Lenore
Fundador PN

: 40 Joined: 09 May 2004 Posts: 64 Location: Catanduva
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Quando o Augusto dos Anjos resolve comentar seu próprio fazer literário, se vale do amor como referente, e embora acredite que só há amor "duma caveira para outra caveira", o que pode ter violentado os conceitos de poesia à época (ou, quem sabe, da própria arte poética em geral, de então) talvez seja a quadra de abertura do poema que, curiosamente, se chama Idealismo, espécie de niilismo do Augusto dos Anjos.
Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor na Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo. _________________ Flávia Dellamura
http://www.taedium.com.br/
flavia@ateus.net
O ódio é meu único vício
O desprezo é minha única virtude
O nada, meu único ideal
A.D.C
Last edited by Lenore on 22/01/2005 - 12:07:41; edited 1 time in total |
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t. h. abrahao
Fundador PN

: 41 Joined: 22 Jan 2005 Posts: 574 Location: são josé do rio preto - sp
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Augusto dos Anjos não era um homem igual aos outros, aos que se acomodam, aos que se rebaixam para subir, enfim, aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. A mãe do poeta, quando este ainda em estado de gestação, sofreu uma comoção das mais fortes, causada pela perda imprevista de um irmão querido, estudante de medicina, de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe, perturbou-a por muito tempo, além mesmo da gravidez. Ao que se sabe, ficou desajustada da mente pelo resto da vida, com preocupações de grandeza e fidalguia. Obviamente, tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação, com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso.
Explica-se deste modo, pelo drama que padeceu na vida intra-uterina, o refinamento de suas faculdades morais, caracterizado por uma sensibilidade doentia, tiques nervosos, sestros, fobias, enfim, todo o seu temperamento emocional. Tanto isso parece verdade que seus irmãos, igualmente inteligentes, jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. Nem os que nasceram antes, nem os que vieram depois. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. Pai e irmãos passavam por normais, só ele dava a impressão de um desajustado, como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. Isto posto, assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos, não há negar também a dos psicológicos, sobretudo quando provém da linha materna, nas modalidades do caráter, da inteligência, do sentimento.
Por seu parentesco espiritual, tem sido Augusto comparado a Leopardi, Nietzsche, Byron, Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores, na classificação dos antropologistas do século passado, a partir de Lombroso. E por curiosa coincidência, tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. Assim como a mãe de Augusto, a de Leopardi, a de Nietzche, a de Byron, a de Wilde, por motivos vários, sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos, choques emocionais, menos a de Byron, que já era constitucionalmente quase louca.
Sem o concurso da causa primária, em relação com a casuística, não é possível interpretar a obra de um escritor, sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de Augusto com a sua personalidade psicológica, porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica.
Quem foi que viu minha Dor chorando?
Saio. Minha alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!
Bati nas pedras de um tormento rude
E a minha mágoa de hoje é tão intensa
Que eu penso que a Alegria é uma doença
E a Tristeza a minha única saúde! |
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