Apresento aqui uma crítica ao Decálogo Liberal feita por um amigo, cuja identidade não revelarei (ele mesmo prefere assim).
Caro Eustáquio,
Bertrand Russell pertenceu a uma família aristocrática inglesa. Russell nunca foi fiel com suas "amadas", tendo vários "casos", para citar, Lady Ottoline Morrell (meia-irmã do sexto duque de Portland) e a atriz Lady Constance Malleson Guilherme Amaral Beckert Matz. Mas sem desmerecer sua obra, foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram (em grande parte) no século XX, além de ter sido um importante político liberal, activista e um popularizador da Filosofia. O que se sabe é que milhões de pessoas respeitaram Russell como uma espécie de profeta da vida racional e da criatividade.
Russell nasceu em 1872, no auge do poderio econômico e político do Reino Unido (falecendo em 1970, vítima de gripe) e presenciou durante sua vida o desmoronamento e a monumental queda do "Império Britânico", que teve um poder drenado em duas guerras vitoriosas, mas debilitantes. Até à sua morte, a sua voz deteve sempre autoridade moral, uma vez que ele foi um crítico influente das armas nucleares e da guerra estadunidense no Vietnã. Era inquieto. Mas para variar, a sua postura em vários temas foi controversa... Agora em relação ao texto de Russell, segue algumas críticas:
“1. Não tenha certeza absoluta de nada.”
Se não tivéssemos (humanidade) certeza absoluta, por exemplo com a invenção da “Ciência Moderna”, como faríamos uma Revolução Científica, que é nada mais nada menos que um tratamento racional para desvendar ou especular sobre os mistérios da natureza, sociedade e consciência humana?
“2. Não considere que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.”
Aquele que não esconde evidências (sigilosas), está equivocado com sua honestidade e boa fé, e justificarei esta posição, deixando subentendido convicções pessoais. Por exemplo, imagine uma fazenda, com um belo pasto com muitas ovelhas aprisionadas. E neste pasto, vive o dono e os seus cães pastores. Mas também existem, nas proximidades do pasto, os lobos livres e selvagens. Um aspecto interessante é observar que os cães e os lobos têm algo em comum: ambos se interessam e gostam de ovelhas, e vivem perto delas. Assim, muitas vezes, cães e lobos deixam confusas as ovelhas. No entanto, não é difícil distinguir entre um e outro. Vejamos:
Cães protegem o bem (não pertencente) das ovelhas, lobos buscam os bens das ovelhas;
Cães vivem à sombra do dono, lobos vivem à sombra de árvores e cavernas;
Cães têm fraquezas, lobos são poderosos;
Cães são ensináveis, lobos são donos de si;
Cães têm amigos, lobos tem parceiros;
Cães vivem de salários, lobos enriquecem.
Cães vivem para suas ovelhas, lobos se abastecem das ovelhas;
Cães apontam para o dono, lobos apontam para si mesmos e para o bando deles;
Cães são pessoas humanas reais da sociedade, lobos são personagens caricatos da natureza;
Cães ajudam as ovelhas a se manterem crianças, lobos satirizam a infantilização das ovelhas;
Cães são vaidosos e especiais, lobos são simples e comuns;
Cães se deixam conhecer (uniformes, fardas, postos, etc.), lobos se distanciam e camuflam;
Cães recebem alimento graças as ovelhas, lobos se alimentam das ovelhas;
Cães lidam com a complexidade da vida sem respostas, lobos lidam com técnicas pragmáticas;
Cães vivem apenas de fé, lobos vivem de astúcia e tem somente fé na razão instrumental;
Cães se comprometem com o projeto do dono, lobos têm projetos pessoais;
Cães são transparentes, lobos têm agendas secretas;
Cães governam as massas, lobos dirigem empresas;
Cães pastoreiam as ovelhas, lobos seduzem as ovelhas;
Cães se autopromovem e lobos buscam a discrição;
Cães geram ovelhas dependentes e seguidoras deles e lobos seguem apenas a si mesmos;
Cães aprisionam em vínculos de dependência e lobos constroem vínculos vantajosos e parcerias.
“3. Nunca tente desencorajar o raciocínio, pois com ele certamente você terá sucesso.”
O raciocínio é mais sensato do que o impulso, embora a sensação-percepção seja tão importante quanto o raciocínio-pensamento, visto que o mundo é uma sensação-percepção contínua.
“4. Quando você encontrar oposição, mesmo que seja de seu marido ou de suas crianças, esforce-se para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória que dependente de autoridade é irreal e ilusória.”
Só se aprende repetindo-repetindo, errando-corrigindo, por intermédio de oposições e críticas.
“5. Não tenha respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.”
A metafísica (uma palavra em referência as doutrinas) é uma quimera. Pode-se ler mil tratados de sábios e não desvendar o segredo do universo, ou questões como: O que é a matéria? Porque as sementes germinam na terra? Mas por outro lado, as crenças tem um lado subjetivo muito forte. Nos esforçando para ver a crença, ela acabará por existir. Os sonhos são um mistério, portanto fonte de superstições, como os que sonham com acontecimentos futuros e pensam ser Deus o responsável. O fato de não podermos usar a razão enquanto vivemos um sonho, e de ele ser um estado alternativo, de percepção etérea, é o que faz suscitar dúvidas de interpretação. Os sonhos não tem valor objetivo. E as autoridades, ao meu ver, se baseiam em sonhos para construir suas teias - dogmas, preceitos, legislações...
Para os Iluministas da Idade Moderna, por exemplo, Deus não existe e é o mal da humanidade. A ignorância e o medo criaram os Deuses (hoje em dia, eles são as divindades personificadas da mídia), e a fraqueza os preserva. É um empecilho para a civilização. O materialismo é preferencial ao idealismo. Essas idéias foram defendidas na Enciclopédia, cujo principal autor é Diderot. Os enciclopedistas criticavam os fanáticos e supersticiosos, e principalmente aqueles que disseminavam a hipocrisia moral-legal e a(s) “granDE(s) mentira(s) secUlar(eS)”, pois na visão dos enciclopedistas, é incrível e surpreendente que povos inteiros acreditem em coisas que não estão no tempo e nem no espaço.
“6. Não use o poder para suprimir opiniões que considere perniciosas, pois as opiniões irão suprimir você.”
Sou apenas um defensor da justiça, mesmo sendo “suprimido” por certas opiniões do senso comum. Agora tenho apenas compaixão daqueles que estão em desgraça e nem se dão conta das causas e luto internamente contra as opiniões da tirania oculta... Resumindo, não me entusiasmo com as formas de governo. Acho os legisladores reducionistas. Como estudei certos aspectos grotescos da natureza humana, não sou patriótico. Não acredito mais no povo e não gosto da ignorância, pois pelo visto ele se porta como os animais e ela tende sempre a perpetuação.
“7. Não tenha medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas”.
Este texto é um exemplo disso.
“8. Encontre mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se você valoriza a inteligência como deveria, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.”
A “primeira posição” somente é adotada pelo indivíduo que recebe uma educação especial... e a segunda é mais condizente com maneira como a sociedade é, ou seja, a realidade material produz as condições de vida que expõe ao “homem da segunda posição” sua circunstância existencial, visto que este normalmente parte de “suas idéias” de mundo, ou seja, “sua ideologia”. Não é a idéia que produz a realidade, é a realidade que produz idéias. Mas dialeticamente se correlacionam e se sintetizam em uma práxis social. Como exemplo, dentro das duas ordens de pensamento existentes na Alemanha do século XIX, o racionalismo (idealismo lógico, Leibniz, Hegel) e o romantismo (idealismo sensível, Schopenhauer, Nietzsche), e como evolução e crítica do "materialismo contemplativo" de Ludwig Feuerbach, Marx defendia a "práxis" (ou prática) e um materialismo ativo. Seu materialismo não pode se definir como meramente empirista-mecanicista, primeiro porque julga Marx que o empirismo-materialismo é ainda muito abstrato, e segundo porque seu materialismo é dialético. Ou seja, matéria e idéia são categorias que de forma oposta se inter-relacionam, ou em termo tradicional, trata-se de uma "unidade de opostos". Tendo por a priori a própria matéria (realidade), o princípio (tese) é materialista, mas não é um materialismo absoluto.
Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Sua verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições por estas suscitadas, contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente de sua posição e de suas necessidades, consciente das condições de sua emancipação. A luta era seu elemento. E ele lutou com uma tenacidade e um sucesso com quem poucos puderam rivalizar. Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado na história. Governos, tanto monarquias como democracias, deportaram-no... Burgueses, quer conservadores ou ultrademocráticos, porfiavam entre si ao lançar difamações contra ele. Tudo isso ele punha de lado, como se fossem teias de aranha, não tomando conhecimento, só respondendo em caso de necessidade extrema. E morreu amado, reverenciado e pranteado por milhões de colegas trabalhadores revolucionários - das minas da Sibéria até a Califórnia, de todas as partes da Europa e da América - e atrevo-me a dizer que, embora, muito embora, possa ter tido muitos adversários, não teve nenhum inimigo pessoal.
“9. Seja escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentar escondê-la.”
“Tenha consideração com os vivos; aos mortos, diga apenas as verdades.” [Voltaire]
“10. Não tenha inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.”
“O melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis.” [Voltaire]
Abraço,
Mike.
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"In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act." George Orwell
Eustáquio Maia