Sem título
por Boris Pasternak
Ah, se eu antes soubera desta sina,
Quando me preparava para a estréia,
Que há mortes nestas linhas, — assassinas!,
Como um golpe de sangue na traquéia.
Os folguedos desta busca de avessos
Eu deixaria, inúteis, de uma vez.
Já tão remoto o esforço do começo,
Tão temeroso o primeiro interesse.
Mas a velhice é Roma. Não lhe peça
Que venha com estórias de ninar.
Ela exige do ator mais que uma peça,
Uma entrega total, um naufragar.
Quando o verso é um ditado do mais íntimo,
Ele imola um escravo em cena aberta.
E aqui termina a arte, o pano fecha,
Ao respirar da terra e do destino.
PASTERNAK, Boris. Sem título. Trad. de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.