Poema pouco original do medo
Alexandre O'Neill
O medo vai ter tudo
pernas
ambul芒ncias
e o luxo blindado
de alguns autom贸veis
Vai ter olhos onde ningu茅m o veja
m茫ozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos n茫o s贸 nas paredes
mas tamb茅m no ch茫o
no teto
no murm煤rio dos esgotos
e talvez at茅 (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na 贸pera
sess玫es cont铆nuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
confer锚ncias v谩rias
congressos muitos
贸timos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
her贸is
(o medo vai ter her贸is!)
costureiras reais e irreais
oper谩rios
(assim assim)
escritur谩rios
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
pa铆ses
suspeitas como toda a gente
muit铆ssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que 茅 justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos