t. h. abrahao
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Fernando Pessoa e a loucura
por Georg Rudolf Lind
O meu tema: Fernando Pessoa e a loucura está estreitamente relacionado com o tema mais vasto: génio e insânia, e este é tão velho como o problema do génio em si. Já na antiguidade grega desde o ano 450 antes de Cristo afirmam Demócrito, Platão e Aristóteles que não pode haver um grande poeta sem insânia e que, quem pensar chegar à poesia sem o delírio das musas, palavras de Platão - estaria num caminho errado. Toda esta discussão retoma fôlego no Renascimento e reanima-se especialmente no século XIX.
Em 1863 publica-se a primeira edição de «Genio e Follia» do psiquiatra italiano Cesare Lombroso, cujas teses marcam o início duma nova época na investigação da genialidade. Todos os génios são de qualquer forma loucos ou degenerados, eis a tese central de Lombroso, vivamente discutida nos últimos decénios do século XIX e no primeiro decénio do século XX.
Quando o jovem Fernando Pessoa voltou, em Agosto de 1905, na idade de 17 anos, da África do Sul para Lisboa, para aí se inscrever no Curso Superior de Letras, ele deve ter tomado conhecimento desta discussão animada, provocada pelo livro de Lombroso e especialmente significativa no fim-do-século, por coincidir com a consciência de toda esta geração de escritores e poetas simbolistas e decadentistas de serem um ponto final e os últimos descendentes tardios da arte europeia.
Conhecemos, através duma carta de Fernando Pessoa ao seu amigo Armando Côrtes-Rodrigues, a influência que exerceu nele o livro «Degeneração» do psiquiatra alemão Max Nordau na sua tradução francesa, uma influência mencionada expressamente por João Gaspar Simões na sua biografia do poeta. Mas continua desconhecida a presença temática do medo da loucura na abundante produção poética em língua inglesa, que o jovem Pessoa escreveu sob o nome de Alexander Search nos anos 1903 até 1909, especialmente nos anos de 1907 e 1908.
Desta produção do jovem aprendiz de Poeta conservam-se 115 poesias, e nós escolhemos aqui uns exemplos que demonstram concludentemente a obsessão com a qual Search, o «Busca», volta ao tema da loucura. Num apontamento em inglês, inserto nas «Páginas Íntimas e de Auto-interpretação», podemos ler, datado de 30 de Agosto de 1908: «Uma das minhas complicações mentais - mais horrível do que as palavras podem exprimir - é o medo da loucura, o qual, em si, já é loucura. Encontro-me em parte no estado que Rollinat denuncia como seu no poema inicial das suas «Névroses». Ora, Rollinat é precisamente um dos expoentes da escola decadentista francesa. As diferentes secções do livro de Search intitulam-se «Agony» (agonia), «Delirium» (delírio) e « Documents of mental decadence» (documentos de decadência mental) respectivamente; no seu soneto «Woe supreme» Search responde a um amigo, que lhe pergunta a razão pela qual ele escreve fictícia e pretenciosamente, fingindo até as lamúrias com as quais deprime os «healthy men», os «homens saudáveis»:
«Because, dear friend, though to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet
Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowlëdge of an ill that cannot go.»
A expressão «my science learned» indica já expressamente que o jovem poeta conhecia a discussão acerca de génio e insânia. A difícil readaptação do jovem regressado da África do Sul ao ambiente lisboeta de 1905 deve ter agravado esta crise e acentuado a sensação dum isolamento total, e este isolamento associa-se à consciência da genialidade e espelha-se numa poesia de Outubro de 1907. Citamos apenas os versos mais significativos:
«Never I have so deeply felt my exclusion from mankind.
To one side the sane, to the other the lame and the halt and the blind;
To one side the healthy, the good, the strong, those in life's prime,
To the other side the slaves of genius, of madness, of crime.
At no time have I felf so deep the gulf between me and men.
Is it idiocy, madness or crime, or genius - or what is this pain?»
Apesar do exagero juvenil destes versos encontramos neles uma constante, i. é a distinção entre os sãos e os doentes, os geniais loucos e os normais felizes, que reaparece sob várias formas, na poesia portuguesa de Fernando Pessoa, especialmente naquela de Álvaro de Campos, como veremos mais adiante. O medo da loucura é tão insistente no jovem Search que ele dedica todo um longo poema, intitulado «Prayer» - prece - ao seu desejo ardente de não cair na demência. Cito apenas os primeiros versos:
«Oh God, - if Thou be'st anything
Hear this frail prayer that I fling
Like a flame leaping past control
From out the hell that is my soul:
Oh God, let me not fall insane!»
Na poesia «Approaching» Search descreve a aproximação ameaçadora da loucura dum modo parecido como o fará mais tarde Álvaro de Campos. E na poesia «Be it so!» de 20 de Abril de 1908 Search abandona-se, ao que parece, com uma certa resignação, ao abraço da loucura; cito a penúltima estrofe:
«I give me all over to terror,
All unto madness and woe;
I yield up my thoughts unto error.
’Twas to be so; be it so!»
Deve ter havido um momento que podemos situar no ano de 1909 ou talvez 1910 em que Fernando Pessoa se libertou, pelo menos parcialmente, deste medo obsessivo da loucura, a este momento coincide com a leitura já mencionada do livro de Nordau.
O decadentismo com todas as suas conotações deprimentes «foi-lhe varrido do espírito», como ele escreve a Armando Côrtes-Rodrigues, «pela leitura de Marx Nordau e pela ginástica sueca.» Ora, o livro de Nordau foi um ataque cerrado contra os artistas modernos, isto é contra os artistas do fim do século. O génio é, na opinião de Nordau, adversário de Lombroso, um fenómeno saudável, os modernos, porém, são uns degenerados e por isso mesmo não podem ser génios e as suas obras são condenáveis. Este veredicto da degeneração deixou vestígios na obra de Fernando Pessoa, e a criação dos heterónimos corresponde, entre outras coisas, a esta tentativa de libertar-se do decadentismo de Alexander Search.
Significativamente, nem na obra de Alberto Caeiro nem naquela de Ricardo Reis encontramos a menor alusão ao tema da loucura, enquanto que Álvaro de Campos conserva, como veremos, vestígios do decadentismo e mantém o tema da loucura. Pessoa passa a definir-se no futuro como um «histero-neurasténico», tanto na carta a Adolfo Casais Monteiro dos anos 30 como numa carta de 1919 a dois psiquiatras franceses, incluída nas «Páginas Íntimas». No entanto, o tema da loucura volta a aparecer na obra portuguesa do autor, e aqui, em primeiro lugar, nas «Notas para um poema dramático sobre o ‘Fausto'» que datam dos últimos tempos de Search, i. é de 1908 e se prolongam depois pela vida inteira de Pessoa. Este «Fausto» não é outra coisa senão a transplantação de todos os temas obsessivos de Alexander Search para português e a unificação, ou, melhor dito, a exteriorização destas obsessões numa figura mítica - uma espécie de despersonalização dos conflitos íntimos vividos por Search.
A expressão «soul-hell», por ex., que Search emprega diversas vezes para caracterizar o seu estado, volta a aparecer no «Fausto» nesta versão:
«Eu sou o Inferno. Sou Cristo negro
Pregado na cruz ígnea de mim mesmo.»
O tema da loucura surge, por um lado, como consequência da realidade vivida, tal como no fragmento VIII do tema II:
«E eu cambaleio
Pelas vias escuras da loucura
Olhos vagos de susto, pelo horror
De haver realidade e de haver ser,
De haver o facto da realidade...»
Por outro lado, a loucura anda ligada aos grandes representantes da humanidade que, conforme o plano de Fernando Pessoa, deveriam dialogar com Fausto. Assim fala Cristo no fragmento IX do tema II:
«A sonhar venci mundos
Minha vida um sonho foi.
Cerra teus olhos profundos
Para a verdade que dói.
A Ilusão é mãe da Vida:
Fui doido, a tudo por Deus.
Só a loucura incompreendida
Vai avante para os céus.»
A valorização da loucura mudou, como vemos; a loucura é considerada como uma grande força criadora, especialmente quando escarnecida pelos homens. Estamos perto da interpretação que Miguel de Unamuno deu ao Dom Quixote de Cervantes. Do mesmo modo, noutro fragmento do «Fausto» de Pessoa declara Shakespeare:
«Só a loucura é que é grande!
E só ela é que é feliz!»
A revalorização da loucura manifesta-se também nesta pergunta do fragmento VIII do tema II:
«A loucura por que é
Mais sã que a falta dela?...»
Falta-me o tempo para referir-me extensamente ao volume «The mad Fiddler, «O Violinista louco», uma colectânea de poemas ingleses que o autor quis publicar, por volta de 1916, na Inglaterra, e que desenvolve temas da corrente pós-simbolista do primeiro «Orpheu» duma maneira bastante vizinha da poesia georgina então vigente na Inglaterra e caracterizada por uma simplicidade rebuscada que Pessoa tenta imitar.
Mais tarde, com a predominância do vanguardismo no «Orpheu II» e no nunca publicado «Orpheu III», o poeta deve ter considerado ultrapassadas estas tentativas pós-simbolistas do «Mad Fiddler» e isto explica a renúncia definitiva à ideia de publicar estes versos, alguns deles de elevada qualidade artística. O próprio título da colecção, porém, revela que o poeta e a loucura eram ideias firmemente associadas na mente do autor.
Voltemo-nos agora para as poesias de Álvaro de Campos; nelas encontramos novo material para o nosso tema. Nas grandes odes da época sensacionista - 1916 - há trechos como este, tirado de «Passagem das horas»; a vizinhança de histeria a loucura em Campos torna-se evidente:
«Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei...»
Neste último verso há a alusão à «cela do manicómio», e o manicómio é evocado noutro poema de Campos, datado de 1934; aí revela-se o estado intermédio entre a loucura a lucidez artística que Pessoa deve ter considerado como sendo característico do homem criador.
«Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem horror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...
Isto.
Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido a louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...»
«Lúcido a louco», eis a fórmula de Álvaro de Campos para a sua existência e para a existência do poeta em si; muito distante das obsessões prementes do jovem Search, e no entanto aparentado com ele, Campos alude com uma naturalidade brincalhona ao momento outrora tão temido da entrada da insânia no seu ser:
«Ora até que enfim... perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça...!»
O poema termina num gesto de náusea perante a própria obra e a própria existência. Mas esta náusea momentânea não impede que Campos glorifique a loucura dos grandes representantes intelectuais da humanidade, os únicos a conhecerem uma fama póstuma duradoira; assim diz, na poesia «Gazetilha», datada de 1928 ou 1929:
«Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotzkys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.
Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.
Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver!
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!»
O congresso presente é uma das muitas confirmações desta profecia. A mesma convicção, conforme a qual o futuro pertence aos «loucos de hoje» reaparece nos versos da «Mensagem», compostos quase no mesmo tempo em que Campos escreveu a poesia «Gazetilha». Nesta evocação das grandes figuras da história portuguesa já não há lugar para a inveja da felicidade dos outros, que tanto afligiu o jovem Search, que tanto amargurou Álvaro de Campos, quando escreve: «Na casa defronte de mim e dos meus sonhos / Que felicidade há sempre! Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi. São felizes porque não são eu.» Nada disso na «Mensagem», onde o poeta mantém, pelo contrário, um desprezo profundo pelos gozos materiais da vida e por todos aqueles que se contentam com eles. Logo na segunda poesia da «Mensagem», aquela «das quinas», podemos ler:
«Os deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!»
Os protagonistas da história portuguesa, evocados pelo poeta na «Mensagem», no intuito evidente de chamar a consciência do seu povo para os feitos sobre-humanos dos seus antepassados, são todos eles exemplos duma loucura criadora, que tenta o impossível para conquistar o futuro. Na «Mensagem», esta loucura já não é uma particularidade dos poetas e filósofos, ela pertence, pelo contrário, a todos aqueles que tentam realizar um grande projecto, desprezando o conforto duma vida cómoda. Esta atitude encontra a sua expressão culminante nesta conhecida poesia dedicada a D. Sebastião:
«Louco, sim, louco, porque quiz grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está,
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?»
Aqui já não fala o poeta particular, o engenheiro Álvaro de Campos, neste texto fala o poeta nacional, o Super-Camões auto-prognosticado, imbuído do seu sonho messiânico duma regeneração gloriosa de Portugal. Com a viva admiração do poeta pela figura lendária e louca de D. Sebastião contrasta o seu desprezo acentuado pela «besta sadia», por uma população que passa a vida sem ideais e sem grandes projectos, fora o interesse de ganhar mais, de comer bem e de perpetuar a espécie.
Os versos: «Minha loucura, que me a tomem com o que nele ia» soam como a última mensagem de Pessoa ao seu povo. Não seria insuficiente interpretar estes versos ao pé da letra no sentido dum estreito sebastianismo messiânico de esperança no Quinto Império. Parece-me lícito, tendo em conta o verso «com o que nela ia» interpretar este apelo como uma exortação a todos os portugueses para conceberem grandes projectos para regenerar o seu país.
A loucura a que Pessoa se refere na poesia dedicada a D. Sebastião não é uma loucura desintegrante e caótica, é antes uma loucura lúcida, virada para o futuro, com tudo «o que nela ia» em energia criadora e força de vontade e de trabalho. Aqueles que não sabem ou não querem mobilizar a sua loucura criadora em serviço de Portugal, caem sob o veredicto do poeta: são eles as pouco invejáveis «bestas sadias e cadáveres adiados que procriam» de que ele fala na poesia «Dom Sebastião». |
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