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Snow Crash - Capítulo 1, O Entregador - Neal Stephenson

 
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t. h. abrahao

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MensagemEnviada: 13/02/2009 - 16:25:20    Assunto: Snow Crash - Capítulo 1, O Entregador - Neal Stephenson Responder com citação

Snow Crash - Capítulo 1, O Entregador
Neal Stephenson



O Entregador pertence a uma ordem de elite, uma subcategoria santificada. Ele é cheio de recursos. Neste exato momento, está se preparando para cumprir a terceira missão da noite. Seu uniforme é preto como carvão ativado, filtra a própria luz do ar. Uma bala ricochetearia em seu tecido de aracnofibra como um aríete atingindo a porta de um castelo, mas o excesso de transpiração passa através dele como uma brisa por uma floresta que acabou de ser queimada por um bombardeio de napalm. Nas extremidades do corpo onde os ossos se destacam, o traje tem armagel fragmentada: parece gelatina com cascalho, e protege como uma pilha de catálogos telefônicos.

Quando deram esse serviço a ele, também lhe deram uma arma. O Entregador nunca trabalha com dinheiro em espécie, mas alguém poderia ir atrás dele de qualquer maneira — poderiam querer seu carro, ou sua carga. A arma é minúscula, aerodinâmica, levíssima, o tipo de arma que um designer de moda usaria; ela dispara dardos pequeninos que voam a cinco vezes a velocidade de um avião espião SR-71 e, quando você acaba de usá-la, precisa conectá-la ao isqueiro do carro, porque ela funciona com eletricidade.

O Entregador nunca sacou essa arma com raiva, nem com medo. Ele a sacou uma vez em Gila Highlands. Alguns punks em Gila Highlands, um Suburbiclave metido a besta, queriam uma entrega para eles, e não queriam pagar. Achavam que iriam impressionar o Entregador com um bastão de beisebol. O Entregador sacou sua arma, centrou a mira laser naquele bastão Louisville Slugger em posição de combate, disparou. O coice foi imenso, como se a arma tivesse explodido em sua mão. O terço médio do bastão de beisebol se transformou em uma coluna de serragem queimada acelerando em todas as direções como uma supernova. O punk acabou segurando um cabo do bastão com uma fumaça leitosa saindo pela ponta. E uma cara de burro. Só conseguiu problemas com o Entregador.

Desde então, o Entregador deixou a arma no porta-luvas e passou a confiar, em vez disso, em um par de espadas samurai combinando, que sempre foram suas armas preferidas de qualquer maneira. Os punks de Gila Highlands não ficaram com medo da arma, e por isso o Entregador foi forçado a usá-la. Mas espadas não precisam de demonstração.

O carro do Entregador tem energia potencial suficiente armazenada em suas baterias para disparar um quilo de bacon até o Cinturão de Asteróides. Ao contrário de uma bimbo box ou de um Suburbi beater, o carro do Entregador libera essa energia através de esfíncteres polidos, reluzentes e abertinhos. Quando o Entregador desce o sarrafo, dá merda. Quer falar de contatos pneu-solo? Os pneus do carro que você dirige possuem minúsculos contatos, falam com o asfalto em quatro lugares do tamanho de sua língua. O carro do Entregador tem pneus grandes e pegajosos com contatos pneu-solo do tamanho das coxas de uma mulher gorda. O Entregador está em contato com a estrada, arranca com todo o gás e é capaz de frear bem em cima de uma moedinha.

Por que o Entregador está tão equipado? Porque as pessoas confiam nele. Ele é um modelo para as pessoas. Isto é a América. As pessoas fazem a merda que tiverem vontade de fazer, algum problema? Porque elas têm o direito de fazer isso. E porque elas têm armas e ninguém pode impedi-las, caralho. O resultado disso é que este país possui uma das piores economias do mundo. No fim das contas — estamos falando de balanças comerciais —, depois de termos feito nossos melhores cérebros se mandarem com toda a nossa tecnologia para outros países, depois que as coisas se equilibraram, estão fazendo carros na Bolívia e fornos de microondas no Tadjiquistão e vendendo-os lá mesmo, depois que nossa vantagem em recursos naturais foi tornada irrelevante por gigantescos navios e dirigíveis de Hong Kong que podem enviar carregamentos da Dakota do Norte à Nova Zelândia por uma merreca, depois que a Mão Invisível pegou todas essas iniqüidades históricas e as amassou e esfregou até transformá-las numa ampla camada global de algo que um oleiro paquistanês consideraria prosperidade — sabe do que mais? Só existem quatro coisas que nós fazemos melhor do que todo mundo:


música
cinema
microcódigo (software)
entrega de pizza em alta velocidade


O Entregador costumava fazer software. Ainda faz, de vez em quando. Mas se a vida fosse uma escola primária bonitinha dirigida por Ph.Ds. em educação bem-intencionados, o boletim do Entregador diria: “Hiro é muito inteligente e criativo, mas precisa trabalhar melhor suas habilidades de cooperação”. Então agora ele tem esse outro trabalho. Não requer inteligência nem criatividade — mas também não exige cooperação. É apenas um único princípio: o Entregador cumpre o que promete, sua torta em trinta minutos ou você fica com ela de graça, mata o motorista, fica com o carro dele, entra com uma ação trabalhista. O Entregador trabalha nesse emprego há seis meses, um período rico e extenso pelos seus padrões, e jamais entregou uma pizza em mais de vinte e um minutos.

Ah, eles costumavam discutir quanto aos tempos de entrega, muitos anos de motorista corporativo perdidos: donos de casa, rostos vermelhos e suados com suas próprias mentiras, fedendo a Old Spice e estresse relacionado ao emprego, em pé em suas portas amarelas brilhantes brandindo seus Seikos e mostrando o relógio em cima da pia da cozinha, vou te contar, vocês não sabem ver hora não?

Isso não acontecia mais. A entrega de pizza é uma grande indústria. Uma indústria bem gerenciada. As pessoas iam para a Universidade da Pizza CosaNostra por quatro anos só para aprender isso. Passavam por suas portas incapazes de escrever uma frase em inglês, vindos da Abkhazia, de Ruanda, Guanajuato, South Jersey, e saíam entendendo mais de pizza que um beduíno entendia de areia. E eles haviam estudado esse tipo de problema. Marcado a freqüência de discussões relacionadas a tempo de entrega na porta das casas. Haviam enchido os primeiros Entregadores de fios para gravar, e depois analisar, as táticas de discussão, os histogramas de estresse de voz, as estruturas gramaticais distintivas empregadas por ocupantes de Suburbiclaves Tipo A brancos de classe média que, contra toda a lógica, haviam deduzido que aquele era o lugar para fazer sua própria defesa tipo-General-Custer contra tudo o que era podre e moribundo em suas vidas: eles iam mentir, ou se iludir, quanto à hora de sua ligação telefônica e conseguir uma pizza de graça; não, eles mereciam uma pizza de graça juntamente com sua vida, liberdade e busca de fosse lá o que fosse, era inalienável, caralho. Mandaram psicólogos para as casas dessas pessoas, davam a elas um aparelho de TV grátis para que se submetessem a uma entrevista anônima, ligavam-nas a polígrafos, estudavam suas ondas cerebrais enquanto lhes mostravam filmes editados e inexplicáveis de rainhas do filme pornô, batidas de carro de madrugada e Sammy Davis Jr., colocavam-nas em salas com paredes cor de malva e lhes faziam perguntas tão perturbadoras sobre Ética que nem mesmo um jesuíta podia responder sem cometer um pecado leve.

Os analistas da Universidade da Pizza CosaNostra concluíram que era apenas a natureza humana e não se podia consertá-la, e então eles optaram por uma rápida e barata correção tecnológica: caixas inteligentes. A caixa da pizza de hoje é uma carapaça plástica, corrugada para dar mais rigidez, um pequeno mostrador com LEDs brilhando na lateral, dizendo ao Entregador quantos minutos de produção de equilíbrio comercial já se passaram desde a fatídica ligação telefônica. Lá dentro existem chips e coisas do gênero. As pizzas repousam, em uma pequena pilha, em slots atrás da cabeça do Entregador. Cada pizza desliza para dentro de uma dessas aberturas, iguais a uma placa de circuito dentro de um computador, se encaixa com um clique e a caixa inteligente aciona a interface com o sistema de bordo do carro do Entregador. O endereço da pessoa que ligou já foi inferido a partir de seu número telefônico e inserido na RAM embutida da caixa inteligente. De lá, esse endereço é transmitido para o carro, que computa e projeta a rota ideal em um mostrador na altura dos olhos, um mapa colorido reluzente traçado contra o pára-brisa de modo que o Entregador sequer precise olhar para baixo.

Se o prazo de trinta minutos expirar, a notícia do desastre é enviada para o Quartel-General da Pizza CosaNostra e de lá transmitida para o próprio Tio Enzo — o Coronel Sanders siciliano, o Andy Griffith de Bensonhurst, o assassino da navalha de muitos pesadelos de Entregadores, o Capo e figura principal da CosaNostra Pizza, Incorporated — que estará no telefone com o cliente em menos de cinco minutos, pedindo milhões de desculpas. No dia seguinte, Tio Enzo pousará no quintal do cliente em um helicóptero a jato e lhe dará uma viagem grátis para a Itália: tudo o que ele tem de fazer é assinar um monte de documentos que fazem dele uma figura pública e porta-voz da CosaNostra Pizza e basicamente acabar com sua vida privada como ele a conhece. Ele vai sair de toda essa história achando que, de algum modo, quem deve um favor à Máfia é ele.

O Entregador não sabe ao certo o que acontece com o motorista nesses casos, mas já ouviu alguns rumores. A maioria das entregas de pizza acontece à noite, que o Tio Enzo considera seu momento de privacidade. E como é que você se sentiria caso precisasse interromper seu jantar com sua família para ligar para algum babaca teimoso num Suburbiclave e se desculpar por uma merda de pizza atrasada? O Tio Enzo não passou cinquenta anos servindo a sua família e ao seu país para que, numa idade em que a maioria dos homens está jogando golfe e brincando com os netinhos, ele tenha de sair da banheira todo molhado, se abaixar e beijar os pés de algum punk skatista de dezesseis anos cuja pizza de pepperoni demorou trinta e um minutos para chegar. Meu Deus. O Entregador respira com um pouco mais de dificuldade só de pensar na idéia.

Mas ele não deixaria de dirigir para a CosaNostra Pizza por nada. Sabe por quê? Porque alguma coisa sobre colocar a vida em risco mexe com ele. É como ser um piloto camicaze. Sua mente está clara. Outras pessoas — balconistas de lojas, chapeiros de hambúrguer, engenheiros de software, todo o vocabulário de trabalhos sem sentido que fazem a Vida na América — outras pessoas simplesmente confiam na boa e velha competição. É melhor virar seus hambúrgueres na chapa ou debugar suas sub-rotinas mais rápido e melhor que seu colega de segundo grau dois quarteirões abaixo na mesma rua está virando ou debugando, porque nós estamos competindo com esses caras, e as pessoas reparam nessas coisas.

Mas que porra de corrida de ratos que é esse negócio! A CosaNostra Pizza não tem nenhum concorrente. Competição é algo que vai contra a ética da Máfia. Você não trabalha mais duro porque está competindo contra alguma operação idêntica na mesma rua. Você trabalha mais duro porque tudo está em risco. Seu nome, sua honra, sua família, sua vida. Esses chapeiros podem até ter uma expectativa de vida maior — mas que tipo de vida é esse?, é a pergunta que você se faz. É por isso que ninguém, nem mesmo os japoneses, consegue transportar pizzas mais rápido que a CosaNostra. O Entregador tem orgulho de envergar o uniforme, orgulho de dirigir o carro, orgulho de marchar pelas entradas da frente das inumeráveis casas de Suburbiclaves, uma visão assustadora em preto-ninja, uma pizza no ombro, dígitos vermelhos de LEDs queimando números orgulhosos na noite: 12:32 ou 15:15 ou o ocasional 20:43.

O Entregador pegou o CosaNostra Pizza 3569 no Vale. O Sul da Califórnia não sabe se explode ou se simplesmente se estrangula no ato. Não existem estradas suficientes para o número de pessoas. A Fairlanes, Inc. está construindo novas o tempo todo. Precisa passar a motoniveladora em cima de montes de bairros para fazer isso, mas aqueles conjuntos habitacionais dos anos setenta e oitenta existem é para serem motonivelados, certo? Não há calçadas, não há escolas, não há nada. Eles não têm sua própria força policial, nenhum controle de imigração: os indesejáveis podem entrar direto sem serem revistados ou sequer molestados. Agora, um Suburbiclave, aí sim é um lugar para se viver. Uma cidade-estado com sua própria constituição, uma fronteira, leis, tiras, tudo.

O Entregador foi um cabo da Força de Segurança Estadual das Fazendas de Merryvale por algum tempo. Foi demitido por puxar uma espada para um meliante reconhecido como tal. Passou-a através do tecido da camisa do meliante, deslizando o gume da lâmina ao longo da base de seu pescoço e o pregou a um trecho empenado e empelotado de vinil na parede lateral da casa que o meliante estava tentando invadir. Ele achava que havia sido uma prisão bastante justificável. Mas o demitiram mesmo assim porque o meliante era filho do vice-chanceler das Fazendas de Merryvale. Ah, as raposas velhas tinham uma desculpa: disseram que uma espada samurai de trinta e seis polegadas não estava em seu Protocolo de Armas. Disseram que ele havia violado o CAMS, o Código de Apreensão de Meliante Suspeito. Disseram que o meliante havia sofrido trauma psicológico. Agora ele tinha medo até de facas de manteiga; precisava passar a geléia no pão com uma colher de chá. Disseram que ele os havia exposto a um processo.

O Entregador precisou pedir um dinheiro emprestado para pagar por isso. Teve de pedir emprestado à Máfia, na verdade. Então ele está no banco de dados deles agora: padrões de retina, DNA, voz, digitais dos dedos da mão, dos pés, das palmas da mão, dos pulsos, cada porra de uma parte de seu corpo que tivesse rugas — quase todas as partes — aqueles filhos-da-puta passavam um rolete de tinta, faziam uma impressão e digitalizavam no computador deles. Mas o dinheiro é deles: claro, eles tomam muito cuidado na hora de emprestá-lo. E quando ele se candidatou ao emprego de Entregador, eles ficaram felizes em aceitá-lo, porque o conheciam. Quando recebeu o empréstimo, teve de lidar pessoalmente com o vice-capo assistente do Vale, que mais tarde o recomendou para o emprego de Entregador. Então era como estar em uma família. Uma família abusiva, doente, realmente assustadora.

A CosaNostra Pizza 3569 fica na Vista Road, logo depois do Kings Park Mall. A Vista Road costumava pertencer ao Estado da Califórnia e agora se chama Rota CSV-5 da Fairlanes, Inc. O principal concorrente deles costumava ser uma rodovia dos EUA e ela agora se chama Rota Cal-12 da Cruiseways, Inc. Subindo um pouco o Vale, as duas rodovias concorrentes na verdade se cruzam. Já chegaram a acontecer disputas violentas, e o cruzamento fora fechado por tiroteios esporádicos entre atiradores de elite. Por fim, uma grande construtora comprou todo o cruzamento e o transformou num shopping drive-thru. Agora as estradas simplesmente alimentam um sistema de estacionamento — não um terreno, não uma rampa, mas um sistema — e perdem sua identidade. Passar pelo cruzamento envolve traçar caminhos através do sistema de estacionamento, muitos filamentos entrelaçados de direção como a trilha de Ho Chi Minh. A CSV-5 tem um melhor escoamento, mas a Cal-12 possui o melhor asfalto. Isso é típico: as estradas Fairlanes dão ênfase em que você chegue em seu destino, para motoristas Tipo A, e as Cruiseways enfatizam o desfrutar da viagem, para motoristas Tipo B.

O Entregador é um motorista Tipo A com raiva. Ele está se aproximando cada vez mais rápido de sua base, a CosaNostra Pizza 3569, subindo a pista esquerda da CSV-5 a cento e vinte quilômetros. Seu carro é um losango negro invisível, apenas um lugar escuro que reflete o túnel de placas de franquias: o loglo. Uma fileira de luzes laranja borbulha e espuma na parte da frente do carro, onde ficaria a grade se este fosse um carro que respira ar. A luz alaranjada parece um fogo alimentado por gasolina. Ele aparece nas janelas traseiras das pessoas, quica em seus retrovisores, projeta uma máscara feroz nos olhos delas, alcança seus subconscientes e desenterra medos terríveis de serem pregados, totalmente conscientes, a um tanque de gasolina que vai explodir, faz com que eles queiram passar para o acostamento e deixar o Entregador passar por eles em sua carruagem negra de pepperoni pegando fogo.

O loglo, no alto, com as letras CSV-5 entre trilhas gêmeas, é um corpo de luz elétrica composto por inúmeras células, cada uma desenhada em Manhattan por criadores de imagens que ganham mais para desenhar um único logotipo do que um Entregador ganhará em toda a sua vida. Apesar de seus esforços para se destacar, eles todos se fundem, especialmente a cento e vinte quilômetros por hora. Mesmo assim, é fácil ver a CosaNostra Pizza 3569 por causa da placa, que é grande e larga até mesmo pelos atuais padrões exagerados.

Na verdade, o próprio prédio da franquia, pequeno, não parece mais do que uma base achatada para os grandes pilares de fibra aramada que empurram a placa para o firmamento das marcas. Marca Registrada, baby.

O cartaz é clássico, uma pérola, não um vestígio de alguma campanha promocional passageira da Máfia. É uma declaração, um monumento construído para durar. Simples e digno. Ele mostra o Tio Enzo vestindo um de seus caros ternos italianos. As listras reluzem e se flexionam como tendões. O quadrado do bolso do paletó é luminoso. Seu cabelo é perfeito, cortado e penteado para trás com uma coisa que não se desgasta nunca, cada fio cortado retinho e quadrado na ponta pelo primo do Tio Enzo, Art, o Barbeiro, que dirige a segunda maior cadeia de salões de cabeleireiros de preço baixo do mundo. O Tio Enzo está ali em pé, não exatamente sorrindo, um brilho camarada no olhar com certeza, não posando como um modelo, mas ali em pé como seu tio ficaria, e o cartaz diz:


A Máfia
você tem um amigo na Família!
pago pela Fundação Coisa Nossa


A placa serve como o estandarte do Entregador. Ele sabe que, quando chegar ao lugar na CSV-5 onde o canto inferior do cartaz é obscurecido pelos arcos de vidro pseudogóticos da franquia local dos Portões Celestiais do Reverendo Wayne, estará na hora de passar para as pistas da direita, onde os retardatários e as bimbo boxes trafegam, aleatórios, indecisos, olhando para cada entrada de franquia como se não soubessem se é uma promessa ou uma ameaça.

Ele sai cortando uma bimbo box— uma minivan de família —, faz uma curva fechada no Buy’n’Fly que fica do lado e estaciona na CosaNostra Pizza 3569. Os imensos contatos pneu-solo reclamam, rangem um pouquinho, mas se seguram no asfalto de alta tração patenteado da Fairlanes, Inc. e o conduzem até o estacionamento de embarque. Não há nenhum outro Entregador esperando ali. Isso é ótimo, porque significa alta taxa de entrega para ele, ação rápida, bateu-valeu. Quando ele freia e pára, a trava eletromagnética na lateral de seu carro já está se abrindo para revelar seus slots de pizza vazios, e a porta se abrindo com um clique e se dobrando sobre si mesma como a asa de um besouro. Os slots estão esperando. Esperando pizza quentinha.

E esperando. O Entregador aperta a buzina. Esta não é uma situação de rotina.

A janela se abre. Isso nunca deveria acontecer. Pode olhar no fichário da Universidade da Pizza CosaNostra, buscar a referência cruzada com as citações para janela, estacionamento de embarque, despacho, e ela lhe dará todos os procedimentos para aquela janela — e ele jamais deveria se abrir. A menos que alguma coisa esteja errada.

A janela se abre e — está sentado? — sai fumaça de dentro dela. O Entregador ouve um ruído dissonante sobre o furacão de metal de seu sistema de som e percebe que é um alarme de incêndio, vindo de dentro da franquia.

Ele aperta o botão mute do estéreo. Um silêncio opressivo — seus tímpanos se expandemnovamente—eajanelaestázumbindocomogritodoalarmedeincêndio. O carro espera preguiçoso. A porta de trás ficou aberta por tempo demais, poluentes atmosféricos estão se condensando nos contatos elétricos atrás dos slots das pizzas; elevaiterdelimpá-losantesdoprogramado,tudoestáindoexatamenteaocontrário do que está no fichário que define todos os ritmos do universo da pizza.

Lá dentro, um abkhazi com um corpo oval como uma bola de futebol americano está correndo de um lado para o outro, mantendo um fichário aberto com a ajuda de um estepe para evitar que ele se feche de tão pesado; ele corre com o passo daqueles homens que correm equilibrando um ovo numa colher. Ele está gritando no dialeto abkhazi; todas as pessoas que dirigem franquias de pizza da CosaNostra nesta parte do Vale são imigrantes abkhazis.

Não parece um incêndio sério. O Entregador viu um incêndio de verdade um dia, nas Fazendas de Merryvale, e não dava para ver nada por causa da fumaça. Era tudo o que havia: fumaça, borbulhando do nada, vislumbres ocasionais de luzes alaranjadas ao fundo, como relâmpagos em nuvens altas. Não é esse tipo de incêndio. É o tipo de incêndio que quase não gera fumaça o bastante para acionar o alarme de incêndio. E ele está perdendo tempo por uma merda dessas.

O Entregador solta o dedo na buzina. O gerente abkhazi vai até a janela. Ele deveria usar o interfone para falar com os motoristas, poderia dizer o que quisesse e isso seria transmitido direto para o carro do Entregador, mas não, ele tem de conversar cara a cara, como se o Entregador fosse alguma espécie de motorista de carro de boi da porra. O sujeito está com a cara vermelha, suando, revirando os olhos enquanto tenta pensar nas palavras em inglês.

— Um fogo, pequeno — ele diz.

O Entregador não diz nada. Porque ele sabe que tudo isso está sendo gravado em vídeo. A fita está sendo transmitida, como de costume, para a Universidade da Pizza CosaNostra, onde será analisada por um laboratório de ciências de administração de pizza. Ela será exibida a alunos da Universidade da Pizza, talvez para os próprios alunos que substituirão esse homem quando ele for demitido, como um exemplo de manual de instruções de como foder com sua vida.

— Empregado novo... colocou jantar dele no microondas... tinha papel laminado... cabum! — diz o gerente.

Abkhazia fora uma das antigas repúblicas soviéticas. Um novo imigrante da Abkhazia tentando operar um microondas era como um verme tubular

das profundezas do oceano fazendo neurocirurgia. Onde é que eles achavam esses sujeitos? Não havia nenhum americano que soubesse fazer uma porra duma pizza?

— Me dê logo uma pizza — diz o Entregador.

Falar de pizzas traz o cara de volta ao século atual. Ele segura a onda. Fecha a janela com força, estrangulando o ruído incansável do alarme de incêndio. Um braço-robô japonês traz a pizza e a enfia no slot de cima. A porta de trás se fecha na hora para protegê-la.

Quando o Entregador está saindo do estacionamento, começando a acelerar, verificando o endereço que pisca em seu vidro da frente, decidindo se vira à esquerda ou à direita, acontece a coisa. Seu estéreo desliga novamente — sob as ordens do sistema de bordo. As luzes do cockpit ficam vermelhas. Uma buzina repetitiva começa a soar. O mostrador de LEDs em seu vidro da frente, que repete o que está na caixa da pizza, começa a piscar: 20:00. Acabaram de entregar ao Entregador uma pizza que já tem vinte minutos de prazo corrido. Ele verifica o endereço; fica a quinze quilômetros dali.



[STEPHENSON, Neal. “O entregador”. In: Snow crash. Tradução: Fábio Fernandes.]
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