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Niilismo ao Concreto

 
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PostPosted: 28/01/2005 - 07:50:45    Post subject: Niilismo ao Concreto Reply with quote

Niilismo ao Concreto

por Rafael Mantovani



Provavelmente, em todas as épocas os indivíduos pensam que estão passando por um momento decisivo da história. Obviamente, alguns deles estavam errados e nós, contemporâneos, não fugimos da regra. Muito pelo contrário, chega-se a falar de fim da história ou posthistoire. Vários são os autores que falam do fim da história, mas o que mais interessa nesse momento é Arnold Gehen. Em Ende der Geschichte? (Fim da história?) de 1974, o autor, baseado em Gottfried Benn, diz que desde de 1954 o mundo não caminha pelo tempo graças a um desenvolvimento, mas unicamente a um movimento. A diferença entre desenvolvimento e movimento consiste em que, no primeiro caso, a cultura e a dinâmica social são substituídas por outras conforme o avançar do tempo. No segundo caso, que é o atual, o mundo assume, planetariamente, os ditames da civilização tecnológica que consiste na produção para a substituição contínua para sustentar as engrenagens do capitalismo. A sociedade reproduz repetidamente sem criar nada de novo, mas simplesmente sustenta as engrenagens do capitalismo que necessita do consumo independentemente da necessidade. Logo, graças à reprodução repetida sem criação, a ordem se cristaliza.

E se o hegelianismo e o marxismo defendiam que o mundo era uma repetida contraposição de opostos que promovia novas ordens sociais, essa dinâmica não existe mais, pois a briga de classes e o sentimento utópico são dois fogos a cada dia mais controlados e acalmados. E o que tem causado a apatia pela utopia? Pode-se dizer que é fruto de um comportamento niilista, mas antes de defender essa conclusão, Heidegger nos mostra como explicá-la. Esse autor defende que o niilismo é o coroamento inevitável do poder destrutivo do racionalismo nascido com os gregos. Esse racionalismo acaba, hoje, na era da tecnociência, produzindo as renovações constantes (que não correspondem a um desenvolvimento, mas a um movimento) as quais resultam em inúmeras novas regras e novos códigos ético para cada espécie de “novidade” que surge. Segundo Franco Volpi, “com tão variado catálogo de idéias, o turista curioso poderia passear infinitamente por esse jardim-mercado de éticas” o qual produz uma “verdadeira guerra de palavra, sem vencedores nem vencidos, e produz a indiferença, o relativismo e o cepticismo”. Porém, diante dessas circunstâncias, “a ciência e a técnica organizam a vida no planeta, irresistíveis como uma avalanche. Diante delas, a ética e a moral têm a beleza de fósseis raros. Não resta alternativa ao homem contemporâneo. Pense ou faça o que quiser, estará sempre submetido à coerção da ‘tecnociência’.”

Desde de os gregos, o comportamento niilista está presente, por exemplo, com Górgias que dizia que nada existe e se algo existisse, seria incognoscível ao homem. Depois disso, o comportamento niilista tem promovido inúmeras mudanças históricas, entre elas, a secularização do Estado pela negação de dogmatismos, transcendentalismos e exigindo explicações racionais para a autoridade, assim como para qualquer comportamento humano.

No século XIX, a Rússia passa por um processo de crítica social que domina a literatura e tem, assim, o maior representante niilista na parte artística, Fiódor Dostoiévski. No mesmo século XIX, surge também o maior teórico do niilismo no campo filosófico que se auto-intitula o mais perfeito niilista da Europa, Friedrich Nietzsche.

Nietzsche divide o niilismo em duas categorias: a primeira é o niilismo incompleto. Esse se baseia pela negação dos valores da sociedade, porém, pronto para incorporar novos valores que estão se criando. Logo, pode-se dizer que qualquer mudança de valores é intermediada por um niilismo incompleto, assim como é o romance de Turgueniev, cujo personagem principal nega os valores aristocráticos em declínio para assumir a filosofia positivista que estava em expansão no momento. A segunda categoria, o niilismo completo, não destrói apenas os valores anteriores, mas o espaço o qual aqueles preenchiam: o mundo supra-sensível. Logo, nega-se o platonismo, a crença de um bem supremo que deve ser almejado pelos homens e instauram-se, assim, a relatividade e a negação de uma verdade absoluta. Essa categoria é dividida em dois tipos: o niilismo passivo, que consiste no enfraquecimento do espírito (Schopenhauer), e o niilismo ativo (Nietzsche), que acelera o processo de destruição.

O niilismo consiste numa negação dos valores sociais e a redução de tudo a nada. E essa redução é extremamente importante para a possibilidade de liberdade individual. O existencialismo, que defende a liberdade total da natureza humana (liberdade na qual essa natureza tem total autonomia), acredita que a consciência de liberdade, o para-si, precisa de espaço para poder se definir. Ela não pode estar presa a predeterminações que restringiriam a sua autonomia, inclusive seu próprio corpo e circunstâncias naturais (o chamado em-si) que o para-si tenta constantemente negar e superar. Da mesma forma, Stirner precisou limpar o terreno dos sistemas filosóficos e morais para falar sobre a individualidade que ele chama de “o único”, e Nietzsche, que falava sobre a vontade de poder/potência a qual se baseava pela expansão ilimitada do mais interior do indivíduo ao mais exterior, também assumia uma postura de destruição de tudo o que cerceava a liberdade ou tentava imprimir contorno à estrutura simbólica individual, como os valores, ou, também, os sistemas filosóficos.

Portanto, para uma liberdade em expansão, é mister a destruição das predeterminações e do espaço supra-sensível o qual alguns indivíduos, com o intuito de dominar, poderiam preencher com os seus valores individuais e arrogarem-se do conhecimento da pretensa verdade absoluta. Assim, cada entidade humana que zela pela própria liberdade pode preencher o vácuo com a sua própria estrutura simbólica. Logo, o vácuo é criado para que, a partir dele, os indivíduos possam criam e ser. Ser cada um, “único”.

Infelizmente, esse niilismo já teve o seu período e hoje há o que eu chamaria de niilismo apático. Essa espécie tem as mesmas bases de qualquer outra classificação de niilismo: nega o transcendental, o mundo supra-sensível com sua ética e princípios. Mas esse tipo vive unicamente o presente mais aprisionador. A negação das predeterminações é feita e a partir disso nada é realizado a não ser assimilar as novas técnicas e formas de trabalho da tecnociência, o que expropria todo o tempo dos indivíduos necessário para uma formação individual consistente e, desde a época em que Marx escreveu a esse respeito, tem reduzido os indivíduos à categoria de utensílios de produção. Hoje se tornou extremamente necessária uma auto-redução, uma negação da unicidade individual para adequar-se a unidade corporativa dos meios de produção ou, talvez, numa linguagem mais atual, de arrecadação.

A segunda conseqüência do niilismo apático é o não-distanciamento entre o ser e o dever-ser, ou, em outras palavras, o esfriamento do sentimento utópico. Portanto, esse comportamento é a resolução para dois problemas da ordem social capitalista: a não-aceitação dos meios de existência impostos e o espírito combativo. E esse comportamento dissolve a ambos através do reconhecimento do poder coercitivo da autoridade e da incapacidade de criar uma estrutura simbólica e moral única. Dessa forma há, sem maiores problemas, uma aquiescência coletiva à predominância da tecnociência planetária que, diferentemente de formas anteriores de dominação, não possui valores para serem impostos, mas necessita da amoralidade e da apatia social para que a razão e a potência do espírito possam ser consumidas, respeitando, assim, a amoralidade da produção que se disfarça sob o jardim-mercado de éticas. O papel do mercado de éticas é criar uma relativização que tem com intuito confundir o indivíduo. Os únicos valores protegidos por essa nova ordem social são o trabalho e o respeito, além, é claro, dos comportamentos os quais não chegam a ser valores, mas que são repetidos com o mesmo furor com o qual os indivíduos em geral defendem seus valores, comportamentos que são o enfraquecimento do espírito e uma indisposição para a própria liberdade inventiva e simbólica para que se abra espaço à pseudo-ética coletiva a qual defende interesses mercadológicos e políticos, algumas vezes, camuflados inclusive sob antigos valores humanitários. Vários exemplos podem ser dados a respeito da pseudo-ética, um deles são as alianças de guerra as quais se disfarçam com afinidades ideológicas ou argumentações de que o outro atenta contra valores importantes, mas que, na realidade, refletem, unicamente, interesses econômicos.
Portanto, o niilismo tradicional já fez a sua parte: trouxe a consciência de relativismo e, conseqüentemente, de inexistência de uma verdade absoluta ou um mundo supra-sensível dogmático. Agora esse niilismo aos valores é uma ferramenta de dominação e controle social. Agora que o nada está aberto para que o indivíduo possa criar o seu único, resta a redução (ou melhor: a destruição) do impedimento a essa liberdade: as formas de sobrevivência criadas as quais impedem o indivíduo de criar. O nascimento de um niilismo ao concreto é o próximo passo de uma mentalidade que nasceu há séculos a qual tem como finalidades a recusa de explicações vazias, românticas e enganosas e a busca pela liberdade, mas acabou sendo incorporada às relações de dominação. E para sair desse campo, o niilismo precisa direcionar-se ao mundo sensível, para as formas de vida que foram criadas sem a interferência nem de valores transcendentais nem de valores pessoais individuais. Caso contrário, o homem irá estar sempre satisfeito com a impossibilidade de criação individual e produzindo a apatia, assim como está hoje. A imposição de valores já foi derrubada, agora falta derrubar a imposição de estilo de vida; em outras palavras, o ceticismo perante os dogmatismos já está estabelecido, agora falta o ceticismo perante o discurso da autoridade.

:Violence:

(Fonte: http://www.verbonauta.com.br/colunas_ler.php?id=128&autor=17)
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