t. h. abrahao
Fundador PN

: 41 Joined: 22 Jan 2005 Posts: 574 Location: são josé do rio preto - sp
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O caráter destrutivo
por Walter Benjamin
É possível que alguém, ao fazer um retrospecto de sua vida, verifique que quase todas as ligações mais profundas que ele experimentou, tenham partido de indivíduos sobre cujo "caráter destrutivo" todo o mundo estava de acordo. Esbarraria um dia, talvez casualmente, nesse fato, e quanto mais duro fosse o choque, tanto maiores seriam suas chances de representar o caráter destrutivo.
O caráter destrutivo conhece apenas uma divisa: criar espaço; conhece apenas uma atividade: abrir caminho. Sua necessidade de ar puro e de espaço é mais forte do que qualquer ódio.
O caráter destrutivo é jovem e sereno. Pois destruir rejuvenesce, porque afasta as marcas de nossa própria idade; reanima, pois toda eliminação significa, para o destruidor, uma completa redução, a extração da raiz de sua própria condição. O que leva a esta imagem apolínea do destruidor é, antes de mais nada, o reconhecimento de que o mundo se simplifica terrivelmente quando se testa o quanto ele merece ser destruído. Este é o grande vínculo que envolve, na mesma atmosfera, tudo o que existe. É uma visão que proporciona ao caráter destrutivo um espetáculo da mais profunda harmonia.
O caráter destrutivo está sempre atuando bem disposto. A natureza lhe prescreve o ritmo, pelo menos indiretamente: pois ele deve adiantar-se a ela, do contrário ela própria assumirá a destruição.
O caráter destrutivo não se fixa numa imagem ideal. Tem poucas necessidades, e a menos importante delas seria: saber o que ocupará o lugar da coisa destruída. Primeiramente, pelo menos por um instante, o espaço vazio, o lugar onde se encontrava a coisa, onde vivia a vítima. Certamente vai aparecer alguém que precise dele, sem ocupá-lo.
O caráter destrutivo executa seu trabalho, evitando apenas trabalhos criativos. Assim como o criador busca a solidão, assim também o destruidor precisa cercarse continuamente de pessoas, de testemunhas de sua eficácia.
O caráter destrutivo é um sinal. Assim como um sinal trigonométrico está exposto ao vento, de todos os lados, assim também ele está exposto, por todos os lados, aos boatos. Não tem sentido protegê-lo contra isso.
O caráter destrutivo não tem o mínimo interesse em ser compreendido. Considera superficiais quaisquer esforços nesse sentido. O fato de ser mal entendido não o afeta. Ao contrário, ele provoca mal entendidos, assim como o faziam os oráculos - essas instituições políticas destrutivas. O fenômeno mais pequeno-burguês, o falatório, só acontece porque as pessoas não querem ser mal entendidas. O caráter destrutivo não se importa de ser mal entendido; ele não fomenta o falatório.
O caráter destrutivo é o inimigo do homem-estojo. O homem-estojo busca sua comodidade, e a caixa é sua essência. O interior da caixa é a marca, forrada de veludo, que ele imprimiu no mundo. O caráter destrutivo elimina até mesmo os vestígios da destruição.
O caráter destrutivo se alinha na frente de combate dos tradicionalistas. Uns transmitem as coisas na medida em que as tomam intocáveis e as conservam; outros transmitem as situações na medida em que as tornam palpáveis e as liquidam. Estes são chamados destrutivos.
O caráter destrutivo tem a consciência do indivíduo histórico cuja principal paixão é uma irresistível desconfiança do andamento das coisas, e a disposição com a qual ele, a qualquer momento, toma conhecimento de que tudo pode sair errado. Por isso, o caráter destrutivo é a confiabilidade em pessoa.
O caráter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas, por isso mesmo, vê caminhos por toda a parte. Mesmo onde os demais esbarram em muros ou montanhas, ele vê um caminho. Mas porque vê caminhos por toda a parte, também tem que abrir caminhos por toda a parte. Nem sempre com força brutal, às vezes, com força refinada. Como vê caminhos por toda a parte, ele próprio se encontra sempre numa encruzilhada. Nenhum momento pode saber o que trará o próximo. Transforma o existente em ruínas, não pelas ruínas em si, mas pelo caminho que passa através delas.
O caráter destrutivo não vive do sentimento de que a vida vale a pena ser vivida, e sim de que o suicídio não compensa.
BENJAMIN, Walter. in Der Destruktive Charakter
Walter Benjamin cometeu suicídio em 27 de setembro de 1940. |
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Eustaquio Maia

: 74 Joined: 12 May 2005 Posts: 391 Location: Belo Horizonte
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Tradução do poema de Eŭgenio Miĥalskij
O FOGO CURA
Ignis sanat
Avante e avante! Aos novos ideais!
A um novo sistema-de-vida! A um novo meio-de-vida!
Nem sequer nos detenhamos diante de cruéis batalhas sanguinolentas!
Não tenhamos compaixão, esmaguemos as flores sobre o canteiro!
O mundo é lodo. E o lodo abominamos.
Queremos bani-lo com violência incomum.
Nós, adorando o mundo, todavia, por todos os modos nos esforçamos
Em abandoná-lo aos braços e ao sopro da morte.
No sangue nascerá o Amor. Do fogo surgirá a Verdade.
E a Beleza se irradiará depois de mui-densa fumaça.
Após a aniquilação reflorescerá de novo toda a terra.
Após longa e opressiva noite, finalmente resplandecerá a Luz.
Avancemos, corajosamente! Aos novos ideais!
Aos novos meios-de-vida! A um novo sistema-de-vida!
Nem sequer nos detenhamos diante de cruéis batalhas sanguinolentas,
Pois nossa salvação está na plena destruição da vida.
Texto original em Esperanto:
FAJRO KURACAS
Ignis sanat
Antaŭen kaj antaŭen ! Al novaj idealoj !
Al nova viv-konstruo ! Al nova viv-rimed’ !
Ni eĉ ne haltu antaŭ kruelaj sangbataloj !
Ni ne kompatu, premu la florojn sur la bed’ !
La mondo estas koto. Ni koton abomenas.
Ni volas ĝin forigi per nekutima fort’.
Ni, mondon amegante, ĝin tamen ĉiel penas
Fordoni al la brakoj kaj spiro de la mort’.
En sang’ naskiĝos Amo. El fajr’ aperos Vero.
Kaj Belo ekradios el post densega fum’.
Post neniig’ disfloros denove tuta tero.
Post longa prema nokto ekbrilos fine Lum’.
Antaŭen ni, kuraĝe ! Al novaj idealoj !
Al novaj vivrimedoj ! Al nova viv-konstru’ !
Ni eĉ ne haltu antaŭ kruelaj sangbataloj,
Ĉar nia savo estas en plena viv-detru’.
(MIĤALSKIJ, Eŭgeno. El: Fajro kuracas. Sakarov: Eldonejo Ekrelo, 1917.) _________________ "In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act." George Orwell
Eustáquio Maia
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