Fabrício de Lima

: 37 Joined: 28 Sep 2009 Posts: 37
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O Suicídio É Uma Solução?
(resposta a uma enquête surrealista)
Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos atos, da realidade. Não acredito em coisa alguma à qual eu não esteja ligado pela sensibilidade de um cordão pensante, como que meteórico e ainda assim sinto falta de mais meteoros em ação. A existência construída e sensível de qualquer homem me aflige e decididamente abomino toda realidade. O suicídio nada mais é que a conquista fabulosa e remota dos homens bem-pensantes, mas o estado propriamente dito do suicídio me é incompreensível. O suicídio de um neurastênico não tem qualquer valor de representação, mas sim o estado de espírito de um homem que efetivamente tiver determinado seu suicídio, suas circunstâncias materiais e o momento do seu desfecho maravilhoso. Desconheço o que sejam as coisas, ignoro todo estado humano, nada no mundo se volta para mim, dá voltas em mim. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri faz tempo, já me suicidei. Me suicidaram, quero dizer. Mas que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto o apetite da morte, sinto o apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer sua sombra sobre a qual ele já cuspiu e faz muito tempo, este eu capenga, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A ser destruída, a não existir. |
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Eustaquio Maia

: 74 Joined: 12 May 2005 Posts: 391 Location: Belo Horizonte
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No filme Horizonte Perdido há um episódio que me chama particularmente a atenção. Quando o monge Chang consegue chegar a tempo de impedir o suicídio da jornalista Sally Hughes ao se atirar de um penhasco. Ele diz:
"Senhorita Hughes! Esta é uma saída por demais covarde. Você está no auge de sua vida, não procure a morte, ela a encontrará; mas escolha a estrada que faz da morte uma satisfação".
Horizonte Perdido 1973 Dublado - Parte 5
Aqui não pude deixar de notar também o paralelo que há entre a sabedoria do monge budista e a célebre citação de Michel de Montaigne:
"Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e coação". _________________ "In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act." George Orwell
Eustáquio Maia
Last edited by Eustaquio Maia on 05/04/2010 - 19:05:58; edited 2 times in total |
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