Simony
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Nietzsche
por Oswaldo Giacoia Júnior
"Todas as verdades são, para mim, verdades sangrentas."
Dentre os clássicos da filosofia moderna, Friedrich Wilhelm Nietzsche talvez seja o pensador mais incômodo e provocativo. Esse filósofo levou -nos ao submundo de nossa civilização, denunciou a mes quinhez e a trapaça ocultas em nossos valores mais elevados. Essa atitude revolucionária deriva do que Nietzsche entendia por filosofia. Para ele, filosofar é um ato que se enraíza na vida e um exercício de liberdade.
Nietzsche denuncia como impostura qualquer forma de mistificação intelectual. Não poupou de análise nenhum de nossos mais acalentados artigos de fé. Nietzsche é um dos grandes mestres da suspeita, que denuncia a moralidade e a política moderna como transformação vulgarizada de antigos valores intransigentes e religiosos. Nietzsche é um dos mais intransigentes críticos do nivelamento e da massificação da humanidade. Denunciou a transformação de pessoas em peças anônimas da engrenagem global de interesses e a manipulação de corações e mentes pelos grandes dispositivos formadores de opinião.
Nietzsche forjou conceitos e figuras de pensamento que até hoje impregnam nosso vocabulário e povoam nosso imaginário coletivo. São dele as noções de vontade de poder, niilismo e a figura da morte de Deus. É impossível se colocar à altura dos principais temas e questões de nosso tempo sem entender o pensamento de Nietzsche. Ateísta radical, ele atribui ao homem - e não a um Deus supremo - a tarefa de definir as metas de seu próprio destino. Nietzsche é o pensador de nossas angústias, não poupou nenhuma certeza estabelecida e desvendou os mais sinistros labirintos da alma humana.
Foi o impiedoso crítico das crenças estabelecidas e definitivas. O mais intransigente anticristão, só acreditando numa filosofia que fosse expressão de vivências genuínas. Sua mensagem definitiva: a criação de novos valores, a instituição de novas metas para o homem. O pensamento filosófico de Nietzsche pode ser comparado a uma espécie de sensor que registra e antecipa questões e desafios de nosso século. Sua ambição é realizar um diagnóstico fiel da situação do homem moderno.
Nietzsche dedicou sua vida a realizar três tar efas principais:
a) compreender a lógica do movimento contraditório ao longo do qual o progresso do conhecimento leva à perda da consistência dos valores humanos;
b) denunciar todas as formas de mistificação;
c) destruir os falsos ídolos, assumindo o risco de pensar novos valores, abrir novos horizontes para a experiência humana.
Para Nietzsche o sentimento de abandono, como um vazio opressivo, esmaga a consciência do homem moderno. Segundo Nietzsche também os deuses se decompõem. O anúncio, por Nietzsche, da morte de Deus significa o fim do modo tipicamente idealista de pensar, na medida em que, para ele, o cristianismo constitui uma versão vulgarizada de idealismo, adaptada às necessidades e anseios de amplas massas populares. Para ele, a morte de Deus é uma expressão simbólica do desaparecimento desse horizonte metafísico (idealista), baseado na oposição entre aparência e realidade, entre verdade e falsidade, entre bem e mal. Para Nietzsche, todo conhecimento (inclusive o religioso) é inevitavelmente guiado por interesses e condicionamentos subjetivos e ideológicos; o conhecimento resulta da projeção de nossos impulsos e anseios.
A morte de Deus implica a possibilidade de colocar em questão a crença na origem divina e no valor absoluto da verdade. Fazer com que a verdade apareça como um problema implica problematizar também conceitos como o bem e o mal, o justo e o injusto, o lícito e o proibido. Nietzsche é o filósofo que ousa colocar em questão o valor dos valores. Sua preocupação consiste em trazer à luz as condições históricas das quais emergiram nossos supostos val ores absolutos, colocando em dúvida a pretensa sacralidade de sua origem.
O aspecto assistemático constitui o traço essencial do pensamento de Nietzsche. Ele seria um pensador de problemas, e não um pensador de sistemas preestabelecidos. A primeira fase filosófica de Nietzsche foi marcadamente influenciada pelo pensamento de Schopenhauer (1788-1860), o teórico do pessimismo, que considerava que o universo não era expressão do intelecto e da vontade de Deus, nem efeito de outra espécie de princípio racional. Para Schopenhauer, a essência do universo é um impulso cego, denominado “Vontade”, ávida e insaciável, eternamente em busca de satisfação.
A partir dessa idéia, Nietzsche empreende uma crítica radical das tendências culturais dominantes em seu tempo, caracterizadas por uma confiança ingênua nas idéias de evolução e progresso lógico e natural, no curso dos quais a humanidade teria alcançado um estágio de desenvolvimento em que estaria em condições de, humanizando a natureza e racionalizando a sociedade, aproximar -se do ideal da felicidade universal. Se Schopenhauer tinha razão, então o coração pulsante do universo seria um ímpeto cego, desprovido de finalidade. Assim, não haveria mais lugar para as ilusões consoladoras para o homem. Assim, nem pela razão, nem pela ciência, nem pela moralidade, poder-se-iam justificar a existência do universo e a razão de ser da vida humana.
Nietzsche é totalmente cético quanto à tese de que a natureza humana é originalmente boa, não compartilhando a crença ilimitada na onipotência da ciência e da racionalidade. Para Nietzsche, dissolvem -se as entidades estáveis, as substâncias fixas e permanentes. O conjunto inteiro dos fenômenos, seja no domínio da natureza, seja no do espírito, constitui-se como um universo em constante transformação, um eterno vir-a-ser (ou "devir"). Para Nietzsche, o homem moderno representa o mais inquietante rebaixamento de valor do ser humano, a transformação do homem numa massa impessoal de seres uniformes, padronizados. Todos querendo o mesmo, todos iguais. Todos com o seu prazerzinho para o dia e seu prazerzinho para a noite. E a isso se resume o nosso estar -no-mundo.
Para Nietzsche, o homem é algo a ser superado. E, no seu lugar, Nietzsche cria a idéia do "além -do-homem". Para ele, o homem pode ser visto não como um fim - como o deseja o homem moderno (ou o "último homem") -, mas como um meio para conquistar possibilidades mais sublimes de existência. Nietzsche concebia o homem como uma corda estendida entre o animal e o além-do-homem, uma corda sobre o abismo. A grandeza do homem está em ser ele uma ponte, e não um fim: o que se pode amar no homem é que ele é uma passagem e um crepús culo.
Essa perigosa travessia que conduz do animal ao além-do-homem só pode ser empree ndida pelo homem moderno renunciando ao conformismo de sua mediocridade e auto-satisfação.
Nietzsche interpreta a história da cultura moderna como escalada do niilismo. O niilismo seria a expressão afetiva e intelectual da decadência. Niilismo seria o sentimento coletivo de que nossos sistemas tradicionais de valores, tanto no plano do conhecimento, quanto no ético -religioso, ou sócio-político, ficaram sem consistência. Sintomas desse estado de prostração niilista:
a) na arte, plenamente instrumentalizada para fins de entretenimento, capturada nos circuitos da indústria cultural;
b) na política e na educação, empenhadas em estabelecer e perpetuar um ideal de homem completamente adaptado aos modos de produção e reprodução de uma sociedade de massa;
c) na moral, na ciência e na filosofia, que se tornaram expressões ideológicas desse desejo de rebaixamento e nivelação da humanidade, agenciado em escala planetária. O traço característico da sociedade moderna é o dilaceramento e a autonomização de seus segmentos
constitutivos, o individualismo patológico, que a torna incapaz de se integrar numa totalidade viva, a partir de um projeto ético comum.
Nietzsche apontou para o acelerado processo de mediocrização da humanidade e banalização da existência. Para ele, o cristianismo constitui a matriz de onde procedem todos os valores primordiais da civilização ocidental. Se a condição atual de nossa cultura é marcada pelo niilismo, a possibilidade de sua redenção seria vislumbrada a partir de uma inversão de valores fundamentais dessa mesma cultura. Se ela se caracteriza , sobretudo, por ser uma cultura gerada e nutrida pelo cristianismo, sua superação seria a tarefa própria de um anticristo.
Com essa autodenominação polêmica e provocativa, Nietzsche se pretende definir menos como inimigo do Cristo do que inimigo do cristianismo tradicional, dogmático, tornado instituição e secularizado como doutrina filosófica, moral e política. _________________ www.fotolog.com/strangelucy |
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