Crítica do niilismo
5. O niilismo, como condição psicológica, aparecerá, primeiramente, logo que sejamos forçados a dar a tudo o que acontece o “sentido” que aí não se encontra: dessa forma, quem procura, acabará por perder a coragem. O niilismo é pois o conhecimento do longo desperdício da força, a tortura que ocasiona esse “em vão”, a incerteza, a falta de oportunidade de se refazer de qualquer maneira que seja, de tranqüilizar-se em relação ao que quer que seja — a vergonha de si mesmo, como se fôramos ludibriados por longo tempo... Esse sentido talvez fora: ou o “cumprimento” de um cânone moral superior em tudo o que tem ocorrido, o mundo moral; ou o aumento do amor e harmonia nas relações entre os seres ou parte da realização do estado de felicidade universal; ou até a marcha para um não-ser universal. — Uma finalidade qualquer basta para atribuir-lhe um sentido. Todas essas concepções têm de comum o quererem alcançar algo pelo seu próprio processus: — e logo se percebe que por esse “eterno vir-a-ser” nada se realizou, nada se atingiu... Assim a decepção quanto a um pretenso alvo do “eterno vir-a-ser” é a causa do niilismo: ou essa decepção relaciona-se com um propósito de antemão determinado, ou de maneira geral, percebe-se que todas as hipóteses de uma finalidade até aqui emitidas, quanto à “totalidade da evolução”, são insuficientes (o homem não mais se apresenta como o colaborador e, menos ainda, como o centro do “eterno vir-a-ser”).
O niilismo, como condição psicológica, aparecerá, em segundo lugar, logo que se estabeleça uma totalidade, uma sistematização, e também uma organização em tudo o que sucede e atrás de tudo o que sucede, de forma que a alma, sedenta de respeito e de admiração, navegará na idéia de um domínio e de um governo superiores (se é a alma de um lógico, o encadeamento das conseqüências e a realidade dialética absolutas serão suficientes para tudo conciliar...) Uma espécie de unidade, forma qualquer do “monismo”: e, como conseqüência desta crença, o homem, num sentimento de profunda conexão e dependência frente a frente de um todo que lhe é infinitamente superior, sente-se a forma material da divindade... “O bem da totalidade exige o abandono do indivíduo”... Ora, não existe semelhante totalidade!... No fundo, o homem perdeu a crença em seu valor, desde que não é um todo infinitamente precioso que atua por ele: o que equivale a dizer que concebeu este todo a fim de poder dar crédito ao seu próprio valor.
O niilismo como condição psicológica, possui ainda uma terceira e última forma. Aceitos estes dois julgamentos: a saber, que pelo “devir” nada deve ser realizado e que o “devir” não é regido por uma grande unidade, onde o indivíduo possa inteiramente prender-se como num elemento de valor superior: resta-lhe o subterfúgio de condenar a totalidade daquele mundo do “devir” porque é ilusão, e inventar um mundo que se encontre além deste, mundo que será o mundo-verdade. Mas desde que o homem compreende que este mundo somente foi edificado para responder às necessidades psicológicas e que este não tem absolutamente nenhum fundamento, nasce-lhe uma forma suprema do niilismo, forma que abarca a negação de um mundo metafísico, — que exclui a crença num mundo-verdadeiro. Por este ângulo admite a realidade do “devir” como única realidade, proibindo qualquer desvio que leve a um além e a falsas divindades e não tolera mais este mundo, embora não queira negá-lo.
— Que sucedeu então? Apesar de realizado o sentimento do não-valor compreendeu que não poderia interpretar o caráter geral da existência nem pela concepção de “finalidade”, nem pela de “unidade”, nem pela de “verdade”. Nada consegue nem obtém por meio delas; falta a unidade que intervém na multiplicidade dos acontecimentos: o caráter da existência não é “verdadeiro”, ele é falso... decididamente não tem mais razão de se persuadir da existência do mundo-verdade... Em uma palavra, as categorias: “finalidade”, “unidade”, “ser”, pelas quais demos um valor ao mundo, são retiradas por nós — e desde então o mundo tem o caráter de uma coisa sem valor...
Admitindo tenhamos reconhecido que o mundo, por estas três categorias, não pode mais ser interpretado, e que, segundo este exame, se desvalorize para nós, impõe-se perguntemos donde nos vem a crença nestas três categorias.
— Experimentemos se não é possível recusar-lhes crédito! Desde que as tenhamos desvalorizado, a demonstração da impossibilidade de aplicá-las ao mundo não é mais razão suficiente para desvalorizar o mundo.
— Resultado: a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo, — temos medido o valor do mundo de acordo com as categorias que se relacionam com um mundo puramente fictício.
6. Conclusão: todos os valores pelos quais experimentamos até o presente tornar o mundo avaliável para nós, e pelos quais temo-lo precisamente desvalorizado desde que se mostraram inaplicáveis, — sob o ângulo psicológico, todos estes valores são resultados de certas perspectivas de utilidade, estabelecidas para manter e aumentar as criações de domínio humano: mas falsamente projetadas na essência das coisas.
É ainda a ingenuidade hiperbólica do homem que o leva a considerar-se o sentido e medida das cousas...
7. Proposição principal. — Em que sentido o niilismo completo é a conseqüência necessária do ideal atual.
— Niilismo incompleto, suas formas: vivemos em meio dele.
— As tentativas para evitar o niilismo, sem transmutar os valores dominantes, provocam o contrário, agravam o problema.
Toda escala de valores puramente moral (como por exemplo a budista) termina no niilismo: eis o que se deve aguardar para a Europa! Pensa-se bastar um moralismo sem fundo religioso: mas aí o caminho do niilismo está necessariamente aberto.
— A pressão que nos obriga a considerarmo-nos como estabelecedores de valores, não existe na religião.
8. Nada é mais perigoso que um objeto de desejo contrário à essência da vida. A conclusão niilista (a crença no não-valor) conseqüência da avaliação moral: — perdemos o gosto do egoísmo (embora reconheçamos que não existe ato não-egoísta); perdemos o gosto da necessidade (embora reconheçamos a impossibilidade do livre-arbítrio e da “liberdade inteligível”). Compreendemos que não alcançamos a esfera onde colocamos os nosso valores — mas, por este fato, a outra esfera, aquela onde vivemos, nada ganhou em valor: ao contrário, estamos fatigados, porque perdemos nosso estímulo principal. “Em vão, até agora!”
9. O niilismo radical é a convicção da absoluta insustentabilidade da existência, quando se refere aos valores superiores que se aceitam; acrescente-se ainda o sabermos que não temos o menor direito de fixar um além ou um “em-si” das coisas.
Esse conhecimento é a continuação do “espírito verídico” que se desenvolveu em nós: é também a conseqüência da fé na moral. — Eis aqui a antinomia: enquanto cremos na moral, condenamos a existência.
— A lógica do pessimismo levada até os limites extremos do niilismo: qual é o princípio ativo? — noção da falta de valor, da falta de sentido: de que maneira as escalas de valores morais se encontram atrás de todos os outros valores superiores. Resultado: as escalas de valores morais são condenações, negações; a moral afasta da vontade de viver...
Problema: mas que é a moral?
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NIETZSCHE, Friedrich. Vontade de Potência. Livro Primeiro, p. 94 a 97. Editora Escala: São Paulo.