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Cinco Aforismos - T. H. Abrahão

 
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t. h. abrahao

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PostPosted: 23/07/2006 - 19:39:43    Post subject: Cinco Aforismos - T. H. Abrahão Reply with quote

Pérolas. — A partir de um grão de areia uma ostra cria uma pérola. Não seríamos nós também ostras a produzir, da náusea, um conhecimento que nos faça ganhar épocas — ou perdê-las? Se para a ostra um corpo estranho é a causa que precede a conseqüência de algo novo, por que não admitir que do estupor teremos a lucidez de uma existência menos ridícula? Há relva em nossos pensamentos e névoa a pairar por entre nossa mente, mas mesmo assim deveríamos conseguir algo mais que nós, que pudesse convergir nossa estranheza em pérola aceita para diminuir nosso desgosto — ou então fazê-lo deglutível. Ao menos poderíamos sorrir em certas horas — mesmo que ironicamente — gargalhar maldosamente quando a possibilidade de um soco surgir e vier de encontro a nós. Sim, pois nossa face requer bofetões sinceros quando forem necessários, mas também a fuga quando eles acabarem por ser enfadonhos demais para nós, estrada que nos leva a lugar algum. Se há pérolas na conseqüencia de um grão de areia, há possibilidades no martírio das manhãs. Se acordamos, não temos escolha a não ser viver o dia, rebuscando a nossa pérola, fechados numa ostra que nos proteja de maus argumentos e más transações comerciais a vender nosso caráter por algo menos que um cisco a cair em nossos olhos.


Risum teneatis?Outrora tempos distantes, vazantes de um rio sob um mar submerso, antes pulávamos à confluência mais próxima para calar as vozes de planetas gestantes. Nós, espasmos gritantes, resíduos sem nexo, palavras em fragmentos, vestígios de vastas versões e lamentos e instantes, brincávamos de civilização. Outrora que fora mais que desavença, presença que fomos e agora perdemos, vazamos às fontes de todas as crenças, na corda da lira, nos metros da estrada. Outrora rimos, agora choramos; outrora existimos, agora já estamos no mesmo refúgio que há sob a sorte de qualquer suspeita. Eleita a virtude, escolhido o vício — outrora armistício demente, hipócrita, fluente atitude afora a vertente de margens de rios de risos hereges ―, deitamos os corpos ao sabor do sol, à sombra do arrebol do pendor da nascente escondida de nós, sem sabermos da vida. Nascido um percurso e um fim tão sabido, antes cantávamos e agora, sem voz, refeitos de tudo, soltamos gastos ganidos que retumbam sob um mármore agora despido em que jazemos ao jugo de um enfermo algoz — atroz, relutante, que não quer o ofício, mas perde a batalha como todos nós.


Cefaléia. — A interrogação não é apenas um símbolo questionador. Talvez guarde em suas curvas a agrura das respostas; e em seu ponto o final da procura que, de certa forma, não valeu a pena por nos ter dito: esqueça o mundo, ele não sabe o que diz. E nesta poética da precariedade não sobram mais do que dois caminhos, a realidade escrita e a utopia manchada. Talvez já saibamos que a vida não tem seus motivos. E ganhamos o tal presente de confiar a nós a tentativa de encontrar na vida o anseio de ser resposta, ponto final sem mais interrogações que nos doam a cabeça.


Terra desolada. — Os belos olhos não mais dizem nada, não servem de nada e nada significam em um mundo de apenas cinza. Argutos ouvidos não são necessários, não mais são usados nem mesmo aguçados em um mundo sem vozes. A boca é inerte, não tende ao falar e nem mais é condição para a fala em um mundo sem quem compreenda. Há pó no assoalho, fumaça entre nós. Há velhos sarcasmos que perderam sua força. Há versos escritos sem quem possa ler e há música sem gente a ouvir. Há gostos demais, mas paladares muito amargo para saboreá-los. Os sublimes passos não mais são sublimes e tão coerentes: caminhos nos levam a apenas um lugar. Perderam-se as identidades, os sentimentos, as certezas, pois tudo sumiu, condensando-se num ponto que diverge de nós. O riso cedeu, o chorou ruiu, as mãos não se apertam e os braços não mais abraçam o abraço de outrem. Liberdade, anseio, moral, vaidade... Todos os substantivos tornaram-se interrogação. Todas as interrogações transformaram-se em ponto final. E os antigos belos olhos — calados — agora observam, da ravina da imaginação, a realidade confundindo-se com os sonhos.


E se... — Esta é uma época de atitudes inóspitas. De um lado atos heróicos; de outro, arcaicos. Uma época de imaginação suprema, com enlaces imaginativos amarrados em necessidades: de abster-nos da verdade, de conter-nos do acerto, de salvarmo-nos dos logros. E se o mundo fosse uma grande decepção e não soubéssemos disso?, pensamos. Ora, seríamos enganos bípedes ao certo. Mas mais do que isso: mais felizes. E um ponto é certo — o engano. Não sabermos é questão individual, que necessita de individuais necessidades, necessárias asperezas, próprios jardins com ou sem rosas — a depender de quem o imagine. Uma rajada de vento., uma chuva de flores, um esgar contido, um grito impávido... A depender, sempre a depender e a pender para o lado que sentimo-nos mais confortáveis.
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Eustaquio Maia




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PostPosted: 24/07/2006 - 13:43:11    Post subject: Re: Cinco Aforismos - T. H. Abrahão Reply with quote

Quote:
Pérolas. — A partir de um grão de areia uma ostra cria uma pérola. Não seríamos nós também ostras a produzir, da náusea, um conhecimento que nos faça ganhar épocas — ou perdê-las? Se para a ostra um corpo estranho é a causa que precede a conseqüência de algo novo, por que não admitir que do estupor teremos a lucidez de uma existência menos ridícula?


"Tudo convém para o homem ser completo!"

CONTRASTES

(Augusto dos Anjos)

A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!


O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!


Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
junta-se um hemisfério a outro hemisfério,


Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!...





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São bem interessantes os aforismos. Onde os conseguiu? São seus mesmo?
_________________
"In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act." George Orwell

Eustáquio Maia


Last edited by Eustaquio Maia on 24/07/2006 - 21:34:02; edited 3 times in total
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t. h. abrahao

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PostPosted: 24/07/2006 - 17:58:09    Post subject: Re: Cinco Aforismos - T. H. Abrahão Reply with quote

[quote="Eustaquio Maia"]São bem interessantes os aforismos. Onde os conseguiu? São seus mesmo?[/quote]
Sim, são aforismos que escrevo para o meu blog (endereço na minha assinatura).
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