Seis ou treze coisas que eu aprendi sozinho
por Manoel de Barros
Com cem anos de esc贸ria uma lata aprende a rezar.
Com cem anos de escombros um sapo vira 谩rvore e cresce por cima das pedras at茅 dar leite.
Insetos levam mais de cem anos para uma folha s锚-los.
Uma pedra de arroio leva mais de cem anos para ter murm煤rios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor as cores tortas.
Com menos de tr锚s meses mosquitos completam a sua eternidade.
Um ente enfermo de 谩rvore, com menos de cem anos, perde o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos bra莽os da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrou莽os t锚m a mesma sintaxe que os escorpi玫es de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de prefer锚ncia no inverno.
O v么o do jaburu 茅 mais encorpado do que o v么o das horas.
Besouro s贸 entra em amavios se encontra a f锚mea dele vagando por esc贸rias...
A quinze metros do arco-铆ris o sol 茅 cheiroso.
Carac贸is n茫o aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos, se embutem at茅 o latejo.
Nas brisas vem sempre um sil锚ncio de gar莽as.
Mais alto que o escuro 茅 o rumor dos peixes.
Uma 谩rvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer parte dos p谩ssaros que a gorjeiam.
Quando a r茫 de cor palha est谩 para ter 鈥 ela espicha os olhinhos para Deus.
De cada vinte calangos, enlanguescidos por estrelas, quinze perdem o rumo das grotas.
Todas estas informa莽玫es t锚m soberba desimport芒ncia cient铆fica 鈥 como andar de costas.
BARROS, Manoel de. Seis ou treze coisas que eu aprendi sozinho.