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Nietzsche: um fazer a contrapelo - Gl贸ria Maria F. Ribeiro

 
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MensagemEnviada: 26/04/2008 - 10:44:23    Assunto: Nietzsche: um fazer a contrapelo - Gl贸ria Maria F. Ribeiro Responder com cita莽茫o

NIETZSCHE: UM FAZER A CONTRAPELO
por Gl贸ria Maria Ferreira Ribeiro



A palo seco 茅 o cante
de caminhar mais lento:
por ser a contrapelo,
por ser a contravento;


Personalidade conturbada por diversas doen莽as, a mente tomada por uma loucura iminente, contestador radical da moral crist茫, cr铆tico ferino do pensamento metaf铆sico, Nietzsche foi, acima de tudo um apaixonado pela vida - que se fez 脿 quest茫o essencial do seu pensamento 鈥 que se p玫e ao rev茅s, se p玫e a contrapelo da sua 茅poca. Contudo, estar a contrapelo de uma 茅poca hist贸rica pertence 脿 natureza de toda quest茫o essencial da filosofia. Martin Heidegger, em sua Introdu莽茫o 脿 Metaf铆sica, nos diz: toda quest茫o essencial da filosofia permanece necessariamente inatual, extempor芒nea. E isso por dois motivos: ou porque a filosofia se projeta para muito al茅m da atualidade, ou ent茫o, porque a filosofia reconduz e reata seu presente a seu passado presente origin谩rio. Como quer que seja, a filosofia 茅 e permanecer谩 sempre um saber que n茫o se deixa moldar pela medida do seu tempo, mas que, pelo contr谩rio, p玫e o tempo sob sua medida. A filosofia acha-se essencialmente fora do seu tempo, porque ela pertence ao dom铆nio daquelas poucas coisas cujo destino consiste em nunca poder ou dever encontrar resson芒ncia imediata na atualidade. Onde tal parece ocorrer, onde uma filosofia se transforma em moda, 茅 porque a铆 n茫o h谩 verdadeira filosofia, ou porque esta 茅 desvirtuada e usada pervertidamente, segundo inten莽玫es estranhas 脿 filosofia para satisfazer as reclama莽玫es e as necessidades da moda. [MARTIN, Heidegger. Introdu莽茫o a Metaf铆sica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978, p.15]

Esse escrito de Heidegger data de 1953, os escritos de Nietzsche foram produzidos entre 1872 e 1888. Tanto o escrito de Heidegger quanto os escritos de Nietzsche ainda hoje nos falam de quest玫es que nos s茫o essenciais e, no entanto, continuamos gravitando na periferia do pensamento desses fil贸sofos. Hoje, mais do que em qualquer outra 茅poca, a moda e os modismos regem as nossas a莽玫es. A filosofia parece ter se desviado da sua ess锚ncia. O que existe de mais essencial no pensamento de Nietzsche parece ter sido desvirtuado e esquecido. Talvez a quest茫o que n贸s devamos elaborar seja precisamente essa: por que hoje nos encontramos t茫o afastados do pensamento de Nietzsche? Por que nos distanciamos cada vez mais de todo pensamento que se mant茅m pr贸ximo 脿 origem? Poder铆amos dizer que: quanto maior se mostra a efic谩cia da ci锚ncia e da t茅cnica, mais e mais nos afastamos do que em n贸s h谩 de essencial, mais e mais nos esquecemos da nossa finitude: do abandono e incerteza que caracteriza a nossa exist锚ncia, que caracteriza a pr贸pria vida. Vida que se faz a origem de todo pensamento radical.

Esquecemos que estamos abandonados 脿 nossa pr贸pria sorte, 脿s nossas pr贸prias possibilidades de ser. Esquecemos que temos que ser corajosos e afirmar o car谩ter ef锚mero da vida. Tomados pela for莽a desse esquecimento, nos agarramos 脿 condi莽茫o de sujeitos do conhecimento 脿 medida que esta condi莽茫o nos d谩 a seguran莽a e a certeza que nos falta e de que precisamos face ao extraordin谩rio. Afinal, qu茫o tranq眉ilizador 茅 para n贸s enquanto sujeitos da ci锚ncia pensar na morte como um fen么meno 鈥渘atural鈥. Algo que pode ser explicado cientificamente, e por esta explica莽茫o, 鈥渄ominado鈥. Assim, enquanto sujeitos do conhecimento, vemos amortizada a nossa perplexidade face ao estranho, ao inabitual 脿 medida que tudo pode ser convertido em objeto de explica莽茫o, tudo pode ser 鈥渙bjetivado鈥.

Devoramos velozmente as 煤ltimas inven莽玫es e descobertas tecnol贸gicas e somos devorados pela curiosidade do que ainda est谩 por vir a ser inventado e descoberto. Perdemo-nos num 鈥渄isse que disse鈥 acerca deste nosso mundo moderno, repetimos o que j谩 se sabe, o que toda gente sabe, o consabido. Somos tragados de rold茫o pelas informa莽玫es trazidas atrav茅s dos meios de comunica莽茫o, onde tudo 茅 massificado, onde nada do que se diz 茅, de fato, apropriado. A velocidade com que as informa莽玫es s茫o veiculadas pela TV, r谩dio, cinema e, agora mais modernamente pela Internet, n茫o nos d谩 o tempo necess谩rio para compreendermos o que 茅 dito. Tampouco, h谩 tempo para n贸s nos compreendermos nesse dito. Esse dizer, veiculado pelos meios de comunica莽茫o, que pertence a todo mundo, de fato, n茫o pertence a ningu茅m. Somos impelidos por este falat贸rio, a uma curiosidade superficial e desenfreada pelo novo, pela novidade. Queremos sofregamente, comprar a 煤ltima novidade do mercado editorial, assistir o 煤ltimo filme lan莽ado nos cinemas, comprar a mais recente novidade em roupas. Consumimos e somos consumidos pela moda. E assim, n茫o permanecemos tempo suficiente em nada, conseq眉entemente, n茫o nos reconhecemos essencialmente em nada do que fazemos. Por n茫o haver esse reconhecimento 茅 que as coisas (que compramos, lemos, vestimos e assistimos) s茫o facilmente descartadas e substitu铆das por outras. Essa imperman锚ncia nas coisas e em n贸s mesmos nos lan莽a num estado de ambig眉idade, onde 鈥渟e conhece tudo, pois se fala de tudo e se interessa por tudo鈥 [HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Petr贸polis: Editora Vozes, 1989, p. 78.]. Vemo-nos presos na mais absoluta impessoalidade - desinteressamo-nos de n贸s mesmos.

Nesse estado de impessoalidade o esp铆rito do p煤blico, da publicidade impera assustadoramente. Porque tudo passa a ser do dom铆nio de todos. N贸s nos vemos relegados a um 鈥渃anto estreito鈥 da vida [Alus茫o ao texto Cartas a um Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke, editado pela Editora Globo.]. Dela (vida) s贸 conhecemos o que se encontra compreendido na fala p煤blica. Ou melhor: acostumamo-nos a repetir o que j谩 foi dito sobre as coisas, a repetir o que j谩 foi dito sobre o que 茅 o homem e sobre o que 茅 a vida na terra. Por isso, mesmo quando ouvimos as not铆cias sobre as mais recentes descobertas tecnol贸gicas 鈥 por mais extraordin谩rias que sejam 鈥 j谩 n茫o nos admiramos mais, pelo menos, n茫o por muito tempo. Parece que tudo, nesse nosso mundo, se tornou familiar 鈥 at茅 mesmo, o que era extraordin谩rio...

Pois bem, 茅 contra essa banaliza莽茫o da vida que o pensamento de Nietzsche se insurge. Essa tend锚ncia 脿 banaliza莽茫o, n茫o 茅 algo que perten莽a exclusivamente a nossa 茅poca ou 脿 茅poca de Nietzsche, mas 茅 um fen么meno inerente 脿 pr贸pria exist锚ncia humana. Hoje essa tend锚ncia se fortalece cada vez mais em fun莽茫o do desenvolvimento tecnol贸gico e de um alarmante esvaziamento da linguagem. Para Nietzsche, que viveu nas 煤ltimas d茅cadas do s茅culo XIX, o perigo dessa banaliza莽茫o se manifestava no cristianismo 鈥 que, para ele representava a express茫o mais acabada do pensamento metaf铆sico, a forma mais acabada de nega莽茫o da vida.

Segundo Nietzsche, o homem do cristianismo 茅 o homem do rebanho... Ele se dilui no meio da multid茫o, n茫o tem rosto, n茫o possui o poder de uma vontade afirmativa. Possui apenas medo e ressentimento. Esse homem se mant茅m sempre sentindo as mesmas coisas, 茅 incapaz de esquecer. Ele se apega ao que j谩 se encontra feito e por isso sofre. Sofre porque a sua 煤nica vontade 茅 reativa: ele reage contra a fugacidade das coisas, quer que a vida se mantenha inalterada, quer que o tempo se converta num eterno presente. Desse modo pensa poder fugir da morte, pensa poder fugir de si mesmo. Sendo assim esse homem 茅 incapaz da solid茫o. Incapaz de se manter no fluxo vital: de criar para si mesmo regras e leis, de cri谩-las e esquec锚-las. Esse homem se refugia na impessoalidade do rebanho 鈥 age sempre como os outros agem. Fica feliz em seguir uma doutrina como o rebanho segue o seu pastor.

E mais: revoltado com a sua impot锚ncia diante da vida, o homem metaf铆sico se rebela contra essa mesma vida que o amea莽a. O fen么meno vital se mostra para esse homem como aquilo que n茫o deve ser... Tudo passa, tudo flui, a morte 茅 inevit谩vel... Isso ele n茫o pode suportar. Ele precisa 鈥渄ominar鈥 a vida, torn谩-la ao menos aceit谩vel. Na sua tentativa de domina莽茫o, ele cria as institui莽玫es, por exemplo, cria a justi莽a para se proteger de todo homem que seja mais forte do que ele. Cria artif铆cios para dissimular a sua fraqueza. Na cria莽茫o desses 鈥渁rtif铆cios鈥, o nosso homem parte do pressuposto de que h谩 um sujeito por detr谩s dos fen么menos que a esses serve de causa. O homem da metaf铆sica procura desesperadamente algo que sirva de fundamento para a sua exist锚ncia. Num sentimento de vingan莽a contra a vida, esse homem cria uma 鈥渙utra vida鈥, uma vida supra-sens铆vel: p谩lida, opaca, asc茅tica. 脡 dela que os seus companheiros de rebanho retiram a justificativa das suas exist锚ncias, 茅 essa outra vida que imp玫e as regras desde as quais eles dever茫o pautar as suas a莽玫es.

Contudo, essa rea莽茫o contra a vida que se encontra encarnada no homem da metaf铆sica, no homem do cristianismo nada mais 茅 do que a express茫o da vontade de poder impl铆cita em todo existente. A vontade do homem do cristianismo nasce de uma rea莽茫o contra a vida, isso quer dizer: essa vontade 茅, igualmente, proveniente dessa mesma vida 鈥 dela (vida) nasce e contra ela se rebela. Por ser fraco, ressentido e covarde esse homem cria 鈥渁rtif铆cios鈥, 鈥渁rtimanhas鈥 com as quais procura dominar a vida e, com essa domina莽茫o, proteger-se da sua pr贸pria impot锚ncia. Precisa proteger-se, fundamentalmente, daquele tipo que mais se aproxima da vida enquanto um poder de afirma莽茫o, ou seja, o homem do cristianismo precisa proteger-se do homem nobre.

O homem nobre 茅 o senhor da sua a莽茫o: 茅 ele quem cria as suas regras e valores. Tudo parte dele. Tudo dele se origina. Diante da afirma莽茫o da sua vontade prostra-se todo aquele que n茫o compartilha com ele dessa for莽a afirmativa, dessa for莽a ativa. O que n茫o 茅 nobre 茅 o que 鈥渟obra鈥: 茅 o estranho, o diferente. Caso a honra exista essa s贸 pode existir entre os fortes: somente frente aos iguais 茅 que devem existir deveres. Em rela莽茫o ao estranho, ao diferente, isto 茅, frente 脿queles que n茫o possuem a mesma for莽a pode-se agir ao bel prazer ou segundo Nietzsche: 鈥渃omo quiser o cora莽茫o鈥. O homem nobre n茫o conhece o que seja justi莽a, se se concebe por justi莽a algo do g锚nero: 鈥渄ireitos iguais para todos鈥, pois direitos, assim como deveres s贸 existem entre os poderosos. O poder do nobre est谩 na sua for莽a de a莽茫o, na sua for莽a ativa 鈥 que por ser sua 茅 sempre uma 鈥渂oa鈥 a莽茫o por mais violenta e irasc铆vel que ela possa ser. Pois bem, ser nobre 茅 ser for莽a engendradora de a莽玫es. Enquanto expressa essa for莽a ele emerge como aquele que afirma a sua vontade, e, dela se esquece, para que essa vontade possa novamente renascer, desde esse mesmo esquecimento. O esquecimento 茅, portanto, o que permite que o homem 鈥渟aia鈥 de uma a莽茫o de modo a poder vir a afirmar outra. E mais: 茅 esse esquecimento que d谩 a leveza caracter铆stica do nobre 鈥 leveza que caracteriza, de igual modo, a crian莽a.

Cita莽茫o:
N茫o tomar a s茅rio os seus inimigos e as suas desgra莽as 茅 o sinal caracter铆stico das naturezas fortes que se acham na plenitude do seu desenvolvimento e que possuem uma superabund芒ncia de for莽a pl谩stica, regeneradora e curativa, que sabe esquecer. (um bom exemplo disso nos tempos modernos 茅 Mirabeau, que n茫o conservava na mem贸ria os insultos nem as inf芒mias, e que n茫o podia perdoar, simplesmente porque esquecia). [NIETZSCHE, F. Para Al茅m do Bem e do Mal. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1999, p. 43.]


O nobre n茫o se at茅m a nada por muito tempo e, isso porque ele se mant茅m imerso na flu锚ncia da vida. O nobre n茫o se prende ao que foi feito porque est谩 sempre lan莽ado no que ainda est谩 por vir. 脡 como se em cada ato seu, ele renascesse para a descoberta do mundo. Da铆 a sua leveza: a leveza de quem acaba de nascer, leveza de quem ainda n茫o traz consigo o peso dos ju铆zos j谩 estabelecidos acerca dos homens e das coisas. A leveza da crian莽a que, por n茫o levar as coisas a s茅rio, esquece constantemente das coisas que ela mesma afirma. Por conseguinte, o nobre 茅 incapaz de ressentimentos, pois esses implicariam num atavismo: em manter-se atado num mesmo sentimento. Se o nobre 茅 muitas vezes cruel com o que 茅 estranho, com o que 茅 diferente, essa crueldade n茫o se funda em nenhum rancor, em nenhum ressentimento. Ele 茅 cruel 煤nica e exclusivamente porque n茫o pode deixar de ser. Ele 茅 naturalmente forte e tem de expressar-se como tal: tem de dominar, subjugar todo aquele que n茫o compartilha da sua for莽a. E quando o homem nobre se disp玫e a ajudar o fraco, ele nunca ajuda movido pela compaix茫o, mas sim pelo 鈥溍璵peto gerado pela abund芒ncia de poder.鈥 Pois bem, o nobre 茅 a express茫o primordial da vida como vontade de pot锚ncia. A sua a莽茫o 茅 sempre verdadeira e gratuita. Verdadeira na medida em que a pr贸pria vida a imp玫e. Gratuita porque sendo imposta pela vida, ela n茫o possui nenhuma utilidade para fora dela mesma. Poder铆amos mesmo dizer que o nobre 茅 o homem de solid茫o e liberdade.

Frente aos tipos psicol贸gicos descritos por Nietzsche 茅 o tipo representado pelo homem do cristianismo, pelo homem do rebanho que mais se aproxima de n贸s: da tend锚ncia de nossa exist锚ncia cotidiana de se submeter ao jugo do p煤blico, da publicidade (daquilo que pertence a todo mundo e, por conseguinte, n茫o pertence a ningu茅m). Ou seja, nos encontramos pr贸ximos da situa莽茫o do rebanho na medida em que o sujeito da nossa exist锚ncia cotidiana, n茫o 茅 outro que o impessoal. Por sua vez, o esquecimento que nos toma cotidianamente 茅 de natureza contr谩ria a do esquecimento pr贸prio das naturezas fortes. Se o nobre esquece do que fez, para que o seu fazer possa sempre renascer desse esquecimento, n贸s nos esquecemos, precisamente, desse car谩ter ef锚mero das nossas a莽玫es, do nosso fazer no mundo. Ao contr谩rio do nobre, esquecemos que todo fazer 茅 fazer para nada e para ningu茅m, 茅 fazer por fazer. Fazer para esquecer. Esquecemos

desse tipo mais radical de esquecimento. Isso porque nos mantemos presos no que j谩 se encontra feito, nos apraz repetir o que j谩 foi dito... Cotidianamente delegamos a responsabilidade desse feito e desse dito a algu茅m que se perdeu no indiferenciado dos nossos dias. Assim, porque, cotidianamente delegamos a responsabilidade do que 茅 feito e dito a outrem, precisamos sempre que esse outrem nos alimente com algo novo, para que possamos continuar a repeti-lo. 脡 assim que hoje vivemos num estado de continua imperman锚ncia, ou seja: como foi visto acima, n茫o permanecemos tempo suficiente em n贸s mesmos. Coisa completamente distinta do que acontece com o nobre que renasce, continuamente desde a sua pr贸pria for莽a de cria莽茫o. N贸s, homens modernos, simplesmente saltamos de uma novidade para outra, contudo essa novidade n茫o 茅 algo criado por n贸s, n茫o nasce da afirma莽茫o da nossa vontade, mas, surge como fruto do falat贸rio acerca das coisas desse nosso mundo moderno. Diferentemente do nobre, que jamais se perde no que dito pela multid茫o, que jamais se refugia no aconchego do rebanho nem na certeza e seguran莽a daquilo que j谩 se encontra feito.

Pois bem. N贸s nos aproximamos do Homem do cristianismo com algumas moderniza莽玫es, pr贸prias de nossa 茅poca. Por exemplo: no lugar de criarmos uma 鈥渙utra vida鈥, n贸s, como vimos, inventamos o mundo tecnol贸gico, onde existem explica莽玫es para quase todos os males que nos atormentam. Se antes, para o tipo crist茫o, a dist芒ncia que havia entre o mundo sens铆vel (em cont铆nuo devir, em cont铆nuo fluir) e o supra-sens铆vel era a dist芒ncia que se verificava entre o material e o espiritual. Hoje a dist芒ncia que existe entre o real e o virtual. Na esfera virtual somos capazes de conhecer uma quantidade extraordin谩ria de coisas e de pessoas, sem v锚-las ou toca-las. Assim, n贸s nos resguardamos de n贸s mesmos ao nos resguardarmos do outro. Poder铆amos mesmo dizer que hoje, carecemos de solid茫o. O pensamento filos贸fico, principalmente.

Num escrito sobre Her谩clito, Nietzsche nos diz:

Cita莽茫o:
[...] Quando em um fil贸sofo h谩 orgulho, 茅 um grande orgulho. Sua atua莽茫o nunca o aponta a um p煤blico, 脿 aprova莽茫o das massas e ao coro aclamador dos contempor芒neos. Tra莽ar solitariamente o caminho 茅 pr贸prio da ess锚ncia do fil贸sofo. [NIETZSCHE, F. Her谩clito. S茫o Paulo: Editora Abril Cultural, Cole莽茫o os Pensadores, 1973, vol. I, p. 57.]


Em Nietzsche h谩, sem d煤vida, um grande orgulho e uma profunda solid茫o. Conv茅m, entretanto, lembrar que a solid茫o de Nietzsche n茫o se deve simplesmente ao fato de ele n茫o ter sido totalmente compreendido, seja nessa nossa 茅poca, seja na sua. A solid茫o de Nietzsche 茅 inerente a radicalidade da sua quest茫o 鈥 茅 inerente 脿 pr贸pria constitui莽茫o do fen么meno da vida. Isto 茅: a vida, em seu modo de ser mais pr贸prio, exige solid茫o. Contudo, nada parece mais dif铆cil do que a tarefa da solid茫o. Diferente de encontrar-se sozinho, sem a companhia e o reconhecimento de outros homens, a solid茫o 茅, antes, uma condi莽茫o Humana. N茫o 茅 algo que esteja sobre a tutela de nosso querer. Assumir e afirmar essa condi莽茫o implica em afirmar nossa finitude. Significa assumir o fato de que n茫o existe nada sob os nossos p茅s. Nenhum fundamento, nada que sirva de base para as nossas a莽玫es, nada que explique o porqu锚 de sermos o que somos. Assumir a solid茫o que nos constitui 茅, fundamentalmente, assumir a vida como uma tarefa de cria莽茫o. Tarefa na qual, esse mundo que nos 茅 dado pronto, feito, perfeito, tem que ser esquecido para que possa de novo renascer 鈥 desde uma perspectiva que, nesse mesmo mundo se mant茅m ainda em lat锚ncia. 脡 como se precis谩ssemos conhecer o passado, conhecer toda uma tradi莽茫o de pensamento, para procurar o que nessa tradi莽茫o se mant茅m indecifrado; o que nesse passado ainda est谩 por vir. Talvez seja esse o sentido das palavras de Nietzsche no pr贸logo do seu Zaratustra, quando ele nos fala que estamos no meio, entre o animal (o que foi) e o super-homem (o que vir谩). Ele nos diz:

Cita莽茫o:
O homem 茅 uma corda estendida entre o animal e o super-homem 鈥 uma corda sobre um abismo. 脡 o perigo de transp么-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para tr谩s, o perigo de tremer e parar. O que h谩 de grande no homem, 茅 ser ponte e n茫o meta: o que se pode amar no homem 茅 ser uma transi莽茫o e um ocaso. [NIETZSCHE, F. Assim Falava Zaratustra. Lisboa: Guimar茫es & Guimar茫es, 1987, p. 19.]


Assumir essa condi莽茫o numa tarefa, num fazer 茅 ter orgulho. Um grande orgulho. Gostaria de terminar esse artigo com um poema de Jo茫o Cabral de Mello [sic] Neto:



O Palo Seco

Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante,
O Cante sem mais nada

Se diz a palo seco
A esse cante despido:
Ao cante que se canta.
Sob o sil锚ncio 脿 pino.
O cante a palo seco.
脡 o cante mais s贸:
脡 cantar num deserto
Devassado de sol;
脡 o mesmo que canta
Num deserto sem sombra
Em que a voz s贸 disp玫e
Do que ela mesma ponha

(...)

O cante a palo seco
n茫o 茅 um canto a esmo
exige ser cantado
com todo ser aberto;
茅 um cante que exige
ser-se ao meio dia
que 茅 quando a sombra foge
e n茫o medra a magia

(...)

A palo seco 茅 o cante
de caminhar mais lento:
por ser a contrapelo,
por ser a contravento;

(...)

O cante a palo seco 茅 o cante
que mostra mais soberba
e que n茫o se oferece.
Que se toma ou deixa;
Cante que n茫o se enfeita,
Que tanto se-lhe d谩;
脡 cante que n茫o se canta,
Cante que a铆 est谩.



Refer锚ncias Bibliogr谩ficas
MARTIN, Heidegger. Introdu莽茫o a Metaf铆sica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.
_______________. Ser e Tempo. Petr贸polis: Editora Vozes, 1989, p. 78.
NIETZSCHE, F. Para Al茅m do Bem e do Mal. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1999.
____________. Her谩clito. S茫o Paulo: Editora Abril Cultural, Cole莽茫o os Pensadores, 1973.
____________. Assim Falava Zaratustra. Lisboa: Guimar茫es & Guimar茫es, 1987.
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