t. h. abrahao
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Niilismo ao Concreto
por Rafael Mantovani
Provavelmente, em todas as épocas os indivíduos pensam que estão passando por um momento decisivo da história. Obviamente, alguns deles estavam errados e nós, contemporâneos, não fugimos da regra. Muito pelo contrário, chega-se a falar de fim da história ou posthistoire. Vários são os autores que falam do fim da história, mas o que mais interessa nesse momento é Arnold Gehen. Em Ende der Geschichte? (Fim da história?) de 1974, o autor, baseado em Gottfried Benn, diz que desde de 1954 o mundo não caminha pelo tempo graças a um desenvolvimento, mas unicamente a um movimento. A diferença entre desenvolvimento e movimento consiste em que, no primeiro caso, a cultura e a dinâmica social são substituídas por outras conforme o avançar do tempo. No segundo caso, que é o atual, o mundo assume, planetariamente, os ditames da civilização tecnológica que consiste na produção para a substituição contínua para sustentar as engrenagens do capitalismo. A sociedade reproduz repetidamente sem criar nada de novo, mas simplesmente sustenta as engrenagens do capitalismo que necessita do consumo independentemente da necessidade. Logo, graças à reprodução repetida sem criação, a ordem se cristaliza.
E se o hegelianismo e o marxismo defendiam que o mundo era uma repetida contraposição de opostos que promovia novas ordens sociais, essa dinâmica não existe mais, pois a briga de classes e o sentimento utópico são dois fogos a cada dia mais controlados e acalmados. E o que tem causado a apatia pela utopia? Pode-se dizer que é fruto de um comportamento niilista, mas antes de defender essa conclusão, Heidegger nos mostra como explicá-la. Esse autor defende que o niilismo é o coroamento inevitável do poder destrutivo do racionalismo nascido com os gregos. Esse racionalismo acaba, hoje, na era da tecnociência, produzindo as renovações constantes (que não correspondem a um desenvolvimento, mas a um movimento) as quais resultam em inúmeras novas regras e novos códigos ético para cada espécie de “novidade” que surge. Segundo Franco Volpi, “com tão variado catálogo de idéias, o turista curioso poderia passear infinitamente por esse jardim-mercado de éticas” o qual produz uma “verdadeira guerra de palavra, sem vencedores nem vencidos, e produz a indiferença, o relativismo e o cepticismo”. Porém, diante dessas circunstâncias, “a ciência e a técnica organizam a vida no planeta, irresistíveis como uma avalanche. Diante delas, a ética e a moral têm a beleza de fósseis raros. Não resta alternativa ao homem contemporâneo. Pense ou faça o que quiser, estará sempre submetido à coerção da ‘tecnociência’.”
Desde de os gregos, o comportamento niilista está presente, por exemplo, com Górgias que dizia que nada existe e se algo existisse, seria incognoscível ao homem. Depois disso, o comportamento niilista tem promovido inúmeras mudanças históricas, entre elas, a secularização do Estado pela negação de dogmatismos, transcendentalismos e exigindo explicações racionais para a autoridade, assim como para qualquer comportamento humano.
No século XIX, a Rússia passa por um processo de crítica social que domina a literatura e tem, assim, o maior representante niilista na parte artística, Fiódor Dostoiévski. No mesmo século XIX, surge também o maior teórico do niilismo no campo filosófico que se auto-intitula o mais perfeito niilista da Europa, Friedrich Nietzsche.
Nietzsche divide o niilismo em duas categorias: a primeira é o niilismo incompleto. Esse se baseia pela negação dos valores da sociedade, porém, pronto para incorporar novos valores que estão se criando. Logo, pode-se dizer que qualquer mudança de valores é intermediada por um niilismo incompleto, assim como é o romance de Turgueniev, cujo personagem principal nega os valores aristocráticos em declínio para assumir a filosofia positivista que estava em expansão no momento. A segunda categoria, o niilismo completo, não destrói apenas os valores anteriores, mas o espaço o qual aqueles preenchiam: o mundo supra-sensível. Logo, nega-se o platonismo, a crença de um bem supremo que deve ser almejado pelos homens e instauram-se, assim, a relatividade e a negação de uma verdade absoluta. Essa categoria é dividida em dois tipos: o niilismo passivo, que consiste no enfraquecimento do espírito (Schopenhauer), e o niilismo ativo (Nietzsche), que acelera o processo de destruição.
O niilismo consiste numa negação dos valores sociais e a redução de tudo a nada. E essa redução é extremamente importante para a possibilidade de liberdade individual. O existencialismo, que defende a liberdade total da natureza humana (liberdade na qual essa natureza tem total autonomia), acredita que a consciência de liberdade, o para-si, precisa de espaço para poder se definir. Ela não pode estar presa a predeterminações que restringiriam a sua autonomia, inclusive seu próprio corpo e circunstâncias naturais (o chamado em-si) que o para-si tenta constantemente negar e superar. Da mesma forma, Stirner precisou limpar o terreno dos sistemas filosóficos e morais para falar sobre a individualidade que ele chama de “o único”, e Nietzsche, que falava sobre a vontade de poder/potência a qual se baseava pela expansão ilimitada do mais interior do indivíduo ao mais exterior, também assumia uma postura de destruição de tudo o que cerceava a liberdade ou tentava imprimir contorno à estrutura simbólica individual, como os valores, ou, também, os sistemas filosóficos.
Portanto, para uma liberdade em expansão, é mister a destruição das predeterminações e do espaço supra-sensível o qual alguns indivíduos, com o intuito de dominar, poderiam preencher com os seus valores individuais e arrogarem-se do conhecimento da pretensa verdade absoluta. Assim, cada entidade humana que zela pela própria liberdade pode preencher o vácuo com a sua própria estrutura simbólica. Logo, o vácuo é criado para que, a partir dele, os indivíduos possam criam e ser. Ser cada um, “único”.
Infelizmente, esse niilismo já teve o seu período e hoje há o que eu chamaria de niilismo apático. Essa espécie tem as mesmas bases de qualquer outra classificação de niilismo: nega o transcendental, o mundo supra-sensível com sua ética e princípios. Mas esse tipo vive unicamente o presente mais aprisionador. A negação das predeterminações é feita e a partir disso nada é realizado a não ser assimilar as novas técnicas e formas de trabalho da tecnociência, o que expropria todo o tempo dos indivíduos necessário para uma formação individual consistente e, desde a época em que Marx escreveu a esse respeito, tem reduzido os indivíduos à categoria de utensílios de produção. Hoje se tornou extremamente necessária uma auto-redução, uma negação da unicidade individual para adequar-se a unidade corporativa dos meios de produção ou, talvez, numa linguagem mais atual, de arrecadação.
A segunda conseqüência do niilismo apático é o não-distanciamento entre o ser e o dever-ser, ou, em outras palavras, o esfriamento do sentimento utópico. Portanto, esse comportamento é a resolução para dois problemas da ordem social capitalista: a não-aceitação dos meios de existência impostos e o espírito combativo. E esse comportamento dissolve a ambos através do reconhecimento do poder coercitivo da autoridade e da incapacidade de criar uma estrutura simbólica e moral única. Dessa forma há, sem maiores problemas, uma aquiescência coletiva à predominância da tecnociência planetária que, diferentemente de formas anteriores de dominação, não possui valores para serem impostos, mas necessita da amoralidade e da apatia social para que a razão e a potência do espírito possam ser consumidas, respeitando, assim, a amoralidade da produção que se disfarça sob o jardim-mercado de éticas. O papel do mercado de éticas é criar uma relativização que tem com intuito confundir o indivíduo. Os únicos valores protegidos por essa nova ordem social são o trabalho e o respeito, além, é claro, dos comportamentos os quais não chegam a ser valores, mas que são repetidos com o mesmo furor com o qual os indivíduos em geral defendem seus valores, comportamentos que são o enfraquecimento do espírito e uma indisposição para a própria liberdade inventiva e simbólica para que se abra espaço à pseudo-ética coletiva a qual defende interesses mercadológicos e políticos, algumas vezes, camuflados inclusive sob antigos valores humanitários. Vários exemplos podem ser dados a respeito da pseudo-ética, um deles são as alianças de guerra as quais se disfarçam com afinidades ideológicas ou argumentações de que o outro atenta contra valores importantes, mas que, na realidade, refletem, unicamente, interesses econômicos.
Portanto, o niilismo tradicional já fez a sua parte: trouxe a consciência de relativismo e, conseqüentemente, de inexistência de uma verdade absoluta ou um mundo supra-sensível dogmático. Agora esse niilismo aos valores é uma ferramenta de dominação e controle social. Agora que o nada está aberto para que o indivíduo possa criar o seu único, resta a redução (ou melhor: a destruição) do impedimento a essa liberdade: as formas de sobrevivência criadas as quais impedem o indivíduo de criar. O nascimento de um niilismo ao concreto é o próximo passo de uma mentalidade que nasceu há séculos a qual tem como finalidades a recusa de explicações vazias, românticas e enganosas e a busca pela liberdade, mas acabou sendo incorporada às relações de dominação. E para sair desse campo, o niilismo precisa direcionar-se ao mundo sensível, para as formas de vida que foram criadas sem a interferência nem de valores transcendentais nem de valores pessoais individuais. Caso contrário, o homem irá estar sempre satisfeito com a impossibilidade de criação individual e produzindo a apatia, assim como está hoje. A imposição de valores já foi derrubada, agora falta derrubar a imposição de estilo de vida; em outras palavras, o ceticismo perante os dogmatismos já está estabelecido, agora falta o ceticismo perante o discurso da autoridade.
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(Fonte: http://www.verbonauta.com.br/colunas_ler.php?id=128&autor=17) |
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