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O Pensamento do Suicídio

 
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t. h. abrahao

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PostPosted: 08/05/2006 - 19:44:29    Post subject: O Pensamento do Suicídio Reply with quote

O Pensamento do Suicídio
por Genet



O pensamento — não o apelo — mas o pensamento do suicídio, surgiu claramente em mim por altura dos quarenta, ao que parece trazido pelo tédio de viver, por um vazio interior que nada, além do definitivo deslize, parecia poder anular. Apesar disto nenhuma vertigem, nenhum movimento dramático nem violento me atiravam para a morte. Era idéia que eu considerava com calma, com um pouco de horror, enjoativa poção e nada mais. Nessa época, após aventuras miseráveis que sofri e depois transformei em cantos de onde eu procurava extrair uma moral particular*, já me faltava o vigor preciso para iniciar, tal como entretanto sentia no íntimo que havia urgência em fazê-lo, uma obra que resultava não já do facto mas da razão clara, obra de cálculo que paradoxalmente resultava bem mais do número que do vocábulo, do vocábulo bem mais do que do facto, a desfazer-se à medida que ia prosseguindo. Esta exigência absurda ilustrava-se então pela seguinte fórmula: esculpir uma pedra em forma de pedra. Por razões que vou dizer pouco interessado no destino do mundo, já tendo ou julgando ter consumado o meu, condenado ao silêncio pelo vazio interior — equivalendo esse esculpir uma pedra em forma de pedra a calarmo-nos — com lógica e naturalidade pensei no suicídio. O que significa, assim sendo, que me pareciam inúteis os poderes do canto: eu devia desaparecer. Ou num longo momento — até à morte natural — esgotar-me a contemplar aquele em que me tinha transformado. Ou mascarar debaixo das vaidades o meu tédio. O real** perde o pé e deixa à mostra uma insegurança trágica.



* Apesar de toda a minha actividade de ladrão só ter sido a estilização visível de um tema erótico levada ao mundo dos factos, o que me fazia deslocar numa auréola poética, quero aqui dizer de gratuito e de inutilidade, como os meus amantes não podiam ser mais do que suportes de aparências, eram ornamentos caprichosos sem valor prático, sem mais virtude do que inutilidade e luxo. Os meus ladroes, os meus marinheiros, os meus soldados, os meus criminosos? Não: a sua imagem.

** Chamarei real a todo o facto que possa constituir ponto de partida de uma moral, quer dizer, de uma regra em que assentam as relações de todos os homens, Ã palavra que parecia dever exprimi-los seria a palavra equidade. Uma atitude irreal é a que leva logicamente à estética.



Genet. in Infernos.
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