Thais Paloma
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Este é um dos sentidos mais fundos do ofício de escrever, realmente, do que vale um grito se não perpetua, se morre ao precipitar-se de nossa boca?
Afinal aquilo que escrevemos e dizemos tem ou não finalidade alguma, incorpora-se a soma de vida intelectual do indivíduo do leitor ou passa sob seus olhos indiferentes.
Não deve ser “o que eu quis dizer...” e sim, “o que eu digo”.
Não devemos escrever aleatoriamente, já é o bastante pensarmos e falarmos...Par meu ser, escrever é um forma de existir, ou melhor, de agüentar a existência, definitivamente. Não sou poeta, escritora, ensaísta nem nada, mas escrever é uma das inúmeras formas de passar por este nada aqui, que é a existência. Se não escrevesse enlouqueceria, talvez....O que nõ seria de todo ruim...
Os ensinamentos que me deram, aludindo neste ponto a Pessoa, tenho descido deles pelas janelas e, saindo para o vasto campo que é o mundo não tenho encontrado nada e se encontro gente é igual a outra...Bom, o que resta? Escrever!
Escrever não afirma nada, mas tem sua importância, a palavra tem sua importância, pode ser nada e pode ser uma arma destrutiva e terrível, assim como a poesia é um campo para a subversão da linguagem, a escrita é um campo para a subversão da existência mesma.
As coisas escritas, as palavras que encerram podem ser muito poderosas ou podem ser este amontoado de lixo que temos hoje...Tem até um fato interessante sobre o poder das palavras relacionada a um fato histórico, serviu para o levante revolucionário português que acendeu a “Revolução dos Cravos”...Eram versos assim: “Grandola, vila morena...”, e todos, já mobilizados, também por outros recursos que envolvem palavras, partiram para as ruas, rebelando-se, muito interessante.
As palavras são gritos, o que escrevemos é um grito, é uma das formas de exprimir o que achamos que nunca vão entender como concebemos exatamente, entendem, mas é de outra forma, e, muitas vezes, nem entendem...
Existem tantos escritores bons, filósofos e o interessante é que muitas pessoas os lêem como lêem aí uma Claúdia ou Ti-Ti-Ti....Parecem estar dormindo ou em uma letargia satânica e ritualística em looping, sei lá...Dopados, drogados...Tanta poesia, tanta coisa...e os outros, nada...
A palavra está sendo sepultada, hoje não dizem mais do que está no dicionário, tão finito, tão formal, tão sem asas.
Quem escreve não deve ter por objetivo ficar, mas deve ter objetivo passar alguma coisa.
De nada adiante se o que dizemos não é ouvido, se o que pensamos não é entendido, se o que sentimos não é retribuído, isso é o que ainda dá algum fôlego ao cansaço que é viver.
Herold Bloom, em seu livro Como e Por Que Ler, diz que não devemos aceitar conselhos no que tange ao que lê os ou deixamos de ler, mas devemos sim procurar algo que nos acrescente ao intelecto e que gostemos, neste sentido, acredito que as pessoas deveriam ter a visão de Kafka no que diz respeito a leitura e aos livros, a saber, um livro deve nos atingir como um tiro, deve nos estarrecer como nossas idéias mais assustadoras, deve ser uma picareta mediante um mar congelado dentro de nós, se não for assim não vale a pena nem o esforço. É uma indiferença a mais.
Assim como o que lemos deve perpetuar, o que escrevemos deve encontrar campo aberto em outros espíritos e lá prosperar e serem passados....Indefinidamente.
Deve-se tentar captar a essência que permeia todas as coisas, ou seja, materializar todo esse nada em construções semânticas, em versos de um poema, em trechos de uma prosa, em teses de um ideal...etc.
Esse grito deve perpetuar como um mergulho em busca de ar, um modo de sobrepujar as guerras reais e irreais, impessoais e pessoais, um modo livre de ver o mundo desabar.
Thaís Paloma
Last edited by Lenore on 03/07/2006 - 23:01:02; edited 1 time in total Last edited by sinnedos on 02/07/2006 - 14:47:44; edited 1 time in total |
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