I
Ao longe passa-se a consumação dos seres.
Escolhido o caminho,
o pouco não abasta,
nem é bastante
o que não tenho.
O poder da virtude
é escolher sua história na história,
atravessar no solstício
o que me impede.
Esqueço a caligrafia,
a ortografia e a gramática
e entro em discordâncias formais.
Mas o ímpeto me joga contra o abismo,
a espécie luminosa me projeta
e a luz estabelece a permanência.
Governo de mim mesmo eu sou
e, na mesma impostura, me desconheço.
Devo ser dono do brilho (lá dentro).
Se foi lançada a verdade
eu não soube, apenas senti.
II
Realidade e irrealidade
são duas oposições,
na contorsão da distância.
Mesmo ausente, sei o que se passa.
Em qualquer lugar,
em qualquer época,
em qualquer mundo.
O que me impele
é a interrogação da vida
diante de si mesma.
E o destino é carência
no meio-fio de cada calçada.
V
O silêncio é como a gargalhada
que o tédio amortece, em existir;
e minha permanência
é farto diálogo nas estâncias
dos continentes mais sombrios.
Meu peso é sobrepasso no éter
e o volume de todos os sentimentos
é menos que nódoa no vácuo;
no meio de cada encruzilhada
um abismo se abre,
para beber no meu vacilar.
Desprotegido eu me protejo,
sem perceber,
porque a perseguição se faz
sem que eu saiba
e se desencadeia mortalmente
quando, vendo o inimigo,
vejo o amigo e me entorpeço.
POLIDORO, Júlio. In: Outro Sol.