t. h. abrahao
Fundador PN

: 41 Joined: 22 Jan 2005 Posts: 574 Location: são josé do rio preto - sp
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A INVENÇÃO DA MORTE
por Fernando Martinho Guimarães
À memória do Professor Francisco Sardo
"Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.
I do it so it feels like hell.
I do it so it feel real.
I guess you could say I've a call"
(Sylvia Plath, Ariel, 1965)
_____Como pensar a morte? Este pensamento, incluso a sua formulação interrogativa, é possível? Pensar a morte não é, no próprio acto de a pensar, a morte do pensamento? Eis algumas das perguntas que a morte suscita.
_____Na história da filosofia duas são as linhas que se detectam no modo de «ver» a morte. Uma, que entronca na radical exclusão da morte por parte de Epicuro e que tem a sua continuação na dimensão escravizante da paixão da morte em Espinosa e ainda na asserção wittgensteiniana da carácter não-vivencial da morte - «A morte não é um acontecimento da vida. Não há uma vivência da morte»(1). Por outro lado encontramos a linha internalista que integra a morte como horizonte de compreensão da vida e que assenta na evidência da certeza do limite enquanto in-posição da vida. A tradição cristã e pensadores como Montaigne, Jaspers e Heidegger, são bem os representantes desta «interiorização» da morte.
_____Não é impunemente que o pensamento se abalança na sondagem desta total aniquilação que é a morte. Por um lado, todos sabem o que ela é. Neste sentido, não é problema. Por outro lado, a pretensão imortalista resolve a morte continuando a vida para lá dela. Estes dois modos resolutivos da morte retomam antigas tradições. Assim, o dualismo presente na concepção greco-socrática da morte como «separação da alma espiritual do corpo« toma como certo o que é suposto e como ponto de partida o que é, afinal, ponto de chegada(2). A acrescentar a isto encontramos ainda a dicotomia «natural - antinatural» presente, por exemplo, na antropologia cristã. «Se, de um certo ponto de vista, a M. parece muito natural (é, de facto, o pólo oposto do nascimento, situando-se no término do ciclo vital do vivente), por outro lado ela revela tantos aspectos de pena, ruptura, violência e tragédia (a um nível formalmente humano) que quase obriga a metafísica religiosa a eliminá-la da existência, precisamente por ser antinatural»(3).
_____A morte é trauma, ferida aberta no indivíduo(4). O funeral e o luto são os sinais dessa ferida que recusa cicatrizar. Dessa ferida fez-se doutrina e as religiões dão corpo e sentido a essa laceração. A vertigem da imortalidade permite ao crente confrontar equilibradamente(?) a morte e superar a angústia: «O sereno equilíbrio do crente (quando existe) baseia-se no delírio patológico da sua religião», diz Edgar Morin(5).
_____Com efeito, a morte é temível. A arqueologia funerária é o sinal do temor que a morte sempre infundiu no espírito dos vivos. Se honramos os mortos não os queremos como vizinhos, ou, como diz Philippe Ariès, «um dos objectivos dos cultos funerários era impedir os defuntos de regressar e perturbar os vivos»(6). O enterramento fora da urbe revela precisamente essa separação entre o que nunca poderá estar unido. Mesmo a adopção romântica do cemitério pela cidade a que os sécs. XIX e XX assistiram não revelam outra coisa: in urbe mas murados.
No morto queremos o espelho do que não queremos. A resistência, de raíz judaico-cristã, à corruptibilidade do corpo, faz do morto um quase-vivo; os vivos cuidam dele, embelezam-no, vestem-no com trajes domingueiros para o «descanso eterno». À insustentabilidade da visão do cadáver contrapomos a dissimulação ritual que procura perpetuar a vida.
_____Iludir o morto, isto é, presentificá-lo na memória como vivo. A cidade dos mortos, o cemitério, o fechamento tumular, as sepulturas marmorizadas e a consagração do epitáfio em que se evoca sentimentos de vivo, resguardam-nos, pela perservação do morto-quase-vivo, dessa realidade inescapável e dramaticamente ruptural. Só a morte do outro pode inspirar exuberantes lamentações e saudades inscritas a cinzel. Na morte-própria não há túmulo para este des-consolo nem retórica exaltante que me faça querer a morte. Ao epitáfio sobreviverá apenas o cipestre [sic] e a hera. Ninguém escolhe a morte; o suicidário não escolhe morrer: rejeita o viver que era o seu.
_____A morte é, indiscutivelmente, a marca do desamparo humano. Sinal da vanidade dos projectos humanos, a amêchania dos heróis trágicos gregos(7) paira na História como ameaça que a fatalidade destinal sempre acaba por confirmar. A História, essa sublevação face ao tempo, faz-se memória contra o esquecimento derradeiro e terminal que é a morte. É na revolta face à morte que a História, tempo que se narra como memória, se institui como discurso que procura suspender o tempo e «introduz descontinuidades na sua incessante continuidade»(8 ). É ao encontro deste recuo da morte, desta superação da infelicidade que na infelicidade se atém que o admirável testemunho de Pierre Chaunu situa a origem da História e o impulso vocacional do historiador:
_____(...) Fascinado pelo rasgão de início, é a morte que vou fazer recuar: mantendo à distância a ameaça exteriorizada, ou arrancando à morte a memória desaparecida dos que tinha, para lá do véu do início, balizado o espaço-tempo da minha infância, ou ainda fazendo recuar a própria morte»(9).
_____Não é a morte que nos surpreende; é a fulgurante e brusca intuição de que a morte é o nosso futuro. Com efeito a morte nunca está presente - não há presença da morte; ela é inapropriável. A certeza incontornável de que o futuro é mortal não elide a imprevisibilidade. O choque que ad-vém deste irremediável gera a perplexidade, o esquizo-recolhimento que só um trauma profundo pode provocar. O desespero esvazia o presente perante a inelutabilidade que o futuro tráz no seu regaço; a morte («mors certa, hora certa») é também e sempre súbita e inédita - angustiante, pois («mors certa, hora certa sed ignota»). À incontornabilidade meta-empírica da morte investimos salvaguardas circunstanciais; protegemo-nos contra aquilo que sabemos certo advogando prevenções perante os modos de morrer - «mors certa, hora incerta». Acreditamos adiar a morte quando apenas prolongamos a vida; não é a mesma coisa, bem o sabemos, mas vivemos como se assim o fosse. A consciência do limite turva-se perante a esperança, não do amanhã, mas do depois de amanhã que queremos depois de amanhã - o destino cumpre-se nos outros, o meu é-me opaco. Luto: da/na morte do outro asseguro(me) o ainda não da minha morte.
_____Ainda que pensável, a morte é absolutamente inimaginável; à incontornabilidade da morte contrapomos a repressão do seu pensamento. O progresso higiénico-tecnológico, o culto do eternamente-jovem que marca a sociedade-espectáculo em que vivemos tornam a morte uma quase-ficção, um mero acidente subjugado a factores condicionais; nunca se morre - morre-se porque. Por outro lado perante a morte nunca acontece um face-a-face; o amanhã da morte nunca é a minha-morte-amanhã. Protelamos o desencontro, «humanizando» a apropriação impossível da morte: ao moribundo recusa-se a pré-anunciação e a morte, sendo a dele, não a minha, pré-anestesia-se, ou então arquiva-se concepto-institucionalmente: clinicamente morto, cerebralmente morto - coma eterno. A máquina não regista qualquer sinal vital e está, portanto, disponível à acoplação de um novo corpo prestes a desvitalizar; a morte é isso, um ligeiro incómodo, um mero intervalo na funcionalidade maquínico-social.
_____Philippe Ariès refere precisamente esta desritualização da morte nas sociedades modernas, em particular a americana. Assim, e no que diz respeito ao local da morte, «já não se morre em casa, junto dos seus; morre-se no hospital, e só»(10). O hospital vai-se tornando cada vez mais o lugar para onde se vai para morrer porque precisamente a morte se torna ela também um acto clínico, uma decisão clínica legalmente legitimada. «A morte é um fenómeno técnico obtido pela paragem dos sentidos, isto é, de maneira mais ou menos declarada, por uma decisão do médico e da equipa hospitalar»(11). É evidente que se depara aqui com uma mudança radical na(s) atitude(s) perante a morte. Ainda Philippe Ariès: «Um desgosto demasiado visível não inspira piedade mas repugnância; é um sintoma de desarranjo mental ou de má-educação; é mórbido. No seio do círculo familiar hesita-se ainda em deixar exteriorizar a dor, por receio de impressionar as crianças»(12).
_____Converte-se a morte em efeito de uma qualquer coisa que seria evitável. Inscreve-se a morte, assim, num encadeamento de acontecimentos possíveis mas não desejáveis. Mesmo quando a morte é acontecimentalmente imprevista, não a estranhamos, antes manifestamos a nossa surpresa pelo facto de o agora defunto ter tomado café há meia-hora atrás ou o bom ar que ainda ontem, que estive com ele, aparentava. «Nada o fazia prever», dizemos; como se a morte se inscrevesse na categoria do possível e fosse um mero acidente entre outros.
_____Face ao carácter necessário da morte investimos todos os segundos do quotidiano. Instalamos a rotina e o hábito que é a forma ideal de perpetuação do mesmo e assim esquecermo-nos de que ela é o nosso horizonte destinal. À inescapabilidade da morte e à aversão que em nós provoca contrapomos a diversão do quotidiano - não vivemos, divertimo-nos. O espectáculo das coisas da vida exige o vórtice da consciência da morte. «Nada é tão insuportável ao homem - dizia Pascal - como quedar-se em pleno repouso; sem paixões, sem ocupação, sem divertimento, sem aplicação. Ele sente então o seu nada, o seu abandono, a sua inutilidade, a sua dependência, a sua incapacidade, o seu vazio. Imediatamente lhe crescerá do fundo da alma o tédio, a vileza, a tristeza,o desgosto, o desânimo, o desespero»(13).
_____Paradoxo: quanto maior é a esperança de vida mais frenético se torna o nosso viver. Secreta esperança: que a morte seja ultrapassada pelo ritmo da modernidade. Embrenhados nos negócios da vida, a morte quer-se um ligeiro precalço, um pequeno intermezzo ocioso em que é suposto pensar no «sentido da vida», em «como não somos nada», em «como a vida são dois dias e um já passou», e «enfim, a vida é mesmo assim: nasce-se e morre-se». Mas o morrer, isso de haver morte, que tem a ver com a vida?
_____Suspensão do futuro, programação do futuro por antecipação. Eis uma contradição insanável a que talvez ainda não se tenha dado a devida atenção. Queremo-nos jovens, eternamente jovens, mas investimos a longo prazo, resguardamo-nos do futuro: angústia perante a quotidiana noticia da falência do sistema de segurança social,planos de poupança reforma, sociedades por quotas, engenharias financeiras das companhias seguradoras para que preparem o futuro, o nosso futuro.
_____«Eis que o homem se sujeita a tais reservas do seu próprio futuro como se na realidade este já existisse; ou seja, contrai assim uma hipoteca que talvez só com a morte pode saldar»(14).
_____O narcisismo é bem a resposta face ao desespero do futuro; postergar as rugas, elidir o futuro, conquistar, na expressão de Lipovetsky, a juventude sem fim: «Quando o futuro se mostra ameaçador e incerto, resta a retracção sobre o presente, que não pára de ser protegido, arranjado e reciclado numa juventude sem fim»(15). Existência preocupada. Quer dizer, voltada para o futuro. Neste sentido, o futuro é a antecipação pela qual o pensamento se situa no presente.
_____Na impossibilidade de estancar o tempo procura-se investir na elisão das suas marcas. O homem moderno ocupa-se narcisicamente a adiar indefinidamente o rictus cadavérico. Gilles Lipovetsky mostrou como a representação social do corpo sofreu, nos dias de hoje, uma revolução sem paralelo na história:
_____«(...) o corpo perdeu o seu estatuto de alteridade, de res extensa, de materialidade muda, em proveito da sua identificação com o ser-sujeito, com a pessoa. O corpo já não designa uma abjecção ou uma máquina, designa a nossa identidade profunda da qual não há motivo para ter vergonha e que pode, portanto, exibir-se nua nas praias ou nos espectáculos, na sua verdade natural. Enquanto pessoa, o corpo ganha dignidade; devemos respeitá-lo, quer dizer zelar permanentemente pelo seu bom funcionamento, lutar contra a sua obsolência, combater os signos da sua degradação através de uma constante reciclagem cirúrgica, desportiva, dietética, etc: a decrepitude «física» tornou-se uma torpeza»(16).
_____Este investimento narcísico do corpo revela muito justamente o confronto que o homem moderno mantém com o tempo, melhor, com a adversidade temporal. As marcas do tempo tornam-se, pois, intoleráveis.
_____Lidamos mal com os sinais naturais da degenerescência física e com a aproximação da morte. Absorvido num processo constante de auto-sedução o homem entrega-se à dissolvência do tempo: flutua na duração - quer-se eternamente jovem dedicando todos os momentos a esquecer que a eternidade lhe é incompatível.
_____Sendo a morte o que ainda não é, é o que sempre será. Mas a morte não contempla a conversão do ainda no já; a morte não admite a contemporaneidade.
_____O pensamento da morte será sempre um-não-sei-quê de um-quê-não-sei. Sem antecipação possível do que não sabemos também não admite recordação.Não actualizamos nenhum possível nem nos surpreendemos com o que o pensamento não (pre)viu. A morte é a parede para onde o pensamento se vira ou o horizonte sem céu que o defunto já não vê(17).
_____A este respeito Jankélévitch mostrou, exemplarmente, a descoincidência entre pensamento e morte, entre tempo e morte:
_____«Jamais nous n'aurons pu penser (la mort) en simultaneité avec elle. De l'Avant au Pendant et du Pendant à l'Aprés notre ignorance a simplement changé de forme. Avant, c'est-à-dire toute notre vie durant, il est trop tôt; Pendant, il est ou bien encore trop tôt, ou bien déjà trop tard; Aprés il est trop tard. L'homme n'est jamais non plus contemporain de sa mort-propre: l'Avant est en effect notre présent, mais ce présent est le passé de la mort; aussi la science qui veut lire la mort dans la vie est-elle toujours en avance. Le Pendant, lui, serait bien la présent de la mort, mais ce présent est notre futur - car la mort-propre rest au futur durant tout la vie-propre: cette deuxième science, comme la première, est donc toujours en avance et tantôt en retard s'il s'agit de la mort d'autrui - car tantôt nous antecipons sur cette mort, tantôt nous la connaissons de façon retardataire ou posthume(...)»(18 ).
_____Não há cânticos que redimam o há da morte. Nem fractura, nem falha por onde o pensamento possa aceder. O silêncio não é resposta à morte. Muito menos o sussuro. Murmurar é ainda e sempre ensurdecedor. Eis! o pensamento depara-se com o vazio do seu pensar.
_____Que digo? «Vazio» é demasiado cheio; aponta para uma plenitude como seu contrário - e a morte é incomparável. «Há» - e o pensamento suspende-se; um pensar derrotado em toda a linha e não há fio para lá chegar nem labirinto onde o pensamento se possa resguardar a recuperar da sua derrota. É esta a virtualidade do quotidiano: o pensamento esquece-se de si e anicha-se nesse esquecimento(19). Entretem-se com os problemas da vida e convence-se da resolubilidade de tudo - inscreve os problemas na ordem do tempo. O que resiste é recolocado resolutivamente no futuro. Mas a morte não tem futuro; o futuro é a morte. Não há optimismo que salve este desencontro nem redenção para esta impossibilidade.
_____Em De l'existence à l'existante de Lévinas, o há é abordado como «impessoalidade»(20), «existência anónima»(21), «existência sem existente»(22). A apreensão do há, realidade indiferenciada, massa anónima na qual o sujeito não é ou ainda não é - apeiron(23) - aparece em Lévinas pelo testemunho do horror. O horror revela pois a atitude abismada face ao há e que, do ponto de vista levinasiano, seria mais profundo que o medo da morte porque manifesta o medo de que talvez a morte não seja suficientemente morte(24). Justamente: o horror da morte reside na suspeita cataclísmica de que a morte seja apenas e somente morte. No não-acontecer da morte mesmo o há, puro acontecimento, se dissolve.
_____Se do inefável há sempre demasiado a dizer, da morte tudo o que se diz é demasiado. O inefável místico suscita a exaltação afável das Bem-Aventuranças. Que Salmo nos encantaria no desencanto final que é a morte? Indizível é a morte, diz Jankélévitch, «parce qu'il n'y a, dès l'abord, absolument rien à dire»(25). Na impossibilidade de pensar a morte só nos resta pensar sobre a morte, a propósito dela ou então em outra coisa que não ela - a vida(26).
_____Visto que da morte não se pode dizer o que é, já que é inconfrontável, podemos contudo atenuar este desconforto apelando a fenómenos vitais e culturais que supostamente dela se aproximam. O sono aparece-nos aqui como uma aproximação óbvia. Metáfora vigilante, o sono seria a morte sem sonho dentro. No entanto, dizer que o sono é uma aparência de morte é ainda dizer demasiado sobre ela. Não há um aparecer da morte justamente porque esta é um... desaparecer. As confrontações com o sono nocturno dos vivos, o sono da morte e o sono fetal são apenas o legado etno-cultural de uma formidável derrota(27). O mesmo decorre da confrontação da morte com a noite da vida. Com efeito, querer a morte como a noite da vida é ainda a dialéctica do pensamento a remediar o irremediável. Se se pode dizer que a noite é a negação do dia o mesmo não se pode dizer da morte face à vida. Que síntese poderia advir daí? Que forças tensionais se encontram em conflito? Ainda que a morte fosse uma noite fetal onde encontrar o seu despertar distendido? Nem sequer um trémulo espreguiçar!
_____Na impossibilidade de pensar a morte, o pensamento procura esvoaçar sobre ela: transição, passagem, porta da salvação ou da danação. Ao querer imitar o albatroz baudelairiano o pensamento atém-se à mecânica do bater de asas em terra - escapa-lhe a ligeireza com que o albatroz passa do desconforto terrestre à leveza aérea; o esvoaçar do pensamento assiste ao seu enterro. Anulação definitiva, a morte «supprime la pensée qui pense la suppression»(28 ). A supressão do pensamento anuncia-se desde logo que o pensamento se dedica a este impensável. A enfermidade faz desta dedicação o seu território - consome-se nesta consumição; o invisível verme que o poema «The Sick Rose» de William Blake anuncia, instala-se e corrói a vida:
«O Rose, thou art sick!
The invisible Worm
That flies in the night,
In the howling Storm
Has found out they bed
Of crimson joy:
And his dark secret love
Does thy life destroy»(29)
_____O torpor que de nós se apodera quando a morte advém como coisa séria(30), quando a enfermidade usurpa território e alastra, é bem o sinal da estupefacção que subitamente nos acomete. Sem saída nem evasão,o sofrimento ex-põe a impossibilidade de refúgio, a impossibilidade de o interromper. O fracasso do pensamento encontra o seu correspondente no esbracejar das mãos. Impossível não pensar no estertor do moribundo. Sem objecto a que nos possamos relacionar, nem inimigo que no confronto se torne visível, afugenta-se o que não é em todas as direcções. O que em nós resta da vontade de preservar no ser tem um último alento simultaneamente patético e trágico. «Eis o que é a morte: a dor extrema, a dor emudecida», diz-se no Húmus de Raúl Brandão, esse estranho livro a que a Literatura gostaria de não prestar contas(31).
_____A melancolia surge sempre que o pensamento se aventura no insondável da morte. Mas não é a morte que está na origem da melancolia; é o desfalecimento perante a vida, a suspeição face a um real exterior, «uma relação quebrada com o mundo que o faz aparecer como uma mentira, como um lugar ameaçador, como um desfile de máscaras»(32).
_____O sindroma de Hamlet, o bloqueamento da acção pelo esvaimento hesitante do pensamento, prefigura a derrota final tanto da acção como do pensamento. A melancolia é pois um sentimento que mergulha o indivíduo no vazio do futuro. Nisto se diferencia da nostalgia, sentimento que preenche o indivíduo do que foi e que encerra em si a necessidade do reviver. Que evocação seria possível do que necessariamente será mas que nunca o saberemos. Da morte não há notícia. Nem ficção. A interpelação de Hamlet à morte jamais terá resposta.
_____O tédio expressa o assalto do sentimento de morte. O tédio, esse «sentimento condenado»(33), na expressão de Cioran, se não conduz à morte do eu, condena-o a viver da/para a morte. Não nasceram as As Mil e uma Noites do tédio que procura prolongar-se recuando a morte? Xerazade sabe que vai morrer mas não o sabe por si. A certeza da sua morte a prazo definido pende do terror da morte que o sultão Xariar não sabe contornar. A partir do momento em que o rei é tomado pela consciência de que vai morrer está assinada a sentença de morte de Xerazade. Na verdade Xerazade não entretém Xariar; entretem-se a entretê-lo - trata-se de uma manobra de diversão para manter a morte à distância. Nisto, Xariar e Xerazade são cúmplices.
_____Ao assassinar as esposas uma após outra Xariar crê manter a morte ocupada afugentando assim os seus terrores nocturnos. Xariar precisa de Xerazade tanto como esta daquele. Sem Xerazade como poderia o Sultão saber que não morreu... ainda? Se no olhar do outro eu testemunho a minha existência, na morte todo o olhar é cego. A morte não tem testemunhas. «Morrer é só não ser visto», dizia Fernando Pessoa:
«A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.»(34)
_____Na morte não há chão onde o pensamento possa fundar a sua casa. Mesmo que a existência seja, como queria Heidegger, a possibilidade da impossibilidade, trata-se ainda de um pensamento ad-verso, uma arqui-fundamentação às avessas.
_____A existência como Dasein circunscreve o existente como possibilidade na/pela qual o possível é possível. Na morte o ser deixa de ser aí, no mundo onde foi lançado. A condição existencial mortal do homem é, assim, o horizonte a partir do qual assumimos o ainda não do morrer. Nisto investimos o existir como projecto, como tarefa a realizar. Modo de atenção ao ser, a autenticidade faz-se como consciência de que somos ser-para-o-fim: o cuidado revela a iminência deste perigo e converte-se em doador de sentido. Por outro lado a inautenticidade plubicita o existente no quotidiano como espectáculo - divertimo-nos. Ao não poder fugir da morte, o homem não pensa nela distraindo-se nas ocupações da vida quotidiana(35). É bem o divertissement de Pascal que atravessa a inautenticidade segundo Heidegger: «É mais fácil suportar a morte sem nela pensarmos do que suportar o pensamento da morte sem perigo»(36).
_____Absoluta alteridade, a morte é inapropriável pelo sujeito que... a não vive. Neste sentido a morte não se joga na minha existência enquanto projecto original «d'un pour soi», diz Sartre, que «ne peut viser que son être»(37). Morremos para o outro; para mim a morte é totalmente absurda. Pura facticidade, a morte não se inscreve no horizonte projectivo do existente. A morte é a aniquilação total. Nem sequer um «pequeno nada» à maneira de Artaud que é ainda alguma coisa. A loucura... vive-se. Se é verdade que não é «louco quem quer»(38 ), como dizia Lacan, é inexoravelmente certo que se morre... quer se queira, quer não! A morte... nem o desligar de um mecanismo... nada... de-terminante!
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Notas
1) Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosofico / Investigações Filosóficas, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian Ed., 1987, p.139(6.4311).
2) Cf. Joaquim Sousa Teixeira,«Morte» in Logos (Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia), Lisboa/São-Paulo, Editorial Verbo (3 - J/Pa), 1991, p.986.
3) Joaquim Sousa Teixeira, Ibid., p.986.
4) No indivíduo e na espécie. Cf. Edgar Morin, O Homem e a Morte, Lisboa, Pub. Europa-América, s/d., pp.77 e segs.
5) Edgar Morin, Ibid., p.76. A conquista da individualidade, isto é, do direito à existência enquanto indivíduo com espessura ético-política fez-se historicamente no confronto com a morte. Ou ainda: na imortalidade para lá dela. Não está aqui a razão do sucesso do cristianismo? A igualdade perante a morte, o direito universal à imortalidade. Nisto se assemelha o rei e o súbdito, o afortunado e o miserável, o senhor e o escravo.
6) Philippe Ariès, Sobre a História da Morte no Ocidente desde a Idade Média, Lisboa, Editorial Teorema, 1988, p.25.
7) Cf. E. R. Dodds, Os Gregos e o Irracional, Lisboa, Gradiva, 1988, pp.37/38.
8) Maria Zambrano, A Metáfora do Coração, Lisboa, Assírio & Alvim, 1993, p.25.
9) Pierre Chaunu, «O Filho da Morta» in Ensaios de Ego-História (vários), Lisboa, Edições 70, 1989, p.71.
10) Philippe Ariès, op. cit., pp.56/57. A morte é bem o último dos interditos. A remitificação da morte fez aparecer uma «nova espécie de tanatófagos» (Edgar Morin, op. cit., p.11). Assistimos pois a uma substituição do sexo como principal tabú. A morte, a dor face à morte, exige o recolhimento envergonhado que Geoffrey Gorer tão bem mostrou em Pornography of Death. Dantes as crianças «vinham de Paris» mas acompanhavam o avô na hora da morte, hoje as crianças conhecem afisiologia do amor mas é-lhes recusada a visão da morte e quando os avós desaparecem é porque repousam «entre as flores dum belo jardim» (Philippe Ariès, op. cit., p.59).
11) Philippe Ariès, Sobre a História da Morte..., pp.56/57.
12) Ibid., PP.56/57.
13) Pascal, Pensamentos, Lisboa, Europa-América Ed., 1978, p.64.
14) Gillo Dorfles, Novos Ritos, Novos Mitos, Lisboa, Eds. 70, s/d., p.103.
15) Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio, Lisboa, Relógio D'Água Eds., 1989, p.49.
16) Id., Ibid., p.58.
17) Segundo a prescrição do Bispo Guillaume Durand de Mende, o moribundo deve deitar-se de costas a fim de que o rosto fique sempre voltado para o céu. Já para os antigos judeus o moribundo deve voltar-se para a parede para morrer (Cf. Philippe Ariès, op. cit., p.22).
18) Jankélévitch, La Mort, Paris, Flammarion, 1977, pp.371/372.
19) Que dizer do cansaço de sermos sempre concientes a/de nós mesmos? «E, de facto, todo o estado consciente se extenua, nos esgota, conspira para o nosso desgaste; quanto maior é o seu império sobre nós, mais gostaríamos de nos reintegrar na noite que procedia as nossas vigílias, de mergulhar no repouso anterior às maquinações, ao atentado do Eu» (E. M. Cioran, A Tentação de Existir, Lisboa, Relógio d'Água Eds., 1988, p.36).
20) Lévinas, De l'existence à l'existant (Collection «Exercice de la pensée», dirigida por G. Blin, nº2), Paris, Editions de la Revue Fonyane (reimpresso in Vrin, 1947), p.18.
21) Id., Ibid., p.80.
22) Ibid., pp.93/95.
23) Cf. José Pedro Nunes da Mata, Emmanuel Lévinas: a inquietude ética perante o discurso ontológico, in Tese de Mestrado (Universidade Nova de Lisboa - Fac de Ciências Sociais e Humanas), Lisboa, 1992, p.113.
24) Cf. Lévinas, op. cit., pp.101/102.
25) La Mort, p.83.
26) Cf. Jankélévitch, Ibid., p.41.
27) Cf. Edgar Morin, O Homem e a Morte, pp.117/118
28) Jankélévitch, La Mort, p.75.
29) William Blake, Cantigas da Inocência e da Experiência, Lisboa, Edições Antígona, 1994 (Bilingue), p.103 (Tradução de Manuel Portela). «Ó Rosa,estás doente!/ O verme invisível,/ Que de noite se sente/ No vento do temporal// Encontrou teu leito/ Em púrpuro deleite:/ De negr'oculto amor/ Te devora a vida.»
30) Jankélévitch, op. cit., p.16.
31) Raúl Brandão, Húmus, Lisboa, 1917.
32) Jean Starobinsky, A Literatura e a beleza do mundo (Conferência proferida na cidade do Porto em 1990. Citado por António Guerreiro in Expresso, 21/7/90, «Os sonhos da razão», p.62-R).
33) Cioran, A Tentação de Existir, p.146.
34) Obras de Fernando Pessoa (3 vos.), Porto, Lello & Irmão Eds., 1986, 1º vol., p.332.
35) Cf. Francisco Sampedro, «O rexistro do Outro na idea da Morte», in A Trabe de Ouro (Publicación Galega de Pensamento Crítico, Tomo II/ano IV/1993, Abril - Maio - Xuno), Separata, Sotelo Blanco, pp.216/217.
36) Pascal,Pensamentos, p.79.
37) Jean-Paul Sartre, L'être et le néant, Paris, Gallimard, 1980, p.624.
38) Lacan, Séminaire III. Les Psychoses. Citado por Monique Plaza, A Escrita e a Loucura, Lisboa, Editorial Estampa, 1990, p.98. |
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