Eustaquio Maia

: 74 Joined: 12 May 2005 Posts: 391 Location: Belo Horizonte
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ABERRAÇÃO
Na velhice automática e na infância,
(Hoje, ontem, amanhã e em qualquer era)
Minha hibridez é a súmula sincera
Das defectividades da Substância.
Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia,
Como Belerofonte com a Quimera
Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera
E acho o odor de cadáver na fragância!
Chamo-me Aberração. Minha alma é um misto
De anomalias lúgubres. Existo
Como a cancro, a exigir que os sãos enfermem...
Teço a infâmia; urdo o crime; engendro o lodo
E nas mudanças do Universo todo
Deixo inscrita a memória do meu gérmen!
Augusto dos Anjos (1884-1914)
Observação:
Eu até poderia ter feito um comentário bem detalhado sobre este poema mas acho desnecessário. Acredito, sinceramente, que a simples escolha dele para ser exibido neste fórum já deve falar por si mesma. Pelas verdades nele contidas, Augusto forjou, com divina maestria, uma carapuça-sob-medida, senão para todos, pelos menos para a grande maioria dos seres humanos. E um Poeta de sua magnitude não precisa ser comentado, basta ser contemplado. Pois o que a arte reflete não é propriamente a vida e sim o espectador, o que a arte realmente reflete. Portanto, que cada um possa se contemplar neste impiedoso espelho. _________________ "In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act." George Orwell
Eustáquio Maia
Last edited by Eustaquio Maia on 14/04/2006 - 14:57:36; edited 1 time in total |
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