t. h. abrahao
Fundador PN

: 41 Joined: 22 Jan 2005 Posts: 574 Location: são josé do rio preto - sp
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Bíblia do Caos
por Millôr Fernandes
I.
Deus é realmente um ser superior. Não há nada nem parecido no Governo Federal.
II.
A Babel começou com todo mundo falando a mesma língua. Quando Deus quis que os homens se desentendessem, fez cada um falar uma língua diferente. E os guias do Povo que já começam assim?
III.
O problemas da redação constitucional, é que quando o legislador especifica; "Não cobiçarás a mulher do próximo", está automaticamente autorizando a cobiça de todas as outras.
IV.
O homem é um ser admirável, criado pelo sopro de forças metafísicas extraordinárias, usualmente conhecidas pelo codinome Deus. De esforço em esforço conseguiu sair da escala puramente animal, galgando os galhos da árvore da ciência, do tacape à baioneta, da arma de fogo rudimentar ao canhão, do canhão à bomba de hidrogênio, dos mísseis intercontinentais à guerra nas estrelas. Para sua felicidade permanente só resta ao homem passar da ciência à consciência, e evitar a volta ao tacape.
V.
Quem deve a João e empresta a Tomás, sempre deve mais.
VI.
Ao emprestar sempre nos arriscamos. Na operação é prudente somar o tempo gasto, o peso do dinheiro, e a umidade relativa do ar.
VII.
Temos sempre que meditar que muitos séculos passaram desde os primeiros tempo bíblicos, e que, por isso, os ensinamentos devem ser remeditados. Temos que estar atentos a quando os cegos falam com as mãos e os surdos escutam com os olhos".
VIII.
A todos os verdes: Só se controla a natureza controlando a natureza humana.
IX.
Meninas, vocês não fiquem o tempo todo aí sentadas, limpinhas, comportadas, respeitando pai e mãe, sem nenhum excesso sexual. O que é que vocês fazem de tudo que aprenderam nos programas de televisão?
X.
Vocês têm que aprender de uma vez por todas que os "X Mandamentos" nunca pretenderam ser restrições. Eram meras sugestões.
XI.
Moderno. Moderno em relação a quê? Moderno é apenas um pressuposto cronológico. Se o rádio tivesse sido inventado depois da televisão as crianças sairiam correndo, maravilhadas: "Mamãe, mamãe, inventaram uma televisão sem cara!"
XII.
Enquanto uma verdade existe por si mesma, por aí, metafísica, pairando no ar ,incerta e viva, tudo bem. Mas, desde que é apreendida por uma cabeça humana, sofre um processo de alteração irreversível, a refração de cada cabeça nova que por via direta ou indireta, toma conhecimento dela, e a transforma e conspurca. E está poluída pra todo o sempre.
XIII.
Depois de teimosa e solitária antevisão, lutando contra tudo, gastando meses de preparação, usando de alta técnica, pondo dentro de sua embarcação um membro de cada espécie existente, enfrentando quarenta dias de navegação em águas violentas, Noé conseguiu , afinal, salvar a humanidade da extinção. Sozinho, contra todos, até Deus, pois las intenciones de Dios eram bien conocidas. Imediatamente passou a ser chamado de ante-diluviano. Assim vai a ingratidão humana.
XIV.
Não hesite quando, no caminho da sua vida, você encontrar uma bifurcação; siga em frente.
XV.
Não devemos odiar com fins lucrativos. O ódio perde a sua pureza.
XVI.
Não se assuste porque no Brasil cada vez há mais desempregados, mais famintos e mais violência. Está provado que é o clima.
XVII.
Este país não pode melhorar enquanto o governo gastar todo o seu dinheiro na propaganda da rosca e a oposição colocar todo seu esforço na condenação do furo
XVIII.
Precisamos rever todos os princípios da Justiça. A Justiça que aceitamos é tão complicada, tão cheia de burocracia, que, acreditamos, dentro em breve ninguém mais terá coragem de ser malfeitor.
XIX.
A cada dia que passa, permissividade ou não permissividade, censura ou não censura, continua sendo imoral se discutir em público, em todos os meios, o tamanho do mandato do Presidente.
XX.
A verdade é que os de cima realmente não trabalham. Não vamos tergiversar, trabalhar é dar duro, é suar, é fazer coisas que não são agradáveis, nem ocasionais, "faço hoje, depois faço quando me der na telha". Pois é, os de cima, que não trabalham, não produzem dinheiro. Em compensação têm todo o tempo pra bolar esquema de tomar o dinheiro dos que estão por baixo e trabalham, e dão duro, e suam, e fazem, continuadamente, coisas que não são agradáveis. E, para tomarem esse dinheiro que não lhes pertence,os de cima inventam palavras nobres, como mordomia, financia, ideologia, macroeconomia e constituinteria.
XXI.
Estamos seguros de que mais vale um pássaro voando do que dois na mão, cão que ladra só não morde enquanto ladra, e, se o hábito não faz o monge, fá-lo parecer de longe. Por isso a cavalo dado deve-se olhar os dentes com atenção redobrada.
XXII.
O jornalista deve ser cético pra que o leitor não se torne cético com relação ao jornalista.
XXIII.
Devemos apoiar os liberais no poder, que insistem que a economia é assunto a ser resolvido entre produtor e consumidor. Bem, desde que eles aceitem que assassinato também é assunto a ser resolvido apenas entre assassinado e assassino.
XXIV.
A Babel, ninguém ignora, começou com todo mundo falando a mesma língua. Quando Deus quis que os homens se desentendessem, fez cada um falar uma língua diferente. Mas foi aí que eles se entenderam mais e começaram a negar o Todo-Poderoso.
XXV.
Temos todos que recusar veementemente aceitar uma justiça que também dá razão aos outros.
XXVI.
Representação é o alucinógino da organização social chamada democracia. Temos 479 representantes de nossas necessidades e ambições sociais - 479 deputados! Uma sociedade precisa de tantos? Por que não diminuir para 10? Ou melhor, nenhum?
XXVII.
Ética, ética, ética é que defendemos sempre na profissão jornalística. O direito de resposta é uma coisa fundamental. Sagrada. Senão a gente fica até imaginando que o outro lado pode ter razão.
XXVIII.
Nunca esteja muito seguro de que resolve as coisas melhor do que ninguém e mais rapidamente. O mal da gente agarrar o boi pelos chifres é depois não conseguir largar.
XXIX.
Feliz é o que voce percebe que era, muito tempo depois.
XXX.
Estatística mostra que este ano, com a recessão, aumentou em 60% o roubo nos bancos brasileiros. Não diz de que lado.
XXXI.
Cada vez sou menos consumidor. Consumo em restaurantes mais pelo contacto com os amigos - vou a cinemas, compro material de trabalho. Meu automóvel já tem 10 anos. Claro, sou favorecido por pessoas que me cercam, complementam minha alimentarão, ocasionalmente compram até minhas roupas e sapatos. Mas não tenho o menor prazer em fuçar lojas, adquirir gadgets, etc. Porém sempre achei de uma tristeza absoluta cidades socialistas com suas ruas cinzas, e de grande beleza certas ruas e edifícios de Paris, Nova Iorque, Rio - qualquer grande cidade capitalista com suas vitrines lindíssimas. Cheguei a criar um postulado: Socialismo com vitrine. Contudo, nossa emoção estética, ao apreciar uma vitrine, é inconscientemente diminuída por conhecermos o comercialismo que está por trás daquilo. Mas, já imaginaram um marciano chegando à terra e acreditando que tudo que vê é resultado apenas da vontade de cada um fazer sua casa mais deslumbrante para quem passa?
XXXII.
Brasil, Século XXI: É preciso sempre muito cuidado com o que acontece entre as intenções e as conseqüências. Quando os 130 milhões de cidadãos se colocaram diante daquela montanha aparentemente intransponível e começaram a gritar em coro: "Abracadabra amplo, geral e irrestrito, abre-te, Sésamo!", deu-se o milagre da abertura. Mas logo todos perceberam que estavam apenas abrindo a caverna para Ali- Babaka e seus 400 ladrões.
XXXIII.
Ao anúncio de uma vazão nuclear, não entre em pânico. Corra velozmente pro primeiro banco que encontrar e consiga, de qualquer maneira, com qualquer juro, em quaisquer condições, um empréstimo de no mínimo cinqüenta milhões. Depois disso os banqueiros protegerão você contra qualquer espécie de radiação.
XXXIV.
Aprenda de uma vez: Se você acordou de manhã é evidente que não morreu durante a noite. A felicidade começa com a constatação do óbvio.
XXXV.
A Grande Muralha da China vai do Mar Amarelo até a Ásia Central. É o maior monumento arquitetônico do país, iniciado pelo Imperador Chin Shih Huang Ti, logo depois que conseguiu unificar o império (246 A.C. ou por aí). Sistema defensivo importante até hoje, a Muralha é feita de terra e pedra, varia de 6 a 10 metros de altura, tem revestimento de tijolo e caminho central com 4 metros de largura (eu medi tudo). De trechos em trechos há torres, de onde se emitiam sinais de fumaça, durante o dia, e de fogo, durante a noite, avisando qualquer perigo. Está intimamente ligada à paisagem, integrada na natureza, acompanhando sempre as ondulações do solo. Tem 2.400 quilômetros de extensão (não medi)) "É a maior e a mais monumental expressão da absoluta confiança dos chineses em muralhas" (Bush está imitando, Israel também, a União Soviética já imitou e não deu certo). Mas a Grande Muralha é apenas o mais famoso muro da China. "Muralhas, muralhas, e muralhas são parte fundamental de toda cidade chinesa". Cercam as cidades, dividem-nas em lotes e bairros, marcam a estrutura e a importância da comunidade. Não há verdadeira cidade que não seja cercada por muralha, condição expressa no fato de que os chineses usam a mesma palavra, ch'eng, pra cidade e muro da cidade. Pro chinês uma cidade sem muralha é tão inconcebível quanto uma casa sem teto.
XXXVI.
Tirésias. Outro de meus mitos favoritos é Tirésias, o sábio, o profeta, o adivinho cego de tantas historias e tantas peças gregas. Que Tirésias era cego e adivinho todos sabem. Mas a história de como virou ambas as coisas é menos conhecida; um dia Tirésias ia passando por uma espécie de Pantanal do Olimpo e viu Atenas tomando banho nua. Atenas, indignada, atirou-lhe água em cima, transformando-o em mulher (*) durante sete anos. E, como ele insistisse em olhar, Atenas atirou-lhe água também nos olhos, cegando-o. Mais tarde, arrependida, e não tendo mais o poder de restaurar-lhe a visão, a deusa restaurou a masculinidade de Tirésias (**), dando-lhe o poder divinatório e a compreensão da linguagem dos pássaros. Magra compensação. Tempos depois, passando em meio aos deuses Juno, Júpiter e ApoIo, que discutiam ardentemente sobre quem obtinha maior gozo numa transa, o homem ou a mulher, Tirésias, que tinha experiência de ambos os sexos, foi chamado a opinar. E não vacilou - declarou que a mulher gozava 10 vezes mais.
Moral: Pelas loucuras que já vi muitas fazerem por tão pouco, dou plena razão a Tirésias.
(*) Uê. isso era castigo? Ô mitologia mais machista! (**) Ah, era castigo mesmo!
XXXVII.
Você, que gosta de provérbios, e até segue os seus conceitos, cuidado! Eles andam muito poluídos:
— Nunca digas: "Desta água não beberei." Mas ferve antes.
— O que os olhos não vêem o coração não sente. Mas o intestino acusa.
— Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, desde que a galinha não seja alimentada de ração com aditivo químico.
— De lá pra cá muita bosta passou por baixo da ponte.
— Cão que faz cocô na praia não morde.
— Mais vale um pássaro voando do que dois na mão envenenados por monóxido de carbono.
— Devagar se vai ao longe, mas não com o reboco do Túnel Rebouças caindo na cabeça como acontece todo dia.
— Mata a cobra e mostra a lata de pesticida.
— Diz-me com quem andas e eu te digo se vais pegar aids ou não.
— Águas estagnadas não movem moinhos.
— De grão em grão a galinha morre intoxicada.
— Filhos criados, tudo drogado.
XXXVIII.
Toda hora eu vejo, em jornais, revistas, televisão, e na rua, pessoas cada vez mais "livres" de preconceitos e... E, no entanto, todas estão convencidas de que a Terra gira em torno do Sol. Por quê? Pergunte a elas e elas responderão: "Ué, Galileu provou isso, há muito tempo" Provou pra quem, meu bem?, repergunto eu."Pode ser que tenha provado pros cientistas. O homem comum, e mesmo nós, pejorativamente chamados intelectuais, aceitamos, e pronto. Sem pensar. Preconceituosamente. Como antes de Galileu acreditávamos que o sol girava em torno da terra. Mas entre Galileu, de cujas "provas" nunca tomamos conhecimento nem sabemos dizer quais, e a realidade, que, literalmente, salta (gira) a nossos olhos, temos que acreditar é em nossos olhos. Nossos olhos vêem, com absoluta certeza, que o sol nasce ali (a leste) e morre do outro lado (a oeste), girando em torno de uma terra absolutamente parada (terremotos à parte), sobre a qual caminhamos sem sentir o menor movimento. Pra mim o sol gira em torno da terra. E estamos conversados.
XXXIX.
Prudência: E devemos sempre deixar bem claro que nenhum de nós, brasileiros, é contra o roubo. Somos apenas contra ser roubados.
XL.
Todos sabem que a pena de morte não diminui o número de assassinos e assassinatos. Mas todos sabem que cria mais alguns: os carrascos.
XLI.
A voz humana, seu som, e o que contêm, são muito mais importantes do que o resto da pessoa. É preciso que a televisão conserve a voz dos grandes atores estrangeiros e passe a dublar a imagem deles.
XLII.
Vão replantar árvores nos Carajás. Ótimo!. Por que não começar pela Avenida Brasil?
XLIII.
Honra seja feita, o Brasil não inventou a corrupção, o nepotismo, nem a burocracia pedante e autoritária. Tudo isso foi importado com o descobrimento. Vejam os senhores que falta faz a Reserva do Mercado
XLIV.
Verifiquem se não é: ninguém fala mais entusiasticamente de livre-empresa e competição, de leis-de-mercado e "que vença o melhor" do que a pessoa que herdou tudo do pai.
XLV.
Quem defende o suicídio fingindo que não o defende, é Shakespeare, em TO BE OR NOT TO BE, o famoso solilóquio de Hamlet: "Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do mando, e o achincalhe que o mérito recebe dos inúteis, podendo ele próprio encontrar seu repouso com um simples punhal?"
XLVI.
Repito: prestem ouvidos e vocês me darão razão quando recomendo ao Guiness Book of Records que inclua Sir Ney nesse livro. É como o único ser humano que comete erros de ortografia no ato de falar. Prestem bem atenção no próximo discurso e perceberão que ele fala Constituissão com dois esses.
XLVII.
"Mudou a medicina ou mudou o corpo humano?", me perguntam a toda hora. Só sei que até o século XIX a medicina só fazia sangria. Agora só faz tranfusão de sangue.
XLVIII.
Bode expiatório. Designação de uma pessoa sobre quem recaem todas as culpas. Uma vez estabelecido como bode passa a viver a síndrome' de "Um cão danado, todos a ele". A explicação está no Levítico: no Dia da Reconciliação o sacerdote lançava a sorte sobre dois bodes, um "para Jeová", outro "para Azazel'. O bode de Jeová era sacrificado e seu sangue borrifado sobre os fiéis, como mercê. Sobre o outro bode o sacerdote lançava todos os pecados do povo. Logo uma pessoa especialmente escolhida levava o bode pro deserto e o soltava ali. Por isso mesmo em algumas línguas, como o inglês, ele é chamado de Bode escapatório(*). O que poucos sabem é que existe também a expressão "Bode exultório", pessoa acima do bem e do mal, de quem se perdoa tudo e a quem se permite qualquer coisa. Como por exemplo... ah, deixa pra lá.
(*) Palavra puxa palavra: escapar, sair do perigo, vem mesmo de "deixar a capa" (quando a pessoa era agarrada pelo inimigo). A cadeia etimológica, até chegar ao português. é extremamente complexa mas comprovada.
XLIX.
Ia eu, no alvorecer da manhã (como diria o falecido Ibraim Sued), pelo calçadão de Ipanema, olhando sob meus pés aqueles bonitos mosaicos em pedras portuguesas. Aos poucos, sem me dar conta, pela transmutação sincrotônica na retina (êpa!), os desenhos foram virando quadrados, formando um tabuleiro de xadrez. Continuei correndo, fascinado, me sentindo um personagem de Alice no país das maravilhas. E, súbito, num estalo do Vieira, me veio uma saída brilhante, extraordinária, para um dos mais famosos lances de xadrez do Kasparov. Uma coisa especialmente inacreditável, pois não jogo xadrez.
L.
A primeira vez em que vemos o anúncio na tevê achamos meio esquisito. Um cara oferece a bebida pruma cara; "Já tomou?" Ela diz que não, ele força a barra, pergunta se gostou, ela está em dúvida, ele diz: "Você se acostuma." Perguntamos nós: "Se acostuma ou se vicia?" Tudo bem. Cigarro é assim, uísque é assim, Coca (até mesmo a legal) é assim, muiiita coisa gostosa (por exemplo, o pecado que não ousava dizer seu nome) é assim. E a propaganda pós-moderna é tão subliminal que muitas vezes a gente pensa que estão anunciando a calcinha quando estão vendendo é o absorvente. Sem falar das vezes em que a moça que faz o anúncio do dito é tão bonita e convincente que ficamos certos de que a menstruação é uma das grandes alegrias da existência.
LI.
Antes de aceitar participar num júri criminal, cuidado! Essa experiência é um teste brabo pra nossa capacidade de Julgar - nossa tendência é ficar sempre de acordo com quem falou por último.
LII.
O Paraíso, ninguém discorda, é a maravilha da criação divina. Mas por que Deus povoou aquilo com seres humanos, e não deixou lá, como querem os Verdes, apenas o mico-leão-dourado?
LIII.
De tempos pra cá o pessoal usa muito esse termo, gratificação, querendo emprestar a ele o sentido de lúdico, nobre. Mas acho que, o que lhes agrada mesmo continua sendo 12%.
LIV.
A primeira vez em que um publicitário me falou em house-orgão, eu pensei que se referia ao pinto de seu pai.
LV.
O reto destino. Quando uma jovem nasce extraordinariamente bem-dotada de recursos evidentes, ainda que nem tanto de sutilezas intelectiformes;
Quando essa mesma jovem cresce e aparece, aparece muito, porque é impossível se fazer não ver com tudo que se tem pra mostrar;
Quando ela é convidada, e muito convidada, sobretudo praqui e prali.
E assim vai a todos os lugares, sobretudo os indevidos, conhece todas as pessoas, vive a vida gaia e deslumbrante dos que podem, justamente porque os que não podem não estão aqui, estão lá, suando, maisvaliando, pra que os que podem possam mais;
Quando tudo isso acontece, a jovem será cada vez mais cortejada e usufruída, levará um vidão que nem vos conto, nem vos digo, desde as 11 da manhã, quando se levanta no hotel de luxo,ou na praia da moda, passando pelas horas do iate supimpa ou do almoço em décors insofismáveis, até as noitadas que só terminam quando a própria noite termina e ela vai pros braços dos Morfeus; bem, aí ela pode se dizer feliz. Muito feliz.
LVI.
O Paraíso, ninguém discorda, é a maravilha da criação divina. Mas por que Deus povoou isto aqui com seres humanos, e não deixou apenas, como querem os Verdes, o mico-leão-dourado?
LVII.
Gabriel. Talvez alguém lembre de um meu personagem cult; Átila. Estou convencido de que Átila é um dos maiores personagens da História. Sem dúvida o mais injustiçado. Passou à História como "bárbaro" e "flagelo de Deus". Os romanos, sobretudo já na decadência, eram menos "bárbaros" e menos "flagelos"? Acontece que todos os historiadores da época eram romanos. Você conhece algum historiador huno?
Hoje falo de outro personagem de minha predileção; o arcanjo Gabriel.
Minha admiração vem do que ficou na minha memória, uma visão impressionista (não chequei dados) da sua incrível ubiqüidade de ação. Lembra até o ex-Presidente Collor e o atual Lula, se ele permite a heresia. Gabriel aparece nas bíblias com nomes como o Anjo da Morte e Príncipe do Fogo e do Trovão, mas o que eu gosto mesmo é de sua constância como mensageiro. Uma espécie de Miguel Strogoff bíblico. Sobretudo como arauto de nascimentos. Nessa função, talvez facilitada por falar fluentemente siríaco e caldaico, anunciou o nascimento de Sansão, o de João Batista e, todos sabem, anunciou Jesus a Maria. Sem esquecer que estava lá, firme, no tremendo sarro do Santo Sepulcro, na hora da Ressurreição. Dizem que, quando as três Marias chegaram com a mirra, encontraram a pedra removida e a tumba vazia.
E, aí, um anjo de veste branca fulgurante, que tinha chegado antes - era ele! -, lhes disse que Cristo já tinha saído, e aconselhou-as a levar a notícia aos Apóstolos.
Mas (agora verifico) antes já tinha destruído os hóspedes de Senaqueribe, explicado a Daniel (o dos leões) alguma de suas visões, mostrado o caminho do Egito a José, e ajudado a enterrar Moisés.
Incansável, ainda é Gabriel que, seis séculos depois, está lá, em Meca e Medina, ditando o Corão pra Maomé. E não fez por menos - recitou as 114 suras ao som de sinos, com absoluta precisão, em ordem decrescente. Quando Maomé morreu foi ainda Gabriel quem ajudou a levá-lo pro sétimo céu montado no Borak(*).
Em tempo: Consulto agora o Smith's Bible Dictionary. Segundo essa pequena obra-prima, o evangelho de Lucas, o livro de Daniel e a tradição judaico-cristã tratam Gabriel como um dos arcanjos, individualizado. Mas, na Escritura, Gabriel designa apenas a função angélica de ministrar conforto e simpatia aos seres humanos. Em suma - os arcanjos seriam todos gabriéis. Donde a ubiqüidade.
Guardo minha admiração mitológica, continuando a ver Gabriel como um superarcanjo.
(*) O Borak, pra quem gosta de jóquei, tinha cara e voz humanas, olhos brilhantes como estrelas, asas de águia, e brilhava permanentemente com luz radiante.
LVIII.
Proudhon dizia que toda propriedade é um roubo. A elite brasileira acha que todo roubo é uma propriedade. Patriotismo é quando você ama seu país mais do que qualquer outro. Nacionalismo é quando você odeia todos os países, sobretudo o seu.
LIX.
Andei catando informações: A Grande Muralha da China vai do Mar Amarelo até a Ásia Central. É o maior monumento arquitetônico do país. Construção iniciada pelo Imperador Ch'in Shih Huang Ti, logo depois que conseguiu unificar o império (246 A.C. ou por aí). Sistema defensivo importante até o sec. 000(!), a Muralha é feita de terra e pedra, varia de 6 a 10 metros de altura, tem revestimento de tijolo e caminho central com 4 metros de largura. De trechos em trechos há torres, de onde se emitiam sinais de fumaça, durante o dia, e de fogo, durante a noite. Está intimamente ligada à paisagem, integrada na natureza, acompanhando sempre as ondulações do solo. Tem 2.400 quilômetros de extensão (1) "É a maior e a mais monumental expressão da absoluta confiança dos chineses em muralhas" (2). Mas a Grande Muralha é apenas o mais famoso muro da China. "Muralhas, muralhas, e muralhas são parte fundamental de toda cidade chinesa" (3). Cercam as cidades, dividem-nas em lotes e bairros, marcam a estrutura e a importância da comunidade. Não há verdadeira cidade que não seja cercada por rnuralha, condição expressa no fato de que os chineses usam a mesma palavra, ch'eng, pra cidade e muro da cidade. Pro chinês uma cidade sem muralha é tão inconcebível quanto uma casa sem teto. Falei!
(1) mais da metade do Brasil no sentido norte-sul. (2) Enciclopédia Britannica,1952. (3) Idem.
RESPONDA DEPRESSA: A China é ou não é o país ideal para os Tucanos?
LX.
A certeza de que eu falo com a absoluta sinceridade os senhores poderão verificar consultando minha conta bancaria. É um dos saldos médios mais altos deste país. Porém, mesmo sem ser moralista, ou sendo apenas um moralista das quantas, às vezes acho o dinheiro muito chato (ou perturbador) mas ainda assim não estou inclinado a pagar alguém pra gastar algum por mim.
LXI.
Primeiro a religião prometeu o céu longínquo, sem jamais dizer onde ou quando. Depois apareceu o comunismo e pregou uma solução também bem distante; quando tudo fosse mais, e mais bem produzido, e seria mais bem repartido. Mas só mesmo quando surgiu a televisão e criou a sociedade de consumo, garantindo a felicidade colorida e fácil aqui mesmo na loja da esquina, foi que o pessoal entendeu. E começaram os assaltos e seqüestros, com a distribuição social imediata.
LXII.
Não adianta, sempre resta uma hierarquia e uma divisão de classes, mesmo entre os que levam uma vida de cachorro.
LXIII.
É impossível explicar as preferências humanas. Embora confeccionados com materiais absolutamente idênticos,e ambos lindíssimos (ninguém é capaz de dizer qual dos dois é mais belo),o pôr-do-sol sempre teve, e tem, muito mais público do que o nascer-do-sol.
Observação: Ora, Millôr, o pôr-do-sol é muito mais machista.
LXIV.
Análise. Durante anos fiz, na revista O CRUZEIRO (*), uma seção chamada Aprenda a ver as coisas, com criptos gráficos, imagens figurativas disfarçadas de modo que seja difícil, ou impossível, identificá-las. Quando o significado é identificado, descoberto, a sensação é "estética" e... engraçada. Por quê? Não procurem explicação em Freud, nunca vi ninguém que entendesse menos de humor. Ou em O Riso, de Bérgson: também passa longe do fenômeno. Nem esperem que eu explique nada, humor é inexplicável.
(*) Revista semanal extremamente popular no Brasil. Circulou de 83 A.C a 21 D.C.
LXV.
A medicina fez gigantescos progressos nos últimos duzentos anos. Antigamente, a qualquer mal do paciente, fazia-se uma sangria. Hoje faz-se uma transfusão de sangue. Mas isso também deu aos médicos a prepotência de deuses.
Lembramos apenas um lamentável erro médico há tantos! em que essa prepotência teve conseqüências lamentáveis na vida do país. Vocês ainda devem estar lembrados de quando, no século passado, Tancredo Neves, o candidato eleito pela oposição ao regimem militar, ia tomar posse. Deu um treco lá nele e chamaram os médicos do Hospital de Base de Brasília. Opera aqui, opera ali, discute daqui, discute dali, corta aqui, emenda acolá, elegeram o Sarney. Deu no que deu.
LXVI.
Estatuto da terra. Renovo e reitero (em épocas de MSTs e vanguardas do atraso)
I. Em nenhum caso poderão ser desapropriadas terras com menos de 200 milhões de quilômetros quadrados, a fim de evitar o minifúndio, que seria fatalmente ocupado pelos diminutos japoneses que o Japão vem produzindo especialmente com esse fito.
II. Serão totalmente desapropriadas as conversas terra-a-terra.
III. Certas regiões especialmente ricas em minérios continuarão em poder de seus atuais donos multinacionais. Mas o povo brasileiro poderá considerá-las Terras Prometidas.
IV. As terras indígenas ficarão apenas com aumentos progressivos dos impostos, proporcionais aos valores folclóricos das ditas Terras.
V. Não pagarão impostos: a) a terra de Siena; b) a terra-mãe; c) a terra que se junta aos montes enormes nas obras publicas, demolições e deslizes dos morros; d) crises políticas aterradoras.
VI. Os proprietários de terras aguadas e pantanosas estarão isentos de impostos sobre a terra, pagando-os apenas sobre a lama, cobras, sapos e lagartos.
VII. Em nenhum caso, o gravame impostal poderá exceder 3.700 vezes o valor da terra. A avaliação será feita por pessoas de reconhecido gabarito moral e alto conhecimento técnico, como por exemplo, advogados encarregados de aposentadorias, inspetores do Detran em causa própria, e cassados por corrupção com seus direitos plenamente garantidos pela falta de provas.
VIII. Os trabalhadores que ocultarem alguns quilômetros quadrados de terra com o fim de iludir o fisco e seus fiscais, serão considerados inidôneos pra usufruir verbas da reforma agrária. O mesmo acontecerá aos que não souberem explicar o que é agrária.
IX. Todas as terras devolutas serão distribuídas nos grandes centros urbanos, que è onde mais falta terra
X. Até a promulgação deste ato, não se aceitam aterros.
LXVII.
Inflação? Afinal, o que é inflação? Bem! A carne anda cara: você deixa de comer carne. A fruta anda cara: você deixa de comer fruta. O legume anda caro; você deixa de comer legume. Aí só lhe resta comer macarrão todos os dias, porque massa ainda é uma comida barata. Um mês depois, você vai fechar a calça e vê que ela não fecha mais. Inflação é isso.
LXVIII.
Aviso a meus seguidores
Se, de vez em quando, o leite azeda por aí, não tenho nada com isso; a vaca não é minha. Escolham melhor na próxima vez.
LXVIX.
Durante muito, muito tempo, nós todos, milhões de brasileiros tentamos civicamente, esforçadamente, ungidos em fé cívica, entender o que eles diziam no plenário, nas comissões e, sobretudo, nas mordomias. Ninguém, nenhum de nós, confessemos, conseguiu pescar bulufas do que tanto se transava na assim chamada Assembléia dos Eleitos da Nação. Mas, vimos, nem era pra. Esforçávamo-nos, inutilmente, pra ouvir e entender um Diálogo de Surdos com absurdos.
LXX.
É preciso ter conhecidos que só conhecemos porque os vemos ao vivo, caras particulares, que nunca aparecem ou aparecerão nos meios eletrônicos de comunicação, em busca de popularidade, essa suprema vulgaridade.
LXXI.
I. Devemos ser gratos aos portugueses. Se não fossem eles estaríamos até hoje falando tupi-guarani, uma língua que não entendemos.
II. Está bem, lingüistas, se dois é ambos, porque três não é trambos?
III. O “pois sim” e o “pois não” deveriam ser estudados profundamente por nossos políticos devido à louvável pecularidade de significarem exatamente o contrário do que dizem. Ou não.
LXXII.
O Clube dos Machões, de Minas, deve conceder imediatamente o título de Machão do Século ao ex-prefeito de Washington, aquele que pegou seis meses de cadeia por consumo de crak. Pois não é que, no dia de visitas à prisão, o simpático negão, já com mais de 50, foi visto praticando (sendo praticado) felácio (boquete ou chupetinha, em português castiço) num canto da sala de recepção? A coisa foi vista por mais de vinte visitantes devidamente escandalizados (sem falar que possivelmente invejosos). Como diria Niquita, minha amiguinha portenha, de 10 anos: "Me gusta por lo discretito, mamita."
LXXIII.
Todos sabem que, ao passar da atividade, mesmo rotineira, para a inatividade absoluta, o ser humano sucumbe. Então não é melhor o sistema deixar os velhinhos trabalhando até morrer, em vez de ficarem enchendo o saco de todo mundo com essa palhaçada sinistra da aposentadoria?
LXXIV.
Lulinha, que é isso, garotão? Que má-criação! Sua mãe não lhe ensinou que não se trata assim os mais velhos? Nem os menos velhos? Olha, minha nona sempre me dizia: "Millôrzinho, nunca se deve xingar uma pessoa por condição humana da qual ela não tem culpa; "Velho! Capenga! Caolho!" Você só deve xingar por vícios ou defeitos adquiridos: "Cachaceiro! Mentiroso! Prefeito! Presidente!". Sábia dona Conceta di Napoli!
E, sobretudo, também não fique irritado com alguém agir em causa própria, guri. É caracerística humana. Nem todo mundo pode ser como você, e todo esse pessoal em volta, que só age em causas impróprias.
LXXV.
Pode-se esganar todas as pessoas algum tempo. Pode-se engalanar algumas pessoas todo o tempo. Mas não pode engajar todas as pessoas todo o tempo.
LXXVI.
Previna-se. Humilhado? O sistema, a máquina, a sociedade, o grupo de poder, ou lá que diabo seja, ou como se chame, o tem humilhado, e ultrajado muito, como ser humano e cidadão? Você não agüenta mais? Pois não agüente mesmo. Remeta imediatamente sua frustração, em papel timbrado ou fita gravada, para Palácio do Crepúsculo, perdão, Alvorada -, Brasília, D.F. (não mande e-mail que eles apagam). E aguarde sua C/C (conta corrupção) pelo reembolso postal.
LXXVII.
Em situações difíceis, e nem tanto, você poderá usar sempre estes argumentos básicos:
• Meu amigo, acho que suas conclusões são perfeitamente discutíveis.
• V.Ex. esta enganado; as estatísticas provam o contrário.
• Ora, as estatísticas não provam coisa alguma!
• Confesso que também já pensei dessa maneira.
• O senhor está sendo deliberadamente parcial.
• Bem, essa é uma maneira pessoal de ver as coisas.
• Aparentemente o senhor está certo. Mas as aparências enganam.
• Encarando as coisas desse modo chegaremos à conclusão que quisermos.
• Mas o senhor deve concordar - o seu não é um ponto de vista científico.
• Só tenho uma coisa a dizer, acho-o uma besta quadrada.
LXXVIII.
Cuidado, prudência, em todos os lances da vida é fundamental você saber o que está acontecendo. Por exemplo: quando você está muito mal e te levam pro CTI, você tem a mesma possibilidade de sobrevivência dum cara que vê o avião caindo e procura a saída de emergência.
LXXIX.
Ó Tempora! Seguindo Toynbee, fiz também minha precária avaliação da durabilidade ("mortalidade?") dos valores; o trabalho de artistas e homens de letras vive mais do que os feitos de homens de negócio, as conquistas dos soldados, as realizações de estadistas. O filósofo dura mais do que o historiador. Os profetas e os santos sobrevivem a todos.
E a perspectiva histórica - espécie de deformação, senão profissional, pelo menos psíquica de visão e projeção do pensamento, como é que fica? Pros homens comuns, homens de negócio e militares, a visão é quase a do dia a dia, com ocasional projeção para anos e décadas. Pra artistas, i.e., pintores, músicos, homens de letras, o cérebro abrange um espaço maior, gerações, mas tende a se aprofundar em sensitividade e psicologismo, e a se limitar no tempo. Já os historiadores projetam seu pensamento, naturalmente, em alguns milhares de anos. Os arqueólogos em muitos milhares de anos. Os geólogos abragem mais - milhões de anos. E os astrônomos só pensam mesmo na escala do Google e do ano-luz, ou seja, bilhões e bilhões de anos.
LXXX.
Probidade à prova. A certeza de que eu falo com a absoluta sinceridade os senhores poderão verificar, consultando minha conta bancaria. É um dos saldos médios mais altos deste país. Porém, mesmo sem ser moralista ou sendo apenas um moralista das quantas, às vezes acho o dinheiro tão chato (ou perturbador, não sei), que estou bastante inclinado a pagar alguém para gastar o meu por mim.
LXXXI.
Lula sabe, Lula é um estudioso da mitologia grega. Daí sua popularidade. Aprendeu com os deuses do Olimpo que pode cruzar mil burros brancos com mil mulas pretas que não dá zebra.
LXXXII.
Fiquem tranqüilas as autoridades. No Brasil jamais vai haverá epidemia de cólera. Nosso povo morre é de passividade.
LXXXIII.
Estamos, de novo, fazendo um gigantesco esforço pra desapurar tudo que já desapuramos há muito tempo, quem está com o bilhão e quem é sócio do bilhão. Parece que desta ninguém escapa, estão envolvendo até o Presidente. E todo o país respira aliviado. O Brasil vira mais uma página de sua História?
PS: A interrogação que botamos na frase é pra não exagerar no otimismo. Mas resolvemos dar a eles o benefício da dúvida, perdão da dívida!
LXXXIV.
Proverbial: tanto é verdade que o dinheiro pode tudo que uma pequena moeda, a menor moeda do fabulário econômico, colocada junto ao olho, esconde a luz do sol.
LXXXV.
A cada sol que surge, novos e mais novos sinais aparecem de mudanças dos tempos clima & sucessão de horas. Enquanto o frio desagradável que nos assolou (tem sol aí no meio!) vai se dissipando e o ar brilhante da primavera vai penetrando a atmosfera, os ratos de esgoto se tornam mais visíveis, alcatéias de pulhas saem dos ralos e, sobretudo na calada da noite, ouve-se os guinchos e uivos das milícias solertes sentindo seus tugúrios ameaçados pelo calor que aumenta. De vez em quando, insustentáveis, caem do alto alguns gambás não conseguindo mais se sustentar nos galhos e cipós autárquicos. Ao mesmo tempo, alguns raros talentos-malversados são vistos bêbados e cegos pela luz que ameaça despontar. Na saída do túnel vendem-se ainda (forma reflexiva, eles se vendem) muitos sibaritas tediosos da última temporada. Mas há também muita vida antiga preservada no último andar, sobretudo no sótão; gerentes hemiplégicos recebem para derradeira tentativa os vetustos safados. Mas uma janela bate, se abre, e deixa entrar uma lufada (êpa! Nada de Maluf!) de ar fresco, inoculando pneumonia e bronquite nesses remanescentes amigos do peito. Não é necessário ter narinas muito apuradas pra perceber que vai ser tarefa de Hércules livrar toda a área do fedor terrível deixado pelos superexecutivos, vigas, forros, degraus, revestimentos, quase tudo está podre nesta nossa Dinamarca.
LXXXVI.
Minha homenagem, mais uma vez, a São Sebastião, padroeiro desta mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Homenagem pequena, mas eu não poderia deixar de fazê-la mais uma vez. Hoje não existe nada de tão representativo do Rio quanto esse São Sebastião todo esburacado. Mas, ao contrário do que pensa a maioria dos devotos, São Sebastião sobreviveu aos buracos ordenados pelo administrador de Roma, Diocleciano. E Diocleciano teve que mandar abatê-lo a pauladas. O Rio não perde por esperar.
LXXXVII.
Todos sabem — os poucos que sabem — que sou grande admirador da tecnologia. Mas o progresso é sempre melhor? Sempre? Todo dia a gente vê desastres. Terríveis acidentes aéreos, engavetamento de trens, batida coletiva de automóveis. Você alguma vez ouviu falar de algum acidente com os maravilhosos meios de transporte do passado - soube da queda de algum tapete voador, de alguma batida de vassouras de bruxas, de algum enguiço de botas de sete léguas?
LXXXVIII.
Vou andando, como sempre, de vez em quando corro um pouco, o mar à direita, a cidade à esquerda. A areia está dura, seu contato com os pés é um prazer sem igual. Penso, na fluidez do que quase não chega a pensamento: "Sou um homem de praia. Não sou um homem de mar. Vivi toda a minha vida à beira do mar, na praia. Pra mim o mar podia acabar logo ali, na linha do horizonte".
LXXXIX.
O Brasil ainda é os Estados Unidos de que eu mais gosto.
XC.
Se você está apavorado com tanta violência, é bom prestar mais atenção: a maior violência não anda armada.
XCI.
Palavras, palavras, palavras. Ser ou não ser (FRESCO?)
Nunca entendi bem o porquê da prolongada indecisão do Príncipe da Dinamarca ( o Hamlet, esse mesmo) diante de seu problema existencial. Só a necessidade da peça durar três ou quatro horas, enquanto a patuléia ria, berrava, comia e brigava (exatamente como a galera faz hoje nos xous de
roque), pode explicar o fato.
"Ser ou não ser", ora, ora. Quando há uma indecisão dessas, meu Príncipe, a coisa se resolve mais facilmente na Cara ou Coroa. Cara, a gente mata o tio. Coroa, a gente mata a própria mãe. Se a moeda cair em pé (o Lula consegue), a gente mata os dois. De qualquer forma a solução é imediata, sem os intermináveis florilégios:
"Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do mando, e o achincalhe que o mérito recebe dos inúteis, podendo ele próprio encontrar seu repouso com um simples punhal?"
XCII.
É a eterna istória de só darmos valor ao que vem de fora. A toda hora os jornais se enchem de artigos louvando como fantásticas as previsões de Sibila, Tirésias, Nostradamus e que tais, todos, afinal, estrangeiros. E no entanto ninguém se lembra do nosso genial profeta, o maior cronista do país, Rubem Braga, que há mais de trinta anos lançou sobre o bairro mais famoso do Brasil o seu anátema terrível: "AIDS TI, COPACABANA!"
XCIII.
“Pérolas aos porcos” é expressão depreciativa. Exceto no Planalto, onde os porcos adoram pérolas.
XCIV.
Antigamente se falava , com total convicção: “O que é do homem o bicho não come”. O pessoal todo ainda estava no armário.
XCV.
Explicativa. Como sei que alguns leitores ficam, às vezes, perplexos, chegando quase a fundir a cuca, em busca de uma piada qualquer nas notas que escrevo nesta página (internet é página?), esclareço que devem continuar procurando. A gente acaba sempre encontrando o que procura, como me dizia noutro dia um desses guardas de trânsito que estão sempre a fim, e param todo mundo no meio da rua, pedem a carteira e começam a ameaçar até que... (Me entenderam, detrans da vida?).
Mas, como eu ia explicando quando fui interrompido pelo guarda, o fato é que, de minha parte, eu nunca disse a ninguém que eu era um humorista. Eu sou, mas quando bem entendo. Eu sou, a maior parte das vezes. Mas não me obrigo a fazer gracinhas pra ninguém. Mesmo porque, quem se obriga acaba sempre, um dia, ouvindo aquela: "Hi, olha ele aí." Acho que o público tem discernimento bastante para não me exigir um rótulo. Um homem é um ser que oscila permanentemente. E eu quero que estas notas mostrem exatamente essas variações num carioca devidamente deformado pela sua cidade. Assim, quem lê, tem que saber por si mesmo, quando uma história é inventada, quando é séria, quando uma fotografia é verdadeira, quando é montada. A foto do meu batismo no Rio Jordão , por exemplo, é absolutamente autêntica. Se eu conseguir que os meus 18 leitores consigam separar a verdade da mentira sem o auxílio de ninguém, terei ajudado imensamente o país em sua marcha em direção à Grande Democracia. Pois a verdade é que os políticos nunca avisam quando estão chutando. Porque estão sempre.
XCVI.
Quando os matemáticos-filósofos gregos descobriram que 2 não é um número racional, celebraram a descoberta com uma hecatombe, a morte de cem bois.
XCVII.
ARGUMENTOS BASICOS PARA VOCÊ ENCARAR UM DILEMA DE FORMA HUMANA.
1. Meu amigo, acho que suas conclusões são perfeitamente discutíveis.
2. V.Ex. está enganado; as estatísticas provam exatamente o contrário.
3. Ora, as estatísticas não provam coisa alguma!
4. Confesso que também já pensei dessa maneira.
5. O senhor está sendo deliberadamente parcial.
6. Bem, isso é uma maneira pessoal de ver as coisas.
7. Aparentemente o senhor está certo. Mas as aparências enganam.
8. Encarando as coisas desse modo chegaremos à conclusão que quisermos.
9. Mas estã claro que esse não é um ponto de vista científico.
10. Só para encerrarmos a discussão: acho-o uma besta quadrada.
Last edited by t. h. abrahao on 06/10/2008 - 16:45:21; edited 1 time in total |
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