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Início de um diário - Monsair Martuchelli

 
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t. h. abrahao

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PostPosted: 20/07/2006 - 13:42:56    Post subject: Início de um diário - Monsair Martuchelli Reply with quote

Início de um diário
por Monsair Martuchelli



Quote:
"Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça sentir, qualquer coisa que faça não pensar." (Fernando Pessoa)


Acompanhado de um suspiro, concluo que não tenho nenhuma tarefa para o resto do dia. Recolho-me em meu quarto iluminado por uma luz bruxuleante, cujo aspecto só me deixa uma sensação amarga de lar, sempre o mesmo lar.

Não poderia haver quaisquer dúvidas, debruço-me sobre meus livros e pretendo ali utilizar meu tempo. Os efeitos podem ser danosos - talvez algumas lágrimas, ou uma sensação constante de pânico pro resto do dia, em suma, o mesmo estado de outrora.

A minha ingenuidade - ai de mim! será ignorância, será decadência? - levou-me a crer que qualquer agonia, sobretudo a falta de clareza seguida do desespero de escrever, alcançará certa finalidade. Acreditava ser um fim que melhorasse o tempo futuro - errei. Talvez isso seja ao menos um pouco real, mas erros acontecem. Olho para o ambiente, ou qualquer outra coisa, como se este não existisse, como se eu não existisse, como se não houvesse o que quer que for.

Arqueio a cadeira. Juízo falso. Decerto que podemos arranjar uma solução para esse pesar dos pensativos, desta consciência da efemeridade de qualquer valor ou sentimento, da constante tentativa da realidade de nos deixar sem saber o que sentimos, sem saber o que deveriamos sentir, sem saber o que os outros deveriam ser. A comparação com tudo que a vida poderia ser, a melancolia de não ser compreendido tampouco compreender, ver escapar a satisfação entre nossos magros dedos - essa tentativa de expressar o inexpressável, que é o descontentamento com o que é, eu poderia anular, você diz, não poderia? Quando me distraio, conversando, me divertindo, estudando, estou anulando. Posso arranjar valores, me contentar com o que a realidade propor-me-á - esquecer os sonhos que todos os livros e todas as pessoas e todas as crenças me fizeram ter.

No entanto, como posso fazê-lo se sou um fracasso, se o meu dia de hoje estará repleto de tempo vazio, se não tenho pessoas ou atividades que me agradem? Nada responde a mim, mas eu sei: sou um fracasso. Então me distraio até acontecer as poucas horas que gostarei de minha vida.

A cadeira volta à posição normal. Esqueço de devanear. Nunca adianta nada. Já não pretendo ser compreendido, já não quero ser esmerado. Desisto. Não consigo anular minha tristeza.

Nós, os inúteis, os niilistas que não conseguem abraçar a parvoíce de Nietzsche, aquela tentativa arguta de tentar nos convencer em uma nova dualidade, forte-fraco, não conseguimos nos livrar de todo o questionamento que nos vêm a cada sensação. Não conseguimos tolerar todo este nada, mas também não conseguimos alcançar nada além disto. Não deixamos de necessitar o velho ardor - um abraço? Um abraço intenso para este niilista.

Estou sozinho. Só me resta este quarto, os livros, as folhas em branco, a sensação de que falta algo em tudo, e mais muito tempo para ser utilizado. 17 anos. Tenho 17 anos.

Então, o bom niilista me grita: aproveita teu tempo! O que importa não é o que produz o prazer, mas só o prazer. Abandona o pensamento, meu amigo! Porque não acredita na finalidade do prazer?

Abaixo a cabeça, coro. Respondo-lhe: quando nasce a consciência de que uma ação me dá prazer, este já diminui. Sou uma vergonha.

O ideal niilista ri inocentemente de mim. Parece-me que ele gosta de mim. Parece-me que eu poderia gostar de outras pessoas.

- Você não abandonou por completo os juízos falsos dos filósofos, está claro - ele continua a dizer-me. - Ainda não aceita que a irracionalidade e a mentira são fundamentais à vida. E só faz isso porque a vida não lhe agrada: está em um beco sem saída. Meu amigo, não ligue: ninguém é obrigado a ser feliz. Do jeito que é, nunca se arrependerá. Contenta-te em não se contentar.

Meu amigo vai-se. Eu fico sozinho de novo. Já não me importa. Ele estava certo. Para um pessimista niilista, sempre está tudo bem.

Está tudo bem. Debruço-me novamente sobre meu livro. Uma tarde ter-me-á sido arrancada quando terminar de ler. Não faz diferença.

Quote:
"Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazemo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida.
Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver.
Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados."
(Fernando Pessoa)



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