Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



Nietzsche Educador.

 
Post new topic   Reply to topic    Paraíso Niilista Forum Index -> Fórum Filosofia
View previous topic :: View next topic  
Author Message
Jefferson dos Santos




: 39
Joined: 26 Oct 2005
Posts: 22
Location: Campos do Jordão

PostPosted: 13/11/2006 - 14:47:48    Post subject: Nietzsche Educador. Reply with quote

Nietzsche Educador

O ler - uma possibilidade para outros mundos

Uma das características da leitura de Nietzsche e de seus pensamentos, é que ele não costuma nos deixar em paz, a todo o momento em sua leitura; ele está nos chamando a pensar e refletir sobre algum tema. “Nietzsche não deixa em paz seus leitores” (LARROSA, 2004, p. 13), essa deve ser uma das principais características dos professores de filosofia dos nossos dias, convidar o aluno a todo momento estar pensando a sua realidade, a fazer novas leituras do que ele tem como “verdade”. Podemos a partir deste ponto, mostrar para ele que a realidade deve ser construída por ele, que o que está na vida cotidiana pode ter outras formas de ser, que o mundo está aí para nós construirmos!
Nietzsche ataca nosso campo pessoal, ele a todo o momento nos impele a pensar sobre o que cremos; ele ataca nosso conformismo, nos dando a oportunidade de refletir, mostrando que para se entender o que se lê é preciso ter o esforço de se debruçar sobre o que se está vendo e buscar o que se está dizendo, com a preocupação de não diminuir com uma tradução superficial ou ingênua da leitura, ater-se apenas ao que está escrito, para que não ocorra a morte do que está sendo lido.
Tomando o autor como próprio exemplo do que está sendo dito, ele exige “leitores perfeitos, filólogos rigorosos”, o que nos leva a crer que sua preocupação com a leitura é grande, com uma leitura bem feita.
E como deve ser esta leitura que Nietzsche propõe? Uma leitura que libertará o homem do senso comum. Então: “ler devagar, com profundidade, com intenção profunda, abertamente e com olhos abertos e dedos delicados” (LARROASA, 2004, p. 14). A receita que o autor mostra é algo simples de se alcançar, ele não se serve de nenhuma virtude acima da vida.
Ter calma na leitura é o primeiro passo, pois cada palavra tem sua importância, prestar atenção em todas as frases, na ligação que estas têm dentro de um texto, ver cada conceito, com o intuito de vislumbrar o texto integralmente.
O segundo passo é alcançar o objeto com profundidade, ir à raiz do texto, às suas origens, ao seu sentido último. Digamos que seria atingir a “essência” da leitura, entendendo essência como o que a coisa é em sua pluralidade, na sua diversidade, e não como aquela essência que era buscada nos tempos neolíticos.
Sobra-nos para comentar o terceiro passo que o autor deixa em sua escrita, segundo Larrosa, manter os olhos bem abertos e ter os dedos delicados. A leitura não requer medo, o desconhecido não exige este sentimento. Temer o desconhecido é fechar os olhos para o próprio ser do homem, enquanto que é por via deste caminho que nós andamos por toda à vida. Ter dados delicados, a leitura também é uma arte, não um trabalho grosseiro; como uma arte, requer os cuidados de uma arte.
Mas, hoje em dia, nós os leitores modernos, não despomos, mas do tempo que o autor cita. Não temos quase tempo para ler um livro, ou entender algo com tanta calma, o que Nietzsche afirma começar com o leitor moderno, leitor este que diante toda a vasta bibliografia que tem em mãos, tem que dar conta de toda ela. Um mito se cria então, “de que os últimos livros são os melhores e a crença de que se tem de ler quase todos” (LARROSA, 2004, p. 14). A leitura se torna uma vontade de potência, uma vontade de conhecimento, e deixa de ser a busca por aquele simples sentido, que é entender o que está escrito, e passa a ter valor apenas enquanto leitura quantitativa. Ninguém se pergunta se as leituras foram feitas com profundidade, mas só se o numero de leituras é grande. Este é o leitor moderno, que deixou de utilizar a leitura como arte, pois a leitura não exige nada em troca, ela por si só já é o resultado a ser alcançado, e passou-se a utilizar a leitura apenas para escrever um outro livro ou uma resenha.
Um dos grandes segredos de ler um livro com grande profundidade é aprender a ler nas entrelinhas, de não ficar só na literalidade do texto. Voltando ao primeiro passo, onde a leitura exige calma para ser bem feita, ela exige também neste estágio, em primeiro momento, o saber fazer silencio sobre o que está sendo dito, o calar-se diante daquilo. Numa época que todo mundo tem opiniões sobre tudo, onde a informação voa alada por todos os campos, ele pede que a pessoa leia e faça silencio, entenda antes de expressar qualquer palavra. Dá para perceber que é neste ponto aonde começa a tomada de consciência do tema. Mas para quem sabe o que é viver hoje, ter esta calma que o autor está pedindo é um luxo, mas algo necessário.
O leitor moderno está tão crente de sua pessoa e sua cultura que supõe a si mesmo como uma medida segura e um critério de todas as coisas; é tal sua arrogância que se sente capaz de julgar todos os livros; ele é constitutivamente incapaz de suspender o juízo, de guardar silencio, de manter-se retirado, de escutar” (LARROSA, 2004, p. 15).
Como podemos ver, para Nietzsche, o leitor moderno esqueceu o que é leitura. A pergunta que fica após sabermos sobre, o que podemos chamar de deficiência é: é este tipo de leitura que está sendo ensinada nas escolas nos dias de hoje? É esta a leitura ensinada aos jovens? Se for, Nietzsche explica! Se for desta forma que todos estão lendo hoje, então as pessoas, segundo Larrosa, desaprenderam a estudar e aprenderam a ter apenas opiniões superficiais dos conteúdos.
Se for este o leitor moderno que encontramos nas escolas e nas universidades hoje, então, antes de tudo, cabe a pergunta, quem está lendo hoje? Quem é este leitor moderno? Porque para Nietzsche, ler não é apenas ficar no campo do conteúdo do texto, mas ler é viver o texto, (LARROSA, 2004, p. 17). Por este motivo é que a pergunta por quem é o leito cabe a nossa busca, pois se ler também é vivenciar o texto, Nietzsche quer saber quem está vivenciando seu texto, assim podemos saber se o caminho proposto pelo autor estará sendo percorrido.
Este é um ponto crucial para entendermos a proposta de Nietzsche. Se ler requer total atenção do leitor e requer que este vivencie o momento, então o leitor está sendo explorado não apenas como leitor, mais ao viajar no texto, ele está sendo levado em consideração por toda a sua totalidade, pois a leitura tomará contato com todo o seu pensamento, toda a sua experiência, com o que se é.
Ao interpretarmos um texto, o leitor só consegue apreender:
O resultado de nossas disposições anímicas mais profundas: a finura e o caráter de nossos sentidos, nossas disposições corporais, nossas vivencias passadas, nossos instintos, nosso temperamento essencial, a qualidade de nossas entranhas” (LARROSA, 2004, p. 1Cool.

O leitor consegue extrair do texto, então agora Nietzsche atua como psicólogo, apenas as suas disposições, ele consegue retirar do texto apenas ele mesmo, seus pensamentos. Quando você pensa ter aprendido algo de novo num livro, você não o aprendeu, só fez dele algo da sua imagem.
Então, o exercício da leitura não é experimentado apenas pela parte racional humana, e sim pela sua totalidade. Ler é um exercício de ser, de experimentar a vida em sua plenitude, em toda sua desenvoltura. “É a vida em sua totalidade, e não só a inteligência, a que interpreta, a que lê” (LARROSA, 2004, p. 1Cool.
Viver é interpretar, dar um sentido ao mundo e vivenciá-lo, viver é aprender a ler a realidade, porque é isto o que fazemos, somos leitores da realidade. Viver é dar um sentido às coisas que estão a nossa volta.
Para Nietzsche, ser surdo a uma obra é ter experiências diferentes das mesmas. Então, para que possamos trazer o aluno para o mundo dos textos filosóficos, é fazê-lo compartilhar de nossas experiências, para que possamos ensinar o sentido dos textos, dar condições que ele faça o mergulho na vida real sozinho. “Nietzsche sabe que não há um sentido próprio do texto, mas somente a apropriação da força do texto por outra força afim ou contraria” (LARROSA, 2004, p.19). Nunca compreenderemos um texto sem saber a força que o impulsiona, sem saber a experiência que dele surgiu, pois desta forma, o texto parecerá impossível de ler, a pessoa será incapaz de ler, um surdo.
Para Nietzsche, o importante na leitura é que ela tenha a possibilidade “e os leve além de si mesmo” (LARROSA, 2004, p.21). Na leitura, Nietzsche não quer criar super gênios, que tenha a capacidade de ler as “palavras”, ou seja, que tenha uma grande técnica. O importante é conseguir viver o que está sendo lido.

1.1 Um importante passo na leitura: o saber sair do texto

Existe algo muito importante quando o final de um livro é alcançado, o saber “esquecer” o livro, deixar de lado seu pensamento; “O saber sair do texto, o saber terminá-lo e deixá-lo a tempo, a arte do esquecimento” (LARROSA, 2004, p. 21). Saber esquecer um texto é parte fundamental da leitura, saber sair do emaranhado de conceitos a que se prestou. Saber ler exige uma capacidade de saber retirar tudo o que é inútil. Aquele que não tem esta capacidade e guarda o desnecessário, para Nietzsche, tem problemas de “obesidade”, ou seja, acumulo de massa desnecessária. Assim como Zaratustra pede no prólogo de Assim Falou Zaratustra para que seus discípulos se afastem e que ponham a caminhar sozinho. Precisam eles após conviver com Zaratustra, defender-se de Zaratustra, para que pudesse viver de acordo com o próprio espírito. Zaratustra diz que só voltará a encontrá-los quando eles tiverem esquecido totalmente seus escritos. A leitura não deve doutrinar, mostrar um caminho só como o certo, sim, libertar para além do que se é agora não importando para que lado se vá, para ele, isto é viver.
O leitor não deve buscar a verdade nos textos, pois hoje em dia, como diria Raul Seixas, “todo mundo explica”, todo mundo tem fórmulas para todas as situações. A finalidade da leitura é encontrar a si mesmo. O que é dito no livro não é um fim, não deve ser um fim. O livro é apenas a mediação para que se possa vislumbrar “ao mais alto de si próprios, ao que eles são” (LARROSA, 2004, p. 25).
Neste ponto, para o leitor, é importante deixar de ser leitor, olhar para o que foi lido e renegar, saber fazer seu próprio caminho com suas experiências, com seu modo de ver e de pensar, deixar de ser crente e passar a viver com suas próprias conclusões. Dar autonomia à pessoa que começa a caminhar assim como quem escreveu o livro também começou um dia.
Nas palavras de Zaratustra encontramos o passo dado após a leitura em busca de si mesmo:
Por muitos caminhos diferentes e de múltiplos modos cheguei eu à minha verdade; não por uma única escada subi ate a altura onde meus olhos percorrem o mundo. E nunca gostei de perguntar por caminhos, isso, ao meu ver, sempre repugna! Preferiria perguntar e submeter à prova os próprios caminhos. Um ensaiar e perguntar foi todo o meu caminhar e, na verdade, também tem-se de aprender a responder tal pergunta! Este é o meu gosto: não um bom gosto, do qual já não me envergonho nem o escondo. Este é o meu caminho, onde esta o vosso?, assim respondia eu aos que perguntavam pelo caminho, O caminho da verdade não existe. (Nietzsche (Zaratustra), pág. 272) .

Concluímos o texto com a certeza de que ensinar a interpretar é ao mesmo tempo te ensinar a viver com as próprias pernas, é não ter medo de caminhar. Não ter medo de aprender e de viver.

O ser - a busca de si mesmo

Nietzsche remonta esta frase das Odes Piticas de Pindaro, chamando todos que quiserem a viver com profundidade. A reescrita desta frase pelo autor atravessa sua obra, seu pensamento parece buscar em toda sua multiplicidade por este objetivo. Esta busca por si mesmo é dita de maneiras diferente ao longo de seus escritos, o que indica que Nietzsche estava a procura dela, assim como ele chama a quem quiser ouvir. Talvez tenha chegado a hora de nós escrevermos esta frase, “em nossa própria língua, e com nossas próprias palavras; talvez, inclusive com nossa própria assinatura” (LARROSA, 2004, p. 49).
Agora é chegada à hora de abandonar a posição de mero espectador e tomar o controle para si, como deve ser. Nietzsche explica como ele tornou-se a ser ele mesmo e como ele continuou buscando a si mesmo em Ecce Homo, sua autobiografia.
Na sua época, o autor interpreta o povo alemão como covarde e preguiçoso, que “ocultam-se atrás de seus costumes e opiniões” (LARROSA, 2004, p. 55), o que impediam eles de buscar a si mesmo. Ao invés, se ocultavam, escondendo-se, uma vergonha!
O imperativo de Pindaro não é outra coisa senão o voto solene que inicia o vir a ser Nietzsche de Nietzsche, uma espécie de autopromessa sem conteúdo, uma autodeclaração que não declara nada, uma auto-exigência ainda vazia, mas que contem em si uma força excêntrica, um primeiro movimento negativo (LARROSA, 2004, p. 60).
Podemos perceber que o vir a ser, o encontrar-se a si mesmo, descobrir-se a si próprio, formar-se a si próprio, cultivar-se a si próprio, fazer-se a si próprio, conhecer-se a si próprio, todos são formados conforme a citação acima. É o caminho que devemos fazer, o caminho que devemos buscar. Um caminho que parte em direção ao desconhecido, em direção ao nada. Ao mesmo tempo em que ele propõe ser, Nietzsche nega este pressuposto para que possa existir uma abertura necessária para o ser vir a ser. Pois você afirmar o ser antes de descobri-lo é prever um fato que pode não se consumar.
Podemos agir no plano em que nos é proposto, podemos realizar este “projeto” na medida em que não nos preocuparmos com o conteúdo, não ficarmos preocupados em ensinar conceitos, mais do que isso, dermos a oportunidade para o aluno buscar seus próprios conceitos, suas formas de ver as coisas, de ser, que são peculiares somente a ele. Ao invés de fechar as possibilidades dizendo como as coisas são, deixar que ele próprio busque com sua própria vontade, sabendo que ele pode vir a não encontrar, a não realizar o que ele quer ou o que ele pensa. Para o autor, isto faz parte da vida.
Para nós chegarmos a ser o que nós somos, deveremos combater o que já somos. È uma batalha entre nós mesmos, contra o próprio eu de cada um. Mas o sentido desta luta é afirmativo, pois ele se lança ao proibido, como o famoso dizer de Ouvidio, que pretende ser o que se é acima de qualquer preceito que seja estranho à sua natureza, ao seu ser.
Vir a ser é o que se acontece quando a linha estendida entre o animal e o homem ouve sua consciência, sua própria voz. Desta forma, o que parece reinar e o que Nietzsche parece propor fica no campo só da subjetividade. Quando falamos em educação dos alunos, dos jovens principalmente, não é dito que devemos formar o jovem em sua totalidade. Este é o primeiro passo, formar o eu para que ele seja possível de conviver com os outros “eus”.
Nietzsche descreve na Gaia Ciência, no parágrafo 335, que o que os homens mais temem é o conhecimento de si mesmos, que a cada momento que se aproxima a este ponto, poucos são os que continuam, poucos são os que buscam o que ele propõe, poucos são os que houvem sua própria consciência.
Encontramos aqui uma proposta nietzschiana de como se alcançar esta inclinação da consciência, “Para chegarmos a ser o que somos, temos que levar em uma mão o escalpelo da física, a maquina de distinguir cuidadosamente e de destruir impiedosamente, e, na outra, a capacidade de criação, o espírito de arte” (LARROSA, 2004, p. 65).
Temos que ter noção de nossas possibilidades e ter um espírito criador, capaz de dar possibilidades diversas, de caminhar como quem sempre passa pelos mesmos lugares, mas sempre vê coisas diferentes. Instala-se agora uma nova forma para este ser, pois assim como a arte, este ser pode ser inventado, moldado de acordo com as inclinações da pessoa. Mais uma vez a atenção se volta para o aluno. Como fechar a realidade em sala de aula, se existe a possibilidade de inventarmos a vida, o que não significa fugir, mas pintá-la como nós vemos. Cada vez este ideal de “verdade” fica distante de uma realidade objetiva. O caminho parece apontar para uma abertura que permanece vazia em seu principio e vai se preenchendo com a vivência.
O livro Assim falava Zaratustra mostra bem a busca pelo que se é, pois ao longo da historia o personagem vai mudando sua compreensão de si mesmo e de seus ensinamentos. Neste mesmo livro, o autor Larrosa afirma que só pelo eterno retorno é capaz de alcançar o que se é, que é preciso silenciar diante dele, e ouvir o que ele tem a dizer.
Se Zaratustra, como educador, atrai os peixes, não é para atar os homens a si mesmo, para convidá-los a seguir-lhe, para convertê-los em discípulos, e tampouco para atá-los a si mesmo, a qualquer identidade pessoal mesmificante, mas para elevá-los ao máximo deles mesmos, ao que há em cada um deles, que é maior que ele e, portanto, outra coisa que não eles. (LARROSA, 2004, p. 74).
Zaratustra se torna o maior legislador de todos, pois agora ele não impõe nada a ninguém, apenas “salta”. Se cada educador conseguisse vislumbrar o que Zaratustra propõe, então, o mundo seria uma criação humana demasiado justo, entendendo por justiça a oportunidade de conseguir fazer o que se tem potencialidade. Mais uma vez a vontade de verdade parece distanciar da possibilidade de alcançar o que é por ela!
Podemos ver em seus escritos, que o próprio pensamento de Nietzsche está baseado em seus escritos, pois toma caminhos, em algum momento ouvindo sua consciência, depois busca uma pré-consciência onde haveria inclinações que deveriam ser revistas para buscar a ser o que se é, e por fim em Zaratustra, monta apenas uma estrutura deixando de lado todo conteúdo objetificante. A pergunta que fica é a seguinte: após esta exposição de Nietzsche sobre como se pode alcançar o que se é, uma educação que não tem como base o conteúdo, mais ensinar uma estrutura de vida, que para Nietzsche, a pessoa não é só razão, poderia formar um corpo de cidadãos fortalecido? Para que nós possamos nos aproximar desta pessoa, seria importante saber do autor, quem é um gênio para ele, ou seja, o que é que Nietzsche almeja.

2.1 O Gênio de Nietzsche

Segundo a autora Rosa Maria em Nietzsche educador, o gênio é a grande natureza contemplativa armada para a criação eterna. Segundo ela, Nietzsche diz que na alma do gênio deve conter: a força da imaginação, a abundancia e a irregularidade do espírito, uma alma extensa, um espírito sempre em atividade. Ser sensível a todas as manifestações da natureza.
O nascimento do gênio não depende da cultura: é uma dádiva da natureza, mas foi amadurecido e nutrido no seio materno da cultura de um povo, enquanto, sem esta pratica que o protege e o aquece, ele estará na impossibilidade absoluta de desdobrar suas asas para seu vôo eterno. (DIAS, 1991, p. 81)

Para ser um gênio, segundo Nietzsche, não precisa ser um deus, ou ter um atributo que esteja fora do próprio ser humano. Basta sentir a vida, viver de acordo consigo mesmo. É possível que qualquer um de nós alcance este ideal do autor, e possamos ver como é olhar para fora de mim e ver o que está ali e nós não podíamos enxergar.
Ser gênio poderia constituir um outro passo em Nietzsche, um passo que teria como meta criar o mundo novamente, ser capaz de desconstruir toda uma cultura para poder, dela mesma criar um novo modo de viver.
É preciso ser sensível, porque o que mais chama o homem a criar é a sensibilidade de viver. Nietzsche neste ponto parece dizer que para se alcançar o além do homem é preciso ter um pouco do espírito do artista. Como podemos ver, Nietzsche está nos dias atuais chamando a cada um para ser o que ele é, dando as rédeas da sua vida a si mesmo. Não diz o que está certo, só seja o que você é.
Se a pessoa conseguir sentir a força com que emerge o pensamento dele, o além do homem se anunciará.

O existir - a busca pelo além de si mesmo

O primeiro passo e primordial para que possa existir uma busca para o além, ou seja, uma busca que exige o nosso querer e certo espaço para acontecer é a liberdade. Nos texto de Nietzsche, assim falava Zaratustra, aonde leva o titulo de “As três metamorfoses”, o autor tratará sobre a liberdade. No texto, temos a figura do leão, que é o rei da liberdade, o camelo, que é o animal de carga, que fica feliz em obedecer a seu dever, um animal domesticado e a criança, que representa o esquecimento, a inocência, o jogo, a afirmação, a criação, abertura, a possibilidade, o inicio. O leão representa o movimento de fazer-se livre, pois gasta sua força em trazer isto à sua realidade. Estes são três estágios dos homens, três etapas que Nietzsche analisa. A liberdade só será efetiva quando se alcançar o estágio da criança. Então, as bases da liberdade de Nietzsche são as características da criança, suas qualidades.
A criança representa no pensamento de Nietzsche o começo de algo, algo que ama a vida, algo que quer viver. Algo que começa a viver e está pronta para criar. Esta criança não sabe dos problemas do mundo, como se sua cabeça estivasse limpa, podendo pender para o lado que ela quiser. Ela não teria nenhuma inclinação prévia a suas ações, mas agiria num movimento de pura inovação, de pura liberdade.
Ao ler este apurado texto, Nietzsche e a Educação, fica claro que a pretensão de Nietzsche ao escrever Assim Falou Zaratustra, pode ser entendida de duas maneiras diferentes. A primeira, uma maneira negativa, como se o autor estivesse querendo confundir-nos, querendo enganar e desorientar a todos que estão lendo. A segunda, este livro pode ser entendido como um “berço de novos valores”, como a tentativa de um autor criar uma nova cultura, de mostrar que o mundo como nós o percebemos não é algo imóvel e imutável, ele pode e deve ser usado de acordo com as pessoas que vivem nele. Pode ser um livro positivo, um livro que estimula a criação, a busca de si mesmo, da própria felicidade de cada um. Este ultimo parece ser a leitura mais plausível de Nietzsche, pois parece que por de trás de todo aquele rancor e dureza de seus escritos, ele invoca seus leitores a mergulhar no mundo assim como ele o fez, e perceber a vida, cada um, a partir do seu próprio olhar.
... Zaratustra é uma afirmação pura, um canto à vida, uma chamada à transfiguração, uma figura de ligeireza, da alegria e da inocência do porvir. E a criança das três metamorfoses é um de seus múltiplos emblemas. Nietzsche quer ser um começo. Não só um destruidor, mas um começo. E sua encarnação destrutiva e critica não é mais do que a condição para o começo, o trabalho preliminar de limpeza. (LARROSA, 2004, p. 111)
A importância de aplicar o pensamento de Nietzsche na educação não poderia ser uma revolução na sua forma de ser, um novo começo pra um porvir que não deixaria em momento algum isto se tornar estático, pois o ser humano não tem sua natureza sobre apenas um plano. Ela é múltipla e assim deve ser.
Então, no pensamento sobre as três metamorfoses nietzschianas, a relação entre o pensamento negativo, o da destruição, e o pensamento positivo, o que podemos chamar de o inovador, estão presentes dentro deste dito. Sucessivamente, caem sobre o leão e a criança. Temos a certeza, ao ler sobre as três fases que, o leão é o inicio da mudança, ele representa a tomada de poder por parte da pessoa, e a criança é aprender a viver em harmonia com o diferente, como é comum dizer, “não tem tempo ruim”.
Para a educação, não propomos o espírito destruidor do leão, pois este pode ser interpretado como negativo, este pode gerar desarmonia durante toda a sua estada em uma comunidade onde haja apenas os diferentes. A criança é o alvo a ser alcançado. Para a educação tomar uma nova forma de ser, deixando todo conteúdo formal, e mergulhando numa viagem, em primeiro lugar a busca desta criança. Não que esta criança, ou o aluno que trabalharemos neste programa não terá acesso a conteúdo, mas ao contrário, em primeiro lugar ele vai descobrir o mundo em que vive, o que está a sua volta, e qual postura ele pretende tomar. Mediante este processo de busca por ele mesmo, a criança surgirá junto com o além do homem.

3.1 É possível voltar a ter o espírito de criança?

Nietzsche reconhece que é difícil voltar a ser criança, assim como alcançar o além do homem pode ser chamado de utopia. Parece que para o homem moderno, a vida começa a se tornar um tédio, pois é pressão de todos os lados, a sociedade começa a ser cada vez mais complexas, e cada vez mais complexas. Mas a criança continua a ter a liberdade de viver numa eterna criação. Podemos dizer que a palavra criação é sinônimo de criança em Nietzsche.
É como se o artista moderno estivesse cansado de si mesmo, prisioneiro de sua própria historia, farto de sua própria cultura. Demasiado pesado, demasiado trabalho, demasiada consciência. Nesse contexto, o regresso à infância, a difícil conquista da infância, aparece como uma figura de inocência recuperada, como uma imagem do novo. (LARROSA, 2004, p. 119).
O homem moderno parece ter dificuldades para viver, e Nietzsche indica uma alternativa, que não tem a pretensão de apontar o que é certo ou errado, só pretende ser algo de novo, algo de diferente, que resgate a vida humana a seus moldes. Sua tentativa de “voltar” a ser homem é conseguir ser criança de novo. Será possível?
Esta busca que Nietzsche faz, ele diz que o autor moderno deve fazê-la. Parece ser um esquecimento de si, de como se está no momento, de se tornar o além ou aquém a si próprio, para poder encontrar um lugar novo para ser, ou encontrar um novo homem, capaz de ser ele mesmo. Parece que só após a destruição do eu, pode haver o surgimento de uma nova forma de ser, um novo sujeito. Então o primeiro passo para se alcançar a criação é destruir quem somos, esta pessoa cheia de conceitos aprendidos por quem não dá valor a vida, por quem não pensou a vida para criá-los, que não tem no ser humano, o fim da vida.
Após a destruição do eu, deve haver algo para preencher o vazio que ficou. Mas não poderemos preenchê-lo com nossa própria cultura, com nosso próprio pensamento, com o que já fomos um dia. A criação deve-se dar de forma totalmente inovadora. Pensar novos conceitos significa abandonar tudo, através da liberdade seriamos capazes de alcançá-los, para isto precisaríamos abandonar tudo. Inventar um novo mundo.
Podemos sim voltar a ser criança, é só apagar o mundo que vivemos e criar outro para nós, é possível mudar uma cultura ou uma educação, pois são todas obras do homem. O homem pode buscar a si mesmo como bem entender. Este deveria ser o único principio inviolável que deveria ser preservado.

Foram usados o “Nietzsche Educador” de Rosa Maria Dias e Nietzsche e a Educação de Jorge Larrosa e mais o livros do próprio Nietzsche
_________________
O que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar tem de ficar no silêncio.
Back to top
View user's profile Send private message Send e-mail MSN Messenger
Display posts from previous:   
Post new topic   Reply to topic    Paraíso Niilista Forum Index -> Fórum Filosofia All times are GMT - 3 Hours
Page 1 of 1

 
Jump to:  
You cannot post new topics in this forum
You cannot reply to topics in this forum
You cannot edit your posts in this forum
You cannot delete your posts in this forum
You cannot vote in polls in this forum





    RSS Paraíso Niilista
  Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram
Copyright © Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram
:: Caso encontre erros, aprenda com eles ::
[On-line há ]
[última atualização: 23/01/2026]
  [Powered by]
intelligence...