São os rios
por Jorge Luis Borges
Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito, o Obscuro.
Somos a água, não o diamante bruto,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se vê no rio. Seu reflexo
muda na água do cambiante espelho,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio prefixado,
rumo a seu mar. A sombra o cercou.
Tudo nos diz adeus, tudo se distancia.
A memória não cunha sua moeda.
E todavia há algo que se queda
E todavia há algo que se queixa.
BORGES, Jorge Luis. "São os rios". In: Os conjurados. 1985.