t. h. abrahao
Fundador PN

Idade: 41 Registrado: 22/01/05 Mensagens: 574 Localiza莽茫o: s茫o jos茅 do rio preto - sp
|
|
Uma viagem a Citera
Charles Baudelaire
Voava o meu cora莽茫o como um p谩ssaro ocioso
E ao redor do cordame em pleno azul pairava;
Sob um l铆mpido c茅u, o navio flutuava
Como um anjo inebriado 脿 luz do sol radioso.
Mas que ilha 茅 esta, triste e sombria? 鈥 脡 Citera
Dizem-nos, um pais em can莽玫es celebrado
E dos jovens, outrora, o banal Eldorado.
Olhai, enfim: um solo in贸spito, eis o que era.
鈥 Ilha dos cora莽玫es em festiva embriaguez!
Da antiga V锚nus nua a imagem soberana
Como um perfume 脿 tona de teus mares plana
E enche os esp铆ritos de amor e languidez.
Ilha do verde mirto flores vistosas,
Venerada afinal por todas as na莽玫es,
Onde os suspiros de ardorosos cora莽玫es
Flutuam como o incenso entre jardins de rosas
Ou como nos pombais o eterno arrulho inquieto!
鈥 Citera era somente um ch茫o dos mais desnudos,
Um 谩spero deserto a ecoar gritos agudos.
Eu via ali, no entanto, um singular objeto!
N茫o era um templo antigo 脿 sombra das figueiras,
Onde a sacerdotisa, amorosa das flores,
Ia, o corpo a pulsar em secretos calores,
A t煤nica entreabrindo 脿s brisas passageiras;
Mas eis que bordejando ao p茅 da costa agreste,
As velas pondo em fuga as aves e os sarga莽os,
Vimos ent茫o que era uma forca de tr锚s bra莽os,
A erguer-se negra para o c茅u como um cipreste.
Ferozes p谩ssaros que o odor da morte ati莽a
Destro莽avam com raiva um p煤trido enforcado,
Todos cravando, qual ve ainda sangrento da carni莽a;
Os olhos eram dois buracos e, rasgado,
O ventre escoava os intestinos sobre as coxas,
E seus algozes, comensais de entranhas roxas,
A bicadas o sexo haviam-lhe arrancado.
A seus p茅s, um tropel de bestas ululantes,
Focinho arreganhado, 谩s cegas rodopiava;
Uma fera maior ao centro se agitava,
Como um executor em meio aos ajudantes.
脫 filho de Citera, herdeiro da luz pura,
Em teu sil锚ncio suportavas tais insultos
Como dura expia莽茫o dos teus infames cultos
E pecados, sem ter direito a sepultura!
Rid铆culo enforcado, eu sofro iguais horrores,
E sinto, ao contemplar-te as v茅rtebras pendentes,
Subir-me, qual se fosse um v么mito entre os dentes,
A torrente de fel das minhas velhas dores;
Ao ver-te, pobre-diabo, ainda suspenso agora,
Em mim senti todos os bicos e os caninos
Dos abutres em f煤ria e tigres assassinos
Que amavam tanto a carne espeda莽ar-me outrora.
鈥 Transl煤cido era o c茅u, o mar em calmaria;
Mas para mim tudo era escuro e solit谩rio,
E o cora莽茫o, como entre as sombras de um sud谩rio,
Eu envolvera nessa entranha alegoria
V锚nus, em tua ilha eu vi um s贸 despojo
Simb贸lico: uma forca, e nela a minha imagem...
鈥 Ah, Senhor, dai-me a for莽a e insuflai-me a coragem
De olhar meu cora莽茫o e meu corpo sem nojo!
BAUDELAIRE, Charles. "Uma viagem a Citera". In: As flores do mal. Trad. de Ivan Junqueira.
|
|