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Voltando a ser criança - Rubem Alves

 
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t. h. abrahao

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PostPosted: 30/10/2006 - 20:34:01    Post subject: Voltando a ser criança - Rubem Alves Reply with quote

Voltando a ser criança
por Rubem Alves



Será que a loucura pode ser provocada por excesso de lucidez? Douglas R. Hofstadter, no seu livro Gödel, Escher, Bach (Prêmio Pulitzer) brinca com a idéia de um computador cujo hardware não é capaz de suportar o seu software e se desintegra ao tentar executá-lo. Talvez que isso não possa acontecer com computadores mas possa acontecer com seres humanos: a estrutura física nervosa, não sendo capaz de suportar a riqueza da vida mental que nela existe, se desintegra como um vaso se quebra por não conseguir conter a exuberância da fonte. Nietzsche tornou-se insano no início do ano de 1889, vindo a morrer 11 anos depois, no dia 25 de agosto de 1900, há cem anos, portanto. Seu corpo foi frágil demais para conter sua mente imensa.

Nietzsche é o filósofo que mais amo. Dizia ele só amar os livros escritos com sangue. Seus textos são escritos com sangue, sangue sob a forma de palavras. Bem que ele poderia dizer: “Hoc est corpus meum“, isso é o meu corpo. Por isso eu o leio antropofagicamente. É impossível lê-lo e continuar o mesmo. Suas palavras não são para a cabeça; são para as entranhas. Eu o sinto circulando no meu corpo. E eu sei que isso é assim porque ao lê-lo me ponho a sorrir, sou possuído pela alegria, viro criança. O que está muito de acordo com as suas intenções.

Filósofo? “Sou um discípulo do filósofo Dionísio“, confessou no prefácio de Ecce Homo. Mas Dionísio é tudo, menos filósofo. É o deus do vinho, do êxtase, da música que se apossa do corpo inteiro, por oposição a Apolo, que se contenta com o olhar distante. Um professor da universidade de Berlin, após ler os seus textos, e sem ter entendido coisa alguma, escreveu-lhe aconselhando-o a tentar um outro estilo: ninguém leria as coisas que ele escrevia. Mas o seu estilo, precisamente, é o essencial da sua filosofia. Nietzsche desejava ser músico. Tentou ser compositor. Não conseguiu. Incapaz de fazer música com sons, fez música com palavras. O que se constitui para os filósofos acadêmicos um problema sem solução, semelhante ao da quadratura do círculo. Pode-se representar um círculo por meio de quadrados? Pode-se comunicar a música da prosa nietzscheana por meio do estilo acadêmico, que só entende a letra da linguagem, sendo surdo para a sua música? Filósofo? “Talvez eu seja apenas um bufão“, ele observou. Ele se sabia um exilado, clandestino: “Assim, para fora da minha verdade-loucura eu mergulhei... Que eu seja exilado de toda a verdade! Somente um tolo! Somente um poeta...“

Sua filosofia nasceu da doença. É ele mesmo quem diz: “Somente a minha doença me levou à razão.“ Confissão que parece dar razão aos que não conseguem digeri-lo. E concluem: “Filosofia doente, portanto“. Errado. Doença, a possibilidade da morte, nos conduz aos pensamentos essenciais. “Tenho a lucidez de quem está para morrer“, dizia Fernando Pessoa no “Tabacaria“. E Nietzsche explica: “Eis como me aparece agora aquele longo período de doença: como se eu tivesse redescoberto a vida, inclusive a mim mesmo; eu provei todas as coisas, as boas e mesmo as pequenas, de uma forma como os outros não podem facilmente provar. Transformei, então, a minha vontade de saúde, minha vontade de viver, numa filosofia.“

Nietzsche declarou que um dos seus grandes prazeres, ao lado das longas caminhadas, era a música de Schumann. Schumann era um especialista em miniaturas: “Cenas da Infância“, “Cenas da Floresta“, “Carnaval“: colagem de pequenas peças, cada uma completa em si mesma. Quem não conhece a “Träumerei“? Pois o seu estilo é igual ao de Schumann. O seu gosto pelos aforismos e textos curtos são expressão do seu horror aos sistemas que pretendem abarcar tudo. A busca de um sistema lhe parecia falta de integridade. Assim falou Zaratustra bem que poderia ter o título de “Cenas“, talvez mesmo de “Carnaval“, tendo o “monstro Dionisíaco chamado Zaratustra“ como bufão central.

Zaratustra, seu herói, é uma encarnação plástica do que ele desejava ser. Descendo das montanhas onde passara dez anos de solidão, Zaratustra se encontra com um eremita que vivia numa floresta e por quem passara dez anos antes, quando subia. O eremita se espanta: “Sim, reconheço Zaratustra“, ele diz. “Seus olhos são puros, em sua boca não se esconde nenhum desgosto. E não anda ele como um dançarino? Zaratustra mudou, Zaratustra se tornou uma criança. Zaratustra ficou iluminado.“

“Anuncio o ‘Übermensch‘“, ele proclama. “Super-homem“: traíram os tradutores. Nada mais distante do espírito de Nietzsche. Um homem “super“ é apenas um homem com suas qualidades hipertrofiadas, a mesma mediocridade tornada “super“. O “über“, em Nietzsche, corresponde ao nosso “trans“, como em transbordar. “As cisternas contém; as fontes transbordam“, dizia William Blake, o Nietzsche inglês. Nietzsche não sonhava com tamanhos; sonhava com metamorfoses: é preciso que as cisternas se transformem em fontes! A exuberância não pode ser contida. E assim traduzo eu o “Übermensch“ de Nietzsche como o “homem transbordante“. E quem é esse “homem transbordante“ que ele anuncia? Está lá, na sua curta e poética “fenomenologia do espírito“ a que ele deu o nome de “metamorfoses do espírito“. Primeiro momento: o homem é um camelo, animal reverente, que se ajoelha diante de uma vontade estranha que coloca cargas em suas costas. Sua palavra: “Obedeço“. Segundo momento, primeira metamorfose: o camelo se transforma em leão, o animal de força e vontade, cuja palavra é “Eu quero“! O leão se defronta com um dragão que tem o corpo coberto com escamas douradas. Em cada uma delas está gravado “Tu deves“. O leão luta com o dragão e o mata. Chega, finalmente, o terceiro momento, a última metamorfose, o ponto de chegada: o leão se transforma numa criança. Porque uma criança é exuberância, transbordamento de vida, brinquedo que não acaba. Mais tarde ele irá dizer que “o máximo de maturidade que um homem pode atingir é quando ele tem a seriedade que têm as crianças quando brincam“.

Suas cenas, como em Schumann, poderiam ter o nome de “Cenas da Infância“ – variações musicais sobre o tema “criança“. O que Nietzsche deseja é nos seduzir a nos tornar crianças – para brincar com ele...


_________________
publicado originalmente em: Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 08/2000.
fonte: "Voltando a ser criança"
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