simplesmente a maneira suprema segundo a qual algo pode ser dado ao sujeito, à sua consciência. Ele distingue o dado enquanto simplesmente pensado e enquanto dado em si mesmo. A função da intuição é trazer o que é pensado à automani¬festação, ou seja, ela é o cumprimento, a realização de uma pura intenção. O pensamento é abstrato, em relação à intuição, precisamen¬te porque ele tem apenas intenções não realizadas. Tudo, e não só o sensível, pode ser intuído, e isso constitui a suprema forma de seu conhecimento. O mesmo objeto pode ser, portanto, dado à consciência do homem de diferentes modos. A intuição é a revelação plena do ser, e por isso só nela está realmente a coisa no seu ser próprio. Progresso no conhecimento de algo significa, independentemente de qualquer mediação lingüística, o aumento da intuição dos dados. O verdadeiro é o intuído. Husserl conhece, pois, degraus na intuição. Husserl considera Kant ligado ao racionalismo moderno, enquanto realiza, uma ciência baseada unicamente na experiência interior. A fenomenologia de Husserl é uma espécie de empirismo ou positivismo transcendental 41,
A transcendentalidade é legitimada por meio da intuição. A descoberta do eu transcendental por meio da epoché fenomenológica abre a possibilidade de uma expe¬riência absoluta, fonte de todas as outras experiências e de uma ciên¬cia dessa experiência fontal. Ora, isso significa um corte com a tradição do pensamen¬to, na medida em que se busca a conciliação entre experiência e ver¬dade absoluta.
b) Os conceitos fundamentais da fenomenologia transcendental
Husserl distingue pelo menos dois conceitos de consciência. O primeiro é, uma relação consciente a algo. Husserl designa esse tipo de consciência como intencio¬nalidade ou vivência intencional. Consciência é, pois direcionalidade a algo. Nem toda vivência é intencional, mas a vivência intencional é consciência no sentido pleno da palavra. Ora, Husserl aceita e desenvolve a idéia de Brentano de que há diferentes maneiras de intencionalidade. Desse modo, as diferenças essenciais das vivências não se orientam a partir das classes dos objetos, mas segundo a maneira como se referem aos objetos. E, assim como há diferenças de relação no lado do sujeito, deve haver algo no lado do objeto que a isso corresponda, isto é, diferenças dos objetos enquanto objetos de tais ou quais atos. Há diferentes objetividades, portanto, a ser tematizadas pela fenomenologia, que assim se manifesta como estudo dos fenômenos, dos dados objetivamente no como de seu dar-se. Po¬demos distinguir duas modalidades de vivências intencionais: as propo¬sicionais e as não-proposicionais. As proposicionais são aquelas em que a palavra algo não se refere propriamente ao objeto, mas a fatos que podem ser expressos por frases do tipo "que isto". Porém, há casos de vivências intencionais em que o objeto só pode ser expresso por termos singu¬lares, que designam objetos. Por exemplo, amar, admirar. 42-43
Ora, é uma tese fundamental da fenomenologia que essas formas de consciência não-proposicional não necessitam da mediação lin¬güística, pois pressupõem uma relação sujeito-objeto livre de qualquer mediação lingüística. As vivências intencionais são apenas um tipo de vivência. No homem, os, diferentes tipos de vivência encontram-se na unidade de uma corrente de vivên¬cias, que Husserl denomina também consciência. A consciência é para Husserl, nesse sentido, um movimento permanente de fenômeno. Tudo encontra seu lugar na unidade dessa corrente que é o "fenômeno originário". Toda vivência, ultrapassa-se necessariamente a si mesma na direção de outras vivên¬cias que constituem em sua inter-relacionalidade uma unidade.
3) A semântica de Husserl: a frase compreendida como a composi¬ção ideal de suas partes, isto é, de objetos
Husserl desenvolve os fundamentos de sua teoria da significação nas Investigações Lógicas, volume II, sobretudo no parágrafo intitula¬do "Expressão e significação”. 43
Afirma: "Quando uma expressão não é só um puro som, mas um sinal, e um sinal especial, isso se deve ao fato de ela ser captada por alguém enquanto algo que possui uma significação. A pura escrita ou o puro som não têm por si mesmos significação, mas uma significação lhes é conferida na medida em que são captados num determinado modo". Para Husserl não pretende falar da significação de modo abstrato.
O que, concede significação a uma expressão são os atos significantes. A palavra "ato" designa "vivências intencionais". É, em virtude de vivências intencionais que expressões significam algo, e referem-se a algo objetivo. Para Husserl a linguagem é instru¬mento de designação de objetos, porém a significação mesma não é um objeto.
Em primeiro lugar, Husserl reconhece a existência de expressões que têm uma significação, embora não representem objetos, como por exemplo, as expressões sincategoremáticas. Para ele, toda expressão categoremática representa algo e, enquanto tal, tem uma significação independente. As outras só têm significação em conexão com expressões categoremáticas, daí sua denominação sincategoremáticas. 44
Os nomes que chamamos de "termos singulares", isto é, expressões que atuam na frase como sujeito. Cada expressão desta, designa um objeto. Husserl define objeto: "Sujeito de possí¬veis predicações verdadeiras". Cada termo singular pretende desig¬nar um objeto. Porém, dois termos singulares podem designar o mesmo objeto e ter significação distinta. Como se distinguem, então, expressões que designam o mesmo objeto e possuem significa¬ção diferente?
O "sentido é o objeto no como de sua maneira de dar-se". A significa¬ção não é objeto, mas o modo de dar-se do objeto. Contudo, quando se diz que a significação é o modo de dar-se do objeto, a significa¬ção permanece dependente do conceito de objeto.
A inconsistência de tal solução mostra-se, se levanta problemas, como, por exemplo, qual a função do predicado, qual a significação de toda a frase predicativa. 45
Como os termos singulares, também as frases como um todo designam um objeto e possuem uma significação. Qual é o objeto e qual é a significação de toda uma frase predicativa? Husserl vislumbra duas possibilidades. Pode-se dizer: o objeto da frase predicativa é o objeto-sujeito, isto é, aquele do qual se diz algo. Assim, na frase "a" é maior do que "b" o objeto seria "a" ou "b", ou "a" e "b".
A outra possibilidade é considerar a situação objetiva expressa na frase como análoga a um objeto expresso num nome e distingui-la enquanto objeto da significação da frase. Assim, as frases "a" é maior do que "b", "b" é menor do que "a". As frases, embora designem algo diferente, referem-se à mesma situação objetal.
Podemos logo levantar duas questões: quais são os critérios para saber:
a) se duas frases têm a mesma significação;
b) se elas representam ou não a mesma situação.
Para a primeira não se encontra resposta em Husserl, e para a segunda o critério é que elas tenham as mesmas condições de verda¬de, isto é, quando se pode a priori (analiticamente), ver que quando uma é verdadeira a outra também o é. Por conseqüência: todas as frases verdadeiras designam os mesmos objetos, assim como as falsas, isto é, se tivermos realmente de realizar o paralelismo entre as designa¬ções nominais e as frases. Aplicando esse critério às frases, elas teriam de ter não somente as mesmas condições de verdade, mas também os mes¬mos valores de verdade (verdade ou falsidade), o que levaria à afir¬mação acima citada. 46
A argumentação de Husserl é insus¬tentável: não se pode tratar o problema da frase como um todo com os mesmos pressupostos dos termos singulares.
No § 34 de suas Investigações, Husserl tenta reformular toda a questão: o objeto da frase "Pedro corre" é aquilo do qual se diz algo, isto é, Pedro. Pode-se, contudo, também falar sobre a significação da frase, por sua vez, a significação se transforma num objeto sobre o qual se diz alguma coisa. Essa solução vem complicar a questão da distinção entre significação e objeto, porque agora estão em jogo dois objetos bastante distintos, pois uma coisa é uma frase predicativa sobre um fato e outra é uma predicação sobre uma significação Para Husserl, a sig¬nificação de uma frase predicativa é um objeto composto.. Ora, essa composição pressupõe, pois, objetos tanto com seus elementos como com seu resultado. Como a significação de uma expressão composta provém da significação das expressões que são suas partes? Husserl sabia que não se pode falar da composição que constitui a situação objetal como da composição de um objeto, ou melhor, de um objeto composto. Quando se faz uma composição de objetos concretos, por exemplo contas de um colar, o resultado é também um objeto concreto com suas partes. Uma situação objetal, um fato, não é um objeto concreto. Situações objetais são como os atributos-objetos, por assim dizer, abstratos. Na terminologia de Husserl, os primeiros são objetos reais, os segundos, objetos ideais. A percepção sensível, real, o objeto ideal, ou, como Husserl o deno¬mina, o objeto categorial, se constitui por meio de um ato categorial, que se distingue do sensível na medida em que é fundado em outros atos. Portanto: Husserl é levado a compreender as situações objetais, os fatos como objetos compos¬tos, mas como objetos de uma ordem diferente da daqueles objetos de
que eles se compõem, e tenta resolver os problemas aqui surgidos por meio de sua teoria da síntese categorial 47
A tarefa é distinguir a composição real da composição ideal. Para Husserl, enquanto a primeira é atingida pela percep¬ção, a segunda só é contestável pelo pensamento, o que não significa que não seja real. Também o pensamento, para Husserl, é uma forma de consciência do objeto e ato, chamado, em função de sua distinção, ato categorial. Os pensamentos representam as objetividades compostas pre¬cisamente enquanto compostas o que só é possível enquanto eles ao mesmo tempo representam seus objetos parciais. A representação de cada objeto parcial é, por sua vez, um ato. Dessa forma o ato categorial é necessariamente um ato sintético, fundado essencialmen¬te em atos sensíveis, que representam os objetos reais, os quais fazem parte das objetividades sintéticas. As categorias constituem a objetividade sintética. A diferença entre objetos reais e objetos ideais fundamenta-se na diferença dos atos respectivos, isto é, na diferença do modo como os objetos são dados ao homem.
Tomemos uma frase predicativa como exemplo: o castelo é azul. De acordo com essa teoria, tanto castelo como azul devem designar objetos, pois a síntese categorial é exatamente síntese dos objetos. A função do predicado na frase é também designar objetos. No § 48, dá como esquema geral explicativo das frases predicativas (isto é, de frases como "A" é "A", em que o "é" representa segundo ele a síntese) "a" está em "A", isto é, a azulidade está no castelo. Resumindo, à pergunta de qual é a significação do todo de uma frase, Husserl responde ser um objeto, isto é, a situação objetal, e assim já temos um ponto de partida para a resposta à significação de suas expressões parciais, para Husserl por meio de uma composição, por¬tanto, de uma síntese categorial, manifesta-se a função do predicado na frase, que é também uma fun¬ção objetiva. 48- 49
Uma das formas mais conseqüen¬tes da teoria objetivista da significação. Apesar de na compreensão do predicado de uma frase a consciência não estar dirigida objetivamente para a significação do predicado, mas somente para o objeto do sujeito da frase, a significação do predicado é um objeto, isto é, um atributo correspondente. O que vai ser posto em questão no pensamento contemporâneo é a própria concepção objetivista como sendo incapaz de responder às questões fundamentais levantadas por uma teoria da frase. 49
_________________
O que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar tem de ficar no silêncio.
Voltar ao topo
Exibir o perfil do usuário Enviar mensagem privada Enviar e-mail MSN Messenger
t. h. abrahao

Fundador PN


Idade: 37
Registrado: 22/01/05
Mensagens: 574
Localização: são josé do rio preto - sp

MensagemEnviada: 15/11/2006 - 17:07:37    Assunto: Responder com citação

interessante o texto, jefferson. complexo - também. ajudaria um pouco a compreensão caso ele fosse formatado. Idea
Voltar ao topo
Exibir o perfil do usuário Enviar mensagem privada Enviar e-mail Visitar o website do usuário MSN Messenger
Mostrar os tópicos anteriores:   
Novo tópico   Responder tópico    Paraíso Niilista - Índice -> Fórum Filosofia Todos os horários são GMT - 3 Horas
Página 1 de 1

 
Ir para:  
Você não pode enviar mensagens novas neste fórum
Você não pode responder mensagens neste fórum
Você não pode editar suas mensagens neste fórum
Você não pode excluir suas mensagens neste fórum
Você não pode votar em enquetes neste fórum





    RSS Paraíso Niilista
  Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram
Copyright © Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram
:: Caso encontre erros, aprenda com eles ::
[On-line há ]
[última atualização: 12/04/2021]
  [Powered by]
intelligence...