t. h. abrahao
Fundador PN

: 41 Joined: 22 Jan 2005 Posts: 574 Location: são josé do rio preto - sp
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Insônia
Fernando Pessoa (Heterônimo: Álvaro de Campos)
Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...
Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!
Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.
Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!
Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo. |
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Lenore
Fundador PN

: 40 Joined: 09 May 2004 Posts: 64 Location: Catanduva
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Dizem que existe aquela inveja boa e a ruim, não sei a diferença entre as duas,ou se existe alguma diferença, o que sei é que, sinto-me assim quando leio os poemas do Pessoa (aposto que é a ruim!) .
Ele simplesmente humilha aqueles que arriscam escrever qualquer coisa.
Fico pensando em que estado ele estava quando escrevia, mas não dá! Arriscaria dizer que é igual aqueles dias em que estamos nos sentindo como uma pedra: fria, vazia, apenas pedra.
Seria ele previlegiado, ou apenas indiferente a tudo que não conseguimos evitar?
Enfim, um poema, apenas um poema dele bastaria. _________________ Flávia Dellamura
http://www.taedium.com.br/
flavia@ateus.net
O ódio é meu único vício
O desprezo é minha única virtude
O nada, meu único ideal
A.D.C |
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t. h. abrahao
Fundador PN

: 41 Joined: 22 Jan 2005 Posts: 574 Location: são josé do rio preto - sp
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haaam, isso acontece comigo tb: humilhação. não adianta... se eu pensar em escrever algo, não posso sequer passar os olhos em nada que Pessoa escreveu. ele nos rebaixa ao estado de coacervados. fazer o quê... ele nasceu primeiro! mas dá raiva ao perceber que tudo que você pensa em escrever, o Pessoa já escreveu. desgraça de Pessoa! perdão pelo trocadilho desgraça no bom sentido, claro!
Lenore escreveu:
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| Seria ele previlegiado, ou apenas indiferente a tudo que não conseguimos evitar? |
sinceramente eu não sei. talvez um misto de privilégio intelectual com indiferença... mas acho que nesta receita ainda entrariam: melancolia, introspecção, genialidade e sublimidade.
Lenore escreveu:
| Quote: |
| Enfim, um poema, apenas um poema dele bastaria. |
isso não acontece só com ele, acho. me arriscaria a dizer alguns nomes: Ezra Pound, T. S. Eliot, Augusto dos Anjos, Vladímir Maiacóvski, Manuel Bandeira, W. B. Yeats, Charles Bukowski, Carlos Drummond de Andrade... |
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