Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai
Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois essa pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar.
Hermes Aquino
Os versos acima, da música popular brasileira, vêm, oportunamente, ilustrar os excertos da Vedanta, expostos a seguir.
Fonte: FILOSOFIA FINAL (VEDANTA)
ADA ALBRECHT – ASSOCIAÇÃO ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL NOVA ACRÓPOLE DO BRASIL, 1977
INTRODUÇÃO (excerto)
Só mesmo a pobreza de nossas Almas, ancilosadas sob a pressão da mente inquieta, pode equivocar-se com relação ao Grande Caminho. Sai então em busca do conhecimento na “restrita amplitude” do mundo manifestado, nas coisas, no universo, sem intuir sequer que quando pensa indagar pela Verdade, estendendo seus olhos sobre o espaço-mundo, é o momento em que precisamente se afasta dela.
Como este mundo caleidoscópico fascina a pobre e infantil psiquê! Que incríveis jogos e estruturas fantásticas se formam continuamente na Casa do Tempo!
Busquemos então, a Arqueologia. Sejamos expedicionários das Grandes Civilizações, desenterremos a vida, vamos erguê-la do passado!
Que aventura seria percorrer o velho Nilo como os faraós, em suas grandes barcas de papiro; que glória deter-se aos pés de Abidos e reclamar a areia dos tesouros escondidos!
Ah, curiosidade, demônio vestido de Busca Real! Como queima e dilacera, chicoteando a grande cega que é a mente! Procura, procura, se diz! Aqui é música, ali é religião, acolá é ciência, é filosofia! É a estrela que cintila e nos chama; é mar que esconde e incita a que criemos máquinas para percorrer profundezas. É enfim a Grande Casa de Maya(1), o Grande Espelho, o Nada alucinante, que com seus poderes cobre e mal reflete para todos nós a terra, o pó... a miséria vestida de abundância. É tão somente o homem que regressa da aventura o que humildemente se refugia aos pés de Plotino(2). Já não irá “conhecer a Deus” buscando-o fora de si mesmo, senão que, no silêncio de sua curiosidade já esgotada, exausta, acreditará escutar uma voz, de seu ser íntimo, que reclama: “aqui, aqui!” e até a ela dirigirá seus passos.
Haverá chegado ao portal da Grande Verdade, estará despertando para a Realidade.
Notas:
(1) Maya – palavra sânscrita que significa miragem, ilusão, fantasia, irreal.
(2) Plotino – filósofo neoplatônico que viveu no século III dC.
CAPÍTULO II (excerto)
MAYA – SOBREIMPOSIÇÃO
O universo inteiro é Maya, isto é, miragem, ilusão. Acreditamos que tem Realidade, mas, quem acredita? Nosso eu, ou Ahankara, que também é ilusão. Por milênios temos estudado este universo com o fim de compreendê-lo, porém, apenas uma teoria se afirma, surge outra que se levanta retificando os axiomas da primeira. O homem investiga sobre o mundo e sobre si próprio infatigavelmente. Nunca se conheceu descanso para essa procura.
A Vedanta diz que por muito que se dedique e sacrifique, por muito que avance em suas investigações, estas jamais deixarão de ser o que são: investigações de uma miragem. Se o que busca é chegar à compreensão dessa Realidade, cairá no vazio. É como pretender agarrar um sonho, morar numa casa onde viveu uma aventura onírica, querer pôr grilhões a um pesadelo, ou marco a um quadro pintado na mente.
O homem não pode entender isso, porque quando tenta fazê-lo usa como arma outro produto de Maya: sua mente, que é tão ilusória como a grande Mãe que a produziu. A mente está cheia de visões, impressões, emoções e pensamentos do mundo. Como, então, pode aceitar a idéia de que ela mesma não tem realidade, que é fumaça, mais ainda, que é nada? Ela olha ao seu redor, usa o poder que têm os sentidos para tomar contato com o universo circundante e “vê” coisas, “apalpa” objetos, “escuta” sons; assim se afirma na idéia contrária: o mundo é o mais real que existe, está aqui diante dos olhos, segue uma direção, evolui e eu – diz – evoluo com ele.
Inutilmente o Tempo destrói sem cessar as civilizações dos homens, suas vidas, seus sonhos. Tudo se desfaz entre suas mãos; porém, isto não tem importância, o homem continua seu labor dentro do tempo, respira sob sua grande coberta convenientemente oxigenada com o gás imprescindível da ilusão e permanece ali.
Podemos ousar destruir qualquer coisa: a ciência, a religião, a filosofia, jamais o mundo. Podemos dizer que Apolo, Minerva, Dionísio, foram embustes, ilusões místicas, podemos dizer o mesmo do próprio Jesus Cristo. Qualquer coisa pode ser qualificada por nós de mentira, falsidade, impostura. Todavia nunca pensamos que o mundo pode não ser tão real quanto aparenta; e menos ainda que nós mesmos, como pessoas, carecemos de realidade.
Não obstante, esse “nós mesmos” cambaleia continuamente, nunca é igual, nem idêntico. Aquilo que acreditamos há cinco anos modifica-se nos cinco anos seguintes, às vezes de maneira radical. Hoje não amamos as mesmas coisas que amávamos tempos atrás. Por aqueles que teríamos dado a vida, hoje assistimos friamente a seus funerais.
É inacreditável como, apesar de tudo isso, nós nos amoldamos às variações. Não nos perguntamos: “por que mudamos assim”? E ainda: “haverá uma forma de aprender algo mais perene? Serei eu outra coisa diferente “disso”, que permanece em constante flutuação?”
Se Deus pudesse ter inimigos, caberia afirmar que os “espiritualistas” são os maiores adversários de Deus, porque ante estas perguntas são eles os que exclamam: “...deve ser uma lei divina”, “É mister conformar-se com os desígnios do Céu” ou “Deus sabe o que faz”. Os espiritualistas “avançados” esgrimem teorias mais complicadas, porém, igualmente sujeitas a uma ilusão: a de serem “tecidas” por algo que tampouco tem realidade, o intelecto.
No entano, muitos são os homens que se apercebem deste processo e desta ilusão, muitos os que sem falar de Maya falam da “vida passageira”. Mas não deveriam ficar somente nessa expressão; é necessário continuar procurando e investigando, do contrário o espírito acaba entorpecendo-se com o corriqueiro da vida, sem ter atingido a Vida Divina. Deste encapelamento desprende-se algo catastrófico: o ceticismo, o negativismo para a luta, porque “para que vamos nos preocupar, se no final encontraremos a morte; se todas as coisas passam irremediavelmente?” Pior que acreditar na realidade do perecível, é este estado. Quem crê no mundo, trabalha e permanece ativo; de alguma forma, esta atividade será com o tempo liberadora do ser, enquanto que, quem compreende mal a lei que anuncia “tudo é Maya”, declara-se morto sobre um tempo que ainda não amadureceu em eternidade.
Comentário; Percebe-se aqui, claramente, uma analogia entre Maya e Matrix. No primeiro filme desta trilogia Morpheus revela a Neo que a Matrix é tudo aquilo que foi colocado diante de nossos olhos para que não vejamos a realidade.
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"In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act." George Orwell
Eustáquio Maia