Em busca de um paraíso (e todas as mentiras recheadas em sonhos que dele advém), supostamente perdido, a humanidade transformou-se num imenso mercado onde proliferam ciências, filosofias e religiões. Formidáveis aparelhos ideológicos procuram perpetuar a ignorância (única coisa que, de humana têmpera, dá-nos uma idéia do que seja o infinito), mantida com os dividendos gerados a partir da venda indiscriminada de dogmas.
Grilhões da Racionalidade
Abortaram-se todas as certezas
Verdades áridas e intangíveis
Mas os vácuos resistem impassíveis
E o podre latente
Ou como muitos preferem - "vida" -
Continua resistente
(Ainda que ausente)
Vacuidades - as existências
Vidas - as inexistentes
Mortes - as instantâneas
E sempre o mesmo nihil
Negando todas as morais laicas
Afirmando que a vida
Não paga nem o empréstimo
De nossa insana razão
A racionalidade se reduz
Ao senso comum e a tudo que mente
Mais uma das metafísicas do otimismo...
E o que é que vem a ser o senso comum????????
O que são todas essas subjetividades ávidas de alívio?????
A racionalidade forja os grilhões
E estes não são mais que
Peças fantasmagóricas e imaginárias
O prelúdio dos grilhões da racionalidade é a submissão
As massas compactadas
Mortas pela exaustão de toda uma existência
Escorrendo para o vácuo
Apontando para o absurdo
Bradam: "Eis o caminho!"
"Aqui depositamos toda a pretensão de nossa transcendente ignorância"
"Este é o hausto de sabedoria!"
Mais nada que provenha de tais grilhões
Pode ser tido como sábio
Ou de conhecimento considerável ao menos
Eu ataco visceralmente todos os sábios
Fartos de sua própria sabedoria!
Insípidos obsolescentes!
Eu ataco toda a dialética e psicologia do senso comum
Presunçosamente ignorante e esperançosa
Sempre a humildade, a eterna submissão
A esperança pálida e manca!
A carne enfestada de vermes!
Para quê?
Até quando?
Não precisamos escolher o fim
- um fim -
Que não passa de mais um escape
Não precisamos escolher a sentença
Ou dar o veredicto
A vida encerra tudo isto
Numa dor pungente
De certezas feitas
Cravadas na impossibilidade do ser
Existe o vácuo
Objetivo
Subjetivo
E a ferida virulenta
Que pulsa frenéticamente
Esse amontoado de abstrações
Verdades concebidas e impostas
frases feitas
Um pouco de humor (negro)
Um pouco de inteligência (ridículo)
Um pouco de sentimento (patético)
E depois, queda!
Uma existência ávida
Pelo abismo mais ermo e profundo
Hora real...
O corpo cambaleia
O fôlego que nos sustêm, precipita-se
Queda
Queda
Queda
Enfim
Morte!
Thaís Paloma