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A terceira margem do rio - Guimar茫es Rosa

 
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t. h. abrahao

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MensagemEnviada: 26/06/2008 - 19:20:50    Assunto: A terceira margem do rio - Guimar茫es Rosa Responder com cita莽茫o

A terceira margem do rio
por Guimar茫es Rosa



Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informa莽茫o. Do que eu mesmo me alembro, ele n茫o figurava mais est煤rdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. S贸 quieto. Nossa m茫e era quem regia, e que ralhava no di谩rio com a gente 鈥 minha irm茫, meu irm茫o e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a s茅rio. Encomendou a canoa especial, de pau de vinh谩tico, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, pr贸pria para dever durar na 谩gua por uns vinte ou trinta anos. Nossa m茫e jurou muito contra a id茅ia. Seria que, ele, que nessas artes n茫o vadiava, se ia propor agora para pescarias e ca莽adas? Nosso pai nada n茫o dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais pr贸xima do rio, obra de nem quarto de l茅gua: o rio por a铆 se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de n茫o se poder ver a forma da outra beira. E esquecer n茫o posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chap茅u e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, n茫o pegou matula e trouxa, n茫o fez a alguma recomenda莽茫o. Nossa m茫e, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de p谩lida, mascou o bei莽o e bramou: 鈥 "C锚 vai, oc锚 fique, voc锚 nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir tamb茅m, por uns passos. Temi a ira de nossa m茫e, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um prop贸sito perguntei: 鈥 "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele s贸 retornou o olhar em mim, e me botou a b锚n莽茫o, com gesto me mandando para tr谩s. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo 鈥 a sombra dela por igual, feito um jacar茅, comprida longa.

Nosso pai n茫o voltou. Ele n茫o tinha ido a nenhuma parte. S贸 executava a inven莽茫o de se permanecer naqueles espa莽os do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela n茫o saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que n茫o havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa m茫e, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a raz茫o em que n茫o queriam falar: doideira. S贸 uns achavam o entanto de poder tamb茅m ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escr煤pulo de estar com alguma feia doen莽a, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua fam铆lia dele. As vozes das not铆cias se dando pelas certas pessoas 鈥 passadores, moradores das beiras, at茅 do afastado da outra banda 鈥 descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Ent茫o, pois, nossa m茫e e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a id茅ia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de p茫o, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, t茫o custosa para sobrevir: s贸 assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, n茫o remou para c谩, n茫o fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa m茫e sabia desse meu encargo, s贸 se encobrindo de n茫o saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa m茫e muito n茫o se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irm茫o dela, para auxiliar na fazenda e nos neg贸cios. Mandou vir o mestre, para n贸s, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que n茫o valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ningu茅m se chegar 脿 pega ou 脿 fala. Mesmo quando foi, n茫o faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, n茫o venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brej茫o, de l茅guas, que h谩, por entre juncos e mato, e s贸 ele conhecesse, a palmos, a escurid茫o, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. 脌s penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que n茫o queria, s贸 com nosso pai me achava: assunto que jogava para tr谩s meus pensamentos. O severo que era, de n茫o se entender, de maneira nenhuma, como ele ag眉entava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terr铆veis de meio-do-ano, sem arrumo, s贸 com o chap茅u velho na cabe莽a, por todas as semanas, e meses, e os anos 鈥 sem fazer conta do se-ir do viver. N茫o pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, n茫o pisou mais em ch茫o nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarra莽茫o da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas n茫o armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um f贸sforo. O que consumia de comer, era s贸 um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as ra铆zes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bast谩vel. N茫o adoecia? E a constante for莽a dos bra莽os, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, a铆 quando no lan莽o da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-谩rvore descendo 鈥 de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. N贸s, tamb茅m, n茫o fal谩vamos mais nele. S贸 se pensava. N茫o, de nosso pai n茫o se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era s贸 para se despertar de novo, de repente, com a mem贸ria, no passo de outros sobressaltos.

Minha irm茫 se casou; nossa m茫e n茫o quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai s贸 com a m茫o e uma caba莽a para ir esvaziando a canoa da 谩gua do temporal. 脌s vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos p锚los, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das pe莽as de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de n贸s; n茫o tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que 脿s vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: 鈥 "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que n茫o era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele n茫o se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, ent茫o, n茫o subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no n茫o-encontr谩vel? S贸 ele soubesse. Mas minha irm茫 teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irm茫 de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos bra莽os a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai n茫o apareceu. Minha irm茫 chorou, n贸s todos a铆 choramos, abra莽ados.

Minha irm茫 se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irm茫o resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa m茫e terminou indo tamb茅m, de uma vez, residir com minha irm茫, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei 鈥 na vaga莽茫o, no rio no ermo 鈥 sem dar raz茫o de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explica莽茫o, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem j谩 tinha morrido, ningu茅m soubesse, fizesse recorda莽茫o, de nada mais. S贸 as falsas conversas, sem senso, como por ocasi茫o, no come莽o, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que n茫o estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem No茅, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu n茫o podia malsinar. E apontavam j谩 em mim uns primeiros cabelos brancos.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo aus锚ncia: e o rio-rio-rio, o rio 鈥 pondo perp茅tuo. Eu sofria j谩 o come莽o de velhice 鈥 esta vida era s贸 o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, 芒nsias, c谩 de baixo, cansa莽os, perrenguice de reumatismo. E ele? Por qu锚? Devia de padecer demais. De t茫o idoso, n茫o ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o cora莽茫o. Ele estava l谩, sem a minha tranq眉ilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse 鈥 se as coisas fossem outras. E fui tomando id茅ia.

Sem fazer v茅spera. Sou doido? N茫o. Na nossa casa, a palavra doido n茫o se falava, nunca mais se falou, os anos todos, n茫o se condenava ningu茅m de doido. Ningu茅m 茅 doido. Ou, ent茫o, todos. S贸 fiz, que fui l谩. Com um len莽o, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, a铆 e l谩, o vulto. Estava ali, sentado 脿 popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que refor莽ar a voz: 鈥 "Pai, o senhor est谩 velho, j谩 fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, n茫o carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu cora莽茫o bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em p茅. Manejou remo n'谩gua, proava para c谩, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o bra莽o e feito um saudar de gesto 鈥 o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu n茫o podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de l谩, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de al茅m. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perd茫o.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ningu茅m soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que n茫o foi, o que vai ficar calado. Sei que agora 茅 tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, ent茫o, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem tamb茅m numa canoinha de nada, nessa 谩gua que n茫o p谩ra, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro 鈥 o rio.



ROSA, Guimar茫es. "A terceira margem do rio". In: Primeiras est贸rias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 32.
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