t. h. abrahao
Fundador PN

: 41 Joined: 22 Jan 2005 Posts: 574 Location: são josé do rio preto - sp
|
|
Sem título
Vladímir Maiakóvski
Cruz,
braços em cruz,
esgares de espantalhos,
mantendo o prumo,
a pique no alto cume.
A noite engrossa,
não vejo mais de um palmo.
Lua.
E embaixo de mim,
o gelo de Mashuk.
Agora nem sequer mantenho a linha
de equilíbrio, —
boneco de cartão que agita os braços.
Logo vão me ver.
Estou à mostra aqui em cima.
Olhem:
Espias-Pínkerton fervilham no Cáucaso.
Já me viram.
Já fizeram circular o sinal.
Entes queridos,
amigos,
uma esteira de gente,
senhas por todo o globo,
consenso universal.
Para o ajuste de contas,
os duelistas vêm na frente.
Se ouriçam,
se eriçam,
acorrem, mais e mais...
Cospem nas mãos.
Espalmam as mãos sucosas.
Com as mãos,
com o vento,
sem pena,
zás-trás,
meu rosto, esbofeteado, vira esponja porosa.
Galerias, —
primícias de butiques de luvas,
Damas,
sacaríneo-cheirosas, perfumadas,
desenluvam-se,
alvejam-me,
uma chusma
de butiques de luvas no meu rosto, —
bofetadas.
Jornais,
revistas,
nada de olhar sem rumo!
Em socorro dos objetos que me voam às fuças
lufa,
de cada página,
uma fúria de insultos.
Falatório na orelha!
Unhá-lo com calúnias!
Eu, um aleijado, com mazelas de amor.
Preparem uma tina para a própria lixívia.
Que mal faço a vocês?
Por que tanto rancor?
Sou coração apenas,
sou apenas poesia.
Mas de baixo:
— Não!
Você é o inimigo secular.
Já pegamos um dos seus, —
aquele hussardo.
Venha cheirar a pólvora, o chumbo,
está no ar.
Camisa aberta!
Não é hora de festejar um covarde.
Mais açoite que a chuva,
mais vigor que o trovão,
sobrancelha
ajustada
a sobrancelha,
baterias, fuzis,
um batalhão,
de cada Mauser, de cada Browning,
certeiras,
de cem,
de dez passos,
de dois, —
cara a cara —
carga após carga.
Param, reanimam-se, depois
novo enxurro de chumbo —
descarga.
Liquidado!
Coração chumbado!
Não há mais que temer o temor!
No fim do final, —
ei-lo finado.
E finou-se o temor e o tremor.
A matança acabou.
A alegria borbulha.
Degustando detalhes,
passos miúdos dispersam-se.
Somente no Kremlin
os farrapos do poeta
brilham com o vento,
uma bandeira rubra.
E o céu
como antes
lírico-estrelante.
Os astros
a olhar,
siderados de assombro,
e a Ursa Maior,
hipertrovadorante!
Para quê?
Insinuar-se, num assomo,
rainha dos poetas?
Desde eras-Ararat arrastas,
ó Enorme,
essa Arca-ou-Colher
no dilúvio dos céus!
A bordo,
estrelonauta,
um irmão ursiforme:
eu grito meus versos ao cósmico escarcéu!
Rápido!
Rápido!
Rápido!
Transespaço!
Além!
Olho firme!
O sol irradia os picos.
Do cais, os dias sorriem.
MAIAKÓVSKI, Vladímir. “Sem título”. In: Sobre isto. Trad. de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. |
|