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A divina comédia (Inferno, Canto XXV) - Dante Alighieri

 
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t. h. abrahao

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PostPosted: 30/08/2008 - 21:18:10    Post subject: A divina comédia (Inferno, Canto XXV) - Dante Alighieri Reply with quote

Inferno, Canto XXV
por Dante Alighieri



Acabara o ladrão, e, ao ar erguendo
As mãos em figas, deste modo brada:
"Olha, Deus, para ti o estou fazendo!"

E desde então me foi a serpe amada,
Pois uma vi que o colo lhe prendia,
Como a dizer: "não falarás mais nada!"

Outra os braços na frente lhe cingia
Com tantas voltas e de tal maneira
Que ele fazer um gesto não podia.

Ah! Pistóia, por que numa fogueira
Não ardes tu, se a mais e mais impuros,
Teus filhos vão nessa mortal carreira?

Eu, em todos os círculos escuros
Do inferno, alma não vi tão rebelada.
Nem a que em Tebas resvalou dos muros.

E ele fugiu sem proferir mais nada.
Logo um centauro furioso assoma
A bradar: "Onde, aonde a alma danada?"

Marema não terá tamanha soma
De reptis quanta vi que lhe ouriçava
O dorso inteiro desde a humana coma.

Junto à nuca do monstro se elevava
De asas abertas um dragão que enchia
De fogo a quanto ali se aproximava.

"Aquele é Caco, - o Mestre me dizia, -
Que, sob as rochas do Aventino, ousado
Lagos de sangue tanta vez abria.

Não vai de seus irmãos acompanhado
Porque roubou malicioso o armento
Que ali pascia na campanha ao lado.

Hércules com a maça e golpes cento,
Sem lhe doer um décimo ao nefando,
Pôs remate a tamanho atrevimento".

Ele falava, e o outro foi andando.
No entanto embaixo vinham para nós
Três espíritos que só vimos quando

Atroara este grito: "Quem sois vós?"
Nisto a conversa nossa interrompendo
Ele, como eu, no grupo os olhos pôs.

Eu não os conheci, mas sucedendo,
Como outras vezes suceder é certo,
Que o nome de um estava outro dizendo,

"Cianfa aonde ficou?" Eu, por que esperto
E atento fosse o Mestre em escutá-lo,
Pus sobre a minha boca o dedo aberto.

Leitor, não maravilha que aceitá-lo
Ora te custe o que vais ter presente
Pois eu, que o vi, mal ouso acreditá-lo.

Eu contemplava, quando uma serpente
De seis pés temerosa se lhe atira
A um dos três e o colhe de repente.

Com os pés do meio o ventre lhe cingira,
Com os da frente os braços lhe peava,
E ambas as faces lhe mordeu com ira.

Os outros dous às coxas lhe alongava,
E entre elas insinua a cauda que ia
Tocar-lhes os rins e dura os apertava.

A hera não se enrosca nem se enfia
Pela árvore, como a horrível fera
Ao pecador os membros envolvia.

Como se fossem derretida cera,
Um só vulto, uma cor iam tomando,
Quais tinham sido nenhum deles era.

Tal o papel, se o fogo o vai queimando,
Antes de negro estar, e já depois
Que o branco perde, fusco vai ficando.

Os outros dous bradavam: "Ora pois,
Agnel, ai triste, que mudança é essa?
Olha que já não és nem um nem dois!"

Faziam ambas uma só cabeça,
E na única face um rosto misto,
Onde eram dois, a aparecer começa

Dos quatro braços dous restavam, e isto,
Pernas, coxas e o mais ia mudado
Num tal composto que jamais foi visto.

Todo o primeiro aspecto era acabado;
Dous e nenhum era a cruel figura,
E tal se foi a passo demorado.

Qual cameleão, que variar procura
De sebe às horas em que o sol esquenta,
E correndo parece que fulgura,

Tal uma curta serpe se apresenta,
Para o ventre dos dous corre acendida,
Lívida e cor de um bago de pimenta.

E essa parte por onde foi nutrida
Tenra criança antes que à luz saísse,
Num deles morde, e cai toda estendida.

O ferido a encarou, mas nada disse;
Firme nos pés, apenas bocejava,
Qual se de febre ou sono ali caísse.

Frente a frente, um ao outro contemplava,
E à chaga de um, e à boca de outro, forte
Fumo saía e no ar se misturava.

Cale agora Lucano a triste morte
De Sabelo e Nasídio, e atento esteja
Que o que lhe vou dizer é de outra sorte.

Cale-se Ovídio e neste quadro veja
Que, se Aretusa em fonte nos há posto
E Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.

Pois duas naturezas rosto a rosto
Não transmudou, com que elas de repente
Trocassem a matéria e o ser oposto.

Tal era o acordo entre ambas que a serpente
A cauda em duas caudas fez partidas
E a alma os pés ajuntava estreitamente.

Pernas e coxas vi-as tão unidas
Que nem leve sinal dava a juntura
De que tivessem sido divididas.

Imita a cauda bífida a figura
Que ali se perde, e a pele abranda, ao passo
Que a pele do homem se tornava dura.

Em cada axila vi entrar um braço,
A tempo que iam esticando à fera.
Os dous pés que eram de tamanho escasso.

Os pés de trás a serpe os retorcera
Até formarem-lhe a encoberta parte
Que no infeliz em pés se convertera.

Enquanto o fumo os cobre, e de tal arte
A cor lhes muda e põe à serpe o velo
Que já da pele do homem se lhe parte,

Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcê-lo
Aquele torvo olhar com que ambos iam
A trocar entre si o rosto e a vê-lo.

Ao que era em pé as carnes lhe fugiam
Para as fontes, e ali do que abundava
Duas orelhas de homem lhe saíam.

E o que de sobra ainda lhe ficava
O nariz lhe compõe e lhe perfaz
E o lábio lhe engrossou quanto bastava.

A boca estende o que por terra jaz
E as orelhas recolhe na cabeça,
Bem como o caracol às pontas faz.

A língua, que era então de uma só peça,
E prestes a falar, fendida vi-a,
Enquanto a do outro se une, e o fumo cessa.

A alma, que assim tornado em serpe havia,
Pelo vale fugiu assobiando,
E esta lhe ia falando e lhe cuspia.

Logo a recente espádua lhe foi dando
E à outra disse: "Ora com Buoso mudo,
Rasteje, como eu vinha rastejando!"

Assim na cova sétima vi tudo
Mudar e transmudar; a novidade
Me absolva o estilo desornado e rudo.

Mas que um tanto perdesse a claridade
Dos olhos meus, e turva a mente houvesse,
ão fugiram com tanta brevidade,

Nem tão ocultos, que eu não conhecesse
Puccio Sciancato, única ali vinda
Alma que a forma própria não perdesse;
O outro chora-lo tu, Gaville, ainda.


ALIGHIERI, Dante. "Inferno, Canto XXV". In: A divina comédia. Trad.: Machado de Assis.
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