Pérolas. — A partir de um grão de areia uma ostra cria uma pérola. Não seríamos nós também ostras a produzir, da náusea, um conhecimento que nos faça ganhar épocas — ou perdê-las? Se para a ostra um corpo estranho é a causa que precede a conseqüência de algo novo, por que não admitir que do estupor teremos a lucidez de uma existência menos ridícula? Há relva em nossos pensamentos e névoa a pairar por entre nossa mente, mas mesmo assim deveríamos conseguir algo mais que nós, que pudesse convergir nossa estranheza em pérola aceita para diminuir nosso desgosto — ou então fazê-lo deglutível. Ao menos poderíamos sorrir em certas horas — mesmo que ironicamente — gargalhar maldosamente quando a possibilidade de um soco surgir e vier de encontro a nós. Sim, pois nossa face requer bofetões sinceros quando forem necessários, mas também a fuga quando eles acabarem por ser enfadonhos demais para nós, estrada que nos leva a lugar algum. Se há pérolas na conseqüencia de um grão de areia, há possibilidades no martírio das manhãs. Se acordamos, não temos escolha a não ser viver o dia, rebuscando a nossa pérola, fechados numa ostra que nos proteja de maus argumentos e más transações comerciais a vender nosso caráter por algo menos que um cisco a cair em nossos olhos.
Risum teneatis? — Outrora tempos distantes, vazantes de um rio sob um mar submerso, antes pulávamos à confluência mais próxima para calar as vozes de planetas gestantes. Nós, espasmos gritantes, resíduos sem nexo, palavras em fragmentos, vestígios de vastas versões e lamentos e instantes, brincávamos de civilização. Outrora que fora mais que desavença, presença que fomos e agora perdemos, vazamos às fontes de todas as crenças, na corda da lira, nos metros da estrada. Outrora rimos, agora choramos; outrora existimos, agora já estamos no mesmo refúgio que há sob a sorte de qualquer suspeita. Eleita a virtude, escolhido o vício — outrora armistício demente, hipócrita, fluente atitude afora a vertente de margens de rios de risos hereges ―, deitamos os corpos ao sabor do sol, à sombra do arrebol do pendor da nascente escondida de nós, sem sabermos da vida. Nascido um percurso e um fim tão sabido, antes cantávamos e agora, sem voz, refeitos de tudo, soltamos gastos ganidos que retumbam sob um mármore agora despido em que jazemos ao jugo de um enfermo algoz — atroz, relutante, que não quer o ofício, mas perde a batalha como todos nós.
Cefaléia. — A interrogação não é apenas um símbolo questionador. Talvez guarde em suas curvas a agrura das respostas; e em seu ponto o final da procura que, de certa forma, não valeu a pena por nos ter dito: esqueça o mundo, ele não sabe o que diz. E nesta poética da precariedade não sobram mais do que dois caminhos, a realidade escrita e a utopia manchada. Talvez já saibamos que a vida não tem seus motivos. E ganhamos o tal presente de confiar a nós a tentativa de encontrar na vida o anseio de ser resposta, ponto final sem mais interrogações que nos doam a cabeça.
Terra desolada. — Os belos olhos não mais dizem nada, não servem de nada e nada significam em um mundo de apenas cinza. Argutos ouvidos não são necessários, não mais são usados nem mesmo aguçados em um mundo sem vozes. A boca é inerte, não tende ao falar e nem mais é condição para a fala em um mundo sem quem compreenda. Há pó no assoalho, fumaça entre nós. Há velhos sarcasmos que perderam sua força. Há versos escritos sem quem possa ler e há música sem gente a ouvir. Há gostos demais, mas paladares muito amargo para saboreá-los. Os sublimes passos não mais são sublimes e tão coerentes: caminhos nos levam a apenas um lugar. Perderam-se as identidades, os sentimentos, as certezas, pois tudo sumiu, condensando-se num ponto que diverge de nós. O riso cedeu, o chorou ruiu, as mãos não se apertam e os braços não mais abraçam o abraço de outrem. Liberdade, anseio, moral, vaidade... Todos os substantivos tornaram-se interrogação. Todas as interrogações transformaram-se em ponto final. E os antigos belos olhos — calados — agora observam, da ravina da imaginação, a realidade confundindo-se com os sonhos.
E se... — Esta é uma época de atitudes inóspitas. De um lado atos heróicos; de outro, arcaicos. Uma época de imaginação suprema, com enlaces imaginativos amarrados em necessidades: de abster-nos da verdade, de conter-nos do acerto, de salvarmo-nos dos logros. E se o mundo fosse uma grande decepção e não soubéssemos disso?, pensamos. Ora, seríamos enganos bípedes ao certo. Mas mais do que isso: mais felizes. E um ponto é certo — o engano. Não sabermos é questão individual, que necessita de individuais necessidades, necessárias asperezas, próprios jardins com ou sem rosas — a depender de quem o imagine. Uma rajada de vento., uma chuva de flores, um esgar contido, um grito impávido... A depender, sempre a depender e a pender para o lado que sentimo-nos mais confortáveis.