Se sonho fosse
Nercy Luiza Barbosa
Sem mais, sem menos, o saber é vislumbre, é aceno
É a disjunção da agonia amena
De certo, apreender o saber, é preso liberto
O só é o que sou
Traduzindo o que fui – presente é
O que sei é ilusão remota
Sou selva – mulher de pouca fé
A ciência se perde, não explica meus repentes
Sou coeficiência de instintivas marés
Estou em risco, caro mar
Desgarrada da haste, sou bandeira ao léu
Mitologia sem divindade não é par
É ímpar como trança sem Rapunzel
Alcança-te o sonho meu a sonhar teu sonho
Abstração divisível – vidas subjacentes
Encontradas em silêncios medonhos
Desfaço-me em linhas de horizontais–sonhos
Sonho meu-teu. Sonho de ninguém, sonho ateu
O fato é que de fato, até o não ser sonho, sonho é
Como se concretos abstratos fossem dardos
Flechas abertas, peitos fechados, concordatas
Poucas tantas alegrias, tantos lados
Se não és sonho, se sonho não sou
Da matéria somos dia – oscilando ao acaso – alforria
De eterno re-recomeço decidido, sem final, sem gol
Sem juiz, sem trave, sem goleiro, sem torcida, só o vôo
Se sonhos fossem feitos de matéria, sonhos não seriam
Escorreriam dos cérebros como de arco-íris sem chão
Sem colorir a terra, sem setar os tesouros — feririam
Nos presenteariam tanta realidade, que morreríamos pagãos
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André Díspore Cancian
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