Excerto de Breviário da Decomposição
por E. M. Cioran
Conheces essa fornalha da vontade na qual nada resiste a teus desejos, onde a fatalidade e a gravidade perdem seu império e volatilizam-se ante a magia do poder? Certo de que teu olhar suscitaria um morto, de que tua mão posta sobre a matéria a faria estremecer, de que a teu contato as pedras palpitariam, de que todos os cemitérios floresceriam em um sorriso de imortalidade, repetes a ti mesmo: de agora em diante só haverá uma primavera eterna, uma dança de prodígios e o fim de todos os sonos. Trouxe um outro fogo: os deuses empalideceram e as criaturas se regozijam; a consternação apoderou-se da abóbada celeste e a algazarra desceu até as tumbas.
... e o amante dos paroxismos, sem fôlego, cala-se um instante para proferir, com tom de quietismo, palavras de abandono: " experimentaste alguma vez esta sonolência que se transmite às coisas, este rancor que torna anêmicas as seivas, e as faz sonhar com um outono vencedor das outras estações? À minha passagem, as esperanças adormecem, as flores murcham, os instintos enfraquecem: tudo pára de querer, tudo se arrepende de haver querido. E cada ser me sussurra: gostaria que outro vivesse minha vida, fosse deus ou uma lesma. Suspiro por uma vontade de inação, um infinito em suspenso, uma atonia extática dos elementos, uma hibernação em pleno sol, que entorpeceria tudo, do porco à libélula...