t. h. abrahao
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Nietzsche, um pensamento contra a moral e o niilismo
por REGINA SCHÖPKE
Há quem diga que Nietzsche não é um filósofo no sentido estrito do termo. Talvez um poeta, um artista... Ele próprio, ao olhar para trás e vislumbrar a história da filosofia, não se sentia parte dela. Por isso, muitas vezes preferiu chamar a si mesmo de "pensador" ou de "psicólogo". Era uma forma de marcar sua diferença com relação àqueles que construíram, sobre os alicerces da metafísica socrático-platônica, o Império da Filosofia. De fato, para Nietzsche, não ter seu nome ligado ao monumental edifício do conhecimento filosófico não era nenhuma desonra, uma vez que sua intenção era mesmo derrubá-lo ou, no mínimo, reconstruí-lo sobre bases mais sólidas e poderosas (que se entenda, por isso, uma filosofia livre do niilismo e do peso dos valores ascéticos, ou seja, uma filosofia que pudesse recuperar o "sentido da terra" e afirmar a existência tal como ela é). É claro que consideramos uma tolice chamar Nietzsche simplesmente de poeta, ainda que ele o seja num segundo plano. A beleza de seus escritos é inegável, mas não se trata aqui de uma questão estética. São as idéias de Nietzsche que fazem dele um filósofo, e um dos maiores. Quem argumenta que ele não chegou a produzir um sistema, ou que não empreendeu um estudo metódico e ordenado, tem uma visão muito limitada do que significa pensar ou mesmo filosofar. Nietzsche (que sempre desconfiou das naturezas metódicas e sistemáticas, por considerá-las pouco honestas com a vida) fez mais do que construir sistemas. Ele pôs à prova a própria razão, fazendo ruir de um modo implacável os pressupostos mais arraigados do próprio saber filosófico, tais como a sua fé inabalável no conhecimento racional ou a idéia do pensador como um observador imparcial e absolutamente comprometido com a verdade.
Porém, Nietzsche foi ainda mais longe: ele pôs em xeque algo que jamais alguém ousara tocar até aquele momento: a moral, o valor das idéias de bem e de mal, em suma, o valor dos próprios valores. E se ele critica as filosofias de Sócrates e Platão é porque elas se sustentam na idéia moral de "Bem", tomado como um "part pris", como um dado "a priori". Para Nietzsche, era preciso trazer à tona o que subjaz na moral humana, o que se oculta como um segredo pérfido e doentio nas regiões mais profundas, mais abissais, onde a luz e o ar puro jamais chegam. Em outros termos, o lado obscuro, impróprio e vergonhoso de uma moral que termina por opor-se à natureza e à própria vida. O que até então foi dignificado e chamado de "verdadeiro" e "superior" esconde, segundo Nietzsche, um monstruoso sentimento de desprezo e ódio pelo mundo e pela existência. É preciso ser um "ser subterrâneo", um ser que "perfura, que escava, que solapa" - como ele próprio se define em seu livro Aurora (lançado, em uma bela edição e nova tradução, pela Companhia das Letras, 320 págs., R$ 39) -, pois só assim é possível chegar ao fundo da moral e revelar o seu lado inconfessável e bem pouco nobre. Mas, é claro que Nietzsche não convida ninguém a seguir o seu exemplo. A tarefa é dura e a solidão imensa. E, como ele próprio mede a força de um espírito pelo "quanto" de verdade ele pode suportar, ousamos dizer que já é preciso ser um "super-homem", um "espírito livre", para percorrer esse labirinto repleto de perigosas armadilhas e condenações. Afinal, como afirma Nietzsche, diante da moral não se admite imparcialidade (assim reza a boa reputação). "Na presença da moral, como diante de toda autoridade, não se deve pensar, menos ainda falar: aí - se obedece." Com Aurora, de fato, começa a campanha de Nietzsche contra a moral ou, mais precisamente, contra o niilismo que serve de alicerce às idéias de bem, mal, Deus, alma, verdade absoluta, etc... Assim, seguindo o estilo aforístico, iniciado com o Humano Demasiado Humano, Nietzsche pretende desnudar, tirar o véu da chamada moral ocidental. E se Aurora marca o início de sua cruzada contra o que até então era considerado elevado e distinto no homem, a Genealogia da Moral irá aprofundar ainda mais esse tema, traçando o perfil da moral que se tornou vitoriosa no Ocidente: a moral escrava, a moral do fraco (que, em hipótese nenhuma, está vinculada à posição social ou ao nascimento, já que forte e fraco, para Nietzsche, dizem respeito à potência do ser, ao seu poder de afirmar ou negar a existência). Se Nietzsche não dissocia a moral da religião e empreende uma luta contra o espírito religioso é porque sabe que, longe de afirmar a vida, esse espírito se opõe a ela de um modo traiçoeiro e perverso, pois fingindo amá-la ele deseja vingar-se dela, uma vez que a considera essencialmente injusta e má. Eis, portanto, o que se esconde por trás dos preconceitos morais, bem como das belas idéias de "paraíso perfeito" ou "mundo das formas puras e incorruptíveis": um ódio profundo pela nossa própria existência, um horror do real. Eis o que Nietzsche chama de niilismo. E o niilismo é a doença do homem, é o "não" mais profundo a tudo o que é força, vitalidade e coragem na natureza. "Há tantas auroras que não brilharam ainda", eis a bela epígrafe deste livro.
Por que Nietzsche a escolheu? Não sabemos... Talvez porque ele acreditasse na vitória de uma vontade poderosa, que pudesse suplantar o niilismo e afirmar definitivamente a vida. Se isso é para poucos, não importa. Será de tantos quantos puderem se opor à morte, pois o niilismo é a própria morte que se instala no seio da vida. Está mais morto do que vivo quem despreza a sua única chance de viver e desperdiça seu tempo com fantasmagorias. A pergunta que fazemos então é a seguinte: quando o homem aprenderá a olhar para a vida sem moralizá-la, sem desejá-la diferente do que ela é? A vida pode ser dura (ninguém disse que é fácil viver), mas também é bela e exuberante, como cada aurora, como cada alvorecer, pois cada instante vivido, embora breve e fugaz, é também eterno, já que foi e será para sempre apenas ele mesmo: uma centelha de luz na vasta escuridão do universo. |
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