Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



Vinte e Oito Aforismos - Franz Kafka

 
Post new topic   Reply to topic    Paraíso Niilista Forum Index -> Fórum Niilismo ao acaso
View previous topic :: View next topic  
Author Message
t. h. abrahao

Fundador PN


: 41
Joined: 22 Jan 2005
Posts: 574
Location: são josé do rio preto - sp

PostPosted: 07/04/2008 - 16:12:37    Post subject: Vinte e Oito Aforismos - Franz Kafka Reply with quote

Vinte e Oito Aforismos
por Franz Kafka
(Tradução de Silveira de Souza)


§1


O caminho verdadeiro segue por sobre uma corda, que não está esticada no alto, mas se estende quase rente ao chão. Parece mais determinado a fazer tropeçar, do que a ser transitável.


§2


Todos os erros humanos resultam da impaciência, uma ruptura precoce do metódico, um aparente bloqueio das coisas aparentes.


§3


Há dois pecados humanos capitais, dos quais se derivam todos os outros: impaciência e indolência. Por impaciência foram os humanos expulsos do Paraíso; por indolência não regressaram. Entretanto talvez haja somente um pecado capital: a impaciência. Por impaciência foram expulsos, por impaciência não regressaram.


§4


Muitas sombras de gente já falecida ocupam-se somente em lamber as ondas do rio dos mortos, porque ele se origina de nós e conserva o gosto salgado de nossos mares. Então o rio, tomado de nojo, cria uma corrente contrária e empurra os mortos novamente à vida. Daí eles ficam felizes, entoam canções de agradecimento e acariciam o rio rebelde.


§5


A partir de um certo ponto não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado.


§6


O momento decisivo do desenvolvimento humano é perpétuo. Em torno, movimentam-se os espíritos revolucionários, os quais, em verdade, buscam inutilmente de antemão tudo explicar, pois nada definitivo ainda aconteceu.


§11/12


Diversidade de imagens que talvez se possa ter de uma maçã: a imagem do garotinho que precisa esticar o pescoço para, com dificuldade, poder ver a maçã na fruteira sobre a mesa e a imagem do senhor da casa que pega a maçã e a entrega sem restrições a seu convidado à mesa.


§13


Um primeiro sinal do conhecimento nascente é o desejo de morrer. Esta vida parece insuportável; uma outra, inalcançável. Não há mais vergonha em se desejar morrer; pede-se apenas o deslocamento da velha cela, que se odeia, para uma nova, a qual no devido tempo se aprenderá a odiar. Um resquício de fé deverá fazer crer, durante a mudança, que o Senhor vai casualmente surgir no corredor, olhar o prisioneiro e dizer: “Este não deve ser preso novamente. Ele vem comigo”.


§14


Seria algo desesperador, se caminhasses numa planície, com a agradável sensação de estar a avançar, quando na verdade retrocedias. Como porém escalavas uma encosta abrupta, bastante inclinada, conforme por ti mesmo vista de baixo, a causa do retrocesso bem poderia ser devido à disposição do terreno. Não deves desesperar.


§15


Como um caminho no outono: mal é varrido para limpeza, cobre-se de novo de folhas secas.


§16


Uma gaiola saiu a procura de um pássaro.


§18


Se tivesse sido possível construir a Torre de Babel sem precisar subir por ela, sua construção teria sido permitida.


§20


Leopardos invadem o templo e bebem toda a água da pia de sacrifícios, deixando-a vazia. Isto se repete sempre. Por fim, o evento pode ser previsto e torna-se uma parte do ritual.


§22


Tu és a tarefa. Nenhum discípulo nos arredores.


§23


Flui em ti ilimitada coragem advinda dos verdadeiros adversários.


§24


Compreender a ventura de que o chão, sobre o qual estás parado, não pode ser maior do que os dois pés que o cobrem.


§25


Como se pode estar satisfeito com o mundo, a não ser quando nele se exile?


§32


Afirmam as gralhas que bastaria uma só delas para destruir o céu. Não há dúvida a esse respeito, mas isso nada prova contra o céu, pois o céu na verdade significa: impossibilidade de gralhas.


§35


Não existe nenhum possuir, somente um ser, somente um ser exigente até o último alento, até à asfixia.


§36


No passado eu não compreendia porque não encontrava respostas às minhas perguntas; hoje não compreendo como podia acreditar que pudesse perguntar. Entretanto, eu não acreditava, perguntava somente.


§41


A desproporção do mundo parece ser, de modo consolador, apenas uma questão quantitativa.


§47


Foi dada a eles a escolha de se tornarem reis ou mensageiros de reis. Com a ingenuidade das crianças todos escolheram ser mensageiros. Eis porque só existem mensageiros, que correm pelo mundo e, como não há mais reis, gritam uns para os outros mensagens que não têm mais sentido.


§50


O homem não pode viver sem uma permanente confiança na existência de algo indestrutível dentro de si. Tanto a indestrutibilidade quanto a confiança funcionam como um abrigo permanente. Um modo de expressão desse estar abrigado é a crença em um Deus pessoal.


§66


Ele é um cidadão da terra, livre e seguro, pois está ligado a uma corrente suficientemente longa para fazer com que todas as áreas lhe sejam acessíveis sem restrições e, no entanto, longa apenas na medida em que nada pode forçá-lo a ir além dos confins da terra. Ao mesmo tempo, porém, ele é um livre e seguro cidadão do céu, ao qual de modo semelhante também está ligado por uma corrente calculada. Se deseja descer à terra, é sufocado pela corrente celeste presa ao seu pescoço, como uma coleira; se deseja elevar-se ao céu, é sufocado pela corrente terrena. E, não obstante, tem ele todas as possibidades e assim o sente; na verdade, ele se recusa até a explicar todo o conjunto como um erro no acorrentamento original.


§67


Ele corre a realidade como um principiante a correr sobre patins, que, além disso, exercita-se em algum local proibido.


§74


Se o que se supõe deva ter sido destruído no Paraíso, era destrutível, então eis algo não decisivo. Mas, se era indestrutível, então estamos vivendo numa falsa crença.


§83


Vivemos em pecado não somente porque comemos da Árvore do Conhecimento, mas também porque ainda não comemos da Árvore da Vida. Pecaminoso é o estado em que nos encontramos, independente de culpa.


§84


Fomos criados para viver no Paraíso e o Paraíso estava determinado a nos servir. Nosso destino foi modificado. Mas, quanto ao que aconteceria com o destino do Paraíso, nada se disse.


Last edited by t. h. abrahao on 07/04/2008 - 16:13:14; edited 1 time in total
Back to top
View user's profile Send private message Send e-mail Visit poster's website MSN Messenger
Display posts from previous:   
Post new topic   Reply to topic    Paraíso Niilista Forum Index -> Fórum Niilismo ao acaso All times are GMT - 3 Hours
Page 1 of 1

 
Jump to:  
You cannot post new topics in this forum
You cannot reply to topics in this forum
You cannot edit your posts in this forum
You cannot delete your posts in this forum
You cannot vote in polls in this forum





    RSS Paraíso Niilista
  Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram
Copyright © Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram
:: Caso encontre erros, aprenda com eles ::
[On-line há ]
[última atualização: 23/01/2026]
  [Powered by]
intelligence...