Fabr铆cio de Lima

Idade: 37 Registrado: 28/09/09 Mensagens: 37
|
|
NIETZSCHE E A PALAVRA
(PALESTRA)
Aqui, nesta estranha comemora莽茫o dos 鈥淐em anos sem Nietzsche鈥, n茫o pretendo 鈥渄izer Nietzsche鈥; aqui pretendo somente cravar um ferr茫o que nos atravesse, a mim e a Nietzsche, a mim que estou pensando o real, a funda莽茫o do ser, a revolu莽茫o, o ser e a palavra, da mesma maneira que ao louco sagrado s贸 importava o ser, tendo como 煤nica meta desvendar o caminho do ser, que 茅 鈥渙 caminho do homem sem Deus鈥.
Dizer um autor 茅 uma impossibilidade: ou melhor, s贸 o podemos dizer nos dizendo a n贸s, ex-pondo o nosso horizonte, o nosso eixo, a nossa carne, sangue e alma: por isso e s贸 assim posso dizer o outro: ao tentar dizer a mim, posso enfim, tentar dizer o outro. 脡 este o caso: Nietzsche 茅 um dos campos fundamentais para pensarmos aquilo que configuramos hoje como realidade e possibilidade de mudan莽a al茅m de um marxismo fajuto destro莽ado pelo mundo, por uma ocidentalidade que ele mesmo tratou de alimentar com todas as loucuras naturalizadas que conseguiu encontrar.
E 茅 esse mesmo mundo ocidental que cria e alimenta um tipo de produ莽茫o que 茅 unilinear, unifocal, univocal; e essa Produ莽茫o Geral 茅 precisamente aquilo que aparece, aquilo que forma, conforma e formata nosso corpo, nosso desejo, nossa interioridade, nossos mist茅rios, nossos limites, nossas necessidades, nossas impossibilidades, nossas Ci锚ncias, Filosofias, Raz玫es e Morais. N贸s somos as ilus玫es e os simulacros dessa Produ莽茫o que se apresenta e se quer e s贸 se entende como irrevers铆vel, dessa produ莽茫o praticamente intocada pelas leis de qualquer Utopia, de qualquer Revolu莽茫o ou Vontade: n贸s, os criadores, nos perdemos nos labirintos projetados por n贸s mesmos e, perdidos, esquecemos o caminho de volta, principalmente porque pela l贸gica da produ莽茫o n茫o h谩 caminho de volta, n茫o h谩 revers茫o, s贸 h谩 natureza e realidade.
Marx lembrou o Capital, o centro da produ莽茫o, desmascarando grande parte das suas ast煤cias mas n茫o podia desmontar o formatador: o Capital foi seu ponto hipn贸tico; as revolu莽玫es que nasceram da sua caneta e do seu 贸dio n茫o conseguiram desmantelar o irrevers铆vel tradicional e necess谩rio da Produ莽茫o, o irrevers铆vel da hist贸ria, o irrevers铆vel do Poder, o irrevers铆vel da Mem贸ria, o irrevers铆vel da Raz茫o; as revolu莽玫es marxistas nasceram exata e precisamente para alimentar essa mesma produ莽茫o unilinear e monstruosa; vivem para defend锚-la e ordena-la, vivem para apagar qualquer oposi莽茫o a essa produ莽茫o. Pensando realizar uma sociedade livre seguiram, sem saber, os rumos do mesmo Capital que seduzia Marx e seduz, hoje, os marxistas da superf铆cie, pois tudo que desejam 茅 criar um 鈥渟istema social鈥 fundado numa 鈥減rodu莽茫o maravilhosa鈥. Tudo continuou e continua como se uma for莽a metaf铆sica dirigisse o mundo, aquela mesma for莽a tamb茅m desvendada por Marx como aliena莽茫o e ideologia, e que hoje parecem ser mais profundas. E o centro da fera, o eixo do monstro, continua o mesmo.
A palavra de Marx 茅 pura Ci锚ncia, como ele desejava que fosse; as palavras dos marxismos s茫o palavras cient铆ficas, isto 茅, palavras irrevers铆veis, palavras da verdade, palavras reais, palavras da realidade, palavras que parecem tocar o real, palavras de ordem, palavras que devem produzir o mundo com uma outra ordem: a ordem da produ莽茫o, a mesma produ莽茫o irrevers铆vel, o mesmo inescap谩vel alienante. O 鈥渙utro mundo鈥 marxista tradicional e dos adolescentes revoltadinhos de classe m茅dia do mundo inteiro 茅 somente o 鈥渕esmo mundo鈥, perverso e irrevers铆vel do Capital, camuflado, ou invertido como queria Marx, mas ainda assim o mesmo mundo. No marxismo n茫o h谩 o desmantelo da sedu莽茫o, n茫o h谩 a circularidade, n茫o h谩 reversibilidade, n茫o h谩 nada al茅m de uma natureza feita e bruta, de um homem que deve obedecer a uma ordem social maior, a um ser em conson芒ncia, em acordo, enquadrado no quadrado da norma, da verdade, da realidade, da maioria. As palavras dos marxismos s茫o palavras da produ莽茫o e o que n贸s, marxistas, buscamos depois deste s茅culo XX 茅 como sair do atoleiro da produ莽茫o, do campo de for莽as que nos impede de agir, de pensar, de revolucionar. N茫o 茅 f谩cil! mas j谩 temos muitas pistas. Uma delas est谩 no pr贸prio s茅culo de Marx. E as pistas n茫o s茫o somente marxistas, como querem os marxistas de carteirinha: o universo 茅 maior do que aquilo que est谩 nas cartilhas, do que aquilo que 鈥渆st谩 escrito鈥: certa dial茅tica conseguiu sobreviver ao marxismo! A sedu莽茫o, as solu莽玫es, envolve todos os elementos, est茫o em todos os lugares, em todas as palavras, id茅ias e clivagens. As pistas est茫o onde menos se espera. Em Nietzsche, por exemplo.
Ele instaura na Filosofia o mesmo que Michelet desenvolveu como Hist贸ria: a sedu莽茫o liter谩ria, a sedu莽茫o da palavra enquanto 鈥渓iteratura鈥. Para n贸s a literatura 茅 somente um 鈥渃ontar historia鈥, algo para o lazer, para o domingueiro, pequeno burgu锚s e filisteu descanso do corpo e da quase alma. Domesticada, a literatura se tornou um bibel么 roendo um osso num canto da casa. A palavra deixou de poder ser ouvida, lida, instalada, dissolvendo e recriando: vivemos um tempo onde a palavra se revolve para sobreviver, se eq眉ivale e se equipara a uma produ莽茫o: ela perdeu seu estatuto virtual, sua dimens茫o de realidade virtual, simplesmente porque a realidade 茅, essencialmente virtual e virtualizante. Produzida igual 脿 produ莽茫o, imitando os achaques e as certezas da Raz茫o e da Ci锚ncia entre os s茅culos XVI e XX, a palavra, aquela que 茅 a criadora da virtualidade, est谩 em perigo. E Nietzsche 茅 uma palavra que pode revolucionar ainda a palavra, 茅 uma palavra que incomoda a palavra, 茅 uma palavra que busca o retorno da palavra, o retorno do gozo ao prazer, do consumo ao antes da produ莽茫o: Nietzsche proclama a palavra como fragmento, como ilumina莽茫o, como aquilo que mina por n茫o aceitar, criando um v铆rus dentro da certeza monol铆tica da palavra crente, da palavra da ordem, aquela que diz completamente, daquela que 茅 inteira, total, totalizante, totalit谩ria; daquela palavra que ousa somente 鈥渄izer o mundo鈥, esquecida que ela 茅 da mesma subst芒ncia do mundo. H谩, tamb茅m, estreita rela莽茫o entre Nietzsche e as palavras enquanto um tipo de corpo. A mesma fragmenta莽茫o, a mesma utiliza莽茫o de m谩scaras, a mesma simetria, descontinuidades, a mesma falta de centro, a mesma multiplicidade de centros, a mesma constru莽茫o conjugada, livre e prisioneira dos outros e dos ordenamentos que mesmo n茫o aceitos est茫o sempre presentes. Uma palavra que nasce como uma seiva, um esperma, um suor, uma saliva, ou mesmo sangue, escremento, urina: uma palavra secretada.
Balzac e Flaubert, ao inventarem a Literatura, delinearam tamb茅m o poder que atrair谩 Nietzsche: a palavra que cria, mant茅m e dissolve o mundo, a palavra que martela a si mesma at茅 sangrar o mundo, martela at茅 desmantelar a palavra. N茫o demolir um 鈥渕undo de palavra鈥, mas arrasar o mundo dos homens, o mundo da natureza, o universo da mat茅ria, o mundo do corpo, do desejo, da cren莽a, da vontade, dos sentimentos, das virtudes, dos pecados, da palavra e da liberdade. E martelando com palavras a 鈥渟ubst芒ncia do mundo鈥, quebrando sua superf铆cie dada pela produ莽茫o, Nietzsche encontrou o vazio fundamental: n贸s mesmos.
E n贸s, seres da ocidental perversidade, somos seres liter谩rios por excel锚ncia [fic莽茫o sobre fic莽茫o]: nosso eixo 茅 ficcional: nele est茫o verdadeiros e leg铆timos personagens liter谩rios (cria莽玫es da palavra e n茫o do 鈥渕undo que se vive鈥), como S贸crates, Deus, Lucifer, Jonas, J贸, Jesus, Maria, Paulo, Dante, Quixote, Hamlet, Romeu, Iago, Fausto, Raskolnikov, Josef K, Bloom, Marcel: esse eixo ficcional formata nossa exist锚ncia: eixo de palavras, imagens, cren莽as, literatura em sua mais profunda ess锚ncia: 茅 da铆 que adv茅m nosso espelho, nossa carne, nosso desejo, nosso sonho.
E Nietzsche sente, percebe, toca pela primeira vez (se esquecermos o maravilhoso Schopenhauer), um mundo como virtualidade, como um tecido muito fino cobrindo o caos, que cada cultura cobre ao seu bel desejo e cren莽a. E para entender, cortar, dissolver e remontar esse tecido-universo formatado por sedu莽玫es e trocas que se apresentam a n贸s alienadas e revertidas numa irreversibilidade metaf铆sica, Nietzsche intui que somente a palavra pode empreender essa aventura que o homem-comum aventura-se todo dia sem compreender: ele cria o mundo n茫o com sua 鈥渆xist锚ncia鈥, mas com 鈥渓inguagens鈥, as 鈥渓inguagens鈥 das trocas e das 鈥渁ceita莽玫es鈥 (que para n贸s 茅 o trabalho); e essas mesmas 鈥渓inguagens鈥 se tornam 鈥渕undo鈥. S茫o essas 鈥渓inguagens鈥 postas em movimento, im-postas como realidade, sedu莽茫o e troca que vemos como produ莽茫o, circula莽茫o e consumo, que exigir茫o a a莽茫o como princ铆pio do ser: trabalho 茅 rede de cren莽as postas em movimento.
O real, contra-feito de linguagem, irrompe em erup莽茫o, vindo desde o caos at茅 os sentidos e a Raz茫o, numa exist锚ncia que nos 茅 conhecida como palavra. Por sua vez a palavra 茅 a erup莽茫o do real, do real nos aparecendo como sentido. O real se oculta na palavra / a palavra des-vela o real: linguagens (o real/a palavra) que se ro莽am se penetram, se lambem, se dissolvem para dentro: essa circula莽茫o 茅 a fonte mesma da pr谩xis, daquela que nos aparece como real: n贸s nos alimentamos desse circuito: a energia do trabalho que cria o mundo e nos aparece enquanto pr谩xis adv茅m de uma troca, de uma circula莽茫o de significados que, alienados, criam o ser.
N茫o h谩 o mundo e o ser: n茫o h谩 linguagem e ser: o mundo 茅 o mundo do ser: o ser 茅 t茫o somente um ser de linguagem, uma pele de linguagem cobrindo o caos formatado por seus movimentos vitais, sedutivos e em circula莽茫o, em troca e permiss玫es, em cren莽a e riso, em dor e suor: para nada, mas ainda assim em movimento e 芒nsia de significado. O ser n茫o pode ver, ouvir, tocar, pensar ou viver nada mais que um mundo formatado por ele: Nietzsche sentiu que as camisas de for莽a de certa l贸gica e do cristianismo [nossa literatura central, fic莽茫o alienada aparecendo como a realidade], fundamento da ocidentalidade como uma tribo, 茅 somente palavra sobre palavra, cren莽a sobre cren莽a, imagin谩rio sobre imagin谩rio, pele sobre caos: outras palavras criariam outro mundo, outras palavras, outra a莽茫o, outro homem, outra vontade, outra sedu莽茫o livre de um n茫o aparecer monstruoso.
Por isso Nietzsche n茫o 茅 um Filosofo: aquele que 茅 鈥渁migo da sabedoria鈥, aquele que 茅 鈥渃ompanheiro do pensamento鈥, aquele que 鈥渄esenvolve a reflex茫o e o conceito鈥, 鈥渁quele que guia鈥: Nietzsche 茅 um Escritor: aquele que 茅, antes de tudo, um Libertino; aquele que se libertou do mundo enquanto realidade natural, realidade inescap谩vel: somos, n贸s e o mundo, linguagens materializantes que podem criar outras linguagens, outros mundos. O Filosofo tem um compromisso com o conceito que o Escritor, enquanto Libertino, n茫o tem nem pode ter: o conceito adora se agarrar ao natural, ao eterno, ao universal, ao Estado; e o Filosofo, enquanto Escritor, vive para dissolver, vive para martelar, desmantelar, vive para discordar, vive para tornar a sedu莽茫o uma met谩fora de destrui莽茫o e clara cria莽茫o: vive para n茫o se satisfazer, vive para re-verter, vive para per-verter, vive para n茫o crer e, acima de tudo, para n茫o solucionar, mas p么r em 锚xtase aquilo que se vive somente como unidimencionalidade [diferente da literaturazinha brasileira com seus probleminhas de 鈥渃lasse m茅dia鈥漖.
E o mundo se dissolve numa possibilidade pl谩stica de mudan莽a, de revolu莽茫o, de muta莽茫o. N茫o precisamos mais esperar as 鈥渓eis sociais鈥 ou as 鈥渓eis da natureza鈥: basta-nos a 鈥渧ontade de poder鈥, a 鈥渧ontade da palavra鈥, o sentido da consci锚ncia e do mundo enquanto linguagens em modifica莽茫o e resist锚ncia. Essa resist锚ncia somente a palavra pode se propor a dissolver. 鈥淒errubar 铆dolos鈥, como diria Nietzsche; com 鈥渧erdades sangrentas鈥, com martelo e fogo.
O Estado tem medo daquele que pensa: e o Estado n茫o somente como governo, mas o Estado como uma s铆ntese viva do aparecer da produ莽茫o. O medo 脿 reflex茫o que nega, dissolve, movimenta, apavora praticamente todo mundo. O vosso filisteismo 茅 visceral, carnal, muscular, epid茅rmico e l贸gico: sentimos medo de toda sombra que se p玫e a pensar, que se p玫e a seduzir, que p玫e a sedu莽茫o no lugar da produ莽茫o.
Dizemos: O 鈥渕undo ocidental鈥 茅 somente uma tribo entre tribos, cada uma criando um universo 脿 sua imagem e diferen莽a!
Dizemos: Jesus nunca existiu como homem, como hist贸ria e lugar. 脡 somente uma cria莽茫o m铆tica, liter谩ria!
Dizemos: Deus n茫o somente est谩 morto como jamais existiu ou existir谩 a n茫o ser enquanto imagin谩rio de certas tribos, sendo, isso sim, o personagem liter谩rio central do nosso teatro viv锚ncial!
Dizemos: O mundo, a realidade, 茅 somente um 鈥減rograma鈥 tribal!
Dizemos: O homem n茫o existe, 茅 outra ilus茫o dessa tribo ocidental, constru铆do com a trama dos materiais ficcionais dos outros personagens atrav茅s do tempo!
E poder铆amos dizer muito mais! Mas tudo seria reencaminhado 脿 nossa l贸gica: reencaminhado ao costumeiro sentido apaziguador, reacion谩rio e imobilizador: tudo 茅 consumido, apagado, assimilado pela recep莽茫o daquela l贸gica produtiva que aceitamos como verdadeira. S茫o palavras! Dizem uns. Somente palavras, dizem outros. Um professorzinho 鈥渜uerendo se amostrar鈥. E ningu茅m pensa, ningu茅m sangra, ningu茅m se move num mundo trans-tornado em palavra im贸vel: somente assim a produ莽茫o, a circula莽茫o, o consumo e a burrice saem intocados.
Ler Marx 茅 in煤til! Ler Nietzsche 茅 in煤til! Ler Foucault 茅 in煤til! Ler Baudrillard 茅 in煤til! 鈥淣ingu茅m pode construir em teu lugar as pontes que precisar谩s passar, para atravessar o rio da vida 鈥 ningu茅m exceto tu, s贸 tu鈥, nos diz um Nietzsche j谩 cansado de falar para ningu茅m.
Ler Nietzsche 茅 trilhar um cominho diferente do 鈥渃rente鈥, do 鈥渃rente鈥 em tudo: Nietzsche instaura uma reflex茫o onde a autodetermina莽茫o 茅 o sentido de uma verdadeira vida. Ler Nietzsche n茫o 茅 um aprendizado, um lazer, uma op莽茫o: 茅 uma das poucas sa铆das ainda abertas dentro da estranha hegemonia da mais cruel e cada vez mais fascista realidade. Nietzsche n茫o 茅 uma sa铆da ou um princ铆pio. Nietzsche 茅 a palavra com o poder e a vontade que somente ela possui para revolucionar o mundo. Mas isso j谩 n茫o conseguimos mais vislumbrar, e mesmo alguns de voc锚s ir茫o perguntar se queremos mudar o mundo somente com palavras. 脡 uma pena, mas isso 茅 o nosso mundo! Mundo democr谩tico que aos poucos vai se contorcendo, se torcendo para dentro de si mesmo fazendo aparecer, fazendo se romper de dentro da sua pele virtual os espinhos, as traves, os pilares fascistas da sua interioridade, e ningu茅m pode fazer nada porque todos n贸s aceitamos ser apenas um simulacro da produ莽茫o que n贸s mesmos criamos e j谩 n茫o sabemos mais que a criamos. Para n贸s a sedu莽茫o 茅 somente uma ra莽茫o de cobaia no laborat贸rio do mundo. E essa ra莽茫o, e essa Raz茫o, para n贸s 茅 sempre suficiente. 脡 uma pena, mas ainda nos resta muito. Basta ter coragem. E Nietzsche 茅, sempre, um bom come莽o. |
|